Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Tuesday, December 25, 2007

Estalar de Dedos

Estalar os dedos.
Ritmos.
Batendo o pé no chão.
Assoviando. Risos. Cantarolando.
Família reunida. Bebibas servidas.
Brindes. Presentes.
Abraços. Amigos.
Gargalhadas. Lembranças.
Votos. Felicidade. Copos quebrando. Mesa farta.
Cabeça cheia. Alegria. Comilança.
Amigo secreto. Oculto. Sabido. Generalizado.
Beijo na boca. Beijo no rosto. Beijo na testa. Beijo.
Todos juntos. Mesmo ausentes.

Num estalar de dedos...
Feliz Natal.......................

Sunday, November 25, 2007

Ordinário


Típico do dia de não saber o que fazer. Estar enclausurado entre dúvidas, vontades e nenhuma certeza. Ficando arrependido daquilo; daquele outro momento de escolha decisiva sem valor algum dentro do presente, só que seria a peça fundamental hoje para apoiar ovo de Colombo.
E daí consumaria o show de variedades assim posto entre meus olhos, em cima do nariz. Aportuguesando o alfabeto diário de conversas paralelas pelas amizades, amores, respeitos e ofensas. Grafando o calcanhar de Aquiles de reles mortais ociosos e pretensiosos servidores de trabalhos balzaquianos, ocasionados por nossos egos mortificados.
Saberia que hoje eu estaria em cima de uma duna de areia avistando novos mares, afrontando Netuno e deliciando-me nas escamas de suas sereias numa passarela da Rua da Praia; ou saquearia os navios de desavisados posicionados na procissão da minha fé para Nossa Senhora e seus Navegantes.
Ou verificaria na lente angular, atravessada na garganta de teóricos, Marxistas seculares, capitalistas desempregados e de casais liberais, liderando a forma mais massiva de obtenção de respostas às perguntas sem o mínimo de decoro. Na letra repetida e enfadonha de um idôneo Pero (ou Pedro de tal) que caminha em litúrgicas missivas aos Reis atrás de fama, fortuna e um beijo. Na Afrodite que quiser, deixando tonto o Caetano momento de se expressar sem nada a dizer. Na popularidade do convencionalismo comercial adúltero propagado pelas televisões de azuis Marinhos e de camelôs de idéias nos meus olhos opacos, assim como o Silvas, Sílvios e Santos malandros de vários nomes, contornos, barrigas e poesia.
No cruzamento de litorais, passando à costa do país, gordo, flácido, caído posto como retrato de uma pós-venda ainda sem previsão de lucro. Abençoado pelas crenças de Xangôs, de Padroeiros, de Exus, de Papas, Padres, Pastores, ovelhas abatidas no primário erro de estarem vivos e apavorados com a desgraça do outro lado da tela do tubo de imagem, não vendo o tumulto formado na sala de estar da porta fora numa brigada pincelada; ele, como eu, tão são, tão Jorge.
Pela simpatia, salve, salve, de opiniões neo-governamentais aos candidatos descoLLoridos pela história e redefinidos uLULAnte pela humildade e ignorância tirana de Átila cusparando o remix de personas non gratas.
Copiar a via crúcis pústula de renegados encontros de vazios pesando o mundo para quem ao Prometeu o próprio fígado como pagamento e tortura de viver o dia a dia, desumanizando as costas do calhamaço da sujeira e falta de papas na língua literária rodriguiana em contos e contos da carcaça das pessoas tão civilizadas.
Estando ali no cubismo descaracterizado ao carro nomeado e seus royalties pagos pela estética neurastênica do que queremos e do que procuramos. Na busca dentro do labirinto do Minotauro atrás do que fazer, do procurar, a quem, o porque. Nas mãos dos Joãos e Marias de vícios e curas, de amores e curras, do que realmente queremos para sermos felizes. Eu feliz; você feliz,...
Então nesse dia, estaria dizendo todas as coisas certas; um Dom Juan amando você...Enquanto isso, o acelerador da rotina brada com o ônibus mais perto para te trazer consigo uma população crente no que terá que fazer amanhã na desleal disputa de quem será o melhor, o time campeão, o artilheiro, o Pelé da história. Fico apenas coçando o queixo e vendo quantas personagens temos travestido de nossas expectativas e frustrações.
Peço algo muito simples. Peço somente a minha paz. Mesmo com a arma sendo disparada.

Tão ordinário.

Monday, November 19, 2007

DISCOS RISCADOS volume I

Hoje fiz a bobagem de dizer que te amo. Fiz naquele instante entre o beijo e o abrir dos olhos. Levado pelo impulso, pela sensação de ter uma pedra enorme de gelo em cima da barriga. Disse porque sentia. Não importa se foi para preencher o espaço entre nossas coxas. O que interessa era o que eu queria que você soubesse. A sua resposta foi ao me olhar bem nos olhos e retribuindo com um beijo. Ou uma gargalhada. Dependendo da música. E isso derrubaria uma manada de búfalos. Um soco no nariz. Um chute no baixo ventre. Como uma música que marca, que sensibiliza, que soa piegas, melosa ou suingada ou ainda pesada. Que fica martelando na cabeça e saindo boca afora. E quando você vai mostrar a música para alguém, o disco onde ela está gravada cai de suas mãos e você tenta agarrá-lo. A pressão dos dedos, o mal apalpar das mãos o arranha de ponta a ponta. Não importa se é um cd, um dvd, um vinil, um acetato, coisas que você nunca viu. E nem sabe que existe ou nunca deu muita importância. Como quem é o fulano, de qual disco, quem e onde tocou, qual a música. Toda aquela informação que eu trago dentro mim e nada serve para você. Toda importância que você dá a mínima.
Olho a minha estante. Fico olhando cada disco enfileirado, amontoado, empilhado. Cada detalhe da capa, cada nome, cada faixa. E me descubro mais e mais. Meus conhecimentos inúteis sobre detalhes idem. Desde quem fez a capa, o produtor, quem tocou, estado físico de quem ouviu. Uma vida toda ali entre tantas. Minha vida toda composta por outros que não sabem que eu nasci. Minhas emoções colocadas em pauta, sobre tons, descritas por notas musicais. Minha vida sonora. E como todo disco bom tem uma música ruim ou que toca demais, que você enjoa, já conhece, que assovia sem se dar conta. A minha vida é assim...A vida de qualquer um é assim. Tem suas faixas preferidas, aquelas que pula, que nem se lembra mais, mas mesmo assim passa por elas. Porém de vez em quando retorna. As ouve, tenta entendê-las. Dar atenção. Ter uma outra opinião. Fez a escolha certa. Se ela ainda é ruim ou boa. Passou por ela batido ou se ainda está lá na sua galeria de favoritos. Mas sem querer você pode, como dito, deixar seu disco cair e riscar a única faixa que era importante no disco todo.

Friday, October 26, 2007

Rasuras( Personagens )

Eu só pude pensar numa coisa para dizer naquele momento: - Atira, seu filho da puta! Não tenho que esperar pôr ti. Atira logo! Eu, de joelhos no chão, com o suor e o sangue correndo pelo meu rosto com ardência, encarando aquele sujeito corpanzil, de casaco de lã, tapando sua boca com um lenço pútrido. Falava sem pensar, não conseguia parar nem para tomar fôlego. Babava poças de saliva vermelhas. Cuspia-as na direção do agressor. Meu peito arfava – ‘Tá esperando o quê?! Você quer que eu peça pôr favor, seu merda! Encarei o cano do revólver e vi o clarão que dali pariu sem som. Como se o som fosse completamente inaudível. Como se só houvesse a imagem. Parecida com uma imagem fragmentada de um quadro de televisão. E de repente, com a aproximação do projetil, a tela do visor gerasse uma corrida desorientada que nada define. Criando um formigueiro em completo estupor. Imagens morfologicamente mal definidas e de maneira abstrata, com total indiferença, absurda e confusa. Textos ilegíveis vociferados pôr vozes idem. Rasuras de figuras indefectíveis, irascíveis. Sim, rasuras nas imagens. Manchas displicentemente colocadas uma sobre as outras, como miçangas. Borrões de silhuetas. Dava um contorno aconchegante, até familiar, quase íntimo com o som que não se ouvia. Parecia-me estar num lugar inócuo, lacrado à vácuo; transparente à ação do acontecimento. Descrito com facilidade, o caminho do projétil traçava uma linha imaginária. Quase parando no ar num movimento irregular, dirigindo-se para mim. E naquela tela, rusticamente delineada, eu escolhi momentos da minha vida que completavam o quadro geral. Via de um sentido disforme. Acenava com um álbum de reminiscências que pulavam à frente dos meus olhos; vilanias que proporcionavam uma enxurrada de arrependimentos, mesmo que inconsistentes.
Assim tão fácil, sim. Na luz se fez o ruído. Como se nascesse naquele segundo. Agora, ouço o som. Num estalar de dedos ritmados marcando o andar no espaço vago do projétil. Um trajeto lento num piscar de olhos. Um eco retumbante e inconseqüente como se fogos de artifício fossem alçados para o alto e o seu espocar alardeasse ao meu lado junto com a proximidade do projétil até atingir seu alvo.

Num diálogo insólito, retorno. - Vais acordar ou está muito difícil?! Arregalei os olhos embaçados, absorto, grogue, meio zonzo. Ouço a voz conhecida, mas não imagino quem seja. Sinto-me mal. O meu estômago se contorce, embrulhando-o. Miro o meu interlocutor e descubro esta pessoa remexendo nos meus livros, segurando algumas peças de roupas minhas. – Você não deveria estar aqui? Que fazes então?! Bocejo com força, chegando a estalar o osso do maxilar. – Estou cansado. Resumo e continuo. – Você já deveria ter pesado e misturado essa porcaria. Balbucio apontando para uma mesa. – Você precisa de um convite formal ou vai enfiar tudo isso nesse seu focinho. Prossigo, já irritado. – Dane-se, cretino! Vá para o inferno. Me deixa afundar nessa “farinha”, se quiser. Tenho que ficar assim, com os olhos bem abertos, e conseguir dinheiro. Vou misturar essa merda na hora que eu quiser, entendeu?! Enquanto você fica a noite inteira chafurdando em poleiro em poleiro, em puta e puta, em carreira em carreira, eu fico aqui pleiteando um pau para te sustentar. Arregaço minhas pernas para um qualquer. Tenho que ter toda atenção necessária. Azar o seu. Estás com sono, benzinho?! Vá para cama das tuas amiguinhas. Tenho que trabalhar, conseguir dinheiro e ainda pagar as tuas malditas contas e custear teu nariz. Gostaria mesmo de costurá-lo! Rasgo-me para te conseguir as coisas que tanto queres. Vou para cama e deixo que me batam, esfolem, gozem em mim, em cima de mim, dentro de mim e você o que diz? Nada! Só se preocupa se vais ter produto suficiente para animá-lo mais uma noite. Como se o que eu fizesse fosse nada. Um nada qualquer que possa te sustentar. Eu deveria dar um basta nisso tudo e te matar! Enfiar uma faca no teu coração. Sufocar você ou sei lá te picar com uma agulha infectada com passagem aérea só de ida ao inferno. Eu te amo! E pôr isso que te odeio mais e mais a cada dia, em cada segundo, em cada suspiro. E não ouvi mais nada. Eu vi aquele personagem se lamentando, choramingando e me agredindo cada vez mais num joguete de verborragia crua e grosseira. Mas não conseguia parar de falar. Um discurso vazio. Parecia um rabisco de desenho animado que mexe os lábios e sua fala é ridícula. – Só dessa forma eu entenderia tudo que eu passo. Morra, imbecil! Pôr favor, morra! Morra pôr mim! Faça algo pôr alguém que não seja só você. Se você me entender, apenas faça! Sentenciou. Até que enfim. Já não agüento mais ouvir essa ladainha. Bocejo. Noto que a figura teima em mexer os lábios, gesticula, acena com a cabeça como um “João - Bobo”. Que ressaca. Podia aumentar o volume dentro do meu cérebro e ouvir as palavras hostis que dali partem cuspidas sem direção. Mas prefiro continuar, virtualmente, surdo.

