Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Thursday, October 19, 2006

PANTOMIMA

Buscava a esperança de não estar mais num dia alimentando a solidão, cantarolava fraseados de poemas para ilustrar um novo futuro. Um futuro solidificado em devaneios, em meio à decepções, em meio à sonhos, em meio aos pesadelos. Rezei para Deus como quem pede ajuda e conselhos. Recebi o vazio de uma fé que escondo de todos ao redor. Comi as palavras jogadas pelo ar para alcançar o nirvana da paz na consciência.
Ei, Deus está surdo! Clamei com raiva. Rindo logo em seguida. Hoje algumas visitas fizeram a gentileza de dividir a mesa de jantar comigo. No centro da mesa estava um ser soturno de vestes escuras, alto, face marcada por traços talhados à mão. Sua voz era um mistura sonora entre o gutural e o ronronar de um felino. Postura ereta, olhos negros que pareciam sem fundo, densos como a escuridão plena da noite alta. A minha direita, então, havia um outro indivíduo. De terno alinhado, belo rosto, cabelos ondulados vermelhos, sobrancelhas grossas, braços musculosos, voz clara, suave, delicada, sensual. Ambos se encaravam com uma certa cumplicidade, um “quê” de olhares, entretanto nunca trocaram sequer uma palavra, um som, nem um suspiro. Não tinham nomes que eu pudesse chamá-los, nada que eu conseguisse ter uma intimidade maior. De certa forma estava feliz por não estar sozinho. A minha esquerda jazia o terceiro conviva. Cabelos ralos, rosto sofrido, olhar triste com uma melancolia profunda, dolorida. Sentia-se a sua presença como se ela cortasse aquele ambiente. Vestia-se com sobriedade e cores alvas sem abusar do branco que o compunha.
Não havia uma interatividade nas conversas e ficamos muito tempo escutando o silêncio como um anfitrião resmungão. Percebi que todos naquela mesa me olhavam como se almejassem a minha atenção. Talvez muito mais do que isso. Um certo mal estar se apossou de mim, dessa vez eu preferiria estar sozinho.
A mesa estava localizada no centro de uma sala cor pastel amarelado, sem quadros ou qualquer outro móvel espalhado ao redor da mesa onde estávamos sentados esperando a hora de jantar. Não me recordo como cheguei até aqui, e aparentemente aqui não é um lugar onde eu conheça. O silêncio parece ser nossa refeição.
De repente, um zunido correu pelas paredes vazias e pareceu-nos que sentou-se à mesa. Atabalhoadamente, derrubei meu prato no chão e o som desapareceu junto com a queda de uma cadeira solitária.
Todos me olharam com ares de repreensão. Nada disseram, mas a minha atitude desastrosa causou um rebuliço de emoções, fato que gerou um clima pesado, quase sufocante que não me permitia respirar. Estavam calados encarando os pratos vazios que permaneciam intocáveis diante deles. Juntei os pedaços do meu prato que espatifou-se no chão de mármore, frio e limpo. Me ajoelhei naquele piso e fiquei ali por alguns minutos atarefado com o meu infortúnio. Uma mão à mais ajudava-me saída não sei da onde. Segui a mão que vinha um pulso, um braço, um corpo de uma mulher. Muita bela, de uma beleza delicada quase pura como a pureza dos traços sarcásticos das ninfetas. Vestia-se com simplicidade, uma calça de tecido comum, uma camiseta branca e estava descalça. Sorria com um brilho fascinante, sentia-se em seu sorriso uma paz jamais encontrada em outros rostos. De ímpeto toquei em seu rosto e ela afastou-se. Seu rosto de feições suaves deram contornos a outros desenhos que manufaturaram uma face de horror, espanto, raiva e pânico. Recolhi minha mão e ela gritou, transformou-se numa luz que esbarrou entre as paredes gracejando um linguajar não conhecido. Fiquei em pé e todos que estavam à mesa riram. Fui até a porta de entrada e decidi sair dali. Ela estava trancada. Uma cadeira foi empurrada atrás de mim forçando-me a sentar. Estava preso, enclausurado, sem saída. A cadeira, como se fosse um imã, me atraiu de volta para a mesa onde os convivas continuavam a rir.
Ao chegar à mesa desvencilhei-me da cadeira, fato este que assustou os risonhos companheiros. O homem de cabelos vermelhos esmurrou a mesa fazendo o som ecoar pela sala como se um sino badalasse naquele momento. Ficou em pé, fitou os meus olhos com superioridade; senti medo mas também pus os meus olhos nos seus. Imediatamente, a figura alva levantou-se e apontou-me. O terceiro personagem desse confronto manteve uma postura ereta e passiva, sentado segurando um copo vazio que ele teimava em beber seguidamente. Ficamos naquelas posições caricatas e patéticas por dias. Pelo menos era a sensação que eu tinha.
O zunido voltou cortando o andar do nosso diálogo de atitudes inertes. Coloquei as mãos para proteger os meus ouvidos e cai de joelhos no chão de mármore. Era um som forte, agudo. O homem de cabelos vermelhos também sentiu o impacto da sonoridade trazida pelo silêncio e gritou como um animal ferido. A figura alva começou a chorar compulsivamente sentando-se na sua cadeira; enquanto a mórbida companhia do ser soturno nada fazia a não ser beber o seu copo vazio e remexer em seu prato que nada tinha.
Como um jogo ensaiado, o som findou-se. Eu continuei no chão de joelhos numa posição retorcida de dor. Demorei alguns minutos para levantar a cabeça e ver o que se sucedia ao meu redor. Vi o ser soturno quieto, imóvel e de olhos fechados, assim como todo o seu rosto; o homem de cabelos vermelhos enxugava o suor da sua face crispada e a figura alva, ali já não se encontrava mais. Fiquei em pé e perguntei aos dois onde estava o terceiro. Não houve resposta como sempre. Não há respostas.
Fechei os olhos e meu estômago se fez presente como se adquirisse vida. Ri baixinho do som que saía do meu ventre e procurei algo para comer naquela bela mesa vazia. Aquela procura com os olhos começou a me fazer esquecer do terceiro elemento que pereceu da nossa companhia. Uma agonia se instalou dentro do meu corpo.
Um dos dois silenciosos comparsas deu um grotesco ruído digestivo, tão fonético e impertinente de soberba e gula; da sua boca, um cheiro loquaz, fétido. Olhei para ver quem teria sido o autor de tal “sinfonia”, não consegui descobrir quem era, pois ambos estavam exatamente como tinha descrito anteriormente. Fiquei irritado. Danem-se! Idiotas! Pensei eu com raiva. Se desejam me fazer de estúpido que o façam. Tenho vontade de comer alguma coisa e não há nada aqui nessa mesa, tão limpa, tão grande e tão fria, vazia, inútil. Comecei a ouvir algo parecido com passos vindos de diversas direções daquela sala. Olhei para trás, para frente e para os dois lados, nada vi além dos meus “sócios” calados. Fui dirigir a palavra para um deles, o de cabelos vermelhos, quando pronunciei o primeiro som da primeira sílaba, deparei – me com rosnar de um cão que estava ao meu lado com ares nada amigáveis. Paralisado. Assim mesmo eu fiquei em posição de dizer alguma coisa. O cão avançou em meu braço direito como se ali estivesse um suculento prato de carne fresca. Sim, era carne, minha carne, meu corpo: eu. Gritei de dor, me em pânico, enquanto debatia-me com o animal. Fiquei empurrando-o, jogando-o de um lado para outro como se ele fosse um ioiô. Estava com medo e ninguém fazia a menção de me ajudar. O cão cravava os seus dentes mais fundo cada vez que eu o afastava. Uma dor interminável culminava com a sensação de chamas que subiam pelo meu corpo. Estiquei a mão esquerda e peguei uma faca e enfiei na cabeça do meu agressor. Como se nada tivesse acontecido, o cão, o corte, a dor, a queda, o desespero acabaram, sumiram, dissiparam.
Estava, eu, sentado com fome e um pouco atordoado. Olhei para o homem de cabelos ondulados vermelhos e ele ficou em pé. Sem dar importância maior à mim e ao outro; ele partiu em direção a porta que estava trancada. Nada ocorreu para impedi-lo e cruzou a porta aberta. Levantei-me de sobressalto e corri para a porta. Quando cheguei a dois passos de alcança-la, ela fechou-se como se uma gargalhada fosse ouvida com o eco que o trinco fez.
Voltei para a mesa derrotado, cansado e frustrado. Sabia que tinha que atravessar aquela maldita porta. Como se lá estivesse algo que para minha vida fosse imprescindível, de importância. Talvez alguém que eu devesse encontrar. Fiquei de frente para o ser soturno que me encarou seriamente. Ficamos desafiando os nossos olhares por horas à fio. Parecia um teste, uma brincadeira infantil de quem fica mais tempo sem piscar. Parecia.
Os seus olhos negros, profundos, sem perspectivas, sem alegrias, sem mais nem menos, sem nada para dizer. Tudo aquilo me cativava, emocionava e causava medo. Vi naquela escuridão uma luz, um sinal de vida, um grito. Vi um espelho dos erros que cometemos, das bobagens que dizemos e de tudo mais que engloba a nossa vida, relacionamentos, sentimentos, crenças, esperanças, dúvidas, raiva, traições, rupturas, enganos, mentiras, verdades, nós... E senti um remorso por estar ali parado, olhando a insensatez de uma figura tão temível e mesmo assim tão frágil. Ouvi sons de batimentos cardíacos acelerados. Parecia que toda a sala era uma enorme coração. Encarei o meu observador com uma fleuma de vitória e ele riu. De sua boca jorrou uma risada amarela de quem pouco é acostumado com tal atitude.
A sala estava abafada, quente, muito quente. Eu suava como se estivesse embaixo de um Sol. E o calor tensionava o meu corpo causando desconforto e ansiedade. Vi que o meu parceiro não tinha nenhuma reação em relação aquela sensação, insuportavelmente, sufocante. E a escuridão tomou a luminosidade daquele recinto como quem se apodera com violência de um corpo alheio, de um objeto de outro, de um outro qualquer. Uma penumbra que não chegava a separar a visão nítida do meu “amigo”, se assim posso defini-lo. Medo e tranqüilidade estavam reunidos naquele momento para realçar o nosso confronto.
Não chegamos a falar, mas a certa altura eu já compreendia a comunicação que aquele indivíduo se expressava. Os seus movimentos neutros, nulos, sua respiração cadenciada, o seu desdém, sua postura firme e aquele sentimento despretensioso em relação ao outro. As horas se fizeram presentes pelo tic-tac cansativo de um relógio que eu não tinha visto antes. Um relógio de madeira, pequeno como aqueles que se colocam na cozinha, sem número e nem marcadores, somente os longos ponteiros de madeira. O movimento dos ponteiros tornou-se acelerado e de imediato, parou.
O ser soturno levantou-se, apontou para mim como se enviasse uma ordem e virou-se em direção à porta que estava aberta. Fui atrás dele à passos curtos, lentos, moderados, quase tímidos. Ele cruzou à porta e eu parei diante dela, virei-me e vi aquela mesa que antes estávamos sentados disputando o nosso joguete de performances, tinham sentado várias pessoas diferentes em cor, classe, idade e mais os meus dois ausentes colegas. Voltei-me para a porta e a atravessei.
Acordei com alguém segurando minha mão, vi que estava deitado numa cama e ao redor um maquinário médico estava ligado. Um zunido contínuo fazia o levantamento dos meus batimentos cardíacos. Uma jovem, vestida de enfermeira, sorria com leveza. Respirei aliviado, a porta estava aberta.

Sunday, October 15, 2006

Botas

Ele acordara cedo. Já estava em seu trabalho conversando com os amigos pelos corredores como fazia todos os dias, mesmo nos domingos e feriados. De repente, mudara o rumo da sua rotina, ele pressentiu uma coisa. Um calafrio correu pelas suas costas lambendo do seu cóccix até sua nuca. Ele, então, a viu, percebendo o seu caminhar lento. Olhou para seus amigos que desapareceram instantaneamente, deixando para trás poeira e ecos. Estava sozinho naquele corredor, encurralado como poucas vezes a vida o deixara assim. Evitava olhar para frente, mas num minuto cedeu. A viu vindo mais devagar ainda, com o dedo indicador encostado nos lábios vermelhos coroados por um sorriso malicioso acompanhado por um rebolado próprio. Ele se viu sem saída. Abaixou os olhos, tentando que ela sumisse, num joguete de esconde-esconde. Entretanto sua ação de nada teve efeito, viu apenas aquelas botas vindo em seu traçado ritmado. O pânico tomou conta do seu corpo. Ele tremia como se estive tendo um orgasmo. Choramingava como um menino desamparado. Começou a rezar para todos os santos que se lembrava com os olhos cerrados. Quando se deu conta, ela já estava a menos de quatro metros de distância sorrindo alto. Como tinha andado para trás acabou se chocando com a parede levando um forte coice. Pensava nos amigos, na sua mãe, no capacete que não deveria ter deixado em casa mesmo acreditando em todas as campanhas de segurança de trânsito que ridicularizava (onde tudo começou, naquela noite, na carona, na garupa, na ida desviada de rumo). Pensou em suas alternativas, como se as tivesse. Primeiro olhou para o teto, muito alto, jamais alcançaria a tempo; depois a parede, não havia como perfurá-la(não diga nada disso! Perfurar, introduzir, enfiar esse infinitivo verbo voraz); e por último, a janela, são oito andares, nada bom. Ela vinha quase rebolando, quase falando, quase salivando, quase em cima dele como um predador atrás de sua refeição, seu dejejum. Não havia o que fazer. Estava absolutamente entregue à carnificina que se preparava. Ele se lembrou com detalhes daquela noite. De como saiu ileso. Tudo girava. O capacete voara de seus pensamentos. Não havia outra chance. Era agora, tinha que ser. Ele nem pensou. E se jogou pela janela, aos berros, gritava feliz, alegre, livre naqueles poucos segundos antes de chocar com o piso acidentado da rua. Com os braços quebrados, as costelas moídas, a bacia deslocada, as pernas imóveis, a espinha em frangalhos, as roupas esfarrapadas empapadas de sangue, ele assim mesmo sorriu e disse com seus dentes frouxos: - Ela não me pegou...Dessa vez, consegui. E deu um leve sorriso, fechando os olhos em paz. Não demorou muito e sentiu aquele calafrio de novo, o seu batimento cardíaco aumentando. Arregalou os olhos quando viu que ela se aproximava dele. Uma lágrima escorreu pelo seu olho direito. E ele só podia ver que ela estava de botas.

