Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Sunday, January 21, 2007

Cru

Na discussão se fez a verdadeira face corada de dois díspares que abasteciam-se de lamúrias e desgostos. Parecem sem apego pôr mais nada. Demonstrando seus sentimentos da maneira mais rasa, mais instintiva. Um sentimento à flor da pele. Cru. Completamente cru. Os contragostos nus desvencilhados de maiores pudores. Onde a natureza nossa torna-se, em instantes, nossos frutos amadurecidos e apodrecem. Comestíveis, mastigáveis, digeríveis.
Dos tempos anteriores antes mesmo do tempo ter registro, ter calendário, ter dias emendados às horas, viram-se no silêncio. Na crueza desse tempo sem marcadores. Cru. Absolutamente cru. Agradecido e agraciado pôr todos os desfavorecidos cumprimentos frios de quem não se conhece muito bem. Um olá recebido pôr um desenxabido gesto com a cabeça. Simples. Cru. Ela era cruelmente sociável, incrivelmente distante. E o deixou ali, crucificado em custódia da sua antropologia mais desumana e bestial que sorria em apostas sem gosto, inóspita e meramente socada entre seus dentes.
E eles, agora um casal, não demoraram muito para gritarem, xingarem e beijarem-se, não necessariamente nessa ordem e nem com os mesmos personagens. Constatam o seu desconhecimento pelo seu par na troca de farpas. Como se pudessem ler mentes num joguete de criança, numa mentalização sem fim do que o desafiante pensa, tentaram vencerem-se num estratagema empírico do próximo passo. Cru. Assim dessa forma inacabada, não resolvida, permaneciam se suportando sem as palavras estarem presentes, somente os suspiros, resmungos, onomatopéias, ruídos e pequenas provocações metafísicas.
O casal ri pensando nos mais comuns dos sonhos comuns que sua visão ordinária possa crer. Que juntos compartilharam construídos através de planos e projetos que nunca se concretizaram. Continuam rindo quando desfecham a discussão com as memórias embaçadas. O encontro. A primeira olhada. O beijo. A cama quebrando ou o ranger das molas velhas do sofá. As piadas. Os começos e, obviamente, o final de tudo isso. Chegaram a suspirar juntos quase como antes, sincronizados, uníssonos. Pôr um breve lapso no tempo, eles estavam de mãos dadas e pensamentos enlaçados. Concebiam objetivos e nem contavam com as adversidades. Lembraram do dia em que saíram numa tarde de domingo ensolarado, desses dias de inverno. Foram pelo parque, entre as árvores fazendo juras de amor e pedidos, escolhendo nomes dos filhos e onde iriam morar daqui alguns anos. Nesses invernos quaisquer. Sentiram que foram cozidos em banho – maria pelo tempo, mas não estavam prontos para serem servidos à fome do relacionamento. Concluíram que erraram juntos, planejaram juntos, assumiram juntos, entretanto nunca estiveram juntos na realidade. Tentaram rir dessa vez sem entusiasmo.
Na arrumação da despedida dos objetos, cai no chão um livro que estava ao lado de uma montanha de revistas destinadas às mulheres. Ambos, ensaiados, juntos miraram o ruidoso objeto que permaneceu aberto expondo páginas amareladas. O homem, toma a iniciativa e resgata-o, folheia-o e o fecha com força. A mulher assusta-se dando um pequeno grito. Ele a vê e a alcança o livro com uma certa ternura. Ela, mesmo hesitando, pega-o de suas mãos. Vê, então, o que causara tamanha reação. Não entende porque um livro de auto – ajuda de um autor desconhecido tenha tanta força para irritá-lo daquela forma. Ele, como se entendesse a pergunta, apontou para a dedicatória numa das páginas. A mulher leu, piscou muitas vezes e o olhou desajeitada. Dizeres, palavras, promessas. O que poderiam esperar?! Já passaram pôr tantos invernos e um punhado de verões amassados nas mudanças dos outonos tristes e ventosos passando às pressas nas comemorações de novas primaveras, absolutamente lado a lado.
