Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Tuesday, May 23, 2017

Sem Sombras e Dúvidas

           
              Ela largou a caneca de café quente sobre umas folhas rasuras. A fumaça dançava sobre a caneca trazendo à tona o aroma. Ela segurou novamente a caneca com as duas mãos e aproximou dos lábios. O dia renascia como tantas outras vezes. Ficou pensando nos acontecimentos. Nas aventuras bem quistas e as malfadadas. Deu de cara na parede, disse em voz baixa acompanhada de um sorriso e um longo gole de café esquentando o peito e acalentando muito mais.
          Perguntas povoavam sua cabeça, nesse universo ímpar que é cheio de buracos negros, galáxias, planetas e satélites naturais. Não indagava quem somos, para onde vamos? Mas sim quem ela era realmente e para onde ia? Olhava para a janela observando as pessoas caminhando, carros cruzando avenida, ônibus em seus terminais depositando ou recebendo mais pessoas. Passou a mão nos cabelos amassados pelo seu recém acordar. Soltou a caneca na beirada da janela e espreguiçou-se com estalido das juntas e o esticar do corpo. Sozinha em casa. De pijama. Afasta marido, como dizia uma tia próxima moribunda, aqueles largos com bolinhas e cheio de desenhos como ursos ou flores. Agradeceu por ter passado a noite sozinha. Ninguém mereceria ser testemunha dessa personagem mais parecida com uma boneca de pano. E se isso acontecesse, não deveria sair daquele quarto vivo! Riu um pouco mais alto.
            Era hora de sacudir a poeira e as cobertas. Dormiu além da conta. Uma nuvem de pó pairou no ar e os raios do sol salientavam-na entrando pela janela com uma arrogância bruta. Disse que deveria tomar vergonha na cara e limpar a casa mais seguidamente. E foi tomar, mas foi tomar outro gole de café e a vergonha já não era uma virtude tão próxima dela assim não.
            Tirou sua fantasia de “tô nem ai” e ficou nua para o seu orgulho diante do espelho estava bem. Os anos tinham passado e sabia que muitas mudanças ocorreram, mas estava bem. A fez permanecer diante do espelho defronte ao seu quarto de corpo inteiro. Fez pose. Contraiu abdômen, torceu a perna, flexionou os braços, levantou os seios pouco cedidos aos caprichos da indomável gravidade, olhou a bunda e observou cada celulite rogando pragas e fazendo truques para que elas sumissem num passe de mágica que resultaram numa infrutífera tentativa de burlar a natureza. Lembrou que hoje ia à academia fazer exercícios específicos para glúteos, fora o coquetel de colágeno e termogênicos que a esperavam na cozinha. Pôs somente a calcinha que não estava esfarrapada e o elástico ainda permitia seu uso.
            Desfilou um pouco pelo corredor até a sala. Deu de frente com a janela aberta ao prédio vizinho, onde um senhor de meia idade a olhava fumando um cigarro tão forte que o cheiro invadiu o seu apartamento. Mas no momento ela só pensou em fazer o que fez. Atirou-se ao chão como um sapo, uma perereca. Não tinha a opção de ficar em pé. Ele estaria ali certo esperando para vê-la num fetiche de “voyer”. Aquele sujeito sempre ficava parado a olhando todos os dias. Ele não falava nada. Só fitava-a com os olhos parados de tubarão.
            O que fazer?! Ela iniciou a jornada de se arrastar pelo piso frio. Sua pele sentia a diferença de temperatura e o atrito causava um ruído agudo. Arrastou-se até o corredor. Demorou um pouco mas conseguiu. Esfolou os joelhos e adquiriu uma vermelhidão nos cotovelos. Fora do alcance de visão daquele homem, ela se ergueu. Voltou para o quarto e enrolou-se num lençol. Passou apressada pela sala. Foi até a cozinha. Pegou um copo de leite desnatado da geladeira e sorveu. Depois foi até a pia pegar os ingredientes de seu coquetel e um copo de suco de acerola tampado por um guardanapo feito na noite anterior. Bebeu tudo. Achou meio ácido fazendo uma careta que a franziu a face toda.
            E em passos de ginasta saltitou até o banheiro que ficava entre o corredor e a sala. Ligou o chuveiro aguardando que a água ficasse bem quente. O banho foi longo. Gostoso. A água fazendo carinho na pele. Saudades da mão que afagava dias desses. E como num choque arregalou os olhos.
            Saiu do chuveiro. Secou-se com rapidez enrolando-se na toalha e correu para o quarto. Mergulhou como uma atleta de salto ornamental na cama. Procurou entre os lençóis e as cobertas que tinham sido arrumadas jogando-as por cima dos travesseiros. Encontrou o celular e olhou mensagens, últimas ligações. Nada. Não havia um resquício de vida dele. Pensou sentada nua com a toalha se soltando, o que tinha acontecido. Passou a mão no queixo e disse algumas palavras de baixo calão. E novamente arregalou os olhos: onde estão meus anticoncepcionais? As coisas estavam ficando bisonhas. Que trem me atropelou?! Disse.
            Levantou com calma. Começou a se vestir. Tinha que trabalhar. Blogueira, tinha que postar o texto do dia. Nem sabia por onde começar. Já estava com a preocupação de uma doença venérea até 9 meses do resto da vida dela. Fora o fora que parece que levou.
            Quando abriu o notebook e a página em branco se apresentou diante dela, o seu celular tocou estridente, o que a fez gritar. Nervos a flor da pele. Pôs a mão no peito e como fosse uma bomba prestes explodir atendeu e viu número desconhecido. Alguém deve ter sequestrado seus dados e estariam extorquindo seus bens. Disse “alô” e depois de uma eternidade de milésimos de segundos, alguém disse: “Oi! Você chegou bem em casa? Suas coisas ficaram comigo. Estou no caminho posso levar para você. Creio que é apenas a nécessaire. Juro que nem abri. Devo?! Ela sorriu e imediatamente disse “nem pensar!” Ele riu do outro lado. Marcaram de se encontrar daqui alguns minutos.
            Enfim ela estava tranquila. Agradeceu mais um dia. Levantou-se diante do notebook e pos um jeans e uma blusa, não antes fazer uns testes de combinações para ficar casualmente arrumada. Ajeitou os cabelos e maquiou-se levemente. Nunca conseguiu ser tão ágil, precisa e rápida. Ela, antes de sair do apartamento para encontrar seu príncipe salvador em seu cavalo branco contemporâneo no avatar de um carro gasto pelo tempo quase gelo, olhou para trás e mais uma vez agradeceu. Agora a mim. Eu apenas acenei com a cabeça fazendo ela sorrir feliz como ela merece ser. 