Tuesday, October 10, 2006

Na Ponta da Língua

Ela agarrou-o pela cintura, sentiu a pressão do seu corpo e o latejar do seu sexo. Enfiou sua língua nele. Roçou sua garganta. Dançou para um lado, para outro, para cima e para baixo. A respiração sempre pesada, forte, constante. Ele a empurrou para o canto da sala. Suas mãos subiam e desciam pelo seu corpo. Ela, idem. Mordia o lábio dele. Suor escorrendo pela nuca. Saliva pelo rosto. Ele apertou os seus seios. Ela deu um leve gemido. Colocou suas mãos na bunda dele, massageando-o, apalpando-o. Sua blusa foi sendo aberta sem muito jeito, bruscamente. Puxava ao mesmo tempo a camisa dele arrebentando os botões. Ele levantou as pernas dela apoiando nas suas. Com uma das mãos a segurava e a outra abria o zíper da calça. Estavam escorados na parede lisa. Ela ajudou puxando para o lado a sua calcinha. Em segundos ambos estavam únicos. Ele dentro dela. Ela englobando todo o seu membro. Sincronizavam seus movimentos pélvicos indo e vindo. Respiração mais forte. Gemidos mais agudos. Movimentos mais rápidos. Gritos de ambos. Caem no chão, um para cada lado. Ele ainda respira ofegante; ela tenta se espreguiçar empurrando as pernas e sentindo escorrer o gozo dele pelo seu sexo. Imaginara se devia ter usado proteção. Se olharam, cúmplices. Fizeram caretas e riram sem jeito, um pouco envergonhados. Disseram o porquê de não terem usado. Ele riu e buscou na calça amarrotada o bolso direito e tirou um envelope de preservativo. Ela balançou a cabeça rindo. Ele encolheu os ombros. Ambos se levantaram, trocaram mais alguns beijos. Começaram a se vestir, mas novamente se excitaram. Ficaram em pé, trocaram mais um beijo e saíram pela porta do motel. Não havia mais tempo. Ele foi para casa da namorada e ela foi para uma festa com outros amigos. Não marcaram outro compromisso. Deixaram ao acaso.
Pois é, sem esperanças, sem pudor, sem ponto e nem vírgula. Não há compromisso, nem vontade de ficarem mais tempo juntos. Isso é normal. Hoje, isso é normal. Essas meninas descobriram como invadir o mundo besta masculino de aventuras e promiscuidade. Sem culpa e muito menos desculpas. Aliás, isso nunca foi só uma "virtude" (sic) dos homens. Sempre houveram e haverão mulheres que são assim. Donas do próprio nariz. Do próprio sexo. Nessas andanças, muitos homens já se apaixonaram por elas. A maioria - friso bem - a maioria. Junta-se uma pessoa interessante em todos os aspectos físicos, químicos (e porque não dizer, nucleares!), sociais, culturais, psicológicos, de comportamentos, parceiras, acompanhamentos e óbvio, cama, mesa e banho e você terá uma companhia perfeita com um toque do proibido, do improvável, da conquista que o homem imagina ter conseguido, de poder trair, de enganar e ele já cai na rede. Lição para anotar na agenda: O homem é um babaca. A mulher é quem manda em qualquer relacionamento. Seja ele um simples cumprimento, um olhar numa festa, uma conversa descompromissada ou uma trepada. Ela está sempre no controle passando, à seu critério, para os homens a imagem que eles estão no comando. Sabendo no seu íntimo que está sendo justamente o "pato" da história. As mulheres também se apaixonam ( e como ), mas parecem que estão sabendo contornar os problemas com os homens. Consideram sua liberdade - igual aos homens - como o grande troféu até encher o saco e querer só um. Seja para deixar guardado nos lençóis ou para compartilhar o tão temido relacionamento.
Existem mulheres, meninas até, que não se apaixonam. Gostam, ficam, trepam, comem, chupam e depois jogam na primeira lata de lixo. Assim como os homens. Elas querem o que os homens sempre fizeram questão de propagar. Liberdade. O problema é quando elas são alvejadas pelos franco-atiradores. Pelos ainda remanescentes homens que se mostram sensíveis, falam o que quer ser ouvido, mostram-se dispostos, conversam, são inteligentes, que apresentam-se como amantes aptos e loucos mexendo com sua libido. Mesmo que nem sejam tão bons assim, sabem encontrar os atalhos. Com isso mexendo com a sua cabeça. Daí, quem cai na armadilha são as mulheres, só que está tornando-se cada vez mais raro.
Os homens resumem - alguns deles - as mulheres em quatro partes básicas: Rosto, seios, sexo e bunda. Se impressionam quando se deparam com uma mulher quase completa que sabe conversar, que sabe sair de situações constrangedoras, que tem uma resposta pronta, que não se amedronta, que é independente. Eles pensam como é possível, além de tudo isso ela pensa! ( o pensamento machista que prevalece ). É horrível, mas alguns homens pensam assim. Digo, pensam? Nem se tivessem essa qualidade. Os homens criam isso porque a sociedade nos apresenta todos os dias na mídia. As mostram como uma espécie de prostitutas da mídia. Putas! Diria o mais machista que compra as revistas onde elas posam e fica horas em frente à televisão assistindo seus rebolados. Sem preconceitos, por favor! É uma escolha e se forem mesmo e estiverem felizes, devem estar certas. Só existe produto, quando o mercado exige e a procura está atrás. Silicone, lipoaspiração, bronzeamento artificial e caras e bocas com ou sem calcinha, marcas do pequeniníssimo biquíni sobre a calça justérrima. Estética e cérebro. Cérebro ou estética. Cérebro para viver com a estética. Tudo pensado, criado e operado. Só falta fazer um filho com jogador de futebol e já está com um programa de auditório garantido. E não sejamos hipócritas dizer que não pensamos nelas, nós homens, como pérolas dos sonhos masculinos mais depravados ou ordinários. Nenhum homem olha uma mulher porque ela é "legal". Eles querem o desejo que ela lhe causa na cabeça. Tanto a de cima quanto a debaixo. Um exemplo que se vê em qualquer lugar, em qualquer rua, bar, festa, reunião, missa, culto. Todos os homens sejam gordos, feios, baixos altos, bonitos, maduros, jovens, adolescentes quando enxergam uma mulher bonita de calça justa ou saia, se dobram todos para trás quando ela passa por eles olhando direto para sua bunda. Analisam com detalhes a calcinha que ela usa ou não e já ficam à ponto de bala no seu desejo físico ou psicológico. E pensam "alguém está pegando tudo isso". Quem souber pensar pelo menos.
Os homens não suportam as mulheres que miam em vez de falar. Embrulham o estômago quando elas já chegam com as frases prontas para demonstrar interesse, mexendo para lá e para cá o cabelo. Você se sente um completo idiota. Os homens gostam de Barbies na cama e não para conversar ( arte quase impossível ). As mulheres também odeiam homens que descarregam o que são, o que fazem, quanto tem. Quando elas se interessam por isso, sinal de alerta. Tanto para um lado quanto para outro. As mulheres sabem quando um homem mente. E os homens, dificilmente. Elas só deixam o barco andar porque achou bonito, gostoso, interessante, mas há um limite para ver até onde é a sua superfície. Os homens encontram essa superfície quando acabam na cama; as mulheres quando ele começa a segunda frase. Há os sensíveis, que declamam elogios, dizem tudo que elas querem ouvir, como eu já demonstrei acima. E o pior, quando elas querem ouvir, elas acreditam. E levam à sério! Eles quando se fascinam por uma mulher, ela nem precisa falar. Desligam automaticamente o volume no cérebro e só ficam hipnotizados pelos lábios mexendo. Mas não todos e nem todas, só a maioria. Toda a regra tem exceção.
Os sonhos mais secretos das mulheres aparam arestas e subdividem-se. A maioria das mulheres que conheci tem, tiveram ou terão sonhado, desejado, querido ter tido um lance, um caso, uma transa com outra mulher. Por curiosidade, por vontade. Além de ser um fetiche masculino, é uma sensação que elas têm. Beijar um seio, sentir o corpo de outra mulher, seu sexo, como mexê-la, movimentá-la, fazê-la gozar e deixar-se levar. Algumas vão dizer que é nojento beijar uma outra mulher, estar em suas pernas. Mas com certeza terão alguns minutos pensando em falar isso. Pode não ser a sua "praia", mas a curiosidade sempre impera. Vindo da boca de uma mulher: Se uma menina nunca pensou em ir para cama com outra é porque está mentindo...Um homem nunca sabe quando uma mulher mente, realmente.
Elas chegaram juntas da festa. Com suas roupas suadas e adrenalina no pico. Foram dormir no apartamento de uma delas por causa da distância da festa e do horário que saíram de lá. Entraram no apartamento rindo meio embriagadas, alegres. Aos poucos, conversando, foram tirando a roupa ficando só de calcinha e soltando o sutiã no sofá da sala. Resolveram beber mais um pouco. A dona da casa tinha um vinho branco no refrigerador. Falavam de como a festa estava boa. Do beijo que deram nos homens da festa e no beijo que elas trocaram para provocá-los. As duas de seios à mostra ficaram de frente, em pé, cada uma segurando uma taça de vinho. Riam. Um minuto de silêncio. Se aproximaram. Deixaram os copos de lado e beijaram-se delicadamente. Aos poucos suas línguas se encontraram movimentando-se de maneira acrobática. Mãos correndo pelos seus corpos. Beijos no pescoço. Bocas nos seios de mamilos endurecidos. Uma delas se ajoelha e retira com paciência a lingirie da outra que se entrega totalmente. Rapidamente uma goza. A outra muda de posição e coloca a parceira no chão e mergulha nas suas pernas. Ela também goza. Satisfazem-se. Se olham. Dormem. No outro dia, ambas se cumprimentam sem dizer nada. Elas tinham os telefones para ligar e os encontros a ir. Uma delas ainda hesitou.
Um dos maiores dilemas dos homens e das mulheres também é da inevitável e famosa "broxada". Quem nunca broxou deve dar graças à Deus ou esperar que um dia vai acontecer. Tem apenas que saber se comportar e tentar remediar o momento de alguma forma. Não existe nada mais melodramático do que o sujeito ficar com aquela cara de abobado. As mulheres - muitas - nem querem saber da situação, querem às vias de fato. Acham-se culpadas ou acham-se desprezadas. Consideram absurdo. Essas muitas vezes não tem a oportunidade de ser reveladas no que viria. Outras já sabem contornar com muito mais malícia, amadurecimento - nada com idade - causando maior desejo. O homem por sua vez tem que ter o timing e não perder a chance de fazer de um limão uma doce limonada. Daí que se descobre os atalhos. O resultado, seguindo o instinto animal e sabedoria ( mesmo que muitos ainda não saibam pensar ), a mulher vai acabar ficando tão feliz porque tudo se resolverá. No final até aquele começo atabalhoado vai se transformar na segunda dela. Até porque as mulheres broxam. Muitas mulheres não conseguem chegar ao orgasmo por inabilidade do homem ou porque não estão com tanto tesão assim. Têm homens que parecem que estão numa corrida contra o tempo querendo bater algum recorde de cem metros rasos. Sem preliminares, sem conversas. Às vezes não precisa mesmo. Contudo, outras se faz imprescindível. Acontece com todos. Um dia vai acontecer para quem ainda não passou por isso.
Ele a seduziu por telefone. Marcaram um jantar. Foram ao cinema. Ele a provocou dizendo tudo que queria fazer com ela. Que a colocaria assim, que a penetraria, que levantaria suas pernas. Ela ficou mais excitada ainda. Foram ao motel aos beijos. Ele pediu o quarto mais caro. Uma suíte. Ao chegar deixou-a passar por ele agarrando-a pela cintura. Tirou suas roupas e as dela. Ela impávida, quieta, tímida até. Quando ele se deitou sobre ela retirou sua cueca e a calcinha dela. Ela olhou para seu sexo e de imediato para seu rosto. Ele ficou parado. Não sabia o que fazer. Tinha desejo, mas seu corpo não. Seu membro estava flácido, caído, sem força. Ela segurou-o pelo pescoço e o beijou. Ele retribuiu beijando todo o seu corpo. Foi até o sexo dela e a fez gozar em sua boca. Ela olhou de novo extasiada e se posicionou à sua frente. Abocanhou seu membro que endurecia em sua boca. Sua timidez tinha dado lugar para o retrato de mulher. Ele sentiu crescendo na sua língua. Daí partiram para as manobras sexuais que se sujeitavam.
As mulheres são mais inteligentes que os homens. Seu coração bate mais vezes que do homem. Elas usam mais habilidades psicomotoras que os homens. Elas vivem mais. Elas estão se tornando chefes. Fisicamente são mais resistentes, não em massa muscular é óbvio. Falo de resistência. Uma mulher sabe suportar com muito mais força dores de todos os tipos. Dores de amor, dores das cólicas menstruais, de dores através de abuso ou de defloramento ( que palavra demodê ) sexual, dores de rejeição, dores de parto. O homem tem força física, mas que se fragiliza de maneira muito mais explícita. Quando um homem chora é porque não há mais o que fazer. Uma mulher chora para provar para si e para quem quiser que ela tem sentimentos e não tem vergonha disso. Uma força de ser pessoa, carne, sentimento, sensibilidade. De ser mulher, amante, filha, mãe. Um ser que gera, que se multiplica em funções vitais. Por isso são tão apaixonantes e intrigantes.
Virgindade é um tabu ainda hoje. A minha virgindade, particularmente, foi perdida aos 13 anos. Não que isso interesse alguém, mas se nota como oscila isso em relação às mulheres. A maioria deixa de ser virgem por volta dos 16 anos. Os homens um ano antes. Essa idade era quase um marco anos atrás. Mas hoje em dia, eu acreditava que era raríssimo, algumas mulheres chegam aos 20 ainda sem ter tido qualquer relação sexual, seja por escolha ou falta de opção.
Ele a empurrou para dentro do banheiro. Ela sorria, beijava-a, segurou os braços dela erguendo-os. No banheiro foram para o box mais próximo. Entraram se debatendo no minúsculo recinto. Ela apoiou o pé na latrina. Ele levantou a saia dela e descobriu que ela estava sem calcinha. Abriu sua calça deixando-a cair no chão úmido. Eles transaram rápido, beijando-se, aos gemidos gozaram ao barulho das coxas batendo. Ouviam os usuários do banheiro entrando e saindo.
Mas o crescimento da SIDA ( AIDS ) tem aumentado na faixa etária dos 13 aos 18 anos e gravidez precoce. Quadro assustador. Como também nos jovens homossexuais que tem sido infectados pela não utilização de preservativos. A epidemia que se disse estabilizada aos final dos anos 90, acabara dando créditos para que as pessoas achassem que não havia mais perigo. As primeiras relações sexuais são quase sempre através do sexo oral. As meninas se espantam ou engasgam quando é jorrado na sua boca o gozo dos rapazes que não o evitam. Muitas gostam, outras nem tanto. Assim como no homossexualismo masculino. Entretanto na relação com mesmo sexo, as mulheres o fazem, primeiro é o toque, depois é claro como uma evolução, a boca.
E existem várias coisas para serem ditas. Exemplificadas. Engraçadas e nem tanto. Frustrantes e bastante proveitosas. Aguardemos o que essa guerra de sexo expostos nos reserva e esperamos termos prazer em conhece-lo.

