Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Sunday, April 29, 2007

Três Vezes (1)(2)(3)


Voar. Não creio que exista alguém que não tenha sonhado, desejado, tentado voar. Planar sob as situações, através dos céus e atingir os mais lindos lugares do alto da vida analisando, sorrindo e imaginado as soluções dos problemas, dos medos, das alegrias e por que não, da religiosidade de cada um. Um vôo rápido e recheado de adrenalina carregado pela simples vontade de ter uma leveza insustentável das suas faltas, querendo esquecer suas culpas, falhas e erros. Embriagado com a vontade de pousar nos arrabaldes nada inglórios de uma sensibilidade que passeia arduamente sob o fio da língua afiada, tal como um ballet performático. Voar como os deuses, como os pássaros, como as folhas que caem no chão lentamente advindas do vento, nem sempre suave. Padecer da violência desenfreada que se apossa dos confins do cotidiano. Alimentar todas formas de liberdade gritante que sorri com o calor materno, protegendo-nos com o planar de idéias e os malabarismos de nossas ações tolas. Sorver a inconsistência do espírito alcançando o Sol pelo ordinário gesto de estender as mãos. Voando, assim desse jeito como se pudéssemos romper com os elos e relacionamentos conturbados de convivência nada fraternal junto ao próximo, que muitas vezes admiramos na sua ausência ou na sua distância.
Ter a sensação frutífera de proporcionar um prazer maior que a satisfação do ego, muitas vezes um enganador, trapaceiro e escudeiro confidente de ilusões; voar acima dos convivas sem prejudicar sua essência, seu marasmo de atitudes e sua amizade. Voar como os anjos que transitam o Universo de fé de tantos e que generaliza o inalcansável “mundo” perfeito em meio à diversas imperfeições.
Não se preocupar com os casulos construídos ao redor das pessoas evitando que elas trespassem os seus limites e as permissões para que os seus objetivos mantenham-se em determinada ordem. Voar não para fugir, mas para aprender.
Voar pela gentileza dos singelos romances que afloram e devoram as pessoas de uma maneira insana, clara e apaixonada nos mergulhos oscilantes dos altos e baixos que carregamos como provas absurdas de nossos sentimentos. Voar agraciados na delicadeza dos atos que nos condenam a peregrinar nos abismos dos amores e seus rancores.
Na esperança de conseguirmos encarar as janelas dos dias com os olhos ávidos de surpresas e não de desgastes rotineiros. Voar com a inexperiência de quem ama pela primeira de outras tantas vezes que diferem-se, transformam-se, distorcem-se, recriam-se nas asas imaginárias de algumas viagens ainda sem fim, mas com a ida garantida numa aposta de valores abissais.
Quem jamais pôde ter a liberdade de voar pela vida com suas asas, não poderia nunca dizer que sonhou alguma vez. Respirando cadenciadamente até abrigar-se nos braços dos anjos com a benção dos deuses numa revoada de lembranças esclarecendo novas dúvidas.

Cair. Cair lentamente, suavemente, apressadamente e, inconseqüentemente, chegar ao chão. Permanecer imóvel, olhando para todos os lados e encarando o misè en scéne desses instantes que nos encontramos inferiores aos outros, receosos do que há por vir. Temendo o medo dos atos que o sexo sabe justificar, por exemplo.
Estar impotente aos poderes frígidos que absorvem o nosso dia a dia. Cair de quatro por sentimentos, delírios, desesperos e ficar de quatro em tantas situações, de tantos sexos e prazeres, de tantos e tantos corpos que se afogam entre nossos lençóis, que caem em nossos sonhos e perversões, fantasias e mentiras.
Ter a vontade de pedir perdão caindo de joelhos em frente a quem ama, mesmo que não notado, não visto, sequer fazendo jus a sua presença. Ficando em êxtase que se prolonga como um orgasmo rápido, forte como os doces prazeres fazem os corpos tremerem, caindo em devaneios, finalmente, o gozo de uma vida qualquer.
E de boca aberta, entrelaçando idiomas nas mais diversas línguas, engolindo a saliva alheia como quem concede, piedosamente, a submissão. Com a boca fechada deferindo atritos na pele arrepiada, tensa, excitada. Caímos no desejo realizando fantasias que antes ou depois poderão apenas fazerem parte das histórias comuns do sexo de momento, sem sentimento, sem mais delongas. Mordendo os lábios molhados que dançam na minha, na sua e na nossa língua.
Afundar nos abismos dos excessos, das faltas, do sim e do não. Entrar nos segredos e tabus convencendo o Universo criado por você mesmo que apenas seja uma mera e ordinária aventura. Discernindo sobre o sangue com o perfume do gozo. Iluminado pela sombra do Sol no fundo desse tipo de abismo. Do meu, do seu, do nosso abismo.
Estarei sentado esperando cometer mais erros, mas não saberei saborear o sentimento de amar, caindo na facilidade do desejo; caindo em queda livre, sozinho.
E sozinho, poderei voar como um morcego que, cego, busca a sonoridade da presença da sua presa para sugar sua vida e parasitar sua existência. Sozinho com o desejo à flor da pele, caindo.
Com a absoluta certeza de que um amanhã pode ser igual a outro e outro e outro dia, pelo simples espasmo do amanhecer e do cair da noite escura, profunda e densa como as consciências das pessoas que aos olhos dos santos flamejam as espadas dos guerreiros em suas camas por “n” formas e posições.
Calo-me caindo de olhos abertos no vazio da minha sombra, um recanto de lembranças e de marcas.