             

Monday, April 03, 2017

Se salvo se

O vento sopra já mais forte, um tanto a mais de frio chamando para si a presença do outono. Ainda faz sol intenso que queima a pele misturada com a sujeira da cidade. O cabelo sempre desalinhado não consegue segurar o leve penteado. Assim como os pensamentos em turbilhão. Um ciclone de ideias. Uma tempestade de imagens e lembranças. Choques cíclicos do hemisférico dominante do cérebro no lado esquerdo. Um irresponsável pensamento lógico que domina. Perguntas descerram cortinas de dúvidas, enquanto fechamos os olhos com o vento que nos abate de forma nada gentil.
            No relacionamento flutuando como um dente de leão que invade outras áreas, que se dissolve no ar, mas deixando um pouco de si. Já passaste por isso?! Essa sensação de ter deixado algo para trás ou que deixará algum legado logo à frente?! Você observa atentamente como um ofídio as pequenas coisas que se tornam grandes a ponto de derrubar tabus, preceitos, preconceitos e fomentar pós-conceitos?! Que não precisam ser grandes para ser uma ameaça, mas apenas estarem perto o suficiente para atingi-lo?! Tantas perguntas que podem vagar pelos seus relacionamentos não apenas romanceados. Porém também com aqueles de convivência hermenêutica, nada pacíficas de colegas de trabalho ou saudosas de amizade.
            O pensamento e o sentimento num reles jogo de palavras escondidas. Quem não teve a vontade de esbofetear alguém por uma ação, retenção ou missão de alguém próximo. E o próximo idem. Somos invasores de espaços alheios. Nas críticas. Tantas vezes hostis com intenção de corroer com acidez de impressões as mais fortes convicções de boa ventura. Ou obséquio fato de reconhecimento e agrado suavizando com carinho o ego.
            Somos a barbárie da existência, seres humanos. O mais cálido ser pode, encurralado, tornar-se o mais contundente agressor. Usamos redes sociais para demonstrar a nossa existência. Modernidade. Somos anfitriões da ilegitimidade de integração. Filosofia. Afastamos para unir grupos. Segregamos mesmo unindo. E a reação sempre vem. De uma maneira racional da parte dominante do cérebro ou na parte rompante com seus vendavais.
            “Toda regra tem uma exceção...” vale o dito popular. E nós adoramos criar regras exatamente para poder incluir uma frase, um esboço rasurado de opinião suprema. Mesmo suave. Mesmo calmo. Mesmo não intencional.
            E ao parar numa esquina tão parecida com todas as outras que já cruzei percebo que não há diferença. Há distância. O que nos aproxima é um beijo. Um abraço. Um sentimento que achamos tão nobre que o evitamos. Abrindo cada um, do seu jeito, sua caixa. Vasculhando cada centímetro até o fim e encontrando pequenas folhas serrilhadas do dente de leão. Um invasor dentro do seu coração que fará florescer em meio aos ventos, mudanças de estação, de lugar.
            Descobrirá que não é regra. E sim exceção em não amar. 