Sunday, October 01, 2006

Amor Sem Nome.

Tive vários tipos de amor. Uns bons, outros nem tanto. Tiveram aqueles do começo, na adolescência, bem no começo dela que ficava embasbacado com a beleza da sexualidade das meninas que estavam moldando-se com o surgimento de seios, de coxas. Aquele amor apaixonado que era completo só em conversar com elas coisas bobas, fazendo brincadeiras, correndo atrás delas. Com o passar do tempo não mudei muito. Só um pouco.
Amor de vários nomes. De muitos hormônios. Primeiro foram as colegas de colégio vendo-as dia a dia em seus uniformes, em seus shortinhos na educação física. Eu me mostrava sempre o mais forte, o mais agressivo, o que mais gritava para chamar atenção. Mas elas só queriam os mais velhos, os atletas, os surfistas. Ficava, eu, só com os colegas numa disputa de futebol às vezes chutando pedras.
Nesses amores, houve a primeira que me fez despertar. Foi a primeira vez que fazia amor, apressado, rápido, sem muito controle, antes nem beijar sabia fazê-lo direito, sem língua, sem ritmo, sem experiência. Esse amor me pegou pela cintura num golpe de judô e me levou ao chão entre 4 anos, me vencendo por knock out. Mas não poderia dizer que era amor. Como saber se era amor. O caminho apresenta uma trinca de Ases. Uma dupla de Reis e algumas Damas. A mão não poderia estar mais carregada. E o blefe é imprescindível. Tem um verbo ao colocar todas as cartas na mesa. E não é amar. Porque só se têm naipes, figuras e nenhum nome. Com o passar dos anos, na faculdade, já estava um pouco mais esperto, mas carente. Amar ainda confunde e por isso nos deixa dependente, principalmente se você é um adolescente querendo provar diariamente que você é além. No curso superior, nos dois primeiros semestres, não fiz amor com ninguém, mas supri minha carência em muitos corpos. Tomei uns tombos mesmo assim e encontrei outros amores fora dali, nessa época. E amor se tornou ato, ação. Uma dessas se deu por uma disputa, puramente egocêntrica, com quem fosse por qualquer uma, simplesmente o que me atraía nela era a disputa acirrada, minha carência precisava vencer todos e conseguir todas. Essa falta de profundidade e de reciprocidade era sentida do outro lado. Elas então, saíam de campo carregando na bagagem a minha necessidade, e alguma coisa a mais.
Tendo compromisso com essa carência, acabei viçado na droga que se tornou. Na conquista. No amor vencedor. Vencer o amor. E as armadilhas foram sendo armadas. Amado por quem não me amava. Soube contornar o meu desejo e me fazer crer que dependia de mim, me deu a sensação de crescer, de deixar de ser o adolescente/adulto pára trás. Ela conseguiu fazer todo o jogo de conquista, de amarrar bem. Não a amei, mas o jogo de espelhos me fez crer nessa dependência que tornou, na obviedade de todos, minha masmorra. Viciado. Dependente. Fiquei preso nesse relacionamento de todas as formas alinhavado como principal ponto o nó em meu ego. Anos, sim, anos de risos falsos e traições diversas de ambos. O amor fere até quando se descobre que não era amor mesmo. Fere porque foi contra todos, família e amigos, contra a mim mesmo, história sem muita explicação que não tenha justificativa. Fere o amor de outras maneiras, de outros.
A partir de tantos poucos e nem sabidos tipos de amores, acabamos caindo na montanha russa de amores a granel. Amores que nem lembramos os nomes, que fizeram amor no sentimento de algumas e outras paixões que sumiam com o passar das horas. Que tiveram oportunidade, mas erraram na dose, exageraram no fato, não estavam presentes na ocasião. O objetivo ainda prevalecera, vencer.Amores que quase empataram essa espécie de campeonato que criamos; eu pelo menos perdi as partidas que meu time não jogou em conjunto.
E o amor é como se cada um estivesse numa estação de metrô olhando os trens irem e virem apaixonados com as pessoas saindo e entrando em nossas vidas. Esse amor vem, esbarrando, olhando para frente, torcendo de leve a cabeça para o lado, de toalha na cabeça recém saído do banho, se preocupando com a roupa que irá vestir. Um amor assim, desse jeito limpo perfumando o corpo amornado e nem precisa ser um novo ou desconhecido que pode estar logo ali. Daqueles que no meio desses anos todos estiveram de algum jeito desviando, provocando, chegando perto, indo pra longe, voltando a cabeça pra trás e vendo com o canto dos olhos. Ali perto. Só precisando estender a mão. Amor que agora tem nome e que não há como esquecer. Amor que sempre teve nome. Que não some com as horas; dessa vez são as horas que somem por esse amor. Amor que conheces. Amor que te conhece. Um amor que tem o teu nome. Tem o meu. E pra mim já basta. Uma vitória de ambos. Amor.