Puxaram o fio condutor das memórias para amenizar o grotesco emaranhado de bocejos indelicados, de crises de flatulência e arrotos guturais que vestiam o véu de seus abraços. A instalação do chuveiro, queimando-o uma, duas ou três vezes até aceitarem mutuamente sugestões para resolverem a pendenga, culminou de novo, nas risadas. Dessa vez, quase abraçados, quase fazendo carinhos, quase prontos. Mas o rompante estalar de dedos, os fez verem onde estavam. Profundamente profetizados pôr terceiros instigadores e convivas num disparo de raciocínios.
Criaram um mundo à parte onde ambos eram soberanos, monarcas de palacetes fantasiosos e faraônicos, debundando de seus sentimentos. Absorveram a energia corpórea de cada um tentando deferir os males que os acompanhavam na solidão de um piscar de olhos. Acalentaram-se nos mais sutis sinais para encontrarem-se cada mais longe do seu destino. Este, que traçara com opulência, proeminente sabedor do que viria e do que não permaneceria intacto.
Na frugalidade rotineira, apoderou-se o terror da mesmice. Da convivência platônica de ódio e amor. No revide cortês das rusgas das outras tardes ensolaradas de domingo à frente da televisão ou no ringue do dial da estação de rádio. Postulados a seguinte observação de como seria se nenhum dos dois ali estivessem.
O casal tornou-se frívolo com os requintes dos bolos e das tortas frias nas celebrações únicas que se comprometiam a se repetir como um velho disco de vinil riscado e chiado. Ele abrigava-se entre a geladeira munido de uma cerveja e outra, enquanto ela fustigava o seu lazer ao telefone e leituras densas e abissais. Ao esperneio frenético e itinerante, o casal promulgava suas diferenças refutando-as às horas. Estiveram várias vezes no oblíquo olhar da incoerência, na insatisfação e na total desatenção com o outro. Mesmo movidos pela negação aos ventos profanando a sua sinceridade, diziam estarem cada vez mais prontos, exacerbados ao contexto do que queriam, menos do que suportavam.
Chegou a hora de dizer adeus. Tudo separado, cada peça num lugar devidamente modificado. Com as fisionomias encravadas nos rostos apagados, foram aos poucos se despedindo. Ela preocupou-se em deixar o livro para trás; ele, por sua vez, arremessou-o o mais longe possível janela à fora.
E assim ficaram, indo e vindo para seus lados repatriados ao mundo. Cruzando as novas fronteiras e enfileirando-se entre as barricadas de outros jogos. Esperando estarem preparados para a próxima parada. Estando crus ao anonimato. Assim, desse jeito. Cru.



ALMA

Todos os terrores estavam ali. Seus maiores pudores caídos no meio de suas roupas. Abraçada na piada que se tornara; na caricatura que personificara para estabilizar sua vida. A mesma que desprezava a cada instante que a vivia. E como eles não iriam sumir, ela tornara-se o maior de todos. Um trem desgovernado saciando a vontade daquela piada. Cabia a ela, encarnar com toda sua força àquela pessoa. Pensava que já não era mais desconhecida do corpo alheio, que aquilo já tinha feito por puro prazer e nem tanto, agora só lhe cabia fazer a mesma coisa, invocar o seu pudor de lado e, se possível, se deleitar.
Estava naquela festa especialmente para ser apresentada mais uma de tantas outras vezes e mostrar-se como uma exímia recepcionista. A anfitriã fez questão de levá-la ao encontro de cada um dos convidados. Disse seu nome que foi coroado pelo seu sorriso afável. Deixou-a ali num círculo de novos estranhos para se fazer mais acessível. Ria das piadas e comentários dos homens - a maioria dos convidados - que estavam ao seu lado. Brincava com um deles, passando-lhe a mão no seu braço. Outro, já antecipara-se a conversa e enlaçou-a pela cintura, sussurrando-lhe ao ouvido. Ela riu alto dando maior atenção. Abraçaram-se. Ficaram boa parte daquelas horas assim. Uma outra veio ao encontro deles aumentando a conversa. O homem também sussurrou ao seu ouvido e ela balançou a cabeça para um lado e para outro, mostrando estar em dúvida, mas com um sorriso malicioso nos lábios róseos. A outra companheira insistiu no que parecia um convite, mas a de sorriso sagaz, apenas sorriu mais e se despediu dando um beijo no rosto de ambos.