Tenho vontade de vomitar. Como podemos adquirir esse tipo de coisa! Lendo essas notícias sangüinolentas estampadas em manchetes grotescas, com tarjas negras e fontes espichadas dando impacto à desgraça dos outros. Sem distinção de sexo, cor ou credo. Um enorme aglomerado de insultos literários e abusos jornalísticos. O papel onde é impresso não serve nem para cobrir os corpos que estão jogados nas valas vazias das colunas, enterradas nas linhas de cada texto. Jornalismo marrom, púrpura, escuso, sórdido, viscoso e ademais adjetivos que enfileiram o meu cérebro. Manchetes colorem o topo das páginas, tendo alguns exemplos: “HOMEM VESTIDO DE MULHER MATA ESPOSA E CURRA ENTEADA!” Ou pérolas como: “MULHER ENSINA CACHORRO A FAZER SEXO ORAL”. E ainda destacando, “JOVENS ESPANCAM VELHOS”, e mais, “TARADO DA ZONA É CAPADO NA FRENTE DA MULHER” e assim pôr diante. Nota-se o nível e a categoria dos jornalecos que circulam pôr aí. Caminho pela rua ainda enojado e hipnotizado pela leitura opressora e caricata da realidade enfant terrible. Me interesso cada vez mais, chego até a rir de alguns infelizes. Folheio algumas páginas sem me aprofundar na leitura das matérias, apenas exacerbado pela curiosidade das manchetes. Penso em ética. Respeito. Amor próprio. Cruzo os dedos, esfregando-os, para tentar limpar a tinta que os mancha. Papel de boa, ou melhor, “excelentíssima” qualidade. Ética! O que será que passa na cabeça das pessoas em ir até uma banca de jornal, desembolsar algumas moedas e ficar lendo notícias assim. Existe fotografias de mulheres nuas! Olha só. Viro na vertical a página para admirar com maiores detalhes. “A RAINHA DO MÊS” – Que carinha. Seios bonitos. Bundinha arrebitada. Coisinha boa. Digo em voz baixa para mim mesmo. Paro na frente de uma lanchonete e espirro três vezes seguidas, causando um alvoroço pelo meus gestos atabalhoados. Cheiro a minha mão e o aroma que exala do papel. Penso, mas não digo nada. Voltamos a pensar, agora em respeito. Com o jornal dobrado, entro na lanchonete e vou direto ao caixa. – Tens cerveja em lata? – Sim. Responde um senhor de camiseta justíssima, aparecendo o umbigo, de bigode e com boné de um banco de seguros. – Quanto custa? – Nacional, importada, light, bock. Mas pede ali no balcão, faz ‘licença! Vou até o balcão e solicito ao atendente que já ouvira o balconista. Abro a lata e dou um enorme gole. Prolongando-se na minha boca. Está quente e a cerveja quase. Na porta da lanchonete diz claramente “CERVEJA GELADA” e pode ter certeza que está mais para quase fria do que gelada. Folheio o jornal que eu dobrara e enfiara debaixo do braço. Leio o meu horóscopo. Não acredito muito nesses assuntos, mas é bom dar uma espiada e ver se as “coisas” estão bem. Acho bobagem. Vejo meu ascendente. Engraçado um diz uma coisa e outro diz absolutamente o contrário. Há uma manchete ao lado das previsões astrológicas. – Quem será que escreve isso? “JOGADOR DE FUTEBOL É PEGO COM A BOCA NA BOTIJA”, falando sobre o fato de um jogador de futebol de um time local ter sido abordado numa casa noturna pôr policiais e com ele foi encontrado 3 gramas de cocaína. A legenda com a fotografia do cidadão dava até pena. Matéria curta. A publicidade em torno do acontecido gerou uma azia, talvez pôr causa da história ou pela cerveja fria, quase quente. E a privacidade do cidadão é o ponto crucial da história. O respeito se perde nas entrelinhas. Há mais propaganda de colchões e de serviços de entregas à domicílio do que texto jornalístico. Me interesso cada vez mais pelo fato. Vejo que um dos colunistas já escreve à respeito do acontecido. Ele coloca a versão do próprio jogador em pauta. Culpa os policiais pôr terem trazido consigo jornalistas que divulgaram o flagrante. Dizia que tudo era uma armação até que se prove o contrário. O Jogador podia estar apenas na noite, bebericando, acompanhado pôr mulheres bonitas, tentando se divertir um pouco como qualquer ser humano e, sem saber, ter sido vítima das companhias. Mas se ele estava drogado deve ou não ser condenado, então devemos passar a mão na sua cabeça e está tudo desculpado? E se for verdade? Ele estava bêbado, então? É certo um profissional, um atleta, que ganha uma enxurrada de dinheiro ter esse privilégio sem responder pelos seus atos? E esse paternalismo cego de torcedor, tem o direito de se impor pôr meio de um veículo a sua idéia, movendo intencionalmente a opinião dos leitores? E quem tem culpa, afinal? A polícia ou os jornalistas? Penso numa dezenas de perguntas. Chego ao ponto de tirar do bolso uma caneta e um folheto amassado, escrevo todas no próprio para não esquecer. Continuo lendo o resto.

Coloquei todas aqueles enfeites em cima da mesa marrom – escura do centro da sala de estar. Bolas de plástico coloridas, lâmpadas pisca-pisca foram sendo retiradas da caixa de papelão juntamente com bibelôs de pano com formas de imagens natalinas. Pequenos animais, renas, trenós, árvores minúsculas e um grande número de Papais – Noéis tão agrupados que os fios que os enrolavam pareciam estarem unidos pôr um cordão umbilical advindos da volumosa árvore plástica. Ao colocá-la no pedestal, fui adicionando os penduricalhos. Puxando fios, deixando cair as bolas coloridas no chão onde algumas se espatifavam e outras picavam como se adquirissem vida, obtendo à liberdade para um mundo novo, porém as recolhia numa disputa de quem seria o mais hábil.
Vi meu pai sentado diante da árvore que teimava, incessantemente, pender para um dos lados. Ele me observava sob o jornal que lia. Esboçava um misto de sorriso e seriedade. Parecia, para os mais incautos, que ele rogava os mais “calorosos” votos de insucessos na minha empreitada. Olhei-o com um certo desafio. Apertei uma das bolas coloridas na minha mão até quebrá-la. Ele não moveu nenhum músculo para me ajudar. Ficava ali, analisando, ironizando, sugestionando com ele mesmo o que deveria ser feito e o que estava certo ou errado. Mesmo sabendo que logo depois ele colocaria suas mãos no pinheiro para retocá-lo.
Avistei ao longe uma fagulha no céu que se atreveu num rebuscado traço artístico na escuridão; uma repentina claridade desenvolveu-se. Uma tranqüilidade cresceu com aquele sorriso no céu. Fui para mais perto da janela e encostei o meu rosto no vidro, esmagando-o.
Hoje é Natal, e já sinto vontade de confraternizar. O tempo melhorou, como se aquele trovão prometesse os seus votos de felicitações naquela noite. Ver familiares, amigos, trocas de presentes, sorrisos e mais sorrisos agregados a esbórnia gastronômica que preferimos. Numa coleção de gracejos, vi meu pai discutir e proferir um dos seus discursos postulando posições entre divergentes, covardes, fascistas e lúdicas sobre os mais amplos itens em torno do assunto primordial de inúmeras e morosas horas. A festa iniciada, a troca iminente de presentes, o adivinhar dos amigos secretos e a mesa posta aos convivas movidos nos enormes goles de qualquer bebida alcóolica colocada aos seus alcances. E os parentes exaltando-se em meio à bebedeira, copos caindo no piso, derrubados em cima das mesas, cachoeiras de vinhos, cervejas e muita comida decompondo-se sob os pratos remexidos junto às sobras.
A prece foi feita, todos crentes ou não, ali estavam rezando pelos seus, pôr si e pelo futuro. A família cortês, recebia os convidados, nos cantos outros permaneciam quietos com olhares tristes nos fogos e suas explosões jaziam tais quais lágrimas estendidas no céu negro, iluminando-o. Das conversas, surgiram piadas e delas lembranças junto com certos culpados e inocentados. O telefone esperneando era atendido às gargalhadas. As crianças corriam de um lado para outro com seus brinquedos novos. Os votos eram renovados felicitando todos os presentes e aqueles que não puderam comparecer. Planos foram feitos.

E sem sombra de qualquer dúvida, eu era o alvo. O projétil parecia-me desenhar-se no vazio entre nós dois. O homem, antes, discutira comigo. Reclamava da sua sorte, das nossas desavenças, da falta de respeito mútuo, enfezava-se com vários fatos. Carregava em uma das suas mãos uma peruca castanha. As palavras pesadas fizeram-se presentes na ausência de outras testemunhas. Não tinha a intenção de brigar com ninguém, pelo menos até então. Agilmente, tentei desviar do trajeto periférico que o projetil realizava em lentidão. Joguei meu corpo para trás, mas o tempo é mais relativo do que meus movimentos. Eu, desajeitadamente, jogara minha cintura para um lado e o peitoral permanecia imóvel causando ao espectador a noção de que a sua frente estava uma estátua em forma de “S”. Contorcendo-se como uma cobra, no extremo da imaginação. Uma figura cômica, tentando provar que todas as teorias da física estavam erradas. Naqueles milésimos de segundos, os acontecimentos demoravam para que fossem explicados. Não compreendia, até então, porque ocorrera tudo aquilo. Estava certo de que não passava de um enorme engano; que aquele projétil não era direcionado para a minha pessoa, mas para outro que cultivara maiores atritos. Queria realmente crer naquilo. Minha vida só podia depender disso! Porém, já não importa mais. O alvo é atingido. Eu caio no chão como um saco de batatas, esparramando o meus membros no piso. Respiro com dificuldade, coloco a mão no meu peito e o sinto encharcado. Olho para cima, para os lados, em todas as direções. Ouço passos lentos vindo na minha direção. Aperto o ferimento. Começo a chorar. Os passos estão mais próximos, param quando chegam ao meu lado. Vejo o meu algoz se ajoelhar, em silêncio. Começo a ofendê-lo, mas minha voz é fraca e quase nada é ouvido. Assemelhando-se a uma oração. A mão alheia pousa sobre os meus olhos, fechando-os. A escuridão me assusta muito mais do aquela cena toda. Tento reabri-los, mas não consigo. Apenas ouço o movimento ao redor.

Tentei me erguer da cama e o mundo girou. A voz ressurgiu junto com um tapa na cara. Abri bem os olhos e não consegui ver nada. – Espera um pouco! Gritei. – O que está acontecendo! Espera um pouco. Afastando com força a pessoa que me agredira. – O que? Estás com medo. Não queres me “peitar”?! Respondeu. Tonto, ainda, tentei permanecer em pé, mas não obtive êxito. Entretanto, a outra pessoa já vinha para cima de mim carregando na mão direita uma estatua. Tentou um número incalculável de vezes me acertar, mesmo não mantendo o equilíbrio e nem coordenação.
Perdi a noção de tempo–espaço, desabei sobre a mesa da escrivaninha. Recuperei - me rápido. Vi que o personagem que bradava, continuava tentando me atingir, estabanado e afoito. – Pare com isso! Gritei. Recebi como resposta mais um golpe. – Você é doente. Estás completamente fora de si. Tentei dialogar. – Fora de mim, estou desde que te vi pela primeira vez! Discursou.– Porquê tudo isso? Perguntei, ainda caído. Os olhos avermelhados daquele personagem era assustador e ao mesmo tempo melancólico. Parecia dizer muito mais que seus atos. Eles mudaram de direção pôr alguns breves momentos de divagações. Cheguei a ficar com pena daquele fantoche. Parecia-me um desenho mal animado feito às pressas. E como tal se tornou tão vulnerável. Um marionete de pano sem ser manipulado, colocado num baú. Vi o brilho da oportunidade perto da minha mão. Agarrei uma tesoura que estava escondida sob uns rascunhos e desferi quatro estocadas, atingindo o pescoço, peitoral e seus braços, com os quais tentava, em vão, defender-se. – E agora, chora! Chore mais um pouco! Quer que eu morra?! Olha só o que você me obrigou a fazer. Queres um elogio. Um abraço?! Então venha “pegar” seu prêmio! Grunhia. Quando vi os seus olhos abertos, pensei em ir abraçar a vítima. Entretanto, me reservei em ficar em pé e o meu estômago contraiu-se. Mesmo com aquele corpo atirado no chão sangrando, tomei de sobressalto uma resolução: sair para a rua. Precisava de uma dose. Depois limparia o tapete, sempre é bom deixar a casa organizada, já não posso contar com mais ninguém.

Tem até palavras cruzadas! Que bom! O tempo vai mudar pelo jeito. Olhei para cima analisando o aproximar das nuvens e o discreto Sol. As horas avançam. Já tem um cheiro de chuva no ar, como dizem no interior. Cheiro de terra molhada. Vejo que não comi nada até agora. São seis e quinze da tarde. E a fome já começa dar sua graça. Eu vi alguma coisa sobre buffet barato aqui no jornal. Onde está? Veja só! Mais notícias. Política. “SOBE IPTU.CIDADE MAIS CARA, MENOS MORADIAS.” Ninguém vê que aumentar e aumentar não resolve. Onde o cidadão vai conseguir pagar suas contas, ter as condições mínimas para sobreviver. E tem mais aumentos. “GASOLINA MAIS CARA.” Mesmo com toda as manifestações internacionais para abaixar os preços sobre os combustíveis, nós aumentamos. Faço contas de cabeça para saber quanto tenho no bolso. Vejo na rua, uma dezena de carros buzinando diante de um cruzamento. Como um bando de bárbaros acompanhados pôr pedintes, vendedores de balas, floristas, mendigos, mães com bebês de colo, crianças e limpadores de pára-brisas se alojam ao lado dos carros e pedem, oferecem, insultam até pôr alguns trocados. Será que eles também aumentaram seus pedidos? Imagino. Viro à página.
Acho esse jornal imoral, obsceno e deturpador. Amasso-o em algumas partes, dobro outras e perco-me na curiosidade das manchetes. Pego, de novo, a minha caneta e circulo algumas palavras e pensamentos, dizeres e comentários. Entro naquele circo como um trapezista amador. Sinto a cada frase uma sensação de desconforto e êxtase. Sorrio, quando penso que sou um tarado literário em busca de prazer jornalístico bestial. Com os olhos enfiados nessas páginas, mal vejo para onde vou. Ninguém passa pôr mim. Paro e observo a minha localização. Estou no fim do centro da cidade. Perto de um beco. O faro jornalístico se mobiliza. Há algo no fim da rua. Existe um corpo no chão, segurando uma peruca. Examino com cuidado de não me aproximar muito. Estou à quatro metros do corpo e já acho muito perto. Não percebo se respira ou não. Tento fazer observações e concluo que o mais correto é chamar às autoridades. Corro até uma cabina telefônica e disco o número da emergência. Relato o acontecido e me pedem dados pessoais que me recuso a dar. Encerro a ligação. Tenho uma idéia e disco novamente, dessa vez para o editor do jornal que eu estava folheando.
A noite já aparece ao horizonte com o despojar do Sol. Depois de falar com o editor, resolvo voltar pelo meu caminho, não antes de ler a seguinte nota: “JUIZ DIZ QUE NÃO ROUBOU; NÃO SABE DE QUEM É A CULPA”. Começo a rir.