Tuesday, September 26, 2006

Sol Áspero

Me canso rápido nesses dias. Sinto-me prostrado em minha cadeira encarando o nada seguidamente, quase como um rotina fugaz. Ninguém me procura e talvez, nem devessem. De mal com a vida; essa vida que é totalmente desprovida de alegrias, de sorrisos, de novidades; essa vida de lucros e saldos, de pulos e saltos. Gostaria de uma chance de deixar de sentir pena de mim mesmo. E talvez em meus pesares surgiria uma oportunidade como um às que rompesse com os caminhos do destino. Um blefe para a próxima carta. Deixaria a mão pesada e rica de pretensões.
Um cretino sinistro se apossou dos meus dias. Estou farto de tudo e mais algumas coisas. Atravesso a porta do meu edifício e dou de cara com a vida. Minha rua, meu bairro e a minha cidade são a minha vizinhança. Meu chão. Não gosto de ficar sempre no mesmo lugar que nem um objeto inanimado. Como uma samambaia inerte! Vejo as coisas da minha cidade que se parece com outras cidades, mas com suas diferenças implícitas. Na importância insignificante de suas características mais tolas. O que importa é que estou aqui e agora, no infortúnio momento.
Acendo novas idéias. Uma baforada de pensamentos para o dia e logo me repreendo pela seqüência de cenas que ocorrera minutos atrás os quais nem sei quais foram, mas que de alguma forma influem no meu andar. Fico comovido e dissipo os problemas alheios; magnânimo, penso só em mim mesmo.
Desço uma ladeira com intensidade, ilustrado pelas luzes dos postes e o corte violento dos cordões. Ninguém sai da rotina, sempre redigem a mesma história. Andar de carro, arrumar um ou outro problema, se arrepender pelos abusos no dia seguinte. Estou enfarado. Quisera voltar e assim colocar meu corpo na cama, olhar uma revista inútil e ler algum livro da estante pela sexta vez para saber que todas as páginas se repetem como fossem criadas no pêndulo quebrado do relógio. Nada diferente acontece. Nenhum fato inovador ou que cause alguma sensação; só o lugar comum. Nada e ninguém.
Já estou em casa, me deito de bruços. As luzes estão acesas e com uma mira nada certeira, encontro – depois de várias tentativas - o interruptor. Amanhã continuará tudo igual. E como um peão num tabuleiro, virarei a esquina para me deparar com o mesmo mundo. Até encontrar um adversário mais poderoso que me tirará do jogo.
Amanhece com lentidão e desse jeito abro os olhos pensativos. Enfio a cabeça debaixo do chuveiro, molhando as esperanças. Acordo, finalmente, para a realidade. Está na hora de me vestir, sair de casa e encarar mais um dia.
Está nublado, o Sol nem faz menção de surgir com força. Pego um ônibus cheio, com pessoas falando alto, tossindo, espirrando, bocejando. Fim da linha, juntamente com as análise e sonhos de cada quilômetro rodado. Na rua movimentada, as pessoas se esbarram, chocam-se sem se importar com o fato. Isso me irrita. E a festa do dia reinicia. Festa esta, logo adiante. “A lona está armada”. Uma senhora de meia-idade grita assustada. - Me roubaram! Alguém me acuda! Muitos param no lado da senhora, outros olham e continuam caminhando, além dos comentaristas de plantão contando uma das cento e duas versões da cena. Estou atrasado, mal posso saber o que está acontecendo. Atrás de mim, as conversas aumentam e o grupo também.
Hoje, eu tenho um encontro profissional para vender algumas matérias para uma revista masculina. Sou um profissional liberal fazendo trabalhos alternativos para manter-me. Pelo menos poder saldar algumas dívidas, e continuar a dever bem menos no mercado. Está difícil encontrar emprego fixo. Não sou idealista; sou um desempregado mesmo.
Cheguei tarde demais. O contato já foi embora. Abordo uma mulher na rua central da avenida e sem trocar uma palavra peço-lhe informações. Ela me aborta com os olhos. Nos círculos jogados ao ar, tenho mais algumas idéias que são coroadas pelo Sol. Dou umas quatro tossidas, seguidas por uma escarrada densa.
Perdi a manhã num encontro que eu não acreditava muito. Tenho que trocar de profissão ou encontrar uma estação de perspectiva. Tenho que arrumar dinheiro, endireitar minha vida. Acabar com a rotina. Mas a festa continua agitada na vizinhança! O centro está cada vez mais vivo. A cidade respira, pulsa, bombeia sangue pelas avenidas como artérias, entupindo suas vias de acesso para aliviar a tensão e oxigenar o seu sangue. Uns dez metros a minha frente uma correria de dois meninos de rua, atrás um senhor de idade avançada, tenta alcançá-los. Passam ao lado de várias pessoas, que desviam-se dos corredores juvenis, não chegam a impedi-los. Sentem medo. Acham graça. Gostam do que está acontecendo, de certa forma. O perseguidor cansa, põe a mão na altura do peito. Um outro homem, mais jovem, presta auxílio. - Esses pivetes são brincadeira. Tinham que acabar com eles. E ainda falam de direitos da criança. Diz o mais jovem. Uma nova platéia se aproxima do lesado. Ele relata o que ocorrera, fala com imprecisão do que, em sua óptica, acontecera. Vejo muitos que, agora falam com o homem velho nada fizeram quando os meninos passaram por eles. “Será que eu teria feito alguma coisa se estivesse mais perto, se eu esticasse o meu braço para impedir qualquer um dos meninos?! Se... Ninguém fez nada, mas aposto que todos estão pensando dessa forma, mesmo porque os meninos já devem estar longe dali. Coisas da cidade, pessoas que se interessam pela desgraça alheia até a hora da novela das oito, que é mais importante do que os problemas do dia a dia. Meus olhos estão ardendo, acho que terei de usar óculos. Tenho mais um pensamentos esvaindo na fumaça. Tenho outras coisas para me preocupar do que assaltos à terceiros.
Padeço de mim mesmo, estou com fome e nem é meio-dia, nem onze da manhã. No meio do meu atraso, esqueci até de fazer o meu breakfast, o meu cafezinho preto, o meu bom dia!, tudo por causa da necessidade. O que está acontecendo ali na frente. Diante de uma loja existe um alvoroço. Dezenas de pessoas se empurram como fosse um bando de animais prontos para irem ao abatedor. Era uma liquidação. Uma voz saindo da loja exclamava as promoções e incentivava o mar de pessoas a invadir a loja. Fiquei numa distância considerável do tumulto. Os rostos retorcidos pela disputa de espaço para adentrar no recinto era caricato. Senhoras obesas empurravam qualquer um que se aproximasse de suas mercadorias; mulheres munidas com crianças colocavam-se diante dos produtos elétricos; homens empunhavam à força os seus pertences que nem tinham sido pagos, ainda. Uma barbárie consumista. Um Universo desequilibrado. A vontade de ter tudo ao mesmo tempo. Qual é a razão para isso?! Oportunidade.
Procuro uns trocados para tomar um capuccino, encontrei com pouco esforço - eram os últimos. Em pé, bebo devagar. Olho para a rua vendo o andar, quase mecânico das pessoas. Acho muito interessante vê-las. Até parece que elas não têm problemas. Penso, intrigado, alguns instantes.
O prazer do cafezinho acaba. Ando meio desnorteado pelo centro da cidade, driblo o avanço contrário das pessoas, olho para as vitrinas das lojas, examino as promoções, os lançamentos, os preços. Sem nada no estômago, ele já começa arder com ímpeto, poder e supremacia. Vasculho, com certa impaciência os bolsos do meu terno azul, estou atrás de um chocolate, quem sabe. Gostaria de ter novas idéias.
Um palhaço fantasiado corre entre as pessoas berrando, vociferando frases grotescas tentando, ao seu modo, agradar, chamar atenção para promover uma loja. O resultado é humilhante; é necessário. Uma criança se assusta, inicia o desespero ensurdecedor que só as crianças conseguem reger, como se o mundo terminasse naquele ato e nada voltasse ao normal. Muitos riem do palhaço, outros da criança, outros ainda da mãe da criança, que ao assustar-se também achou graça, voltou-se para o rebento de forma agressiva e explosiva, que de imediato direcionou para o agente da ação.
A poucos metros, no meio da multidão, um homem se arrasta pelo chão com os membros atrofiados, contorcidos, empurrando com uma agilidade incrível, uma caixa de papelão, pedindo esmolas. O homem-lagarto é driblado por todos os transeuntes. Parece uma escultura no meio do cimento e asfalto. Um adereço necrosado pelo Sol no salão de festas.
Em falar no Sol, sinto-o quase cortando minha pele clara que se torna áspera, parece que tenho escamas. Nenhuma nuvem existe nesse imenso azul; antes nublado e de repente, o Sol está iluminando tudo. As pessoas suam com raiva, desconfortadas com o calor, irritadas por terem que transitar de um lado para outro, cumprir horários, encarar seus próprios desgastes.
Mais um tumulto. “ Viva”, penso eu quase de imediato. Às pressas vou ver de onde a balbúrdia exala. É numa loja. Aparentemente, duas meninas adolescentes estavam sendo barradas de sair da tal loja, um homem magro de gravata verde e camisa branca, impedia que elas dali saíssem. Uma das meninas chorava baixinho, a outra já discutia em voz alta, irritada, salivando. - Não pegamos nada. Isso é uma vergonha. Somos estudantes e temos dinheiro! - ela tira de sua bolsa uma carteira e quase a esfrega na cara do homem de gravata verde. - Se acalme, aí menina. Só queremos dar uma olhada nessa sua sacola. - Eu comprei esta tralha, aqui! Chama o gerente! Cadê a vendedora?! Uma menina loira chega por trás da gravata do homem. Essa foi a sensação que tive. O bate-boca continua e em frente à loja uma multidão se reuniu; uns incentivando as meninas e outros xingando, debochando, colocando em dúvida a integridade delas. - Somos negras, não é?! É por isso que não podemos sair da loja com uma sacola cheia de roupa, que nós compramos. Está aqui a nota, ô estúpido! A mais falante jogou a nota na cara do homem. O gerente apareceu. Depois analisou com cuidado a nota fiscal. Olhou para o homem de gravata e para a vendedora. Mirou com delicadeza as meninas dizendo: - Desculpe, foi um engano. Vamos conversar com calma. Deixei a conversa nesse ponto. Não me interessa o bem estar dos outros. A piada acabou.
O ônibus, nesse horário, não está tão cheio. Consigo vir sentado, sem nenhuma persona me incomodando. Chego na minha parada. Desço, vou para minha casa. Estou sentindo calafrios, mas o Sol está alto e forte. Tenho fome. Cuspo no chão. Vejo o meu escarro; ele tem sangue. A tontura dá o ritmo do meu andar. Vejo tudo dançando diante dos meus olhos, pisco e admiro flashbacks daquela manhã infrutífera, escarro mais uma vez. Os gritos ecoam dentro da minha cabeça; rostos distorcidos ressurgem nas minhas lembranças como se fossem máscaras; o calor aumentando gradualmente como uma sauna. E sempre iguais os dias passam na frente dos meus olhos sem nitidez . O meu estômago se contrai. Estou com medo. Tenho receio do que só tenho o Sol, cruel e sarcástico admirando o meu pesar. As minhas pernas iniciam um verdadeiro ballet, não há ponto de equilíbrio. Tento me firmar nas paredes dos edifícios ao meu redor. Pessoas desviam de mim. Do meu nariz sinto sair água, não é água. É um líquido mais denso, quente. Sangue! Tremo por inteiro nesses intermináveis minutos.
Do alto de toda arrogância impertinente, contida, rudimentar e principalmente, minha, caio. Enxergo muitas pessoas e todas elas me olham firmemente, parecem estar assistindo um demônio, o mais bizarro das criaturas, um show à parte. Logo depois passam por mim como se eu fosse aquele escarro expelido e grosso que desdenha no chão da rua. Necessidade. Da necessidade de que me ajude, preste auxílio. Olho para cima e acredito que o Sol está rindo às gargalhadas. As pessoas continuam caminhando apressando seus passos. Vou ao chão, estatelado. Tenho raiva, não consigo falar. Tenho convulsões. Da minha boca sai a única palavra em sangue por golfadas. Peço por um pouco de atenção. Agora, consigo uma platéia. Sou o show, não mais o espectador. Não estou sozinho, tenho o Sol ancorando o meu corpo caído. Tento rir. Vomito o nada, só deixo escapar de mim. Imagino, correndo sob à superfície do Sol, banhando-me nu em suas luzes incandescentes e sentindo minha pele ainda mais áspera. Tenho asas, posso voar, partir para outro lugar e desaparecer da vista de todos sem preocupar-me de prestar contas dos meus atos. O calor diminui e uma sensação de frio cresce dolorosamente.
O Sol é forte, insuportavelmente impiedoso, lascivo e sagaz. Já está acabando mais um dia. E a noite será parecida com a de ontem. O amanhã, talvez chova; talvez o Sol esteja de novo encarando todos, exercitando a sua magnitude diante das pessoas que apressadas, correrão de um lado para outro a procura de soluções para suas vidas, administrando seus interesses sem se preocupar conosco e procurando nos outros uma piada para rir no anonimato.
Qual será a grande atração, hoje?!
Pelo menos o homem-lagarto continuará seu trajeto.



Finis opera 2

Tuesday, September 19, 2006

Crônicas de Bate-Papo – II

Um amigo me disse, mas foi difícil aceitar, até de entender. “Prefiro uma punheta bem dada do que uma foda meia boca”. Estranho. Nem tanto. Ridículo, talvez. Mas e daí?! Há de se convir que algumas experiências me fizeram julgar com outros olhos, limitando a não tocar no assunto diretamente. Qualquer um já teve o desprazer, ou a falta de algo melhor, numa relação por aí. Já foi mal comida ou comeu mal. Os ditados populares acentuam isso “ apressado come cru” e só. Sem trocadilhos menos apurados.
O cidadão ou cidadã (politicamente correto isso hein?!), hoje, está mais consciente da sua condição sexual, da sua maturidade , das experiências adquiridas com os anos ou dias, e das aptidões de suas preferências sem pudores, nessa idéia de bem-estar. O benefício das relações sexuais é uma dádiva para qualquer ser vivo. Para um cachorro vira-lata de rua a um leão africano. Mas a banalização do sexo por sexo já virou uma coisa meio piadinha e perde a graça. Contudo a abstinência não é o ato mais recomendável, além de ser um dos maiores sacrifícios, que você não merece; porém, atenção! Isso é uma advertência! Imagina isso escrito nas cartelas de camisinhas.
Os sinos das instituições mais conservadoras devem estar apagando letra por letra a cada badalo. Todos os seres vivos necessitam disso. Acredite, mesmo você virgem no assunto. É natural, compartilhar. Uns preferem com outro alguém; têm os que não abrem mão sem ideologias partidária de esquerda ou direita. Ainda há o famoso, incomparável e eficaz, chuveirinho. As mulheres sabem bem disso. Problema de estresse que se resolve em dois minutinhos, se muito. Humores à parte, as desventuras fogem pelas nossas voltas e nos enganam com o otimismo do copo meio cheio ou a falta de iluminação de pensamentos mais claros.
As mulheres estão preferindo o chuveirinho – viu só – de que conhecer o possível novo galã da novela das oito. E os homens, por falta de opções, aceitam de bom grado, ficando de mãos dadas com o Joystick amigo, do PS3, é claro, não o do amigo, daí a coisa vai para outro lado. Aliás, nesse caso cada um cuida do seu, sozinho.
Talvez você tenha passado por isso: Uma conquista, o grande troféu da sua noite, charme, beleza, simpatia que você com seu sorriso aberto, decotes generosos, horas de conversas pra lá de conhecidas, olhares e silêncio ritmando a noite, todo aquele arsenal de idéias e frases que você ficou medindo, acentuando, repassando diante da prova do espelho, se esvai naquele que você achou lindo antes e logo ao acordar ao seu lado, pela manhã, cedinho, antes que você consiga pentear os cabelos, abrindo lentamente os olhos, vê que sua noite, em três oportunidades, estava sendo gerenciada na boca daquele hipopótamo (que diz ser um bocejo) e na coçada até o banheiro deixando a maldita porta arreganhada, como todo “bom” homem faz. Você só ouve, logo após se esconder debaixo dos lençóis, a “enxurrada” na latrina...Ou como aquela musa, cheia de sorrisos, trouxe aquela sensação de cobiça e desejo na sensualidade de suas curvas das revistas que você tinha imaginado só existir atrás da tela da televisão se transformou de uma deusa num Jurupari – entidade maléfica, o diabo, em tupi – em pleno alvorecer com os cabelos de vassoura, maquilagem escorrendo como se derretesse ao contato com o sol, voz esganiçada vem como um filme na sua cabeça, daqueles de terror ou terrir B do Zé do Caixão, e o rosto dela estaria inchando feito uma bola de basquete...Socorro! O grito não sai da sua garganta, você se vê nu esperando que um raio caia na(s) sua(s) cabeça(s). É, você pensa... Não estamos só vendo a beleza nessas condições extremas. A vida exige medidas extremas. Mas aqui temos todo esse painel só para salientar os pontos que ao serem unidos darão a forma ao prêmio escondido. O que falta é jogo de cintura, estilo, técnica, química, jeito da transa. Trepada, se achar melhor (ou pior). Daí aquela idéia do “faça você mesmo” começa a pesar.
Quem não conhece bem o assunto pode ter inúmeras ilusões do que está sendo revisto aqui em todas as posições eretas. Ter mais expectativas do que realmente é. Siga a seta, siga a bolinha mágica. È como andar de carro. Esquente o motor, engate a primeira e vá indo com o andar da potência do veículo e a exigência da estrada. Deu pane, desacelere e comece tudo de novo.
Pane...Pois é, pode dar. Mais cedo, mais tarde pode dar. E ficar devendo. Você pode se resguardar através do exemplo do carro para iniciantes. Toda a transa é novidade, não importa o grau de “conhecimento” que você tenha. Não esqueça que você não está sozinho. È uma junção de vários elementos, dois corpos (três, quatro, cinco...) ocupando o mesmo lugar. Nesse caso é que acabam as mulheres optando pelo chuveirinho e os homens pelo videogame.
Dar uma rapidinha é momento de fogo e paixão a lá Wando que tem o seu valor por isso. É algo instantâneo, coisa de momento onde está tudo combinado para que aconteça o Gol. Coisa de tesão. Isso não quer dizer ser rápido. Precocemente rápido, desajeitado e rápido. Se lembra ‘apressado come cru” e só. E só uma vez, se muito. Deixe a carne assar, segure a onda, afrouxe as cordas da guitarra, deitem-se e deleitem-se. Tal o caso da mulher que está ali porque não tinha outro lugar para ir. Não sente nada, não se conhece, nunca se tocou ou se o fez não entendeu como funciona o brinquedo ( 4 entre 10 mulheres não se conhecem – Aliás 8 entre 10 homens não sabem bem como funciona o sexo feminino ). Não faça a confusão com aquelas mulheres que também não tem outra opção a não ser ficar ali abertas ao que der e vier por necessidade ou para não magoar o envolvido. Sexo dá dinheiro, ok. E o dinheiro pode fazer você mentir, ok. O amor também e a falta dele idem. São situações que nos envolvem, nos iludem, nos enganam, uma pirraça para com nós mesmos. Há coisas piores. Pior são os homens que acreditam que são tão bons que podem satisfazer até prostitutas, as oficiais do ramo não as que fazem ora sim, ora não. O dinheiro manda e aqueles gemidos que você fez aquela mulher dar ontem, meu amigo posso afirmar com quase 97% que é texto decorado de filme pornô. Exceções existem. Assim como existem duendes para alguns. Elas podem fingir e você não vai saber se não tiver um pingo de sensibilidade, mas daí entra aquele esquema da técnica, jeito....
E se você procura a batida perfeita, saiba que às vezes vale a pena e as pequenas imperfeições ficam especiais ao ver como dali continuam perfeitas naquela pessoa.
Entretanto fique tranqüilo, sem pressão, sem urubus em cima da carniça. Fique como você quiser. Seja com alguém ao seu lado descobrindo o outro, sendo com o seu chuveirinho quente cheio de pressão, seja sozinho. E lembre-se: Ficar na mão não é uma expressão tão ruim.