O mais recente casal saiu da festa cumprimentando todos. Ela sorria de forma aberta, às claras. Entraram no carro do homem e se foram. Naqueles instantes de conversas com o espelho, ela ainda sentia pena de si. Acabara de se levantar da cama, onde o homem reinava de dorso nu falando sem parar. Dissera coisa como "de novo", "amanhã", "bom ir na festa", "queria lhe apresentar aos amigos"....Ela, de costas, fazia questão de não poder ouvi-lo. Virou-se para ele e sorriu mais uma vez abertamente, rasgando seu rosto de lado a lado. Ele a beijou apertando seu mamilo. Vestiu-se e foi embora deixando para trás, ela e U$ 200.
Tinha uma vez que ela perguntara porque o pagamento era sempre em moeda estrangeira. Uma outra, muito paciente, respondeu-lhe que assim ninguém sentia falta. Não entendeu na hora, só o tempo poderia lhe esclarecer. E nem agora ela queria saber mesmo. O que importava era estar com o dinheiro na mão. Pelo resto do tempo ficaria olhando o espelho.
Ela perdera a virgindade moça ainda. Dissera a todos que fora do jeito que tinha imaginado. Com o namorado sendo carinhoso, sozinho em casa, com velas espalhadas por todo o caminho. Uma cama macia, onde ele a lavou com uma esponja com água perfumada. Fez que todos tivessem inveja e orgulho de suas atitudes. Mal sabiam da verdade violentada. Deixou de ser imaculada na casa do namorado, mas às pressas, mau resolvido. Doeu muito e nem fazia muita questão. Fizera de tudo que ele quis e que não sabia fazer. Mostrou-se parceira gentil. Todos a invejavam, pensava ela, mas não teriam porque se não fosse pelo seu segundo maior dom: mentir.
Gostava de ler, meditar, adorava aventuras, assim como se relacionar. Não tinha nenhum pudor. Aprendera com seus romances de uma noite ou de semanas, que era assim que se satisfazia. Pelo menos era o que dizia. Queria, sim, ter uma relação monogâmica completa onde envolvesse todos os seus sentimentos e necessidades. Mais uma mentira, ela pensou.
Começou entretendo-se com as necessidades dos outros favorecendo os seus quando já virara mulher e mãe de pais diferentes. Não morava com seus filhos, achou melhor entregá-los à guarda dos pais ou irmãos. Pagou o desprezo dos outros pela sua atitude de fraqueza. Muitos a viam na noite embalada nas festas por puro prazer e depois mendigando suas histórias saudosas. Queria-os de volta, dizia. Poucos acreditavam e os demais, nem atenção davam. Daí, numa outra escolha, foi-se à recepção de divertimento e acompanhantes. Justificativas existiam tantas quantas explicações, mas nenhuma seria aceita, se ela contasse às pessoas certas.
Hoje ela conseguiu fazer mais um amigo. Cliente, não é um bom termo. Aprendera rápido o que tinha que ser feito. Disse, uma vez, que sentira nojo e teve vontade de vomitar; disse até que se odiava, que mal conseguia se ver, no início. Estava de frente para o espelho dizendo tudo isso dando conselhos a si mesma. Uma mulher que traçara objetivos e metas. Tinha feito tudo e fazia de tudo por esses seus ideais. Os sonhos de ter uma família ainda persistia. Não via empecilho. Descobriu seu novo marido numa dessas festas. Ele auxiliava a organização destas. Ele, mesmo enciumado, conseguia incluí-la nas mais requisitadas. Fazia parte da fantasia de ambos. É o que parecia, quem soubesse da história desde o princípio.
Ela fizera 30 anos não há muito; com sua idade também seus pensamentos mudavam. Como sabido, ela queria formar uma família e pelo jeito, conseguira. Soubera que estava grávida e isso, inevitavelmente, a faria parar com as festas, recepções e jantares. Pensara que já tinha feito muita loucura. Que andara por onde devia mais do que o necessário. Acreditava que Deus lhe concedera uma divindade por seus sacrifícios. Precisava acreditar nisso.
Quando mais jovem, roubou da sua irmã mais velha em dois cheques assinados com valores em branco. Realmente não foi um roubo. Ela pedira os cheques para comprar comida para dar para seu filho - o primeiro. Entretanto, ela resolveu comprar uma roupa e ir para uma festa, já que o menino estaria na casa do pai naquele final de semana. A irmã soube da história entre mais uma que aprontara, dizendo sempre ser vítima das injustiças e incompreensão.