Todos já estão de partida, juntando seus pertences, seus presentes, aglomerando-se em grupos. Enfileirando-se para se despedir. Cumprimentam-se, agradecem e falam alto quase aos gritos. Brincam uns com os outros com piadas tolas que só são engraçadas quando o álcool já se torna anfitrião. Em meio à bobagens, novos votos são repetidos pôr vezes como se ninguém os tivessem ditos antes. Algumas crianças estão entregues ao sono e ao cansaço de suas correrias. Seus rostos empolados nos braços dos pais; outros amontoados embaixo das almofadas do sofá. O mau – humor dos que são acordados tem como resultado imediato, um choro dolorido e sonoro.
O cansaço torna-se uma epidemia. O festejo de bocejos se concretiza. Todos perdem seu brilho, seu aprumo e desarrumam-se no continuar da noite. A família, enfim, se recolhe; e eu fico ao luar hipnotizado pelas horas que se foram. Reflito numa demora se fim. Aprecio o gosto acre da cerveja, deixando minha língua pastosa. Passo a mão pelos galhos de plástico da árvore de Natal, ainda piscando. No trevoso ambiente, fico pasmo com o movimento nulo. Às escuras, busco me acalentar mais perto da árvore no seu acende e apaga.
Atrevo-me a pensar no que faria se estivesse do outro lado. Enfrentando a madrugada. Na sua soturnidade, embrenharia numa caminhada sem estar muito certo para onde iria ou o que faria. Fico só no pensamento acolhido pelos galhos da árvore. Um pingente cai sobre mim e me assusto. Resgato-o e destroço-o. Me levanto, seguro uns dos galhos e os arranco. Numa vontade vã, saio da sala e corro até a dispensa. Encontro um martelo, uma garrafa de querosene, panos e fósforos. Regresso até a sala e vejo a árvore tombando. Dava a impressão que ela tinha ensaiado a cena. Uma atuação irrepreensível, digna dos mais ardorosos aplausos. Contudo, não o suficiente para amenizar o que eu estava prestes a fazer com ela.
Confesso, que cheguei a temer o que aconteceria, mas estaria mentindo se dissesse que estava tendo cuidado. Empapei os panos com querosene e os enfiei entre os galhos da árvore tombada. Risquei o fósforo e joguei em cima dela. Como num tilintar de copos, o fogo cresceu espalhando-se com rapidez. Eu, sentado, à sua frente, assobiava melodias natalinas.
As labaredas aumentavam, chegavam ao topo do teto dando-lhe uma coloração chamuscada. O odor de gesso queimado e a fumaça chamaram a atenção dos familiares que se puseram a acordar. A correria e os gritos histéricos foram instantâneos. De roupas íntimas, pijamas ou roupões, debandavam com o que podiam carregar porta à fora. E eu estava bem ali, debaixo dos braços calorosos da árvores natalina, despencando-se. Naquele momento, eu ouvi disparos vindos da rua. Nada fiz; estava acabando o Natal.

Ele colocou minha cabeça sobre suas pernas e o vi mais de perto. Enfim, retirou aquele lenço encardido da sua boca. Ele disse algumas palavras e eu só poderia responder de uma forma: um cuspe! A saliva correu pela sua testa. O espanto da minha ação, o deixou furioso. Largou a minha cabeça como quem larga o lixo. Senti o choque do meu crânio com o cimento ressoando num som surdo. Vi os seus passos se afastarem e retornarem com velocidade prontos para me dar um pontapé no rosto. Todavia, ele mudara de idéia, poupando-me de mais dor. Estou tremendo e ele deve ter notado. Sentou-se alguns metros longe de mim, depois ergueu-se e urinou na parede. A sua volta uma moldura de fogo. Creio que vinha atrás dele ou senão era a própria encarnação do demônio. Ele virou-se para ver de onde vinha aquele clarão. Ficamos assistindo aquilo tudo. Eu no chão definhando; ele em pé observando.

Na esquina, eu vi um prédio em chamas. Estou em chamas. O meu estômago dói. Sigo o fogo, não sei porquê, mas vou atrás dele vendo até onde estarão as chamas. Não tenho ninguém para recorrer. Tropeço no cordão da calçada e caio em cima de um arbusto cheio de espinhos. Eles me machucam o rosto, as mãos e os braços. Me levanto com dificuldade. Agora, a dor aumenta. Rodopio. Preciso de algo. Tenho que consertar as coisas antes que seja tarde demais. Uma dose seria ideal. Seria bom poder pensar com maior clareza. As Chamas. Vou seguir o fogo.

Estou chegando perto de casa. Fico pensando naquele corpo. Olho para trás e imagino que aquele corpo poderia estar ainda vivo. Não sabia se era homem ou uma mulher. Não cheguei nem perto para saber se precisava de ajuda. Vejo, antes de entrar na portaria do meu prédio, um outro prédio em chamas. Dois carros de bombeiros passam com as sirenes abertas exigindo passagem livre. Dirigem-se para lá. Não, foram para outro lado. Não parece ser fogo. Parece só luzes avermelhadas, as mesmas que colocamos na noite de Natal para enfeitar. Checo a última página do meu jornal. Leio as últimas. “MANÍACO PÕE FOGO NA CASA EM NOITE DE NATAL”. Será que sairá o meu achado nas manchetes?!

Saturday, September 15, 2007

SPEEDY

Já fiz de tudo. Minhas fantasias foram quase todas realizadas. Algumas completamente malsucedidas. Às pressas. Rápido, mais uma vez, rápido. Embriagado de idéias e consumindo erros, contabilizando o montante em várias mesas de opiniões alheias as que sequer se imaginou que existissem. Speedy. Rápido, mais uma vez, rápido. Colisão certa ao alvo inexistente, inexpressivo, inexorável. Correndo a língua pelos corpos numa velocidade desigual, numa vontade de gritar a saudade e da esperança de futuro. Speedy. Rápido, esbarrando no cérebro, diante dos olhos de todos os nomes e fatos tão ridículos quanto momentos hilários das verdades e muitas mentiras que se contam por aí. Speedy! Disparando farpas coloridas químicamente ampliadas com naturalidade. Abocanhando os desejos e gozando nas línguas malfadadas de críticas argumentativas com respeito tumular. Speedy. Rápido, vamos mais rápido. Pisando fundo, direto até o poço. Até o próximo muro. A criatura criada, domesticada, protegida, grunindo desgovernada ao lado de alguém, sem saber bem como, quando e quem realmente ali está. Rosna nas sirenes abertas de retornos incertos. Speedy. Drogando a inércia das escolhas de momentos, de rompantes. Nas mulheres, deliciosas, perturbadoras e amantes, silenciosas ouvintes, lascívia oradoras de textos em dialetos de seu prazer. E nem tanto assim. Movidas a isso mecanicamente possuídas em fórmulas químicas ou enevoadas naturalmente. Ou nos homens que padecem de maior apuro resumindo-os na simples mediocridade maquiladas pelo flerte contínuo. Esquecidos, ambos, rapidamente. Speedy! Onde está você, você? Com pressa se vai, esvai, mas não some. Está bem aqui guardado nas agruras versus alguém. Guerra declarada. Batalha decorrida. Obscena e impura. Justa fulgurante. Fúcsia. Num piscar de olhos. Risos. Idiotices. Resignação. Renascido do inferno. Speedy.

Saturday, August 11, 2007

Crônicas de Bate-Papo III- SEX MACHINE


Você já deve ter se identificado com alguns personagens na sua vida. Criado alguns, retirado tantos outros que fizeram um mau papel em seu roteiro. Nesse filme sem fim que se tornou sua vida com uma série de curtas-metragens, você assim, como eu, sabe que o melhor de tudo é se reinventar a cada dia. Com certeza todos com suas falas improvisadas têm sua importância; não são apenas coadjuvantes, eles fazem ou já fizeram parte de você, o protagonista. Assim como eu; é claro.
Então saímos de casa. Eu, você, a vizinha, o vizinho todos com seus roteiros sem saber muito bem o que está na página seguinte que ainda está em branco. Do elevador até a garagem um estranho sentimento de cumprimentos secos amanhecidos. Daqui cada um parte para seu cenário. O vizinho vai estudar numa escola de línguas, a vizinha vai para seu escritório onde é proprietária, você, bem, você sabe para onde vai e eu para a academia de musculação aproveitar meu tempo ocioso cuidando da quilometragem avançada do meu corpo. Indo para página dois.
Quase todos os dias faço disso a minha rotina “desencanada”. Pelo caminho vejo os outdoors com suas promoções de varejo, nos tapumes de madeira dos prédios em construção estão cartazes dos shows na cidade, nas bancas de jornal, revistas exploram manchetes sobre a novela das oito em conjunto com escândalos da aviação e deslizes grosseiros dos nossos políticos. Personagens; penso. Cantarolo canções e letras que compus assobiando na rua. Demoro cerca de vinte minutos para chegar até a academia. O céu azul está coroado pelo Sol alto avermelhado. O dia está perfeito para o inverno. Clima seco com um leve vento gelado.
Diante da porta de vidro da academia faço-a correr para os lados dando um rangido que chama a atenção de alguns. Mais personagens. Entro a passos firmes e com sorriso aberto como se chegasse na casa de um ente querido bonachão. E vejo os personagens de uma pequena história; de um filme curta-metragem que se repete quase todos os dias como reprises da Sessão da Tarde. Vou até uma das máquinas de correr, as esteiras propriamente ditas. Olho ao redor e me sinto no meio de uma câmara de tortura da época medieval, damas de ferro, espinhos, cruzes, roldanas. Se materializasse alguém daquela era, um inquisidor estaria realizado com essa tecnologia às suas mãos. O suor estampado na cara dos freqüentadores atrás de saúde, bem-estar e porque não, sexo.
Lá estão os atores, o grande predador com seu jeito politicamente sedutor e atencioso, digno olhar de 360 graus, (rotação em seu próprio eixo) um rapaz lá pelos vinte e alguns anos conversando com todo cuidado com uma aluna a ponto de se ter idéia que ela seja um bibelô pode ter uma franjinha arredondada, grandes olhos claros, ou bem dotada fisicamente, decotes e preferência nacional; o galã (poderia ter o aval da produtora As Brasileirinhas), jovem também na mesma base de idade do antecessor, porém com estilo mais rebuscado, direto, rosto de propaganda de lâmina de barbear, com boné enterrado na cabeça, braços cruzados, feições fechadas escondendo pequenos trejeitos de moleque às alunas que forçam olhares com ele que variam com seus sorrisos dengosos, que o procuram passando por todos como se o resto dos homens a sua frente fossem cones de sinalização, balizas humanas sem rosto; o perito, o comandante de horda de técnicos com seu jeito de prefeito de cidade serrana, aparece acenando, cumprimentando todas as pessoa que você possa imaginar e é claro, deixando no arquivo B o futuro nada certo com quem quiser se engajar em sua campanha com a única restrição que seja feminina. Eleitoras sempre existem. Temos do outro lado do ringue “as chefas” que coordenam ao longe os anseios e possíveis alvos de “atiradores” de elite e nem tanto assim. Colocam em ordem na casa sacudindo a masculinidade alheia inibindo qualquer ataque. Idade é um dado que nenhuma mulher gosta que revelem e como quem já levou chibatadas por esse deslize, então deixemos isso de lado. Todos estão nesse filme, o restante estará em outras cenas do próximo capítulo, se houver verba suficiente(e juízo) para uma continuação. E eu trotando em cima da esteira em velocidade média, ao meu lado outro aluno e iniciamos uma disputa de quem venceria essa corrida. Como chegara antes, fui o medalista de ouro. Exigi aos gritos, aplausos que me foram abafados por olhares desconcertantes. Agora eu estou parado em outro aparelho observo cada movimento, cada respiração – no fundo a música do The Police, Every Breathe You Take.
Eu, como um abutre à espreita, continuo o meu vôo. O abutre é sempre aquele ser irônico nos desenhos animados que parece estar com um sorriso no rosto pronto para ver que a presa enfraqueça. Eu sou esse abutre esperando os personagens desse meu filme “vacilarem”. Gosto de rir das minhas próprias piadas. Imagino o diálogo em balões acima da cabeça deles. Seus diálogos e seus atos muito além da música repetitiva estão prontos fora dali. Em algum apartamento, numa rave, num bar, numa cama. MOVE, baby! Shake it!
Todos ouvindo James Brown, Sex Machine. Todos procuram saúde, bem-estar e como já tinha dito, sexo. Somos uma máquina.Uma máquina de sexo. Incansável. Querer o inalcançável. A grama do vizinho sempre é mais verde. Insaciável.
O abutre bate asas e sai de cena.

Saturday, July 21, 2007

Mistério da alegria é: SELVAGEM!