Curare.

E a chuva aperta. Aperta como um nó de gravata. Aperta como se Deus me estrangulasse aos risos. Mas ele - quase - sempre foi legal comigo. Teve saco para aturar as minhas orações, preces desesperadas atrás de emprego, de mulheres, me deu crédito às desculpas e promessas que 90% não cumpri, pedidos de interesse ínfimo e negou-me pouca coisa, pelo menos as que eu me lembro ou quis muito. Deus pode até estar rindo de mim agora porque estou abaixo de uma chuva torrencial. Pode até estar mijando na minha cabeça, mas ele é legal. Nem sempre é politicamente correto como podemos ver passando rápido pelas ruas da cidade com os mendigos encolhidos em trapos e refugiados em caixas de papelão, nas crianças envelhecidas de nariz escorrendo pedindo trocados com os rostos colados na fronteira dos cruzamentos entre os motoristas, se prostituído por um pouco de comida, de uma casa, de um pouco de dinheiro, de oportunidade que mesmo assim lhe será negada. É, dirão que ele não tem culpa, que os homens e sua ganância fazem isso um com outro, blá, blá, blá...Pois é, mas daí a ficha não cai. Se esse ente é superior, porque deixa tudo isso acontecer? Porque deixa os homens agirem assim? Ah, porque haverá o dia do juízo final, estaremos todos diante do grande altar...Deus...Oh, Deus...pelo amor de Deus! Passamos a vida num contínuo purgatório de sorrisos diário para termos que sofrer mais até conseguir uma redenção? Então me deixe fazer as coisas da forma e do jeito que eu achar mais certo e justo, outros vão dizer. Deus que tem vários nomes, que é representado de várias formas, que é cultuado por várias religiões, com seus dogmas cada um bem distribuído no "grand" circo da vida. E eu, participo com toda essa hipocrisia dando saltos sobre as poças da água. Como um atleta do asfalto, concorro a medalha de ouro, que poderia muito bem vendê-la aos anúncios ambulantes que tornam-se obstáculos no percurso. Fazer minha parte nesse conglomerado financeiro que obstinadamente estamos em busca chamada de vida ou de sobrevivência, sei lá. E a medalha?! Medalha que não ganho por perder alguns segundos com o drible de corpo entre duas senhoras que caminham sob a chuva num turismo de lojas e inabilidade de conviver com os seus um metro e trinta que todos têm direito para ocupar dentro da sociedade, chegando tarde na troca do verde para o vermelho da esquina dando a sonora idéia de que os carros estão sempre certos.
Passos alargando o caminho. A cidade de vários; tribos cheias de chefes, sacrifícios, cartões de ponto e rótulos estampando ações estratégicas. Uma batalha à cada esquina. Uma guerra com centenas de vítimas fatais. Vítimas de fato, de propósito e intenções que ultrapassam a linha do inimigo. Na cidade de pequenos líderes que gritam com o novo testamento, pouco se lixando para a nova ordem mundial, erguendo nas partes mais populosas de um dialeto que se assemelha ao português mas se confunde com a falta deste. Noutro lado dessa linha de fogo, um malabarista convoca a todos para assistirem seu maior espetáculo cravando no seu corpo facas sem fio. Dúvida minha que é desmentida com o cidadão mutilando-o para provar que estão afiadas. Faca esta que não participa do círculo suspenso num pedestal. Ele corre e salta, deixando para trás seus lucros e saldos debitando o crédito aos espectadores desdentados que sorriem sem o mínimo pudor. Num corre-corre, adolescentes socam o braço de um trabalhador, caucasiano cidadão tentando arrancar da sua mão a pasta que ele pesadamente evita que lhe lesem. E as vírgulas somem dos relatos de quem vê tudo sem nada fazer.
E o caminho continua. O veneno escorre.
Ofegante e encharcado, chego diante do monstro. Enorme, poderoso, mortal, insaciável. Ele abre suas mandíbulas financeiras e eu sou engolido por vontade própria justamente quando ele regurgita outros pagadores. O monstro, a loja gigantesca, o consumo em carne e osso, me faz andar pelo caminho de suas entranhas até a laringe dos guichês, onde prontamente sou golpeado com o ruído do cartão de crédito rasgando a pele nas máquinas de débito. A cada passada, sinto o sangue golfar pela minha boca. E a atendente, uma jovem de camiseta preta justa de seus seios bem salientados, olhos pintados e de cor castanhos claros que mudavam sua textura com a posição que a luz neles refletia, pele clara, cabelos lisos com leves "high lights", não muito bonita, bastante simpática e com o mesmo sorriso de Deus, insiste em crava-lo bem fundo seguidas vezes. Respiro com muita dificuldade e ainda dou um leve sorriso como um masoquista, admitindo um certo prazer, quase um gozo. O sangue está todo na minha boca; seu gosto é amargo. Tonteio até a faringe, o esôfago de escadas rolantes indo até o aparelho digestivo do primeiro andar. Tropeço delicadamente no último degrau. As mandíbulas do monstro não param de abrir e fechar engolindo mais pessoas alimentando suas contas. E sou expelido através da passagem do reto das linhas pintadas no chão; então saio.
Meu nome é Valter. Não é com "W" e nem se pronuncia como se fosse "U", com "V" mesmo, "V" de vários adjetivos, de alguns advérbios e quisera à Deus, de só um substantivo próprio. Sou uma dessas enzimas estomacais que aguardam o momento do seu sucedâneo.
Ancorado numa das marquises, me protejo da chuva que vem de lado. Luta inglória. A horda de guardas - chuvas indo e vindo na minha frente sem se importarem com os que estão parados ali. Andam com eles à meio palmo dos olhos de qualquer cidadão mediano, enfiam-lhe as pontas de sombrinhas de senhoras que não entendem como funciona o mecanismo que tem nas mãos. Entre caras e bocas resmungam porque tem que desviar do único lugar seco que nós, enzimas, temos para ficar. Corro e vou para mais um abate. Numa pressa em cima de um piso molhado, resvalo mas me mantenho em pé surfando sobre os ladrilhos até chegar diante do matadouro econômico que me prende como refém. Subo as escadas, logo depois de ter passado pela porta aberta por um sonolento guarda de segurança particular. Dessa vez, as escadas não são rolantes, tenho que esticar os músculos e subir degrau por degrau. Cara a cara com o meu algoz, o caixa do banco, que me pergunta, sem olhar nos meus olhos, o que eu pagaria. Com a boca mole, respondo a quantia mínima. Eu creio ter visto uma quase risada, um deboche, uma afronta do homem de cabelos ralos, óculos de lentes finas, armação transparente, camisa amarela. Ele pega meu documento e o insere na máquina que imediatamente engasga. Então arfando, ele digita o código de barras ao pé do papel. Depois, resgata o valor que colocara em cima do balcão de acrílico. Me devolve um minúsculo recibo e me dispensa.
Ando pelas ruas, veias abertas, vendo toda aquela gama de seres. Farrapos, maltrapilhos, duendes correndo pelos cestos de lixo que transbordam o excesso da ignorância dos ratos que jogam ao seu lado parte sua, o próprio fruto, seu lixo. Meus olhos correm de um lado para outro. Acuado. Cada ser, cada fantasma vagando com seus pacotes e afazeres. Lobos uivando entre os andares dos prédios umedecidos. Os abutres voam baixo, acima das cabeças dos transeuntes que bocejam e cospem seus dialetos acelerados. Almas vazias e carnes apodrecidas. Zumbis sociais. A chuva parara.
Corro como se todos fossem segurar meus pés e devorassem meu ser. Me jogo entre a fila de almas aguardando o ônibus, ansioso, suando frio. Chego perto de casa. Desço alguns metros antes. O ônibus que tinha desembarcado nem se dá conta que fiquei e continua seu trajeto levando vários mundos à fora. Resolvo ir na casa de Eduardo. Ele não é uma pessoa aceitável socialmente aos olhos dos puros. Mesmo assim não posso negar o desconforto de estar com ele num mesmo lugar mais que poucos minutos. Um demônio de asas abertas com as veias salientes e batimento pesado dança sobre sua cabeça. Eu afasto a porta na minha frente sem dar muitos porquês. Somos amigos da época de colégio, hoje ensino fundamental. Jogávamos bola, falávamos de meninas. Hoje, ainda falamos de mulheres e de futebol. Cada um com o ponto de vista que cabe. Cada um com o desejo que lhe é cabível com o demônio que nos cerca. Ele deu um passo para o lado deixando a porta livre com seus cabelos desgrenhados indicando o sofá às suas costas. Sem trocarmos nenhuma palavra. Fizera entender que iria lavar o rosto levando consigo o demônio de asas menores agora. Tinha feito uma noitada, portanto me acomodasse como quisesse, ele não queria cerimônias. Duda não trabalhava. Era herdeiro, mesmo à contragosto, seu pai, seu maior carrasco, deixara uma fortuna quando morrera em seu nome. Na época em que se revelou aos infernos, enquanto estudava psicologia e se escondia às regras. Era um processo de tortura lento, doloroso de descobrimento e de limites, lutando contra o estereótipo maquiagem, rebolado, unhas postiças, voz afinada e trejeitos afetados que a família presa em sua hipocrisia de tiranos e santos fielmente era crente. Ele afirmara que era, com todas as cores, palavras e dilemas, gay, não um travesti, não uma peça decorativa. Sua homossexualidade fora despertada num verão, não sei bem quando, mas os seus demônios se tornaram num só que sempre dançava sobre sua cabeça. Havia tempos que não nos falávamos naquela época, anos que Deus era mais piedoso ou menos cômico, quando o vi numa festa abraçado com um outro homem fiquei chocado. Estava casado e aquilo me derrubou de todos os meus preconceitos como um chute forte nos testículos. Sei que para ele não foi fácil me encontrar naquelas condições até porque não via os demônios e os encarei assim que nos falamos, caindo dos braços de ordens postuladas, não escondi minhas reações de desagravo. Mal conversamos naquela noite e do mal fomos cruzando nossos caminhos. Ele recebia uma quantia por mês para sustento e diversão da família. Quando souberam que ele era homossexual, quiseram corta-lhe seus rendimentos, mas não durou mais do que dois meses, pois sua mãe o ajudava com uma pequena mesada e quando o seu pai falecera, recuperou o prestígio de ser o único filho e dividir com a mãe todos os benefícios. Nos encontramos várias vezes depois em bares, festas, jantares acidentalmente que nos obrigou a conversarmos e os demônios estavam em menor número, porém muito mais fortes e agressivos. Numa noite disse à seco que não me sentia muito à vontade de falar com ele, de estar com ele, de vê-lo daquele jeito. Foi uma época em que me divorciara e que estava sem nenhum amigo por perto.
Daquele jeito diferente com ou sem os males que me causavam foi meu grande amigo. Hoje é a Segunda pessoa mais próxima de mim. Não o vejo como um objeto de desejo e nem ele me vê assim. Seria como ver um ente querido só. Um irmão, uma irmã. O ajudei muito em dores de cotovelo por namorados empurrados por pesadelos e ele a mim quando levei todos os pés na bunda pelas mulheres que passaram na minha vida junto com suas facas afiadas me apunhalando inúmeras vezes. Ele me apresentara a minha atual esposa, mas eu não consegui retribuir um alguém para ele. Nem sei como.
Ele voltou do banheiro ainda vestindo sua camiseta branca e uma calça de abrigo. Perguntei como tinha sido a noite sem levantar os olhos que eu fitava o chão sob um fino tapete colorido. Dissera que tinha feito das suas aos sorrisos. Resolvera se esconder num mundo sem nenhum pudor. Contava para qualquer um o que tinha feito, com quem, se lhe dessem chance. Dessa vez fora para cama com dois homens.
Eu ri nervoso, o demônio parara de dançar sobre sua cabeça e batera suas asas para longe. Achei aquilo demais para minha cabeça. Ele viu meu sorriso e achou que meu riso nervoso era muito mais crítico do que participativo. Deu às costas num egoísmo que lhe é pertinente como se eu ali nada fosse. Aos meus olhos eu o vi igual a todos que habitavam as ruas que me dilaceraram.
Ficamos em silêncio um bom tempo, ele acendia cigarros um atrás do outro repetidas vezes fazendo círculos de fumaça. Eu, nada dizia, nada fazia, esperava o tempo passar num silêncio fúnebre que só os amigos chegados podem identificar num mal-estar único, mas não tinha nada para fazer e já me acalmara com a pasmaceira da nossa conversa. Fiquei controlando a respiração num trabalho de parto vocálico.
Marcela é a minha mulher. Um anjo. Minha salvação. Minha esperança. Ela chegara na casa de Duda onde tínhamos marcado nos encontrar pela manhã quando nos despedimos logo após fazermos amor. Duas vezes. Tocou a campanhia e nós já sabíamos que era ela. Duda sempre adorou a sua companhia, eram inseparáveis em idéias, em atitudes. Trocavam confidências, falavam de moda, de estilo, de exageros, de revistas, de homens, trabalho, profissão, futuro e criavam conversas completamente sem sentido algum, em relação a minha compreensão. Os analisava, os ouvia, os julgava me sentindo como se estivesse escorrendo pelo ralo por não conseguir e nem fazer questão de interagir.
Ela já tinha sido um demônio também. Viveu em outras camas. Ok, não é verdade, mas ela teve outros homens que a amaram. Meu peito dói como se a flecha fosse retorcida. O passado dela deveria ter sido apagado dos meus pensamentos. Eu a amo. Não consigo mentir. Não consigo evitar. Se eu ficar pensando vou ver que ambos têm os demônios de braços dados no meio das suas conversas me ridicularizando.
Me levantei, disse, depois de beijar a boca de Marcela, que ia para casa. Ela disse que me acompanharia, mas a convenci para ficar com Duda que queria porque queria contar suas peripécias. Mesmo a contragosto, ela se despediu decepcionada com a minha total falta de sensibilidade e respeito assim como Duda, já mais resignado da minha antipatia.
Sai à pé pela rua. Resolvi atalhar o caminho entre uma viela. Caminho este que sempre fazia para apressar a minha passagem para chegar em casa passando por dois quarteirões.
Sou um professor, tenho nos meus alunos, desconhecidos na maior parte, meus pupilos a função única de guiá-los, de ensiná-los. Eu aqui, pensando como os lobos não uivam mais e os abutres deram espaços apenas à morcegos que aceleram o bater de suas asas logo atrás de mim. O arrepio movimenta a adrenalina num "ballet" . Uma voz soa logo atrás. Parei, me virei e vi dois homens. Eles estavam com as mãos enfiadas em suas jaquetas. Um de boné; outro de cabeça raspada. Não sei se eram negros, amarelos, brancos. Se aproximam rapidamente e me jogam na parede aos gritos. Olhei com mais cuidado no meio do nervosismo. Um deles fora meu aluno. Tento buscar no vazio da minha memória o nome dele. O que consigo me lembrar é o gosto do sangue na boca com o soco que levara. É o máximo de recordação que consigo. Tento me defender dos outros golpes e tenho êxito em alguns. O maior puxa de dentro do seu bolso uma faca e atinge o meu peito. O mito de Sagitário abre-se. Assim como Herácles, seu pupilo, o Deus grego Chiron ( Sagitário ), o arqueiro, meio homem, meio cavalo, o professor, é alvejado no dorso por uma flecha envenenada. Chiron sentindo a dor que lhe queima pede a Zeus que lhe tire a vida para sanar sua agonia. Com pena, Zeus pede que Chiron, como último ato de vida, se transforme em flecha e assim o lança sobre um tapete de estrelas para se tornar eterno na constelação de Sagitário. Fiquei ali no chão, contraindo o meu corpo. Os abutres, os morcegos, os monstros, os demônios, os anjos, os ratos ficaram sentados numa arquibancada sofrendo comigo. Os vi e compreendi que o veneno sempre esteve comigo, em vez de procurar a cura, quis aumentar a doença, o medo, a inveja, o preconceito. Olhei para cima e vi as estrelas. Deus sorriu abertamente abraçado com meu amor por Marcela, minha amizade por Duda, minha história de Chiron e a compaixão de Zeus. Estiquei a minha mão, voei sob o tapete de estrelas e assim permanecerei eterno na lembrança de todos, os que me odeiam, os que me amam. Talvez devesse ter amado mais e perdoado mais e deixado o mundo dos outros em paz.
E o veneno correu a céu aberto como estrelas cadentes.