Ia e vinha da casa de amigas e amigos. Amantes e das amantes. Descobrira que não era bissexual, mas que lhe agradava as pessoas do mesmo sexo. Não lhe constrangia e nem lhe faziam mal. Tinha várias amigas e amigos polivalentes sexualmente. Mas era bem resolvida. Não abriria a mão para soltar o sexo oposto. Traição no seu vocabulário tornou-se uma palavra de invariáveis definições e sentidos. Só não permitia ser acometida por ela. Mas tinha sido. Tanto fez, quanto lhe fizeram. Teve namorados que lhe traíram a confiança e a sua cama. No primeiro casamento, seu estilo indomável trouxe problemas. Saíra uma noite e retornara altas horas da madrugada de mãos dadas com um amigo. O seu marido ficara em casa, contra vontade, cuidando do seu filho. Ele a viu chegando com outro homem e partiu em sua direção. Resultado? Um tapa no rosto dela e impropérios ao rapaz, que saiu assustado. No outro dia, já que ela não foi permitida dormir na casa, o marido trocou as fechaduras. Ela chorou, esmurrou à porta, gritou e nada. Nem o marido ali estava. Perambulou de casa em casa contando mais uma injustiça que a vida lhe presenteava. Depois de um mês, se separaram. Ela deixou o menino com o pai aos prantos. Dizia que iria retomar à guarda da criança quando tivesse dinheiro e condições para isso.
Hoje o menino já está um pouco mais crescido, nem passa na sua cabeça como é viver diariamente com a mãe e o novo pai. Permaneceu na casa do pai biológico e faz investidas férias semanais no lar materno para a alegria e satisfação dela.
Ela tinha realizado quatro abortos com o último namorado. Antes, mais dois. Brincava com os mais íntimos, dizendo que era só ver um homem sem calças e ela já engravidava. Fazia questão de afirmar que estava no mundo com uma missão de felicidade: procriar, amar...Ela acredita piedosamente nisso.
Vestiu-se. Depois de alguns minutos à mais em frente ao espelho, resolveu ligar para seu esposo. Falaram coisas amenas e exclamaram suas saudades. Ela disse-lhe que ainda teria que ir ao encontro de um amigo, com certeza não iria para casa naquela noite. Despediram-se aos beijos e juras de amor.
Diante do hotel, ela ligou seu telefone celular. Teclou os números correspondentes. Um homem atendera. Ela conversou com desenvoltura e simpatia, logo após ter se apresentado. Não conhecia o homem, mas tinha sido recomendado. Entrou no hotel onde dirigiu-se até a recepção. Cadastrou-se depois de ser anunciada. Foi até o elevador. Não demorou muito e já estava batendo com os nós dos dedos à porta. O homem hesitou um pouco para abri-la, mas assim o fez. Cumprimentaram-se com um longo aperto de mãos e de um abraço. O convite da sua entrada nem foi necessário. Ela já estava no quarto conversando. O homem fez questão de segurar seu casaco. Ela estava trajando um vestido decotado preto. Ele passou sua mão pelo corpo dela até chegar à sua perna. Então o show iniciara. Ela tomou a iniciativa de provocação. Ficava horas do seus fins de semanas pensando como era fácil excitar um homem. Como eles gostam de se sentir fortes, ágeis, habilidosos e prazerosos. Ficava lendo artigos sobre o tema da sexualidade masculina, mas não fixava a atenção na leitura, admirava seu conteúdo juntamente com sua analogia. Sentia-se culta, no trato com os homens. Dizia: "Como é fácil mentir para um homem. Eles não têm idéia do que é fazer sexo e ter sexo para fazer." Às vezes não. Já sentira prazer. Mais de uma vez. Encarava como uma festa, não mais como dever. Dormira muitas vezes com vários homens da sua vida sem sentir tanto tesão e os fez felizes. Não deveria ser diferente agora. Bebia champanha, uísque, saboreava petiscos especialmente pedidos pelo seu novo amigo para satisfazê-la. Ela exagerara dessa vez. Gritou, esperneou, uivou até proporcionando o êxtase total ao homem. Realizara manobras sexuais com ele que o perturbou. O homem não parava de dizer que precisava encontrá-la de novo, amanhã, depois. Ela dizia que não seria possível, que não fazia sempre isso, que não era profissional e sim eventual.