O mistério da alegria é selvagem!
Sabe aquela coisa que fica na tua cabeça como uma música ruim? Aquele refrão com português errado? Isso pode soar assim. Como uma bigorna que cai bem em cima da cabeça. Momento delirante. Lúdico. Sonoramente forte, de impacto, provocante e também, totalmente despretensioso. Para dizer a verdade, inútil. Comece a desmembrar a frase acima para torná-la mais audível e visual. Mais filosófica até. Eu a li num jogo de palavras imantados na porta externa da geladeira branca da casa de um amigo. Nem tão amigo assim, para sermos bem sinceros. Eu sou réu confesso. Tinha que fazer algo que pudesse utilizá-la, colocando o meu nariz entre suas sílabas, movendo as palavras, dando sentidos variados e variantes pensamentos que pipocam à frente dos meus olhos e vão de encontro com tudo que imagino que seja aquela idéia posta lado a lado com o que pensar. Certo, não tinha nada o que fazer. E os estribilhos cheios de lálálá foram acompanhando a batidinha de samba de bêbado já doido. Queria sacudi-la um pouco e ver se outras frases dali surgiriam com mais verborragia, mais loquaz, como farelos. Mostrar que ela estava errada. Currá-la! Se possível. Ou concordar com ela. O que eu não pretendia mesmo com todo aquele peso. Mas fica no ar essa exclamação com adornos de uma interrogação.
O mistério da grande alegria é selvagem! Será que isso é verdadeiro? Será que os nossos maiores receios, segredos são indomáveis, ferozes? O que será que isso quer dizer? Qual é seu fundamento? Que vivemos bem alegres e nessa alegria somos crias sem coleiras que continuamos vivos por causa do nosso instinto de sobrevivência? Podemos viver uma emoção extrema que nos conduza aos joguetes da irracionalidade para atingir nossas metas? Podemos cravar entre os discursos num debate essa frase sem que os outros olhem para você desnorteados com caras de bobos? Com certeza. E além do mais, e daí! Comecei achar que isso era mais uma forma arrogante do ser humano. É disso que precisamos! Bingo! Aparência. Superação. Comoção. Instinto. Estupidez. E uma dose bélica de cultura inútil.
Assim que vemos as outras pessoas. Dessa forma. Menores. Inúteis. Fúteis. Não os queremos conversando conosco para aceitarmos suas idéias. Nenhuma conversa começa só para preencher o vazio do momento. É um momento de ganhar a medalha. Queremos superá-los pela nossa (medíocre) inteligência; nossa superioridade adquirida nas liquidações do shopping mais perto de você. Temos que provocá-los com frases fortes de conteúdo dúbio e talvez sem nenhum apelo maior para nos mostrarmos o quão misteriosos podemos ser. Ou pretensiosos. E idiotas. Mas vencedores.
O Santo Graal do relacionamento entre as pessoas se baseia em emprego, escola, casamento, família, amigos, como se a vida fosse regrada e domesticada. Veja só procuramos discutir a vida alheia como se folheássemos uma revista de fofocas das vidas de artistas. Fuxico. Mesquinharia. De tão pomposos somos obrigados a derrubá-los, destituí-los de suas posições pondo em dúvida quem o ou o quê está certo. Tornamos uma simples conversa de mesa redonda numa enorme e intrigada análise de vida recheada de complexos, preconceitos, amarguras, falsidades e rancores de brinde, principalmente quando a língua fica mais solta por manipulações narco-químicas-alcoólicas. Nossa pretensão afoga qualquer manifestação efêmera de uma lucidez. Provocamos uma tempestade perturbadora em canais sensoriais.
Criamos bichos-de-sete-cabeças debaixo do colchão de boca aberta engolindo nossos medos e frustrações. E daí surge o bom humor. Por tanto vermos os outros como selvagens, não domesticados, esquecemos da sujeira de nossos umbigos. A calmaria depois da fúria de um furacão. Do cinismo egocêntrico em abraços e agradecimentos para o próximo embate. É isso que significa. Esse é o mistério. Essa é a maior alegria. Dominar a sua parte selvagem. E acabar por derrotar você. Ou até aparecer um comercial de cerveja melhor.

Friday, July 06, 2007

Perda.Perder.

Perda. Perder.
Há várias formas de perda; de se ver o que é perda.
Você pode perder uma parte do seu corpo; perder um ente querido, um amor; perder um jogo de futebol, a carteira, o relógio, o ônibus, uma oportunidade de trabalho, uma consulta médica. Perder tempo. E aquela sensação atônita de zanzar como uma barata que é agredida pela luz e saiu desesperadamente para o mais longe possível. Você acaba perdendo muito mais, pelo menos é essa a sensação. Perder a sanidade; perder as estribeiras, perder, perder, perder...E depois de chorar muito, cair aos prantos mesmo, sofrer como nunca, como se tudo ruísse ao seu redor, acaba parando. Como se parasse de sacudi-lo dentro de uma caixa de fósforos. A respiração pesada, sufocante que causa dor, que mexe com tudo dentro da sua cabeça, do seu corpo, dentro da sua alma para os que creêm. E passa. Dói, mas passa. Não é daqui há alguns segundos e nem daqui uns dias. Demora como uma cicatrização. Aquele corte que abre de vez em quando com as lembranças, com as derrotas, ao simples movimento dos olhos que nos traz recordações e uma onda gelada de perda.
Perder. Perda.
E as maneiras são tantas que diferem de uma pessoa a outra.
Não há limites e nem receitas para diminuir que você seja afogado por tudo isso. Mas quando você chega lá no fundo, o mesmo desespero que o empurrou para baixo também o faz se mexer para subir o mais rápido possível. Chegar até a superfície. E as ondas continuarão. Até você aprender a "furá-las", embarcar no próximo navio, escuna, tábua de salvação.
A vida continua...
E num jogo de rimas as palavras se modificam: perder pode se transformar em aprender. Mas para tudo isso você só pode contar com suas crenças, pessoas ao seu redor, amigos, família, bichos de estimação até, que o ajudarão a dar os passos para frente como um recém-nascido que tomba, cai, se levanta, se segura onde puder e continua, perdendo os dentes, aprendendo...Nunca perdendo a fé, seja ela qual for, como for, onde for.
Às vezes perder nem sempre é ruim.
Você pode garantir que perder tempo é tão ruim?
Perder o tempo ouvindo seu pai contar as mais deslavadas histórias que emocionam você pelos requintes de asneiras e inverdades. Das anedotas da sua mãe que ri descontroladamente e você também acompanha nas risadas por achar aquilo tão sincero, bonito e ingênuo. Do seu filho correndo de um lado para outro "viajando" em suas aventuras imaginárias.
Perder tempo ouvindo quem você admira. Perder um tempinho vendo o amanhecer da pessoa que ama acordando com aquela cara amassada, mas que você não consegue parar de olhar abobalhado.
Perder. Aprender. Aprender a perder é a grande prova da vida que todos temos que passar.
Espero que não tenha perdido nada lendo isso.

Saturday, June 16, 2007

FATAS IMPLERE- Conto

Nos enlaços da vida, três crianças cresceram separadas mas estavam unidas pelo mesmo ventre que as pariu. Seus caminhos foram cruzados várias vezes de incontáveis dias, entretanto sempre se encontravam pelo mesmo personagem que os segregou. Um distorcido guia que os levava, cada um, por caminhos descritos na sua fala embaçada numa péssima dicção. Personagem este, que se chama Bibo.
As três crianças cresceram. Malitia tornou-se uma mulher bela, sedutora e com ardor do seu corpo fremindo pelos homens que a cercavam. Abusava de seus encantos, os usava para alcançar seus objetivos e necessidades, sorria com o canto da boca como só quem sabe fazer entende o seu significado fantasiando o coletivo masculino. Sua cabeça transitava sem parar todos os subterfúgios que planejava com cuidado e astúcia. Pensamentos dos mais audaciosos e pecaminosos. Malícia em olhos profundos, boca de veludo e corpo de formas curvilíneas, além de ter um apetite sexual de quem sabe o faz e como se faz.
O segundo a tornar-se adulto fora Maculosus. Homem que sofrera na carne a desonra do seu nome. Era um tipo ignóbil. Nasceu com a marca dos desafortunados, não merecia o olhar fixo de qualquer pessoa que viesse ao seu encontro. Falso, covarde e desonesto. Sua pele trazia as cicatrizes da sua vida talhados à formão e suas roupas os farrapos da alma.
A terceira criança também não demorou muito para tornar-se adulto e homem. Benedictus foi criado de forma severa, porém seus convivas admiram-lhe a sua honra e honestidade. Era bem aventurado, boa índole já sabia o que era certo e o que se tornaria errado. Pudico e fiel, fruto da benevolência dos deuses.
Todos os três prosseguiam por seus caminhos descritos nas palavras de Bibo, autor das escrituras que guiavam os acontecimentos. Eles, mesmos separados, tinham algo em comum. Malitia, Maculosus e Benedictus nunca souberam de suas origens. Foram criados por entes queridos e diferentes. Mas Bibo, ardilosamente, os aguardava em mais uma encruzilhada, segundo as suas próprias palavras embriagadas pelo néctar do tempo, o futuro de cada um.
Os três chegaram juntos num ano na estrada da vida que se dividia em três vias. Cada um sentia um certo desconforto com a presença do outro. Bibo, gordo, surgiu do nada carregando em uma das suas mãos uma garrafa de vinho. Seus olhos negros e sua pele branca quase sem traços não coincidiam com a sua enorme barriga e suas pernas finas. Postou-se à frente dos três com desleixo e soberba. - Três caminhos; três pessoas. Nenhuma escolha e várias apostas. Disse-lhes bebendo desajeitadamente. - Cada um já tem para onde ir e não tem mais como permanecer. Vão! Sentenciou arrotando.
Malitia se aproximou de Bibo e perguntou-lhe com a voz macia, qual caminho que ela deveria seguir. Ele riu alto, enxugou o rosto suado e babou pelo canto da boca uma saliva colorida. Maculosus nem chegou completar a pergunta e recebeu uma cuspida. Benedictus permanecia quieto, calado, estático analisando os caminhos.
Nenhum deles moveu um passo. Bibo caiu no chão tentando segurar a calça que teimava em escorrer pelas suas pernas. Ele rira da sua própria situação. No fundo, ele temia pelo futuro dos três, pois não os via com clareza. Se arrependia do passado que os guiou e da forma que o fez. Gostaria de esquecer o presente que os faz viver.
Decidiram, Malitia e Benedictus acabaram concordando em ir juntos pelo mesmo caminho. Maculosus tinha medo, mas sabia que poderia usufruir das experiências encontradas por eles e evitar os inevitáveis obstáculos. Aproveitando-se dessa confiança de ambos, aceitou ir junto, mas uns passos atrás.
Os três juntos num caminho só. Separados pelos anos e unidos pelo futuro. São um só. A malícia das pessoas, seduzindo, conquistando espaços; a desonra de quem traí, de quem corrupta, de quem usufrui do sucesso alheio; e o abençoado, quem tem coração puro, que ajuda, que auxilia, que busca o bem-estar do próximo juntamente com o seu. Eles unificados num corpo que fora desmembrado, respira inteiro.
O caminho se torna cada vez pior, íngreme, perigoso e muitas vezes, deserto. Muitas dessas vezes, um desistia e os outros o carregavam. Num trecho menos acidentado, Bibo urinava aguardando-os. A garrafa ao seu lado, à esmo, ainda pela metade. Riu. Os três o ignoraram.
O destino se faz por si só. Ele já está escrito. Seria muito seguro pensar assim; é um caminho ainda sem fim. Quando acabar, outro começará. Nem que seja à sete palmos ou na piada de um bêbado sujismundo qualquer.

Tuesday, June 12, 2007

FATAS IMPLERE

QUE O DESTINO SE FAÇA POR SI.......................

Wednesday, May 16, 2007

Bufos

A primeira coisa a ser vista foi quantas garrafas acumulavam-se em cima da mesa. Olhei com firmeza sem dar maiores atenções às pessoas ao redor. Todos viram-me parado, observando as garrafas e me cumprimentaram. Um deles, com sorriso largo, convidou-me para me juntar a eles. Pestanejei e novamente insistiram, agora em coro. E eu, instigado, me juntei a eles, permanecendo ao lado, em pé. Via suas vozes e atitudes se elevarem às gargalhadas. Ouvia o tilintar de copos estraçalharem-se. Brincadeiras à parte, um copo de cerveja tomba sob a mesa fazendo da sua ação o centro de um rebuliço maior. Entre a gritaria e os dizeres mais iconoclastas possíveis, desculpa-se a autora.
Seis pessoas sentadas, quatro em pé e eu escorado numa das pilastras do café – bar. É moda em Porto Alegre. Um nome mais refinado para entornar litros de cerveja, sem que seja pejorativo. Ao nosso redor outras mesas de seis lugares abarrotadas de pessoas diferentes, iguais e semelhantes em suas roupas, maneiras, estilos e conversas, até o sexo, também povoavam o universo etílico.
Como um estudioso, fico ali, revelando aos meus conceitos à personalidade de outros. Meço suas atitudes, seus gostos, seus semblantes. Beberico de outros copos, goles e mais goles de cerveja. Multiplica-se o número de garrafas com a minha chegada. Mais uma vez, aos berros os meus colegas de bar me alcançam um copo só meu. Sou servido até transbordar os afagos dos amigos.
Tinham uns tipos bem definidos. O JH, um homem de quarenta anos viciado em refrigerante dietético e cerveja, devorava saches de maionese com voracidade. Espremia-os na sua língua, lambujando-se. GA, já mais gritante do que de costume, fez presente com um sonoro arroto que atraiu atenção, aplausos, sorrisos e ânsias. SE, uma menina de dezenove anos, mas com a massa muscular de cento e cinco, sorria de boca escancarada. JH ensaiava rituais performáticos com as mãos tentando agarrar as lâmpadas no alto do bar. FR tinha o ar sério, bebia com calma, lento, quase parando. Um beija-flor de mesa de bar. Uma nova cria de “barfly”. Aos cochichos, JU e LR, abraçavam-se movendo os lábios e os olhos para um lado e para outro repleto de insinuações. GA tentava em vão participar desse mundo aparte. Através de sorrisos amarelados e copos vazios, foi sumariamente rechaçado. O cenário perfeito. Como se os outros estivessem invadindo sua casa, os seis, sentados, faziam caras e bocas costurados por comentários nada gentis; os quatro, de pé, analisavam cada mulher que entrava no bar e suas características mais marcantes. E eu, encostado, observava como uma câmara de vídeo, dando zoom, avançando, retrocedendo, mostrando closes, cortes, aumentando o som e colocando todos em mute. Assim estávamos, no calor impertinente fora de época. Num agosto à base dos vinte e poucos graus no meio da noite sulista. Bebíamos à esmo, como se não tivéssemos fundo. Dava para notar na silhueta de cada um: gordos, flácidos, obesos, sedentários zunindo de lá para cá. Correndo, no máximo, até o banheiro. Se muito iam, aos atropelos, no balcão exigir a próxima rodada. Os saudáveis atletas de levantamento de copos e flatos à distância. CB batia no peito dizendo-se mais torcedor que todos ali presentes. Chegava a ficar rubro, como a camisa do seu time, para demonstrar tamanha dedicação. TA, engoliu toda a cerveja do seu copo de duzentos e cinqüenta mililitros, para contrapor-se ao dedicado torcedor. Mostrou sua tatuagem com o escudo do clube. JH participava do diálogo em expressões que criara no dileto lúdico dos beberrões. O pacificador, MD, abraçava os dois dizendo a todos que o importava era a paixão. Eu atiço a todos em projetar suas fúrias aos torcedores do rival. Um levante se instalou. Casais discutiram abertamente. Mães foram citadas de forma nada puritanas. Amigos empurraram-se tentando chegar às vias de fato. Silêncio, enfim! Chegou mais uma rodada.
Enquanto isso os donos da casa foram esbarrados pelos turistas de plantão. As ofensas musicavam o ritmo das conversas paralelas. Os estrangeiros atreveram-se em responder. Fúria. Quedas. Rebelião. E o inevitável, deixa disso. Sem antes uma instalação de demarcação do território.
Quietos, mais comedidos, conversavam. Diziam-se muito mais próximos um dos outros. Marcaram encontros e o que iriam fazer daqui algumas horas. Uns nãos e outros confirmados, foram-se. Fiquei ali, com um copo na mão rindo. Guardei as imagens certas e olhei para o céu. Negro, sem nuvens. A poesia de concreto, cimento e argamassa de JH estava escrita em versos engessados nos anais dos guardanapos de papel em cima da mesa, onde uma parte estava manchada e ilegível: Na sua boca...sua cadela loca...