Sunday, December 04, 2016

Quando chega a hora de virar a página

                   Faz tempo muito tempo que algumas palavras não conseguem se juntar para formar frases que digam algo. E para tudo se tem um tempo limite. Sempre achei o tempo um cretino com rosto, nome e cpf. Mas não é bem assim. É apenas um momento, um rasgo com espaço que somos jogados com nossos sentimentos, lembranças e o que considerar de relevante.
            Demorei um bom tempo para encarar os pertences da minha mãe que faleceu. Eu levei pessoalmente as cinzas dela para serem levadas pelo vento na paisagem da Serra gaúcha. Com uma força única, com toda a minha energia sacudi sobre a cabeça coroada pela luz do sol. Minha irmã se entregava a um choro sem fim. E meu irmão que não pudera estar presente fisicamente, imagina, estava lá, pois em uma madeira (já que era um mirante rústico) jazia talhado em letras garrafais, o seu nome bem lado de onde estávamos, nos juntando como uma força tarefa, proclamados por nós mesmos como Galaxy Trio. 
              Bem nessa época do meu aniversário, que eu sempre defendi que era um momento que não gostava de festejar porque, normalmente, ocorria nada do que tinha planejado. Minha mãe sempre fez questão de festejar de um jeito singelo, que nem fosse com a lembrança de um bolo que ela fazia com gosto ou um almoço preferido. Eu, hoje, vejo como um buraco negro onde sou sugado por esta saudade.
            Há quem diga que sou igual à hiena “hardy” do desenho animado dos anos 60/70. Se você não conhece coloca no seu site de pesquisas e entenderás bem o que digo. Dizem que devo saudar a vida. Eu estou mais para saldar. Com débito. Esse ano não foi lá essas coisas para muita gente como o fatídico acidente do time de futebol Chapecoense. Mas vivo no meu universo particular cantarolado e já citado em tantos momentos por aqui, a Marisa Monte. Só que tudo tem prazo de validade.
            O amor também tem. Pensava que não. E se forçar,um pouco mais na profundidade dele, verei que não como com sua família, com seus filhos. Só que o amor entre parceiros, parceiras (serei politicamente correto, mesmo não sendo) finda. Alguém acaba de lançar todos os impropérios, que sou fadado a ouvir com um sarcasmo que não empunho mais, por não achar isso.
            Chego ao final desse ano cansado. Triste. Mas com uma coisa que ninguém percebe. O velho ditado “antes da tempestade inicia o vendaval. E depois vem a calmaria”, estou nessa vibração. Eu estou nesse limbo sendo atropelado pelos fatos. Em trapos depois de uma batalha onde sai debilitado, entretanto as feridas continuam abertas. E com o instinto à flor da pele pronto para atacar. O vendaval já veio. A tempestade permanece. E em breve a calmaria. Contudo o que restar terá que ter forças para enfrentar o que vem por aí.
            Somei alguns desafetos. Adquiri consciência de limites. E sei que terei êxito seja para construir o que vier. Entenda “construir” como uma nova verve de vida. Muitas vezes terminar ou dizimar o que existia para iniciar o novo. Tenho pessoas diversas ao meu redor que me apóiam. Cada uma de um jeito. Espiritualizadas ou evoluídas, assim como os ateístas convictos. Eu ainda tenho rancor, mas estou crescendo. Assim como uma doença que cresce também existe uma cura para que ela se extingue.
            Enfim não é nada querido para se pensar, mas é o ambiente que me concentro. Se eu precisar vou até o fim e quando chegar lá, não espero tenho certeza que vou conseguir erguer não só a cabeça como os punhos para atingir as novas páginas que serão viradas.