De manhã, despediu-se do amigo e foi para casa. Pediu um táxi. O motorista era um conhecido que trabalhava exclusivamente para esses serviços. Eles conversaram. O motorista sabia tudo da vida dela. Seus filhos, seu marido, onde morava, quem lhe contatava e a maioria dos seus compromissos. Ela idem. Brincavam com os nomes dos clientes e algumas peculiaridades. Movida pelo excesso de álcool, ela falava sem parar. Sempre atenciosa e servil.
Chegou em casa com o Sol à pino, parou diante do prédio. Despediu-se do taxista assinando um tipo de recibo. Buscou a chave na sua minúscula bolsa; mesmo assim um elo perdido. Caminhou pelos corredores do seu andar. Abriu a porta e foi direto ao banheiro deixando sobre a mesa a bolsa. O marido, que estava na cozinha, a recepcionou com um largo sorriso. Beijaram-se. Ela nem falou muito, dessa vez. Continuou ir até o banheiro tomar um longo banho. O marido gritou da cozinha que estava de saída. Ela disse-lhe tchau! Ficou imersa na banheira quente. Estava exausta. Pensava no que teria que fazer naquela tarde, depois de acordar. No final do dia iria buscar seu filho. Sua mãe traria o mais novo no meio da tarde. Tinha tempo suficiente.
Quando morava numa pensão de moças, por não ter onde morar, fez amizades de ocasião. Juntou-se com as mais agitadas, as mais alegres, as que mais "aprontavam". Consumia drogas, mesmo sem ter dinheiro para adquiri-lo. Dizia que tinha amigos, fazia amigos e usufruía dessa amizade, numa redundância diária.
Adorava ficar toda noite indo e vindo de bares, boates, discotecas torcendo por festas. Amava cantar. Qualquer lugar que ela pudesse se expor agarrava o microfone ou à capela e despejava a sua vontade. Tinha boa voz, mas não tanto quanto achava. Batia o pé dizendo que os pais não a incentivaram quando mais jovem para desenvolver-se. Nessas festas que procurava, normalmente encontrava prazer para saciar seu tempo e libido. Mas ficava irada quando delegavam adjetivos à ela dizendo que era promiscua. Fazia o que tinha na cabeça e achava que usava os homens para seu desejo. A mesma coisa que eles pensavam dela.
Teve sua primeira relação homossexual com uma amiga numa dessas noitadas. Depois de divertirem-se, beberem, foram embora juntas dormir. Chegaram à casa da amiga, depois de um longo banho em separado, deitaram juntas, pois não havia outra cama. Os excessos e a falta de carinhos as fizeram ficar mais juntas e preencheram o momento com a sua libido. Isso é o que ela disse uma vez, quando questionada. Repetiram mais algumas noites, mas pararam por aí. Ela sentiu falta do namorado da época que a assediava.
Suas medidas: 62 de cintura, busto 79 e quadril 85. Coxas roliças de quem praticara jazz na adolescência. Hoje nada fazia para manter a forma. Estava engordando. A cintura em breve não resistiria aos anos de excesso. Também combinados com a predileção à fertilidade. Gostava de dizer que fazia gênero petit.
Hoje ela buscaria seu primogênito e o caçula para ficar aninhada entre suas alegrias mais revoltas. Daria todos os momentos de felicidade e atenção. Faria agrados, afagos e afins. Estaria a passo firme de toda satisfação que a vida já tinha lhe dado e retirado. Seria como um deboche para com ela. Deixaria o ontem para muitos anos atrás e se preocuparia apenas com os rebentos. Riria do que fez sem sequer lembrar-se disso ou daquilo, deste ou daquele. Seria Terra em movimento, giraria e não estaria mais ali daqui alguns segundos. Riu quando os filhos chegaram e a abraçaram. Fez o que tinha imaginado. Os agarrou, os beijou, os quis.
Agora mais calma, sem medo, não encontrando nenhum terror à vista; ela ficou deitada com todos à sua cama, lacrimejou juntamente com uma doce e sussurrada risada - esta sua amiga de tantas horas -, de como tudo não era uma piada grotesca. Estava, ela, feliz, e satisfeita com o ar de dever cumprido por estar onde estava, de alma leve.