Dei o stop.

Sunday, April 29, 2007

Três Vezes (1)(2)(3)


Voar. Não creio que exista alguém que não tenha sonhado, desejado, tentado voar. Planar sob as situações, através dos céus e atingir os mais lindos lugares do alto da vida analisando, sorrindo e imaginado as soluções dos problemas, dos medos, das alegrias e por que não, da religiosidade de cada um. Um vôo rápido e recheado de adrenalina carregado pela simples vontade de ter uma leveza insustentável das suas faltas, querendo esquecer suas culpas, falhas e erros. Embriagado com a vontade de pousar nos arrabaldes nada inglórios de uma sensibilidade que passeia arduamente sob o fio da língua afiada, tal como um ballet performático. Voar como os deuses, como os pássaros, como as folhas que caem no chão lentamente advindas do vento, nem sempre suave. Padecer da violência desenfreada que se apossa dos confins do cotidiano. Alimentar todas formas de liberdade gritante que sorri com o calor materno, protegendo-nos com o planar de idéias e os malabarismos de nossas ações tolas. Sorver a inconsistência do espírito alcançando o Sol pelo ordinário gesto de estender as mãos. Voando, assim desse jeito como se pudéssemos romper com os elos e relacionamentos conturbados de convivência nada fraternal junto ao próximo, que muitas vezes admiramos na sua ausência ou na sua distância.
Ter a sensação frutífera de proporcionar um prazer maior que a satisfação do ego, muitas vezes um enganador, trapaceiro e escudeiro confidente de ilusões; voar acima dos convivas sem prejudicar sua essência, seu marasmo de atitudes e sua amizade. Voar como os anjos que transitam o Universo de fé de tantos e que generaliza o inalcansável “mundo” perfeito em meio à diversas imperfeições.
Não se preocupar com os casulos construídos ao redor das pessoas evitando que elas trespassem os seus limites e as permissões para que os seus objetivos mantenham-se em determinada ordem. Voar não para fugir, mas para aprender.
Voar pela gentileza dos singelos romances que afloram e devoram as pessoas de uma maneira insana, clara e apaixonada nos mergulhos oscilantes dos altos e baixos que carregamos como provas absurdas de nossos sentimentos. Voar agraciados na delicadeza dos atos que nos condenam a peregrinar nos abismos dos amores e seus rancores.
Na esperança de conseguirmos encarar as janelas dos dias com os olhos ávidos de surpresas e não de desgastes rotineiros. Voar com a inexperiência de quem ama pela primeira de outras tantas vezes que diferem-se, transformam-se, distorcem-se, recriam-se nas asas imaginárias de algumas viagens ainda sem fim, mas com a ida garantida numa aposta de valores abissais.
Quem jamais pôde ter a liberdade de voar pela vida com suas asas, não poderia nunca dizer que sonhou alguma vez. Respirando cadenciadamente até abrigar-se nos braços dos anjos com a benção dos deuses numa revoada de lembranças esclarecendo novas dúvidas.

Cair. Cair lentamente, suavemente, apressadamente e, inconseqüentemente, chegar ao chão. Permanecer imóvel, olhando para todos os lados e encarando o misè en scéne desses instantes que nos encontramos inferiores aos outros, receosos do que há por vir. Temendo o medo dos atos que o sexo sabe justificar, por exemplo.
Estar impotente aos poderes frígidos que absorvem o nosso dia a dia. Cair de quatro por sentimentos, delírios, desesperos e ficar de quatro em tantas situações, de tantos sexos e prazeres, de tantos e tantos corpos que se afogam entre nossos lençóis, que caem em nossos sonhos e perversões, fantasias e mentiras.
Ter a vontade de pedir perdão caindo de joelhos em frente a quem ama, mesmo que não notado, não visto, sequer fazendo jus a sua presença. Ficando em êxtase que se prolonga como um orgasmo rápido, forte como os doces prazeres fazem os corpos tremerem, caindo em devaneios, finalmente, o gozo de uma vida qualquer.
E de boca aberta, entrelaçando idiomas nas mais diversas línguas, engolindo a saliva alheia como quem concede, piedosamente, a submissão. Com a boca fechada deferindo atritos na pele arrepiada, tensa, excitada. Caímos no desejo realizando fantasias que antes ou depois poderão apenas fazerem parte das histórias comuns do sexo de momento, sem sentimento, sem mais delongas. Mordendo os lábios molhados que dançam na minha, na sua e na nossa língua.
Afundar nos abismos dos excessos, das faltas, do sim e do não. Entrar nos segredos e tabus convencendo o Universo criado por você mesmo que apenas seja uma mera e ordinária aventura. Discernindo sobre o sangue com o perfume do gozo. Iluminado pela sombra do Sol no fundo desse tipo de abismo. Do meu, do seu, do nosso abismo.
Estarei sentado esperando cometer mais erros, mas não saberei saborear o sentimento de amar, caindo na facilidade do desejo; caindo em queda livre, sozinho.
E sozinho, poderei voar como um morcego que, cego, busca a sonoridade da presença da sua presa para sugar sua vida e parasitar sua existência. Sozinho com o desejo à flor da pele, caindo.
Com a absoluta certeza de que um amanhã pode ser igual a outro e outro e outro dia, pelo simples espasmo do amanhecer e do cair da noite escura, profunda e densa como as consciências das pessoas que aos olhos dos santos flamejam as espadas dos guerreiros em suas camas por “n” formas e posições.
Calo-me caindo de olhos abertos no vazio da minha sombra, um recanto de lembranças e de marcas.



Aqui. Com os pensamentos jogados fora pelo desdém de alguns atos, que de tantos afazeres, inutilizam a consciência do tempo. E desse tempo rompemos nossas barreiras, admiramos o acalentar quase inútil da sensibilidade que temos em relação “à relação” com quem nos é chegado. Digo, sem pesar, que não acredito do que me falam horas à fio, com as mais ousadas e frias tentativas de provar o que é o amor e qual amor sentes. Voando ao longe; caindo tão perto. Tanto acolá, mas bastante para estar somente aqui.

Friday, April 06, 2007

EPICENTRO


Me deixe ser o centro temporário da sua atenção
Posso me perder com a tua ausência do recinto
As luzes acendem aos poucos quando te sigo

Me permita entender a tua intenção

Não sei se me quer como teu dono
Ou prefere minha submissão

Duelar com as tuas manias
Posso jogar fora todos os meus vícios
Paranóia por palavras vazias
Em novos argumentos e velhos artifícios

Me deixe ser o centro temporário da sua atenção

Mesmo que seja tão breve,
Contra o tempo socando o ar
Igual a um relógio quebrado,
Permanecemos lá...

Me tenha sem obrigação

Posso me perder com a tua ausência do recinto
As luzes acendem aos poucos quando te sigo
Mas tudo parece tão escuro
Algo estranho, frio
Tua presença, eu sinto...