            

Thursday, April 14, 2016

Todo o game over tem o seu play again...



Faz muito tempo que encosto a cabeça no vidro da janela embaçando-o com a minha respiração. Não necessariamente a janela está no mesmo lugar. Ela pode ser de um ônibus em movimento completamente lotado de pessoas que vão de encontro com a física. Pode ser a que confidencia no suspiro de onde trabalhamos. Pode ser a que acalanta no nosso abrigo, ou melhor, no lar casa.

Com o passar desse tempo descobre-se quais seriam os motivos. A saudade do que passou, da esperança que queremos que venha forçadamente rápida, a solidão que teima em permanecer ao seu lado sendo a única companhia, a frustração daquilo que não foi atingido, o enfado da mesmice rotineira e o amor que abrange todos apertando-os, esmagando-os e até separando.  

A vida se tornou um campo de batalha. Quando entramos nessa luta gerando uma guerra, se for o caso, temos metas e objetivos. O sangue quente fervendo. Os olhos em chamas. Estratégias, planejamentos e nos fortalecemos, nos armamos, nos preparamos. Contudo somos desprovidos de antecipar os ataques sorrateiros que nos traem a atenção. Num piscar de olhos e explode a ponte que sustenta sua passagem para outra etapa, para ultrapassar chegando até o fim. Este fim é um recomeço ininterrupto. O rodopio de 360º retornando ao começo.

Para todo o jogo temos o seu início para promovermos todas as expectativas e as demais disfuncionalidades. Ao fecharmos os olhos continuamos a enxergar as coisas de maneira clara. Ali, no primeiro momento do choque da falta de luz e depois o surgimento de imagens que ilustram nos pensamentos. Serão lembranças ou serão projeções, pouco importa. Mas se mantermos a respiração deixando de lado a ansiedade, nos deparamos com a escuridão no segundo momento, que aos poucos vai esmiuçando até recriarmos novas imagens. Sonhos, por assim dizer.    

Nesse tempo todo não tiro a cabeça da janela. Desenho um círculo no vidro embaçado. O apago esfregando o dedo indicador friccionando. Respiro com mais força para voltar a minha tela de layout. 

Já recomposta, refaço o desenho com um coração. Ele fica levemente torto, disforme e decido apagar esfregando o dorso da mão. Agora em seu lugar coloco uma seta que vai em direção à rua. Ou para o lado de fora.  


Ao vibrar o celular vejo uma chamada. Uma mensagem. O coração acelera. Um sorriso desenha não mais o vidro, mas meu rosto. 