Crônicas de Bate-Papo - I

Você já ficou entre dois espelhos? Viu a imagem nela refletida? È você infinitamente num espiral se olhando, examinado cada movimento, preso em qualquer perfil.
Uma imagem vale mais que mil palavras; mas mil imagens falariam tudo que você pensa ou que pensam de você? As impressões ficam ali, como uma marca, indelével. Como lembranças que filtramos sendo elas boas ou ruins e muitas vezes – porque não – as reinventamos para nosso bel prazer. Coisa de masoquista. Cá entre nós, há coisas que não precisamos lembrar e elas ficam lá. Não somem de forma alguma, faça o que fizer elas estarão lá como uma ressaca mal curada.
E no meio de um seleto lixo ou amontoado de coisas encontramos aquelas que valem a pena. Amigos( até inimigos, ora bolas?!), conhecidos, colegas, parentes e vemos além de seus nomes e apelidos; temos a oportunidade, através da Internet, de ver como são e como querem ser vistos. Criamos diários, participamos de salas de bate-papo – quem não entrou em uma jogue o seu micro janela afora - , conversamos por messengers, entramos em redes de relacionamentos como Orkut ou Gazzag ou outro qualquer que eu não sei e encontramos, meio zonzos, com nossas lembranças e acabamos, às vezes, nos decepcionando com a idéia de como as pessoas nos enxergam.
A idéia do espelho fica ainda mais clara. Estamos nesse exibicionismo quase que diário e dividimos nossos compromissos e agendas com uma legião de pessoas distantes que estão marcadas bem dentro da sua memória. Além de brincarmos com amigos, contatamos pessoas para eventuais oportunidades profissionais que quase ou de nada servem, porque esse relacionamento virtual é meramente um encontro social, uma grande recepção com canapés saborosos. Ali nos expomos, como no Orkut onde criamos comunidades diversas, espalhamos nosso perfil e mesmo que seja uma completa mentira de dados, anos, experiências ou não, queremos fazer parte desse mundo bizarro.
Bizarrice por trazer ao nosso alcance centenas de pessoas que aceitam outras sem ter a mínima idéia de quem são, e da onde surgiram. E numa dessas acabamos até entrando no cano. Ou prontamente vice-versa. A quantidade de pessoas participando de comunidades que não têm idéia de que estão ali, é uma graça. Quando o cidadão menos percebe acaba dando de cara com o seu nomezinho enfiado em alguma comunidade Neonazista, de pedófila ou sei o que mais. Alguns aproveitam esse furo no sistema para se desculpar por suas crenças, opções sexuais e ideologias ou por curiosidade. Usam isso como uma justificativa bárbara e suja, no que se refere a clareza. Pior ainda é o hediondo crime de seqüestro! De login. Sério. Um hacker qualquer ( um extra e ordinário, entende?!)entra com seu login e rouba suas comunidades, cria perfis pornográficos, perfis maléficos,responde aos seus contatos de maneira que você não faria ou se o fizesse teria o bom senso de saber para quem está mandando, destruindo a imagem da pessoa que não sabe e nem faz idéia de como pode se defender. Ainda bloqueia você. Maquiavelicamente.
Hoje as pessoas não perguntam se você tem telefone, ou cartão, não; querem saber se tens MSN ou como podem fazer para te agregar ao seu Orkut. Bizarrice. Total e completa. Essa rede de relacionamento tem seu valor, claro, como não! Amigos antigos, de escola, faculdade, do trabalho, familiares pelo mundo tem esse meio para se encontrar, achar a gota de tinta roxa num chão preto, mas o seu uso acaba comprometido através da existência dos “ manézinhos”, os retardados hackerianos transformam o modo de uma maneira promiscuamente assexuada, admitindo que não têm vida útil ficando todas as horas impossíveis enfiados com a cara no monitor, excitados com o teclado para ver que coisa “ legal” eles vão detonar, distorcem qualquer boa intenção, seja pessoal, social, bancária, profissional...Eles deveriam bater palmas cada vez que fizessem algo tão “bom”, mas não podem porque os seus dedinhos estão masturbando com uma velocidade pusilânime, as teclas nesse momento.
Expomos nossos rostos e gostos para o deleite de estranhos exibindo-nos de qualquer maneira através de fotos, imagens e até de músicas. E nesse momento nós nos vemos nesse espelho. Lá povoam palavras de ordem, atos de desordem, busca profissional, alusões românticas, manifestos racistas, propagação de ódio, de amizade global, a zorra generalizada, na pior das hipóteses, divertimento. O escárnio mais secreto das pessoas é aberto, uma perna para cá, outra para lá. Encontramos caminhos clicando em pesquisar e surge a personificação de vários personagens de carne, osso e falta de noção. Um cachorro idiota que fica perdido ao fugir pelo portão de casa, correndo assustado e de repente pára no meio do cruzamento na hora do Rush sem saber o que fazer. Se atravessa para o outro lado ou retorna. Volta para casa e fica deitado de barriga para cima com a língua de fora, esperando uma coçadinha, agitando de forma alucinada, a perna, sem precisar fazer esforço em parecer melhor, mas com seu nome bem ao alto da tela. Pesquisamos mais ainda e as pessoas estão em marés altas e baixas, em depoimentos agridoces sem maiores pretensões, nas fotografias das amigas de calcinha, biquínis, babybdolls, (entre amigos másculos, adonísicos, outros gordos e flácidos) na praia, na varanda, no mato, na casa de sapé satisfazendo a idéia pervertida dos amigos contidos e de agregados nem tão calmos assim atrás de suas mesas em suas casas. Nessas marés, as pessoas estão casadas, namorando, sozinhas, fora da área de cobertura, desiludidas, felizes, falsas, mentindo. As ondas batem suavemente na beira dessa praia, mesmo que não seja a sua, sussurrando, sossegadas quando deslizam na areia e molham seus pés, deixam marcas com todos seus “Ss”. Nos vemos doutores, doutoras de assuntos diversos sem sermos íntimos, sem estarmos presentes, sem ouvir nossas vozes para saber se a tonalidade revela a verdade do que é dito, ministrando caminhos para nossas comunidades. Tudo é muito belo, mais ainda no jardim do vizinho; você conhece o ditado. Aguardamos receitas para entrarmos em contato e falarmos coisas certas. Coisas que façam as pessoas terem maiores alegrias e menores dissabores sobre nós.
Alguns são ainda vistos como galãs e musas de freqüência modulada sintonizando seus predicados nas vontades e lembranças que estão guardadas nas estantes ao lado de livros e cd´s. Bibelôs frágeis. Egos idem. Transformam-se em duendes, gnomos, seres fora da casinha, lobisomens, que enfeitam a beleza irônica de como querem que nos vejam. Às vezes acertamos; às vezes não. Na obviedade incerta de que as pessoas são como querem ser vistas, de pessoas legais, de lobos domesticados, com o perfume de suas peles e temperos de seus corpos, de pessoas com seus brilhos próprios, de corpos dourados, de olhos que vão muito além do infinito horizonte, de torcedores fanáticos por seus times apresentando-se de maneira um tanto conturbada, um tanto desavisadas à críticas. E desnudas aos mais sinceros elogios. Loas ao talento, a sua beleza loira, morena, crespa, lisa, alta, baixa, levemente fora de forma, ligeiramente talhada, na sensualidade, e sua inteligência, na contínua amizade, e no prazer do sexo. Vemos que namorados e namoradas, esposos e esposas, caras da mesma moeda, observando com atenção de uma águia cada depoimento um pouco mais acentuado. A rapidez de procurar como se apaga tal frase gera cenas patéticas e desafiadoras. Para outros é um símbolo ainda maior para sua exibição aos olhos do mundo. Que se dane a repartição de bens no processo de separação, sem data ainda para sua primeira audiência. Alguém precisa de uma testemunha? É só procurar no menu acima, clique em pesquisar.
E podemos achar que estamos sozinhos. Em casa, lendo um livro que trás uma polêmica existencial sobre a verdadeira história sobre a criação do catolicismo e da imagem que temos de Jesus, por exemplo. Ou escutando um disco( cd, vinil, dvd ) da sua escolha que faz a trilha sonora certa.Vamos até o computador num trajeto repleto de afãs e acessamos a nossa rede de relacionamentos. Procuramos ver quem nos visitou. Quem deixou seu recado. Seu depoimento. Quem se preocupa e quem nem está aí para saber se você está ainda respirando ou se faltou Tang na sua geladeira. A emoção de ver que recebeu as pessoas em sua casa virtual, no seu canto de recados, de como as pessoas tem consideração. Parece que recebeste flores, um cartão com a assinatura de todos, falsificada por alguns. A felicidade é geral. Não se sente mais sozinho; se sente aliviado de ver que deixaste marcas, que corre aos seus olhos nus, cansados, quase lacrimejando com as lembranças que são trazidas como um cafezinho de tira-gosto. Sentimos uma espécie de sentimento conflitante de apego, de carinho, de amor.
Nós somos muito mais do que uma imagem distorcida no caráter do espelho. Estamos impregnados na sua vida de algum jeito. Fizemos parte dela e não sumiremos dali. Uma tatuagem. Seja uma fada, uma cruz, uma estrela, o homem-aranha, seja apenas você.