Não sei se me quer como teu dono
Ou prefere minha a submissão

Me deixe ser o centro temporário da sua atenção

Sunday, April 01, 2007

Corte de Navalha

Pelas portas enormes de madeira trabalhada de uma Igreja, adentrou um homem de porte médio, cabelos longos, ralos e grisalhos, de óculos escuros como sua roupa, uma jaqueta de microfibra acompanhada de uma camisa social, gravata, sapatos limpos brilhantes e uma calça de linho. Seus passos ecoaram por cada metro quadrado daquele templo, tanto barulho fizeram que chamaram a atenção de alguns poucos fiéis que, ali, prestavam suas orações no meio de uma tarde agradável de primavera. As senhoras que ocupavam os quatro primeiros bancos à frente do altar, mesmo tendo prestado atenção ao homem que acabara de entrar, continuavam em voz alta, a rezar o terço.
O homem coçava o queixo e olhava para cima. Media com os olhos escondidos atrás das lentes dos óculos escuros, a altura do chão até o teto da Igreja. Calculou em voz baixa. “20 metros”. Verificou as paredes do local. A peregrinação de Jesus passando pela crucificação até a ascensão aos céus. Seguiu pelo olhar dos seus óculos cada trecho, os momentos seguintes e os requintes artísticos que ilustram a história narrada em silêncio nas paredes do templo. Admirou os santos colocados nos cantos da Igreja. Viu uma enorme cruz com Cristo crucificado. Refletia um vago olhar, muito além do que estava a sua frente, das pessoas que rezavam e daquelas que deixavam a Igreja em passos lentos.
Ele parecia esperar por algo ou alguém. Demonstrava uma certa inquietude que crescia junto com sua angústia. Resolveu se sentar em uns dos bancos laterais. Não retirou os seus óculos escuros e iniciou uma brincadeira irritante com o seu isqueiro. Assoprava a chama que era acendida várias vezes. Procurou o seu relógio que estava em seu pulso esquerdo. “16 horas”. Finalmente, retirou os óculos. Viu com maior clareza o interior da Igreja. Os sinais de mofo infestavam ao longo dos pilares laterais e das rachaduras das paredes. A falta de acabamento de algumas partes do reboco estavam tornado-se cada vez mais salientes. O ar era úmido, mas a simplicidade do lugar causava um sentimento reconfortante, um antagonismo com algumas Igrejas que ostentam um verdadeiro “palácio”. Notava-se que era um lugar humilde, de poucos recursos. Os fiéis depositavam velas que traziam esperanças e promessas que iluminavam o seu interior com um penumbra fraca.
Não havia nenhum outro som, a não ser pelas orações das mulheres dos bancos da frente diante do altar. Empolgavam-se com o acompanhamento dos terços que empunhavam entre os dedos. De cabeça alta encaravam o Cristo crucificado, muitas cerravam os olhos e levantavam os braços, outras continham suas atitudes sem baixar o tom de voz. O homem fez o sinal da cruz e ajoelhou-se. Não começou a orar, nem a soletrar nenhuma palavra, sequer pensava em alguma oração. Ele só ficou naquela posição em silêncio. Esperava o tempo passar, pois tinha algo importante a fazer. Só faltava uma peça para ele montar esse mosaico de angústias. Alguém com quem pudesse dialogar. Que poderia estar ali, naquele lugar, naquele instante. Não qualquer pessoa; só a escolhida por ele. Só quem pudesse ouvi-lo.
As portas do confessionário rangeram ao abrirem-se. O homem levantou a cabeça em direção à porta e viu uma senhora muito magra, com a pele branca coroada por rugas, saindo. Em seus olhos morava uma tristeza melancólica como se lá corresse um rio distante, pacato, estagnado e que pelo tempo vai secando até não existir nenhuma vida. Pareceu aos olhos do seu observador, que ela tinha acabado de descobrir algo terrível que a fez envelhecer mais ainda. “Sinto pena dela. Não sei porque, mas sinto a dor dela, de como foi difícil para ela passar tudo aquilo. E a partir de agora será pior; ou talvez, ela simplesmente, conseguira se libertar de tudo que lhe causou aquelas marcas.” O homem ficou de pé rapidamente, depois de ter filosofado de forma barata a vida alheia, bateu com as mãos nas pernas para dar impulso e forçou os calcanhares no chão. Ergueu-se e sentiu-se cansado, nervoso e muito mais ansioso. Rumou com seus passos que gritavam ao contato com o chão fazendo o som crescer dentro daquele recinto. Aos mais desavisados era nítida a imagem de um soldado marchando ao seu destino. Para outros que o acompanhavam de soslaio, figurava um homem curvado que trazia sob suas costas uma culpa ou boas novas, pela pressa de seus movimentos, tal qual um predador atrás da caça.
E naqueles poucos metros até a porta da entrada do confessionário, ele deslumbrou com as cenas de ontem. Ouviu o grito daquela mulher ajoelhada no cordão da calçada da avenida central, chorando com um menino em seus braços desacordado. Centenas de pessoas circularam os corpos a sua frente e penalizaram o acontecido. Culpavam a violência, a velocidade, o motorista, o homem. Depois de alguns longos minutos, dois policiais prestaram socorro a mulher e ao menino ensangüentado. Trouxeram uma ambulância que abriu caminho em meio ao trânsito de carros e pessoas. Iniciou um empurra - empurra que resultou em crispas entre os observadores de plantão. Brevemente, todos foram se espalhando com o fim do incidente. A voz agonizante da mulher ainda ressoava pelas esquinas e o cochicho continuava se propagando. O eco se fez pela Igreja de uma forma cadenciada e gradual dando a sensação da presença às suas costas. Um terror corroeu o seu corpo e uma vontade incessante de chorar padeceu de seus olhos. Pensou naquela senhora que acabara de ver e da mulher de ontem com o seu menino. Voltou o seu olhar para a imagem do Cristo crucificado e lentamente, colocou os seus óculos escuros.
Do confessionário estava saindo um padre, desta vez. O homem girou o seu corpo e apressou o passo na sua direção. O religioso colocou a mão na testa, com um gesto que parecia que ele tinha esquecido de algo. Reabriu a porta do confessionário e desapareceu por alguns breves instantes. O homem de preto, novamente, retirou seus óculos. Parou diante da porta do confessionário aguardando o padre. A demora, quase imperceptível, parecia maior e o passar daqueles segundos transformaram-se em horas arrastadas. Sob suas costas, ele sentia um arranhão que perfurava a sua pele, causava-lhe dor, o fazia suar e enfraquecia suas pernas. Chegou a curvar-se diante da porta e aos poucos foi deslizando para o lado, onde estava a imagem de Nossa Senhora. Ele olhou para cima e sem mais e nem menos, parou de respirar. As velas dos fiéis se apagavam pela leve ação de uma brisa delicada, mas competente. Abriu os olhos e viu o teto da Igreja. Lá em cima tinha um desenho criado pelo tempo, pela sujeira, mofo e uma porção de resquícios de insetos que pintavam as teias de pequenas aranhas. Coisas febris que se alojavam em sua percepção. Crua realidade do final daqueles insignificantes seres submetidos aos caprichos sádicos de seu predador.
Em pé, já recuperado, enxugando a testa com a manga da camisa, o homem direcionou o seu corpo um pouco para o lado e deteve-se diante da porta do confessionário. Hesitou e finalmente empurrou - a. O movimento foi pesado e lento. Em seguida os seus olhos estavam vendo outra cena. Um grito; nada mais. Mais gritos. A voz de um homem e o pranto de uma mulher. A porta abrindo-se e o homem que gritava esmurrava a mulher que chorava. Rasgava suas roupas, puxava-a pelos braços, colocava para cima as pernas da mulher e a penetrava com força seguidas vezes. Esbofeteou-a ainda mais, deixando a mulher grogue. Ele virou a sua vítima de costas e a seviciou. Ao final, ainda deu-lhe um soco na nuca. Se vestia revirando a bolsa dela. Pegou algumas notas de sua carteira e foi saindo pela porta de entrada. A mulher estava desfalecida, tremendo, espumava pela boca e sangrava pelo rosto todo. Um casal de vizinhos entraram no apartamento da mulher violentada e a acudiram. Ligaram para a polícia e a ajudaram a ir para o HPS mais próximo. A porta continuava abrindo bem devagar e soava como um corte na frente de todos. “Me sinto nu. Estou aqui atrás de respostas. Estou nu, despido de consciências e com a alma a mercê. Estou nu por dizer coisas estúpidas demais e não fazer nada.”
“Como se o fogo - fátuo ardesse sob minhas veias, eu não sei se acredito mais”. O próximo passo que deu, o fez enxergar mais uma imagem daquelas que ilustravam seus pensamentos. Uma criança recém - nascida chora, enrolada em panos encharcados, em meio à sacos de lixo. Em sua boca sai um escarro misturado com vômitos. Do outro lado da rua, uma mulher corre apressada lacrimejando. Alguns garotos ouvem o som vindo do meio do lixo e retiram o bebê dali. Preocupados, eles também correm para um lado com o embrulho humano em seus braços. São dois meninos que jogavam futebol no campo da praça perto onde ficam os sacos de lixo. O bebê balança, sacode, chora e tenta se conter. Eles chegam a uma farmácia e a balconista lhes presta auxílio. A demora de encontrar socorro médico os faz agirem com emergência. Depois de ter os primeiros cuidados, a pequena criança se aninha num dos braços de quem a abraça. Ambos dirigem-se ao hospital mais próximo, felizes, porém ainda temerosos. É desse medo que o homem sentia. Dessa tensão de não saber até quanto vale a intenção das pessoas. Talvez, seja disso que realmente ele fale. Ou talvez do que ele nunca tenha sentido. “E em silêncio retornei meus pensamentos para outro local”. Um grupo de jovens estão numa rua movimentada, carros importados estão estacionados. O grupo era heterogêneo, moças e rapazes faziam parte de sua formação. Cigarros, cervejas e uma superfície lisa sob o capô do automóvel parado. Como um ritual cada um tinha a sua vez para consumir alguma droga. Do outro lado da rua, um grupo de meninos iniciam uma briga. Um deles retira da cintura um revólver e dispara no outro à queima - roupa. Berros e corre - corre. Grita, então, uma sirene pela avenida.
“Onde estão todos quando precisamos de ajuda? Quem pode, realmente, nos socorrer?” Novamente, o homem se viu diante do padre, que arrumava a única janela do recinto. Havia, ali, quadros e pinturas de Nossa Senhora, São José e do menino Jesus. Uma bíblia aberta sob um pequenino altar e uma estante enfeitada por arranjos de flores que ficavam do lado direito das cadeiras que estavam no meio da minúscula sala. As cadeiras ficavam lado a lado, uma de frente para outra. O padre percebendo que alguém entrara, mesmo de costas, pediu que sentasse em uma das cadeiras. Então, com calma, o homem sentou na cadeira que ficava de costas para a janela. Com um certo alívio, ele foi se acomodando, ainda com o corpo dolorido, essa dor que não tem nome.
O padre sentou-se a sua frente, mas não o encarou, sequer colocou os olhos nele. Abaixou a cabeça e colocou as mãos no rosto, fechou os olhos e o saudou. O homem salivou, coçou a garganta, olhou para cima e fez sua palavra o silêncio. O padre insistiu na palavra do homem. Ele, por sua vez, gaguejou as primeiras sílabas: - Paapa.. padre, eu estou aqui para conversar... - Claro, todos temos que falar. Ótimo você encarar esse momento de uma forma tão informal. Para um padre, conversar é... - Não é bem uma conversa informal, padre. É mais um diálogo. Eu tenho dúvidas e gostaria de dividi-las contigo para que tu consigas me esclarecer alguns pontos nebulosos. - Como assim, filho?! - Eu não sou seu filho, padre! Exclamou com um certa irritabilidade, o homem. A reação do padre foi de espanto e estupefação que deixou-o em silêncio. Com uma certa cautela ele continuou a conversa: - O que vieste fazer aqui? - Quero que tu me respondas. Estou cansado de procurar respostas que não existem; de perguntas que dilaceram as pessoas. - O que dizes é no mínimo ridículo. Quais são as perguntas e porque tanto drama?! Comentou ironicamente o religioso. - Padre, eu sou uma delas. Eu sou o mal, a fome, a faca que atravessa o amigo que lhe pede auxílio, do irmão que vira o rosto diante da falta de esperança do outro, aquele que cobiça a mulher do próximo, que violenta o desejo e a vontade do mais frágil; que cala ao deparar-se com uma injustiça e faz dela um escudo usufruindo de seus deméritos. Sou aquele ri da desgraça e desafortúnio dos menos favorecidos. Aquele que quer derrotar e arrota pela alma com vitórias sem glórias. Eu sou a resposta cada vez que alguém é estuprado, que uma mulher, criança é totalmente humilhada. Sou eu, padre, eu que vim te procurar para que tu me respondas essa pergunta que deslumbro todos os dias, todas as horas e que nunca teve uma resposta digna, a não ser eu mesmo! Vamos padre, diga! Tu não és um homem - santo, o porta - voz de Deus. Vamos, mostre - me o que eu vim procurar. - Você é louco!? Disse assustado o padre, sem olhar o homem nos olhos. E ele riu, levantou-se da cadeira e andou em círculos pela sala. - Observe padre, quantas pessoas morrem por dia e sequer alguém derrama uma única lágrima por eles? Ninguém quer saber do próximo, padre, ninguém. As pessoas querem que seus filhos, seus bens, seus futuros dêem certo, que seus amigos sejam grandes amigos, que tenham, junto com eles, o mesmo sucesso mas não mais. É essa a imagem e semelhança de Deus? É assim que Deus se parece? - É óbvio que Deus não é assim! O homem é que distorce tudo, acaba contudo, quer o mal do outro. Deus é amor. Concluiu o padre. - Muito bonito. Quanta poesia! Mas explique-me. Eu, que sou a raiz que apodrece a terra, que sou o ódio estampado nos rostos delicados de uma criança ou a raiva dos homens que querem se apossar de tudo e de todos, eu, que sou igual ao seu vizinho ao seu filho e ao seu amante, eu que quero destruir sua imagem, terminar com sua doutrina, apagar sua existência; eu. O padre tentou