Tuesday, February 16, 2016

Cães & Borboletas (Canis lupus familiaris & Rhopalocera)


                Um cachorro de grande porte, de raça de todas as raças, com a cabeça sobre as patas cruzadas. Com o olhar triste, mas atento. Observa atentamente o movimento. Nariz úmido farejando. O farfalhar das asas da borboleta a sua frente o faz ficar intrigado. 
Com seu porte enorme admira aquele pequeno ser colorido, tão frágil, tão ágil. Seu rosto contrai-se, arregala os olhos, os abaixa, não para de seguir os movimentos da borboleta. 
Ele tenta se mexer para se aproximar dela se arrastando no chão. Com a força das patas traseiras e agora com o apoio das da frente. Sua barriga colada no piso arenoso. A borboleta parece querer que ele se aproxime. 
Para de voar permanecendo rente ao solo, bem perto, muito perto e movimenta lentamente as asas sem sair do lugar.
                Ele se aproxima, ensaia um choramingo. A borboleta, agora, o observa. Ele é desajeitado, ruidoso, pesado tem medo que ela voe. Tem medo de machucar, de assustar não sabe como chegar mais perto. A borboleta movimenta cada vez mais devagar as asas. 
De súbito ela pousa no seu focinho.
                Relacionamentos. Quantos cães desajeitados esperam o farfalhar das asas. Quantas borboletas ficam a pouca distância. Homens e mulheres, mulheres e mulheres, homens e homens, enfim pares que se observam com medo com receio imóveis ao acontecimento 
do que parece ser tão simples. Relacionamentos.
                Sensibilidade. A falta deste. O pânico acionado da castração da liberdade do ser. E a falta de entrega ao outro. O que causa tamanho medo?
                Todos têm medo de levar uma mordida. De ser pisoteado pela pata pesada. Que ao se aproximarem de mais possam espantar, assustar ou machucar. A borboleta também hesita. O cão de boa aberta e língua pendendo. Saliva caindo pelo chão. Momentos cruciais. O encontro dos dois. A sutileza com a rudeza.
                E de repente a borboleta voa, o cão tenta segurá-la com a boca dando-lhe dentadas no ar. Ela sobe rápido de forma circular. E fica saltitando o máximo que puder para alcançá-la.

                 Desses desencontros e encontros. Marcantes. Curtos ou longos enquanto durarem, nós realizamos nossas relações. Silêncio, calma, devagar a borboleta está voltando.... 

Sunday, December 27, 2015

O Circo está Vazio

         
              O circo está vazio. No meio do picadeiro o palhaço com sua pintura saturada, seu gorro com um pompom no topo finalizando o cone, suas roupas cheias de babados, coloridas, círculos exagerados, sapatos enormes quase pés de pato,observa sob o holofote direto em seu rosto, a platéia nula. Cada pedaço da arquibancada preenchida com a escuridão. Não se ouve a música, nem o apresentador, nem o chacoalhar de sacos de pipoca ávidos por mãos esfomeadas. O circo está vazio!
            Lágrimas começam a desenhar em cima da lágrima desenhada na pele branca do palhaço que olha firme pra o nada. Esperando algo. Vendo que perdeu algo. O palhaço pensa. Analisa. Perde-se na sua fanfarrice. O que fizera de errado? Qual a parte do espetáculo que ele esqueceu? Pelas poucas vezes tentou seguir um roteiro sem improvisar, sem dar uma presepada. E  enxurradas de vaias, o deixaram atônito.
           Ele sorri quando tudo desaba ao seu redor. Ele tenta, esforça em fazer do caos o melhor para todos. Não esconde, mas guarda as angústias, os lamentos, as tristezas para o outro se sinta melhor. Não é um sacrifício e sim é uma doação. Acha que faz as coisas do modo certo, da maneira menos nociva. Ajuda um, dois, três numa contagem até regressiva evitando explosões do canhão do homem bomba, que está ausente.
            O que fazer quando o palhaço perde sua função!? O que o palhaço pode fazer quando ele perdeu a sua função? Ele está com a boca caída, mãos entrelaçadas,pernas cruzadas em cima de um banquinho de madeira amarela. Pensa, pensa...
            Deduz absurdos, conjectura idiotices. Nada além do que seu ânimo exacerbado já lhe proporcionou. Pensa que o mal que conhece é melhor que o mal desconhecido. Que suas fraquezas, suas inseguranças foram abertos ao público na sessão da matinê sem avisá-lo. Sem seu consentimento. E quando ele se deu conta o circo já estava vazio.
             A aliança que o sustentara na felicidade foi devolvida nas amarras de seus erros. Hoje é um daqueles dias que foram se somando a outros. A solução dos problemas que achara que estava administrando para todos. Causando alvoroço na risada histriônica. Na contrapartida da alegria das crianças. A sua razão de estar no picadeiro.
            O palhaço para alguns causa medo. Mas dessa vez ele está com medo. Quando vai ao camarim, todos os dias e tira sua maquiagem vê cada cicatriz que seu rosto tem pelos golpes que sofreu. Ele engole cada resquício de desaprovação para justamente ter o prêmio da alegria do que chama  de seus pequenos. Será que é isso que ele esconde? Que ele protege?
            A lona ainda está estendida, mas o vazio o devora. Apostou muito nisso. Deixou as bilheterias abertas até altas horas para que adentrassem. O espetáculo encerrou e ele não pode fazer nada. Sem a devida platéia. Sem a razão do que. O palhaço está chorando sob a lona que treme com o vento. O único som que ele ouve. E que aos poucos também se vai.