Bebendo Chá de Ervas Daninhas

Não sei bem quando começou, mas me dei conta quando aquela pessoa nasceu. Começara unindo nossos mundos. E por aí adiante, nossa cumplicidade.
A minha idade, (bem, parece engraçado), mas sempre foi a mesma; idade que já passa dos trinta, a contar por alto. De olhos bem abertos caminhando pouco, por passos lentos, quase sincronizados com o tempo, as estações de cada ano e as horas, os minutos e segundos, o seu tique-taque, o batimento de coração ritmado sob seus pés de um lado para outro. Estava ali esperando aquele menino que nascera irmão de mais dois, Lucas e Gabriel. O caçula veio meio ao acaso, temporão, nos anos setenta, logo no início, dado às alegrias do tri e do milagre econômico. Augusto. Perfeito como o próprio nome diz. Logo cedo, eu estava escorado no fundo da sala de parto e vendo-o quando saiu do ventre da sua mãe. Mal nos olhamos, mas ele sabia que eu estava ali. Senti alegria, nervosismo e nem pude fumar um mísero cigarro. Seja ele do bom ou do bem. Vi todo o processo, toda aquela luz, o maquinário, as peças metálicas, ambiente asséptico, amorfo que me fazia pensar como um lugar desses pode dar-se vida? Correria de pegar o rebento e espalmá-lo fazendo-o chorar. Já não faltava a mulher ter gritado tenho que ouvir os primeiros acordes dele, e viriam muitos mais, isso tenho certeza.
Sua mãe, Carla, dona de casa viera do interior tentar a sorte, acabou casando num desses reveses que a vida gosta. O marido, Armindo, funcionário público de cargo de confiança, que não fazia questão de seguir carreira, não sabia jogar de maneira certa. A família estava recém se estabilizando em todos os parâmetros que se possa imaginar, tinha agora os meus olhos em cima do pequeno.
O tempo voa; às vezes plana e sempre em movimento. O menino logo estava na escola. E antes das primeiras palavras já fizera todos os testes de segurança que uma criança que descobre o mundo, deslumbra. Dedos na tomada, brinquedos sendo engolidos, outras vezes botões, moedas ou dedos apertados entre portas de armários, da casa, nos pés das camas, quedas do berço, leves batidas de cabeça, choros, algazarras esperneando e avisos sussurrados ao ouvido da mãe sempre atarefada com os afazeres de casa. Corria de um lado para outro, para proteger o pequeno e os outros dois; cenas de teatro, quase num drama grego, uma novela mexicana(daquela que o galã se chama Adolfo Luís ou Sérgio Antônio e a atriz é algo como Pétala, Luz ou Maria de alguma coisa, bairro, piedade, sofrimento, opala... ) ou uma ópera italiana com direito das mãos para cima. Para mim restava assistir tudo aos aplausos secos sem precisar pagar ingresso. E eu passava dia após dia ao lado da criança, vendo o que comera, o que gostara, suas artes, a pedra arremessada na vidraça, os rabiscos na parede branca do pátio do vizinho, o medo de ver um rato se aproximando (que ele dizia que o atacara), suas brincadeiras solitárias jogando futebol junto com seus adversários imaginários, seus duelos de bang-bang, espadachins em cima da sua cama, ninjas escondidos atrás da cortina de plástico do banheiro. Estava ao seu lado. E nossas primeiras conversas começaram. Conversas no espelho, conversas uníssonas de dúvidas, de tristeza quando estava só, de alegrias com sorrisos, de planos devidamente calculados numa lógica absurda da sua tenra idade. Tentava evitar que ele se machucasse, mais que tentasse era óbvio que não tinha cem por cento de aproveitamento. Nem sequer trinta. Preferia fumar um cigarro olhando as pessoas caminhando na rua, via os programas de televisão, desenhos animados, propagandas bem boladas, engraçadas e as que eu não entendia. Ah! Volta e meia ele aprontava e rapidamente saía do sofá, empurrava o guri para além daquilo. Confesso que isso me entediava, enchia o saco. Prevalecia-me de vez em quando; um sopapo de leve na cabeça só para cair a ficha. Um peteleco na orelha para ter mais atenção. Ora bolas, ele estava ficando mimado e eu não estava ali para ser uma babá de luxo. Se alguém pensa assim está muito enganado. “Hei, você, entendeu?!“
O garoto crescia impertinente. Já pré-adolescente descobria as revistas de mulher nua dos irmãos mais velhos. Descoberta e terror. Impulsividade de prazer. Vou ser sincero, nessas horas eu fazia questão de dar o fora dali, sumia, dava uma volta, o deixa mais confortável consigo. Era sua intimidade, o que eu tinha haver com aquilo? Nessas voltas caminhava pela casa, bebia uma generosa dose de uísque do pai, dele, que culparia os outros dois filhos e o deixava lá, como a maioria das vezes. E não foram poucas. Se ele tinha que se conhecer, que fosse sozinho, não sou uma prostituta e nem o pai dele, isso é uma lição de vida que o instinto animal fala por si. E além do mais, o patriarca que faça às honras, mesmo sabendo que ele não se meteria e o garoto não perguntaria. Ambos sentiriam vergonha. Dificilmente algum garoto teria essa liberdade para junto com seu pai. Se ambos soubessem como isso resolveria alguns problemas. Em vez disso ele achava que se o fizesse, pareceria um idiota. E eu continuo nessas linhas tortas de você, aí em cima, mau cuidado. Ou seja, vire-se!
Conversávamos. Todos os dias; todas as horas. Tique-taque. Eu mais ouvia. Ele entrava em crises existenciais. Sabe, aquelas crises como se apaixonar pela garota mais desejada do colégio e ela nem saber que você existe, – Droga! A fulana nem me olha. Faço sorrisos. Fico por perto, tento correr para junto dela a cada trabalho de aula, mas quando falo, nada sai, então vou para as brincadeirinhas idiotas que a faz rir e só. Tenho treze e ela também. Não beijei ninguém ainda, fico suando apenas chegando perto, nervoso, acabo sendo grosseiro (piadinhas estúpidas, desaforadas), agressivo, brincando de pegar, de esconder, jogar nilcon* - vai me dizer que você nunca jogou aquele esporte na quarta série, de rede, onde cada um passava a bola para outro? - e ela ficava de olho nos maiores, nos mais velhos. Assim foram todas as séries seguintes. Mais agressivo e pessoal você ficava dela, menos você ficava com ela.- Ah, quando eu tiver a idade deles irei “comer” todas. Dizia isso depois de prestar as devidas homenagens num misto de raiva, tristeza e esperança. – Amigo isso é uma outra coisa que você vai descobrir que não será de total veracidade. Haverão muito mais pernas fechadas no seu caminho, mas também haverá portas, camas, cozinhas, mesas, muros e banheiros com mais pernas do que você vai agüentar a sua disposição. Tenha fé.
Um garoto tímido, ainda se descobrindo, suas limitações e as comparações com os que estão ao seu redor. Não tinha nada contra os outros, mas tinha que deixar claro que ele deveria tomar decisões. Mijar no canto dos lugares. Demarcar território. Ser o macho alfa. Ou um protótipo bélico de testosterona. Ter personalidade colocar o dedo na cara dos seus adversários. Ter culhões. Quebrar alguns ossos, mesmo que sejam os seus e fazer alguns arranhões colecionando cicatrizes. Mas não poderia ser muito inteligente e nem muito agressivo. Muito menos violento e nem um saco de pancadas. E essas etapas ele passou com louvor em todas as provas. Tinha que achar o seu ponto; e eu tinha que parar de falar, então comecei a deixá-lo por livre arbítrio, mesmo porque estava sem muita paciência para segurar essas. Tentava apenas não afundá-lo mais na lama. Não empurrá-lo com o pé. Ele teria que tomar decisões mais cedo ou mais tarde. E isso ainda daria muito pano pra manga.
A primeira frustração. Tenho como regra, não ter regras. Se você entrou numa tourada e encarar o touro, a chance de que ele o acerte em cheio é muito maior do que você quer e não do que você imagina. Quatorze anos. Festa jovem; roupas emprestadas às escondidas do irmão do meio. Sapatos mal engraxados. Apressado com carteira do clube nas mãos, antes falara sozinho no espelho qual conversa seria mais interessante para abordar uma menina, coisas de deveria dizer, formas de abordagem, sinceramente, dali não ia sair muita coisa. Eu o olhava sobre os ombros, o encarando pelo reflexo no espelho. Já estava suando antes de ir, antes de falar. E existia uma menina, outra, que ele ia encontrar, que sabia que ela estaria lá, mas que não ia para encontrá-lo em especial, eram apenas amigos, colegas de aula. O seu nome era comum que recheiam as listas telefônicas. E a viu assim que botou os sapatos azuis no chão de carpete vermelho. Um enorme globo girava no alto do salão. Escadas davam para a única saída e entrada do clube. Gigantescas janelas de vidros eram escondidas por cortinas douradas de tecido grosso. Havia um palco bem ao fundo do salão, uma pista onde todos dançavam sem muita sincronia sob efeitos das luzes piscando. Eu sempre achei aquilo tudo muito cafona. Só que não sou que estou aqui para me divertir, mesmo que eu vá direto numa menininha já bem avançada para sua idade num canto escuro qualquer. Mas a decepção veio como flash, que chegou a chamar até a minha atenção. Ele a viu beijando um rapaz, magro, alto e seu mundo ainda se formando, ruir. Ficou de bode. A fossa. E eu empenhado. Nem ficou muito na festa. – Porque isso acontece comigo? Porque? – Bom, vou ser direto, não era para você. Há uma diferença grande entre o que é você hoje e o que as meninas querem. Mas me ouça, hei, me ouça, pare de choramingar e me ouça! Sei que você não vai dar a mínima para o que vou dizer, só que assim mesmo ouça, você ainda terá as mulheres que você quer. Vai demorar, talvez sim. Só tenha certeza que as coisas serão melhores.
Assim como a primeira briga, serve a mesma regra acima. O primeiro soco ninguém esquece. Estava numa festa, dessas jovens, dessas no clube, nessas onde se agrupavam os garotos em grupelhos que agiam como gangues. Ele passou por um e foi empurrado. Baixou a cabeça. Erro número 1. Continuou caminhando, tudo bem. Levou um passa-pé. Virou-se para ver quem foi. Erro número 2. Todos vieram para cima dele. Ele levantou os braços e começou meio que implorar que não fizera nada, que o deixassem sair dali. Onde está o macho alfa? Pensei. Está na hora dele aprender mais uma lição e dei dois passos para o lado. Um soco na altura do ouvido esquerdo o fez rodopiar. Segurei-o pelo braço e o repus na dança na esperança que saísse algo melhor no confronto. Só consegui fazê-lo manter o equilíbrio e correr feito uma galinha decepada. A intenção não era humilhá-lo.Haveria outros momentos que isso aconteceria por si. E para ser sincero, esse não foi o primeiro soco. Na primeira série do ensino fundamental ele gritara com um colega na hora do recreio, eu estava olhando sobre o muro, as garotas do terceiro ano do ensino médio jogando vôlei, nem percebi a reação do colega que desferiu um soco certeiro na cara dele, fazendo-o chorar na frente de todos. Quando me dei conta, prometi estar mais atento. Ou ensiná-lo como se defender. Voltando para o soco na festa. Ele chegou em casa, envergonhado, irritado. Deitou-se na cama, cruzou os braços, ficou em silêncio olhando o teto. Tentei fazer ele dizer alguma coisa, mas seus pensamentos eram fechados. Ele finalmente disse numa voz pausada – Eu ainda vou dar um jeito nos caras de hoje. Eu sorri. Ele reagiu. Ele cresceu.
Um ano depois ele ainda, virgem, começou a namorar uma menina seis meses mais velha, que ele mentira sua idade dizendo ter a mesma, um pouquinho mais velho e anos de experiência. Ela já tivera dois namorados e ele mentia, três, inclusive praticando todas as posições que vira no kama sutra. A primeira transa aconteceu no chão do seu quarto, na forração, ele sem camisa, ela sem blusa e com a saia levantada. Calcinha para o lado, calça só com o zíper aberto. Rápido, meia boca, sem jeito, afobado. Eu os deixei por assim dizer, à sorte, saí caminhando deixando a porta atrás de mim, ser a única testemunha. Ela bateu suavemente. Sexo. Aliás, começava a minha procura. Pelo menos uma trepada. Já não sou virgem há um bocado de tempo. Bem antes dos trinta. O garoto está no bom caminho. A consciência é dele e eu não sou a Madre Teresa. Você sabe...