levantar a cabeça, mas o homem pousou a mão em seu ombro e o fez desistir sem usar nenhuma força. - Não consigo entender o que você diz e nem o que fazes aqui. Estou aqui, agora, para trazer paz aos corações aflitos e de certa forma, dar a palavra de perdão de Deus. Por mais que você fale, eu não entendo. - Murmurou o religioso. - O que eu faço aqui, padre, é a mesma coisa que todos quando chegam por aquela porta e despejam o seu “mundinho” que reclamam tanto, que temem ainda mais. Eu sou aquilo que as pessoas te contam, estou ali dizendo, salivando, cuspindo os problemas, invejas e faltas. Sou eu que estou ali, não Deus todo poderoso. Só eu. - Duvido que você saiba o que estás dizendo. Ouça a palavra do Senhor e verás que tudo isso não passa de uma idiotice insana vinda da sua cabeça. Você precisa de um médico, de auxílio espiritual. O homem começa a rir e senta-se na cadeira de novo, logo após um breve momento de silêncio; ele começa a choramingar. - Padre, eu sou a doença que mata, aquela que flagela, que tortura, que ronda os lados escuros da vida. Balbuciou. Desta vez o padre colocou a mão no ombro do homem e tentou olhá-lo, mas um filete de luz vinda do Sol interferiu de forma veemente. Naquele momento, o tempo e o espaço deram uma guinada na cabeça do religioso. Ele observava algumas crianças brincando num pátio; o pátio da escolinha atrás da Igreja. Não dessa Igreja, da outra perto do Seminário onde o atual padre estudava. Os dias pareciam de pura devoção às belezas da vida e da fé. Aquelas crianças corriam, riam e pulavam de um lado para outro como se não houvesse maldade, como se o Universo se resumisse nas suas brincadeiras. “Nessa época eu tinha vindo de uma infância e adolescência sem muitos conflitos; meus pais eram conservadores, cristãos e não eram praticantes. Escolhi ser padre por causa do conhecimento, por ter a condição de ser a ponte entre Deus e os homens mostrando que os pecados que cometemos podem ser perdoados se nos dispomos a isso. Queria poder mostrar o quão fantástico é a vida religiosa, de como é magnífico ter fé e com ela viver intensamente, muito mais intenso do que qualquer prazer mundano.” Alguns momentos foram se adiantando nos olhos do padre e ele trouxe para si outras lembranças. “Quando eu acordei naquela manhã de março, eu sabia que alguma coisa iria acontecer. Um dos seminaristas correu até meu quarto e disse que uma das crianças tinha sofrido um acidente. Por sermos muito amigos, nós corremos juntos pelos corredores da Igreja até encontrarmos a criança acompanhada de um casal. Eles me diziam que o menino havia chegado anestesiado em casa altas horas da noite e com alguns hematomas pelo corpo. Eu e o outro seminarista o levamos até a uma ante-sala para deitá-lo num divã. Os pais se identificaram e pediram para que fizéssemos alguma coisa, pois eles iriam embora. Meio nervoso, não contestei. Droga. Não contestei! O menino deitou-se e reclamou de dor. O garoto não tinha mais do que seis anos, pele levemente morena, cabelos raspados. Perguntamos o que tinha acontecido e ele desviava o assunto perguntando várias coisas à respeito da Igreja. Pelo nervosismo, nós dois não conseguíamos argumentar. Pedimos que ele nos contasse o que tinha ocorrido para estar machucado e porque os seus pais não o levaram até um posto médico. Ele, finalmente, resolveu colocar-se sobre o divã. Começou a cantarolar uma música popular, daquelas que povoam as rádios e programas de televisão todos os dias. O outro seminarista disse que iria buscar água e curativos. Sozinhos, o menino disse-me tudo que eu não queria saber. - Bateram em mim. Me fizeram sentir dor. Me deixaram assim deitado e enfiaram aquilo dentro de mim. Doeu muito. Doeu demais, mas não paravam de enfiar. Aquilo era grosso, grande, duro. Me Sujaram, me bateram de novo. Me enfiaram aquilo de novo. Tentaram por na minha boca. Não deixei e apanhei mais ainda. Me lambuzaram com aquilo que saía de lá. Espalharam na minha cara, como já tinha escorrido por mim inteiro. Eu falei para o padre e ele disse para eu nunca falar para ninguém. - Toda aquela cena me destituiu das nuvens. - Quem foi que fez isso? Um padre?! - Naquele instante, o outro seminarista entrou na ante-sala e o menino se calou. - O que houve? O que ele disse?! Perguntou o seminarista. Acenei com a cabeça negativamente e disse-lhe que não entendera bem o caso. Ele pediu para que deixasse o menino a seus cuidados, que já o conhecia. Eu fiz exatamente isso. Fui embora, depois de tudo que ouvi. Deixei aquele menino com uma dor que eu não soube curar, um mal que ele jamais vai tirar de seu corpo. O deixei com alguém que ele conhecia. Com alguém que poderia ser o causador daquele mal ou não, mas o que importa é que eu fui embora. Não o ajudei.” Corre por suas lembranças algumas cenas. “ Deus me deu a resposta. Dez dias depois, o seminarista, vou chamá-lo de Ivan, não apareceu a uma das aulas do fim do dia. Fomos, eu e mais dois seminaristas, ver o que tinha acontecido com o nosso colega que nos últimos dias estava muito calado, deprimido, desligado das aulas e das orações. Chegamos ao seu quarto e o vimos. Ele estava pendurado pelo pescoço enforcado num cinto de couro amarrado nos suportes do alto da janela. Um homem de estatura pequena, de farta cabeleira, um pouco acima do seu peso estava ali, morto, nu. Descobrimos que um tio do menino tinha vindo até o seminarista e o ameaçou, não contente foi a polícia e fez uma denúncia acusando-o de molestar o seu sobrinho e mais alguns meninos que brincavam no pátio ao lado do Seminário. Eu tive culpa. Poderia ter ajudado o menino e a tantos outros que foram sendo identificados como vítimas do Ivan. Talvez pudesse ter ajudado ele a se curar, a se conter e a procurar paz. O nome Ivan não existe na verdade, mas o autor dessa barbárie, sim, numa verdade qualquer. Deus me perdoe”.
O padre voltou a si dentro do confessionário, mas estava sozinho. Olhou ao redor e procurou o homem que antes estava trazendo suas lembranças. Levantou-se da cadeira, ficou em pé e logo depois ajoelhou-se nos pés da janela. Sentiu o calor do Sol em seu rosto, entretanto uma sombra se pôs a sua frente. Ele abriu os olhos e viu o homem de preto. - O que foi padre, encontrou as respostas?! Debochou, ele. O padre abaixou a cabeça, juntou as mãos e começou a rezar. - Eu não estou ouvindo?! Me diga, vamos! Insistiu o homem. As orações começaram a aumentar a ponto de se tornar uníssono e inaudível.
As pessoas que estavam dentro da Igreja passavam caminhando pela frente do confessionário. Percebia que o padre orava; alguns paravam diante da porta, outros comentavam e seguiam seus caminhos. As conversas aumentavam com a mesma ênfase que eram deferidas as orações dentro do confessionário.
Algumas lembranças recomeçaram e o padre deteve suas preces. Era uma tarde igual a hoje, um homem veio conversar com ele no confessionário. “Foi como agora, de repente. Um sujeito entrou e se sentou. Murmurava baixinho com medo. Eu ouvia com atenção. Eram pequenas coisas, sem nada de agravante, até ele começar a falar o que realmente tinha feito, antes de vir até aqui. - Padre, o senhor pode perdoar os pecados de qualquer cristão, certo?! - Não sou eu quem perdoa, meu filho; é Deus, pai todo poderoso. Diga-me que mal te afliges e serás agraciado pela dadiva do Senhor. - Eu matei uma pessoa, padre. - Como??? - tentei manter a calma. - Eu matei minha mulher. Matei com uma pá. Ela me enchia, não agüentava mais a voz dela, o jeito dela, o cheiro dela, a cara, o corpo. Meti a pá na cabeça dela, enquanto dormia que nem um bicho. Foi hoje pela manhã. Me perdoa, padre. - disse o assassino confesso. Eu não sabia o que fazer, de novo. Pensei, eu juro, pensei em chamar a polícia, mas ele estava sob sacramento sagrado da confissão. - Creia que você só terá a paz, quando te entregares às leis dos homens. Só assim Deus te perdoará. - o confessor admitiu a possibilidade de imediato e sem mais pestanejar, se retirou. Tudo muito rápido e eu sequer pude entender o que havia acontecido. Pensava que no fundo tinha feito o que era certo. Dois dias depois, lendo um jornal, descobri o que acontecera com o assassino confesso: ele tinha sido assassinado no presídio central, sem ter tido julgamento ou defesa. Segundo testemunhas, no seu depoimento, ele admitia a culpa e exigia ir para o Presídio Central, pois só assim Deus o perdoaria. E eu sequer prestei auxílio a ele como devia. Eu estou aqui em nome de Deus ou porquê?” Sentenciou, o padre.
Um carro acelerava do lado de fora da Igreja. O ruído que saía de seu motor era ensurdecedor. A barulheira trouxe o padre para o presente. Ele viu-se de costas para o homem com quem conversava, tentou virar-se, mas por vontade própria desistiu. A poluição sonora perpetuava incessantemente até que de repente, findou-se. - O que houve, padre? Lembraste de algo, não é?! Indagou o homem. - Não sei o que você tem haver com o que aconteceu, mas eu sinto no meu coração que você estava lá. Disse ele. - Eu não lhe disse que sou eu. Sempre eu! Confirmou. - Me disseste que és o mal, o erro e o que vejo aqui é que você não passa de um homem apenas. Disse o padre olhando, finalmente, para o seu companheiro. Em silêncio o outro permaneceu andando de lá para cá, parou e encarou o padre. - Amigo, sou eu que protejo, que não deixo você morrer causado pela violência ou maluquice do próximo. Sou eu que estive sempre ao seu lado, quando choraste, quando te descobriste homem, ser humano e frágil. Eu, somente, eu. Vim aqui para descobrir porque andamos nessa tênue linha que cruza os nossos dias entre o que é certo e o que é errado; o que é bom e o que é mal. Quem tem o direito de desenhar os personagens das nossas histórias e mudar o andamento do nosso enredo, que chamam de destino, por mero prazer. Sou eu, eu que não acredito mais. Estou aqui para saber porque você ainda tenta se convencer a acreditar. Ele encostou-se na parede e sentiu a umidade que dali escorria. “Parecem lágrimas”.
Os passos das pessoas fora do confessionário aumentaram a velocidade e por conseqüência, o som se propagou ao exagero. O padre curvou-se em sua cadeira e encolheu-se, parecia que ele queria se afogar em si mesmo. Pensava em tudo o que acontecera, no que estava acontecendo e nas palavras vociferadas pelo estranho parceiro. Recordava de rostos que se deformavam em segundos e de vozes que se assemelhavam a grunhidos. Sua mãe apareceu nítida em meio aos seus assombros. Ela sorria de braços abertos. Cheiro de comida caseira, feijão com lingüiça, arroz soltinho, pão de ló, imagens de casa. Seu pai veio em seguida com as feições fechadas e gestos contidos, demonstrações inrustidas de carinho. Bons momentos em casa.
A porta do confessionário foi sendo aberta lentamente. O padre e o visitante olharam juntos para ela e viram que duas senhoras estavam entrando. Ao depararem-se com os dois, elas imediatamente fecharam a porta e sumiram. A atitude atabalhoada das duas fez com que eles rissem. O ambiente ficou menos claustrofóbico e ambos puderam relaxar. O homem de preto pegou o seu isqueiro e começou a brincar com a chama. O padre pôs-se de pé e procurou folhear a bíblia, talvez para descobrir alguma coisa que pudesse, enfim ajudá-los. Fechou os olhos e repetiu alguns trechos em latim. Contrapartida, o homem apagou a chama do seu isqueiro na parede e olhou para o raio de Sol que teimava em emoldurar aquele lugar. - Você sabe onde está Deus, padre? O que ele faz para se divertir? O que representamos para ele? Esse tipo de pergunta infantil que nunca tem resposta e com o passar do tempo temos medo de repeti-las. Você sabia que o mal poderia bater na sua porta, padre?! Eu não! Nunca imaginei isso. Pensei que Deus nos poupasse desse tipo de situação. Que Deus nos ajude! - gritou o homem de braços abertos para os raios solares que invadiam os seus olhos. O padre parou de orar, ficou olhando para a cena patética que o visitante realizava a sua frente, riu baixinho sem jeito e retornou a faceta triste. - Queria ter todas as respostas. Gostaria de mostrar para ti o quão errado tu estás, mas creio ser impossível, realmente impossível - disse já resignado, o padre.
Os dois se encararam, pensamentos afloraram em ambos e nenhuma palavra foi dita. O Sol já não brilhava tanto e seus raios também se iam. O confessionário estava igual a um pequeno buraco, a uma gruta, como um lugar desabitado, distante, inóspito. Eles estavam duelando com seus pensamentos e das imagens que povoavam o seu interior. O visitante, o companheiro, o parceiro, o pecador atrás de redenção quebrou aquele código íntimo e se pronunciou: - Vou embora. Já fiz mais do que queria ter feito. Descobrimos juntos esse paradigma que nos envolve, que abrange muito mais do que dogmas, do que diretrizes, premissas e doutrinas. Estou pedindo perdão à ti, não à Deus. Temo a imagem que criaste mais do que o criador que acreditas. Um Deus que ama não precisa perdoar. - o homem foi até a porta do confessionário e antes de cruzá-la, voltou-se e o padre mergulhou em seus olhos. Viu-se neles até formar o seu rosto no do outro. Ele correu em direção ao homem que estava parado na porta, mas este foi-se. O padre caiu no chão e levantou os braços, pediu clemência, logo depois chorou lacônicamente. Estava, desta vez, só.
O dia estava acabando e a brisa da tarde crescia, tomava forma, corpo e embalava a chama das velas do interior da Igreja, como se entonasse uma cantiga de ninar. Um homem acendeu uma vela junto às outras que ali estavam. Só se pôde ouvir seus passos pesados marcando o ritmo da brisa como se ela o tivesse levado. As velas continuaram dançando, mesmo quando ele já não estava mais ali. Uma entre tantas velas, se apagou.