Então ele se levanta com as dores que são maiores que a física, anda com passos atabalhoado por causa do desequilíbrio de seus sapatos, chega onde sta o holofote e o desliga. Nunca o silêncio foi tão ensurdecedor.

Sunday, August 30, 2015

Crônicas de Bate-Papo: Em Fogo

         
          O fogo representa da melhor forma os sentimentos. De uma maneira bem poética. Até idílica. Para alguns, até idiota.
            Podemos tê-lo como a agressividade da ira. Pode ser mais intenso como a paixão. Mais devasso nos desejos. Afrontar tabus. Enfrentar situações. Ódio e amor, lado a lado dependentes um do outro. Tente fechar os olhos e o sinta esquentar suas mãos, suas extremidades, seus pensamentos, sua respiração. Fique febril. E não entenda ser algo idiota assim. Não seja frio.
            Com os 40 º graus afligindo além do corpo, a consciência, causados por fatores adversos ao seu contexto. Sua vida colocada numa  encruzilhada de contos de fadas. Cheias de bruxas outrora fadas, duendes como amigos, anões pela dimensão diminuta de suas índoles, gigantes pela generosidade dos atos de alguns, florestas intransponíveis que emaranham sua flora travando nossos caminhos, castelos belicosos que escondem em cada canto uma armadilha. Dias quentes no fervor do momento, mesmo nas estações úmidas e frias. Dias quentes que vão além do clima.
            Fogo. Estar em chamas. Estar bravo. Estar amando. Mais que uma chama. Uma labareda. Exalando uma energia. Um calor insuportável como o de um Sol. Fogo no olhar. Fogo de quem ama.
            Você já se deparou nas esquinas com as pessoas que tem a maldade no olhar. Um fogo que sai dos olhos passam pelo corpo até promoverem atos. Agressividade. Com o tempo muitos reconhecem esse tipo de fogo, desse olhar. O evitam. O afrontam.
            Também já há o olhar que queima quando nem o encaram. O olhar flamejante de desejo. Volúpia, lascívia. Que quando se chocam com os seus promovem o poder de uma supernova. Movem mundos. Criam estrelas. Disparam cometas. Sim, pode dizer, que idiota. De novo, entenda esse fogo. Deixe ferver.
            Não há relação morna que resista a uma rotina fria e distante. Não há porque viver extremos. Na beira do abismo. Mas porque não incendiar a mesmice? Colocar gasolina nos entulhos que a vida deixa embaixo da cama, nos cantos da sala de estar, no vão da geladeira com a parede. Os gritos e desavenças dos problemas do convívio com os outros lhe fazem engolir a seco os piores remédios. Estes com o passar dos anos tornam-se placebo. Engodos. Lâmpadas de led que não esquentam; esqueceram a lareira que está ali a sua frente inerte.
            Coloco fogo na sua vida de maneira positiva. Não jogue fogo em você. Mas no seu jeito de viver. Como um jantar flambado. Um drink. Experimente. Exploda como um vulcão dormente que surge em ebulição após anos.
            O fogo irá queimar tudo. Seu oxigênio. Seu ar. Dando-lhe vida e acabando com o frio dos seus dias. Queime com esse fogo dentro de você aprendendo amar.
            Alguém tem o seu fogo nas mãos levando ao coração. E você verá as chamas.