Estamos situados no espaço. Segundo uma pesquisa na Internet, o espaço propriamente dito começa a 150 km do solo. O nosso espaço físico está em Porto Alegre devidamente preenchido. Uma metrópole que não parece ser muito grande. Conservadora, mas com toques de modernidade. As pessoas têm essa mistura. Gaúchos de bombachas desfilando pelos shoppings. Novos gaudérios passeando no Brique da redenção segurando a cuia de chimarrão não importando se faz frio gélido ou se faz calor infernal abafado do verão. Andam onde for empunhando o chimarrão.Hippies modernos; hippies velhos ambos revivendo algo que conhecem por dvd. Punks de todos os tipos e de várias butiques.E vários grupos que se unem, se completam com a cidade, entre tradicionais e não convencionais, paralelos, esquinas e transversais. Eu não sou convencional e o moleque que está ficando mais velho, segue a tradição de vários estágios do modismo, da MTV até a personalidade aflorar sua ferida.
Já ouvi suas preces. Todas as noites. O garoto sempre dormiu tarde, vendo televisão, saindo à noite. Vou ser bem honesto, a segunda opção faz mais o meu estilo.
E a oportunidade de se auto-afirmar, de ter respeito, de encontrar, de algum jeito veio. No colégio, festa junina. Ele já estava no segundo grau. Passou o primeiro grau inteiro como um primata, criança pedindo colo. Agora não era mais virgem. Agora precisa sentir o gosto de sangue. Antes de terminar o primeiro ano do segundo grau, nessa festa junina, sua turma ficou encarregada de coordenar e administrar o quentão para a festa. Ele adquirira corpo, força e carregava sem pestanejar as garrafas térmicas para as barracas. Nisso, no meio do caminho, ele fazia uma parada entre os amigos, uns desvios maiores para saborear. Bêbado de vinho, açúcar, canela no frio de junho. Depois de horas fora descoberto pela coordenadora disciplinar do colégio. Eu nem tinha percebido essa jogada. Estava vendo a festa, batendo o pé com as músicas, ouvindo os recados na rádio. Okay, vacilei! Mas nem tudo estava estragado. Não houve flagrante. Nós conseguimos conversar com a coordenadora e mostramos que quem estava bebendo era nada menos nada mais que os próprios professores na cozinha onde pegávamos as garrafas. Mesmo bem zonzo, ele conseguiu firmar a voz e teve sua defesa reconhecida. Só que para evitar maiores desfalques, saiu do seu cargo. Ah dane-se já estava com o tanque cheio mesmo. Estava com o cabelo comprido, camisa xadrez, vermelha, camiseta lightning bolt inseparável amarela, calça de jeans desbotada e tênis cano alto. Ouviu que um grupo de outro colégio ia invadir a festa. E pior queria a cabeça de um de seus colegas. Estufou o peito ao saber e saiu portão afora. Viu um grupo de dez, doze jovens parados na esquina. O amigo “jurado” estava caminhando ao seu lado e eu dois passos atrás. – Que será que ele vai fazer agora? Logo descobri. Aos gritos ele vociferava – Quem é que vai bater no meu amigo? Álcool nunca foi um bom condutor de idéias. Eu agora, já estava a um passo dele. Um dos doze que estavam na esquina disse – Eu! Tenho um revólver e vou dar um tiro na cara dele. Alerta vermelho, acendam todas as luzes. – Hei, imbecil, ele está armado! Disse permanecendo na sua frente, mas de nada adiantou, olhos vidrados, retina dilatada, bochechas coradas. Resultado: Boa coisa não é. O garoto estufou mais o peito, abriu a camisa xadrez e gritou batendo no peito como um gorila, um neanderthal – Atira, então! Aqui, no peito, atira! Pânico. Sirenes ligadas. Alguém, por favor, me ajude com esse cara! Só que as coisas realmente acontecem na hora certa. O franco-atirador nada fez. Ficou olhando desconfiado. Deve ter pensado ou o cara também está armado ou é louco. Das duas uma. Eles se foram e o garoto conseguiu naquele momento ser o melhor, perfeito, o imperador.
Viu só nem sempre vou precisar ficar segurando as calças dele para que não se envolva em problemas. Quando caiu do muro e corri para segurá-lo, quando desabou da árvore ou do telhado...E haveria outros momentos.
Anos se passaram. Tão velozes quanto passageiros. Fugazes. Já com seus vinte e tantos anos, rapagão, ele estava caminhando pelas ruas da cidade pensativo, cantarolando as músicas que criara na sua cabeça numa mistura insana sem precedentes e ao dobrar uma esquina viu ao longe um carroceiro. Porto Alegre tem muito disso. Carroceiros amontoando sacos de lixo, papéis, restos em cima de uma mal feita caçamba, puxado por um cavalo, normalmente, já judiado pela vida. Nós caminhávamos lado a lado. Estávamos nos aproximando deles. Vimos que o guiador da carroça resolvera subir uma ladeira com o cavalo babando, já sem forças, ele começou a bater com um cabo de vassoura no pescoço do animal. Eu só precisei dizer – Vamos! E Augusto acelerou o passo, atravessou a rua, impediu um carro de manobrar para estacionar numa vaga e esbravejou – Pára com isso, rapaz! O homem da carroça desceu de seu lugar, virou-se para ele e xingou em algum dialeto irreconhecível. – Pára com isso, agora! Deu um ultimato. O homem, agora, no chão puxou os arreios do animal forçando ainda mais sua subida. O animal escorregava no paralelepípedo com os cascos à mostra. Nos olhamos e toda ação tem uma reação. Corremos e Augusto segurou o braço do homem, pardo, magro, com barba, sem camisa, calça de abrigo azul marinho, chinelo de dedos, boné, puxando da sua mão o cabo de vassoura. Eu segurei os arreios acalmando o bicho. O homem veio para cima dele. Augusto se defendia dos golpes desajeitados do homem, sempre protegendo o rosto e quando o homem abriu a guarda, ele apenas o golpeou no rosto acertando em cheio sua boca arrancando o resto de dentes que sua boca teimosamente tinha. Sangue. O homem caíra como um saco de batata de costas no chão. Minuto de preocupação. Esperamos um pouco e chamamos uma viatura que passava às pressas pela avenida. Depois de disso e aquilo fomos todos para a delegacia. O homem queria prestar queixa, mas os policiais não deram muita atenção para ele. Um sermão hipócrita para levantar a ficha de Augusto. B.O. Esquecemos esse detalhe. Tínhamos alguns desvios de conduta por aí. Uma briga de rua aqui; uma discussão com a garrafa na cabeça de outro acolá, ou uma tentativa de assalto. Essa é boa. Numa noite vazia de verão em Porto Alegre fez uma sessão de cerveja e cocaína com os amigos. Além, de ter cheirado aspirina com bicarbonato de sódio com algum resquício de coca saíram para a noite em busca de uma festa. Detalhe, Porto Alegre no verão em janeiro. Não há vida. Depois desses infortúnios, deixou os amigos na casa de um deles, o quartel general de inutilidades, ponto de repouso anfetamínico. O seu carro era um Passat amarelo, creme para ser sincero, com cintos de segurança antigos, modelo 80, daqueles de gancho não de encaixe com são os de agora. Sei lá porque, talvez pela loucura, pelo excesso ele, resolveu deixar o pino da porta do carona levantado. A porta então ficou destravada. Na parada da esquina da Mostardeiro com a Independência, embaixo da sinaleira, saiu do breu da noite um homem, moreno, cabelos rentes, moreno, com ar de seus dezoito anos entrando no carro, sentando ao seu lado. Colocou um revólver na barriga de Augusto para meu espanto e surpreendentemente, pela sua calma. O homem começou a falar. – Magrão para o caixa eletrônico, agora, caixa eletrônico. Ele fungava mais do que falava. Sua dicção era horrível. O que íamos fazer. Eu estava nervoso, muito nervoso. Augusto acelerou devagar e disse ao homem. – Olha, meu, coloca o cinto. Tu estás com a arma na minha barriga, se tu ficares nervoso, passarmos pela polícia, tu irás me acertar sem motivo. Coloca o cinto. – Ah, o magrão está ligado. Magrão esperto. E Augusto, com a minha ajuda colocou o homem no cinto de gancho deixando-o bem ereto no acento. Demos volta e volta, chegamos até um caixa eletrônico na zona norte, vazio, num lugar escuro. Ninguém falava nada, o homem segurando o revólver na barriga do Augusto e eu pensando como sair daquela situação. Daí acendeu a lâmpada da oportunidade, da chance. Se você entrar numa tourada...Olhei para Augusto e ele entendeu. Não ia dar o dinheiro para esse cara. E acendeu! Quando paramos, o homem tirou a arma da barriga dele e se virou para abrir a porta, nesse momento, Augusto segurou o cinto de gancho prendendo o homem e começou a socá-lo com o cotovelo, uma, duas, três vezes. Ele desabou, a arma caiu e daí começou a receber socos violentos no rosto, no pescoço, na cabeça, no saco. Saímos dali, de carro com ele dentro e fomos até uma delegacia perto. O resto é história. Mas passou batido. Ufa!!!!!
Drogas. Fizeram parte do seu caminho. Quando adolescente resolveu fumar um baseado em casa, sozinho, na janela do seu quarto à noite. Quem sou eu para dizer que é ruim. Quem usa drogas, gosta e se alguém disser que faz mal, bom, não vai causar o efeito esperado. Augusto estava na janela “prensando”, porém seu cigarro começou a se abrir caindo uma boa parte da erva no parapeito. Chapado, deixou aquilo ali. Nem se deu conta. Não bastou ter avisado – Não faz em casa. Toma cuidado. Olha as pontas, não deixa cheiro. Não adiantou ele tinha que pisar na bola. Noutro dia, sua mãe como todo sábado, entrou em seu quarto para pegar as roupas sujas e abrir a janela para arejar. Tentei acordá-lo, mas não deu tempo. Ela entrou e viu. Saiu e entrou de novo. Aos gritos dizia – O que é isso!!!! Pense rápido. Espere, eu ajudo, diga isso. – Veio o meu amigo aqui ontem e fumou. Eu não. Depois de uma longa conversa, com direito a lágrimas dele (idéia minha, óbvio), a senhora aceitou reticente. Bom, perdeu a visita do amigo por muitos anos.
Quando chegou perto da minha idade ficou desempregado. Desesperado pelas contas a pagar. E a dever, principalmente. Através da família da namorada teve que engolir seu ego, seu orgulho e se dedicar algo totalmente diferente. Sem preconceito nenhum, ele começou a vender sem a mínima noção de como proceder. Foi comido aos poucos pelos outros. Baixo salário. Auto-estima sendo corroída, pelo gerente, seu superior que o ameaçava diariamente, mesmo quando tentava executar alguma coisa correta, uma venda, vinha sempre um banho de água fria. Imagina quando fazia errado. Nossa, comecei a ter pena dele. Mas ele tinha que se virar, mostrar que era homem. Crescer, se impor. Eu dizia isso para ele todos os dias quando pegava o ônibus até o trem e depois os vinte minutos caminhando até o emprego. – Faça alguma coisa, porra! Até “boy” teve que ser em nome da empresa. Quando viu que o inevitável ia acontecer, conversamos numa manhã, que não era e nunca ia ser reconhecido e estava na hora de tomar uma atitude, ser o macho alfa, o líder da manada. Deu a volta por cima, bateu na mesa do chefe, pegou-o pelo colarinho branco, apertou o nó da sua gravata jogando, logo após, contra a parede de vidro de seu aquário. Saiu abrindo a camisa, tirando os sapatos, arremessando para longe a gravata azul em pleno show room. Saiu pela porta e caminhou pelo seu futuro. Estudou muito, ficou devendo até para quem nem sabia que tinha pedido emprestado e conseguiu um bom emprego. Ergueu-se das cinzas do seu ego e começou a virar homem mesmo, sem precisar de favores, de baixar a cabeça como um cordeiro. Cordeiros são abatidos. Touro. Reprodutor. Líder. Ele queria isso. Queria mais. Estava montando sua família com sua esposa, projeto de casa e filhos, tudo estava indo.
Chegamos num ponto crucial. Nossa amizade será eterna. Nos lembraremos de tudo que passamos, de nossas conversas, de nossas indignações, de nossas frustrações, de nossas alegrias. Dos medos que ambos sentimos e como nos ajudamos. Mutuamente, nos completando. Amanhã será um novo dia. Seu filho irá nascer, talvez seja uma menina, talvez seja um menino, que você ira tomar conta e dará conselhos, sabendo que ele vai fazer ainda muita bobagem. Isso eu tenho certeza. Saberá perdoar, passar a mão na cabeça e tentará, sem muito êxito, ser seu melhor amigo. Será seu anjo da guarda, seu fantasma. E eu continuarei sozinho. Caminhando na rua, passeando ou numa festa qualquer conhecendo novas pessoas, fazendo sexo com uma mulher sensual até que o álcool diga o contrário. E vou aprender a amar a vida como você fez a cada dia. Você me protegeu de ficar sozinho.
Creia. Não importa se for em religião. Creia acima de tudo em você. Nesse amor.
No mais, nos encontraremos, talvez, para tomarmos mais uma xícara de chá.
O bulê estará sempre cheio.