Saturday, March 24, 2007

VULGAR!

E o gozo estava na boca daquela mulher como se ela pudesse bebê-lo todo e sorvê-lo com lentidão de quem suga uma alma. Assim que meu corpo estremeceu por completo, olhei-a ainda chupando o meu membro que aos poucos amolecia em sua boca quente. Ela subiu com a língua o meu corpo e foi me despindo. Comecei a ficar ereto de novo. Ela pegou meu pênis com força e aquilo me causou um prazer tamanho que gozei em sua mão. Não pude resistir e aquela mulher como que possuída por uma volúpia intensa, espalhou todo o meu esperma pelo seu rosto. Pedia que arrancasse suas roupas. Eu obedeci imediatamente. Distrai-me um pouco e ela pegou uma lâmina. Vi alguns relances de dor e pânico. A mulher cortara-se, um de seus mamilos foi amputado e ela desferiu o segundo golpe em seu sexo torcendo a navalha com força. Gritei e a empurrei para trás; ela sorriu, enquanto tinha convulsões. Não sabia o que fazer, só chorei. Morreu ali, na minha frente, naquele quarto pequeno de paredes brancas e com manchas esverdeadas de mofo no teto. O cheiro de porra estava no ar e eu temia em fazer qualquer coisa. Peguei a mulher, beijei-a com carinho e massageei o seu mamilo cortado. Fiquei excitado e a penetrei com lascívia. A coloquei de bruços sob a cama molhada de suor e sangue, em pouco tempo gozei fortemente, pensei que iria arrebentar a minha glande. Aquele corpo era quente, tinha uma magnitude, um algo mais. Baratas voavam pelo teto como se fizessem uma coroa com seus corpos sob nós. As sombras dos insetos e o barulho de suas asas me provocaram, novamente excitei-me com aquele corpo gélido e inerte, não pestanejei em chupar seu sexo cortado que jazia uma pequena fonte de sangue. Bebi.
A lâmina jazia no chão de parquê corrido, depois de tragar a mulher, trouxe para perto de mim aquela faca. Brinquei com ela passando-a pelo meu corpo nu, coloquei debaixo dos meus testículos fazendo uma certa fricção até sentir uma ponta de dor. Continuei assim e comecei a me masturbar gozando no chão. Olhei a mulher e ela me respondeu o que eu fazia, então peguei a faca e desferi um golpe rápido em seu estômago levemente flácido. Senti ela gozar naquele segundo; sorri.
Me levantei da cama manchada e fui ao banheiro que fedia a mictório público, lavei-me e peguei uma das toalhas molhadas que estavam no chão. Me sequei com as flores desalinhadas de uma paisagem mal pintada da toalha. Me encarei com alegria pelo espelho rachado. Arrumei o meu cabelo e quebrei a lâmpada sobre minha cabeça com uma “toalhada”.
Voltei para cama eufórico, falando alto com a mulher ao meu lado. Ela se chamava Clarice. Gosto desse nome. Tinha uma estatura mediana, cabelos longos pintados de preto, mas certamente essa não era a cor natural, seus pêlos pubianos inexistiam, eram muito bem raspados, seus seios eram médios e cheios, sua bunda era pequena, sua pele bronzeada “fake” . Ela me dizia que não sabia muito bem se já tinha conhecido alguma pessoa como eu na vida. Eu sorri e disse-lhe: - Você não me conhece. Rimos de forma descontrolada por alguns minutos, quase desmaiando pela falta de ar. Fui até a janela e a abri sentindo frio. Ele entrou em meu corpo e tomou conta dele. Ela estava atrás de mim com a faca dançando pelas minhas costas. Comecei a sentir um calafrio de terror. Pedia-me que olhasse para a rua e analisasse o movimento. Argumentei que a aquela hora não havia nada para ver porque era muito tarde; ela raspou com uma certa força a lâmina nas minhas costas que me fez gemer de dor. Continuei a olhar para fora e ela pediu com veemência que narrasse o que estava vendo. Falei das luzes dos postes enfileirados que povoavam os dois lados da avenida, apontei, com certa dificuldade, para um edifício à frente e contei-lhe que lá era um lugar de encontros noturnos. Um hotelzinho “fuleiro” onde mulheres e homens transitavam num entra-e-sai sem parar. Senti a mão da mulher agarrar meus testículos e lentamente passar o indicador pela glande do meu pênis, nesse momento gaguejei. - Não pára! Sentenciou ela. Respirei fundo e prossegui o relato da paisagem urbana. Contei até cinco em voz alta, falei das árvores envelhecidas que protegiam os postes de luz, comentei que pareciam cercas de sustentação da avenida. Virei–me para a mulher e afastei a faca da sua mão, beijei-a com fúria, mordi seu pescoço até deixar uma mancha roxa, abaixei mais a cabeça e abocanhei seu seio antes amputado iniciando uma sucção voraz. Senti que ela começava a sangrar novamente em todo o meu rosto.
A vi no chão fria, sem dar um suspiro. Aquilo me irritou. A chamei, gritei, xinguei de todas as formas e maneiras que aprendi nesses trinta anos de vida. Me lembrei de um dia ter ido a um jogo de futebol, uma mulher não muito bonita junto com o seu namorado, atravessaram as arquibancadas e quase todos os homens presentes gritavam, esperneavam, deleitavam-se com a presença daquela mulher, uma loira oxigenada de shortinho cavado de jeans e camiseta do seu time. Chamavam-na de puta, vagabunda, incitavam o seu acompanhante ao ridículo; ela ria discretamente. Não acredito que ela realmente estivesse gostando daquilo, mas a histeria ficou à mercê do controle policial. Ela riu mais ainda. Não creio mesmo que ela tenha gostado daquilo. Olhei para a mulher no chão e pedi desculpas ajoelhado ao seu lado.
Clarice disse-me que tinha sonhos; gostaria de sair nua pelas ruas e “trepar” com qualquer um que visse. Eu a fitei com censura; não disse nenhuma palavra. Ela percebeu minha reação e disse: - Você pode ficar olhando. Você não iria gostar?! Me afastei dela como se fosse uma praga. Fiquei em pé e andei de um lado para outro. Parei e a peguei pelos ombros, coloquei-a de pé e a esbofeteei. Ela caiu no chão rindo. Olhei-a novamente, ela estava fria, distante com olhos parados.
Estava com sede, estiquei o braço direito e alcancei um copo de água que fora deixado ontem por mim mesmo em cima do criado-mudo. A água tinha cor, corpos estranhos mergulhados naquele líquido. Fiquei com nojo; fui até o banheiro e despejei aquele líquido na pia. Voltei para o quarto e Clarice deslumbrava alguns desenhos de teias de aranha que faziam sombras esculturais no alto do teto. Perguntei o que ela admirava. Ela nada disse. Parecia não estar ali. A sua indiferença me causou um certo temor e tristeza. Fui até a janela e suspirei para avenida.
A noite era um pouco fria para aquela época do ano. Não chegamos nem no outono e já tem esse ar gélido chegando, pensava eu naquele instante. Clarice veio até mim e sussurrou em meu ouvido. - Goza em mim, goza?! Eu me assustei, sua voz ecoava, tinha um timbre rouco, provocante e aterrorizador. Ela curvou-se permanecendo de quatro à minha frente. Aquela posição me excitou e eu penetrei-a com rapidez e intensidade. Meu pênis foi retirado do seu sexo e ela começou a masturbá-lo em seu rosto, passando pelos seus seios e aterrissando-o no mamilo que outrora tinha sido extirpado. Gozei, foi só o que me lembro. Cai num sono profundo.
Não tinha amanhecido ainda, sentia a noite fria empurrada pela brisa que advinha pela janela aberta. Eu me encontrava jogado no chão em posição fetal, aguardando o tempo passar para abrir os olhos devagar. - Onde ela está? Preocupei-me por alguns segundos e do banheiro ouvi uma gargalhada debochada. Clarice estava tomando banho, limpando o seu sangue, ensaboando-se com o seu prazer. Fiquei na porta observando-a, ela me fitou e disse: - Saia já daqui! Me assustei, cheguei a tropeçar para trás caindo, desajeitadamente, no chão. Levantei-me com raiva e adentrei pelo banheiro. Não a encontrei mais ali. Olhei para o espelho, molhei o rosto na pia e senti um objeto pontiagudo atravessando minha carne das costas. Cai de joelhos no piso do banheiro, imóvel, frio, morto.
Abri os olhos e Clarice me beijou no rosto com carinho, um beijo quase maternal. Olhei-a e ela passou a sua mão direita pelos meus cabelos. Sorri. Fechei os olhos novamente, uma sensação de queda livre se apossou do meu corpo. Não conseguia abrir os olhos e nem me segurar em nada. Estava preso, mãos e pés amarrados. Uma mistura de frio e calor transitavam pelas minhas entranhas. Fiquei em completo pânico. Ouvi a voz de Clarice que sussurrava palavras chulas, grosseiras, dizia nomes e expressões que ofendiam minha moral. Estava com ódio e eu nem imaginava o porquê.
A dor da punhalada que eu recebera, voltara muito mais agressiva e profunda como as piores sensações de desconforto e frustração conseguem se apresentar às pessoas tristes. Meus olhos despertaram e me vi sozinho no quarto. De repente uma mão pousou sobre o meu pênis e iniciou uma coreografia “masturbatória” incessante. Eu tentava não gozar, mas a intensidade da massagem que o meu órgão estava sofrendo era tamanha. Aos poucos aquela mão foi apertando o meu pênis ao ponto de estrangulá-lo. Meu corpo sofreu uma descarga elétrica assim que gozei e a mão parou de apertá-lo, acariciando-o com delicadeza como fosse uma lâmina passando sobre o corpo do pênis.
Já era de manhã, o Sol estava alto e invadia o apartamento pela janela aberta. Eu acordei com um gosto horrível na boca, parecia que tinha bebido a noite inteira. O apartamento tinha um odor fétido, insuportavelmente podre. Estava, eu, sozinho. Completamente suado, cansado, nu. Observava cada detalhe do meu corpo, uma sensação de repulsa repousou em mim ao admirar que havia defecado no chão como um cachorro vira-lata. O cheiro de urina colidia o ar vespertino. Finquei os calcanhares no chão e pus-me de pé. Procurei limpar a sujeira fisiológica daquele quarto. Durou exatamente uma hora para transformar aquela pocilga num lugar habitável. Vesti-me sem pressa. O silêncio da minha solidão foi quebrado, quando Clarice deu sua graça e presenteou-me com uma cena de masturbação feminina. Uma típica cena onde o observado sabe dar prazer muito mais ao observador passivo e satisfazer a si mesmo. Uma combinação explosiva. Ela gozou aos gritos. Como se estivesse paralisado, permaneci ali em pé, fitando-a embasbacado.
A campanhia da porta foi brutalmente acionada diversas vezes. Consegui me mexer e fui atender quem lá estava. Abri a porta e uma mulher perguntou aflita: - Onde tu estavas? Te procurei todos os últimos dias. Estava preocupada. “Ana”, esse era o seu nome. - Veste alguma coisa. Você está nu! E também está fedendo como um animal. Reclamou ela. Eu me olhei e sorri. Via-me bem alinhado, perfumado, limpo. De repente me lembrei de Clarice. “Ela não pode ver que ela está aqui!”, pensei apavorado. Fechei a porta na sua cara. Corri pelo quarto tentando encontrar Clarice. “Puta”. Fui ao banheiro, olhei pela janela ao mesmo tempo que a porta era espancada e Ana gritava sem parar para eu abrir a maldita.
O cheiro apodrecido voltou a encher o ar. Vi sangue seco desenhando no chão estranhas texturas e designes diversos. Finalmente, Clarice foi achada. Ela jazia nua em cima da cama, totalmente ensangüentada, muito pálida, lábios roxos, olhos azulados e manchas pelo corpo. O seu sexo estava dilacerado; seu seio idem. Encontrei a faca que fez todo aquela show de horrores. Na superfície da lâmina permanecia o seu sangue quente; eu coloquei-a sob minha língua e lambi todo aquele líquido que parecia aumentar na minha boca.
A porta continuava a ser espancada. Atrás de mim ouvi o sussurro de Clarice que iniciou um ritual de beijos e mordidas nas minhas costas. Começamos uma jornada sexual intensa. Posições foram criadas em segundos de imaginação, acrobacias e quebras de tabus. Orgasmos nasciam e morriam com uma rapidez inominável. Gemidos faziam parte do nosso diálogo e eram acrescentados termos muito singulares para ouvidos desatentos.
Ana chorava aos berros do outro lado da porta. Eu me sentia culpado e gostava daquele tumulto todo. Clarice agarrou-me pelos cabelos e esbofeteou o meu rosto várias vezes. Revidei instintivamente. A mulher caiu no chão sangrando muito. Fui para cima, comecei a chorar pedindo desculpas, mais uma vez. Do outro lado da porta outras vozes se misturavam com a de Ana que pedia auxílio. A porta estava sofrendo carga para ser rompida.
Me assustei, abracei-me em Clarice e ela sorriu maldosamente. Um ruidoso som de guizos embalava a sonoridade do quarto. O cheiro de carne putrefada povoava o recinto. A janela aberta reluzia o azul de um dia comum contrapondo-se com a escuridão dali. Medo, essa era única coisa que podia sentir. Clarice riu. Riu como se nada daquilo a atingisse, não havia nenhum receio em que nos vissem abraçados nus, banhados em sangue e orgasmos. Ela via todos como grandes bufões de festas vazias. E eu, para ela, era o mais idiota de todos.
Uma voz, grossa, masculina gritava do outro lado da porta, dizia que iria arromba-la se ela permanecesse fechada. Nada disse. Fiquei encolhido no chão frio, inerte, receoso, sem ninguém por perto. Clarice estava ancorada na janela, os raios do Sol emolduravam o seu corpo nu muito pálido. Ela virou-se para mim com autoridade, seu domínio era indiscutível. Engatinhei até seus pés e levantei a cabeça para enxergá-la, recebi um golpe no rosto com violência. Me ajoelhei na sua frente de cabeça baixa. Olhei-a novamente e a vi com uma auréola que tingia ao redor do seu corpo. Parecia mais alta, mais bela. Movi-me para trás como um animal acuado. Ela estendeu sua mão em minha direção com um sorriso angelical cicatrizando sua boca. Estendia a minha mão esquerda para tocá-la. Fui repelido.
A gritaria se instalara ao desespero das pessoas que estavam fora do quarto tentando em vão me convencer a abrir aquela proteção de liberdade e isolamento que eu mantinha como meu mundo à parte. Clarice achava ridículo, quando eu batia no peito falando sobre isso.
Me encontrava, agora, no banheiro com medo de Clarice e da horda selvagem que ameaçava invadir o meu “mundo”. Clarice me chamou. De soslaio a vi no mesmo lugar de antes. Dessa vez fui caminhando que nem um homem em sua direção, sem desviar o olhar dos seus olhos brilhantes. Tinha não mais medo, mas ódio. Cheguei bem perto dela e o seu corpo estava pálido, ensangüentado e com o mesmo cheiro que sufocava o ambiente. Vi em seus olhos brilhantes um vazio, um nada. A empurrei pela janela aberta e a fechei.
Meu corpo tinha sangue, minhas mãos, meu rosto, meu peito, meu pênis. “Caralho”, gritei sem dar importância maior a horda. Resvalei no piso umedecido e cai de costas no chão. Foi uma queda lenta, vi todo o quarto com detalhes, as paredes, os insetos, o lustre, o criado-mudo, a cama, o banheiro e suas particularidades. Enfim, bati a cabeça. A porta foi arrombada.
Vi todos correndo em minha direção. Ana foi a primeira a chegar, pensei que ela estava rindo, mas ela chorava compulsivamente. Abraçou-me, enquanto um punhado de pessoas estranhas e pouco conhecidas analisavam a cena toda. Uns foram ao banheiro, outros olhavam ao redor e um homem magro, muito pálido, perguntava-me porquê daquele sangue sobre mim. Eu sorri como um débil. O cheiro forte do quarto estava enjoando algumas pessoas que invadiram o meu recinto privativo. Examinei o meu corpo e fiquei ereto. Abriram a janela para ventilar um pouco.
Ana tentou cobrir-me com uma toalha que tinham lhe dado para limpar-me. Uma mulher muito gorda vomitava no banheiro. Outra senhora de idade bastante avançada se interessava pela minha ereção que teimavam em esconder. Ouvi pessoas, alguns homens, dizendo que eu era louco, drogado, um merdinha qualquer que merecia bem tomar uma surra. A inconsolável Ana estava deformada de tanto chorar e da vergonha que sentia era quase física, tinha tamanho, forma e conteúdo.
A janela foi desocupada por um dos homens que me chamara de merdinha, que me comparava a um nada, que não tinha vergonha do que fazia com a pobre moça que se esvaía em lágrimas. Meu mundo foi descoberto, foi saqueado, possuído e incompreendido. Empurrei Ana e corri em direção à auréola que brilhava como uma estrela. Atravessei aquele brilho nu como se nascesse de novo, ressurgisse com mais nitidez num batismo de luz. Não há mais cheiro apodrecido no ar; não há mais manchas de sangue; não existe mais invasões; não estou mais sozinho.