Aqui. Com os pensamentos jogados fora pelo desdém de alguns atos, que de tantos afazeres, inutilizam a consciência do tempo. E desse tempo rompemos nossas barreiras, admiramos o acalentar quase inútil da sensibilidade que temos em relação “à relação” com quem nos é chegado. Digo, sem pesar, que não acredito do que me falam horas à fio, com as mais ousadas e frias tentativas de provar o que é o amor e qual amor sentes. Voando ao longe; caindo tão perto. Tanto acolá, mas bastante para estar somente aqui.

Friday, April 06, 2007

EPICENTRO


Me deixe ser o centro temporário da sua atenção
Posso me perder com a tua ausência do recinto
As luzes acendem aos poucos quando te sigo

Me permita entender a tua intenção

Não sei se me quer como teu dono
Ou prefere minha submissão

Duelar com as tuas manias
Posso jogar fora todos os meus vícios
Paranóia por palavras vazias
Em novos argumentos e velhos artifícios

Me deixe ser o centro temporário da sua atenção

Mesmo que seja tão breve,
Contra o tempo socando o ar
Igual a um relógio quebrado,
Permanecemos lá...

Me tenha sem obrigação

Posso me perder com a tua ausência do recinto
As luzes acendem aos poucos quando te sigo
Mas tudo parece tão escuro
Algo estranho, frio
Tua presença, eu sinto...

Não sei se me quer como teu dono
Ou prefere minha a submissão

Me deixe ser o centro temporário da sua atenção

Sunday, April 01, 2007

Corte de Navalha

Pelas portas enormes de madeira trabalhada de uma Igreja, adentrou um homem de porte médio, cabelos longos, ralos e grisalhos, de óculos escuros como sua roupa, uma jaqueta de microfibra acompanhada de uma camisa social, gravata, sapatos limpos brilhantes e uma calça de linho. Seus passos ecoaram por cada metro quadrado daquele templo, tanto barulho fizeram que chamaram a atenção de alguns poucos fiéis que, ali, prestavam suas orações no meio de uma tarde agradável de primavera. As senhoras que ocupavam os quatro primeiros bancos à frente do altar, mesmo tendo prestado atenção ao homem que acabara de entrar, continuavam em voz alta, a rezar o terço.
O homem coçava o queixo e olhava para cima. Media com os olhos escondidos atrás das lentes dos óculos escuros, a altura do chão até o teto da Igreja. Calculou em voz baixa. “20 metros”. Verificou as paredes do local. A peregrinação de Jesus passando pela crucificação até a ascensão aos céus. Seguiu pelo olhar dos seus óculos cada trecho, os momentos seguintes e os requintes artísticos que ilustram a história narrada em silêncio nas paredes do templo. Admirou os santos colocados nos cantos da Igreja. Viu uma enorme cruz com Cristo crucificado. Refletia um vago olhar, muito além do que estava a sua frente, das pessoas que rezavam e daquelas que deixavam a Igreja em passos lentos.
Ele parecia esperar por algo ou alguém. Demonstrava uma certa inquietude que crescia junto com sua angústia. Resolveu se sentar em uns dos bancos laterais. Não retirou os seus óculos escuros e iniciou uma brincadeira irritante com o seu isqueiro. Assoprava a chama que era acendida várias vezes. Procurou o seu relógio que estava em seu pulso esquerdo. “16 horas”. Finalmente, retirou os óculos. Viu com maior clareza o interior da Igreja. Os sinais de mofo infestavam ao longo dos pilares laterais e das rachaduras das paredes. A falta de acabamento de algumas partes do reboco estavam tornado-se cada vez mais salientes. O ar era úmido, mas a simplicidade do lugar causava um sentimento reconfortante, um antagonismo com algumas Igrejas que ostentam um verdadeiro “palácio”. Notava-se que era um lugar humilde, de poucos recursos. Os fiéis depositavam velas que traziam esperanças e promessas que iluminavam o seu interior com um penumbra fraca.
Não havia nenhum outro som, a não ser pelas orações das mulheres dos bancos da frente diante do altar. Empolgavam-se com o acompanhamento dos terços que empunhavam entre os dedos. De cabeça alta encaravam o Cristo crucificado, muitas cerravam os olhos e levantavam os braços, outras continham suas atitudes sem baixar o tom de voz. O homem fez o sinal da cruz e ajoelhou-se. Não começou a orar, nem a soletrar nenhuma palavra, sequer pensava em alguma oração. Ele só ficou naquela posição em silêncio. Esperava o tempo passar, pois tinha algo importante a fazer. Só faltava uma peça para ele montar esse mosaico de angústias. Alguém com quem pudesse dialogar. Que poderia estar ali, naquele lugar, naquele instante. Não qualquer pessoa; só a escolhida por ele. Só quem pudesse ouvi-lo.
As portas do confessionário rangeram ao abrirem-se. O homem levantou a cabeça em direção à porta e viu uma senhora muito magra, com a pele branca coroada por rugas, saindo. Em seus olhos morava uma tristeza melancólica como se lá corresse um rio distante, pacato, estagnado e que pelo tempo vai secando até não existir nenhuma vida. Pareceu aos olhos do seu observador, que ela tinha acabado de descobrir algo terrível que a fez envelhecer mais ainda. “Sinto pena dela. Não sei porque, mas sinto a dor dela, de como foi difícil para ela passar tudo aquilo. E a partir de agora será pior; ou talvez, ela simplesmente, conseguira se libertar de tudo que lhe causou aquelas marcas.” O homem ficou de pé rapidamente, depois de ter filosofado de forma barata a vida alheia, bateu com as mãos nas pernas para dar impulso e forçou os calcanhares no chão. Ergueu-se e sentiu-se cansado, nervoso e muito mais ansioso. Rumou com seus passos que gritavam ao contato com o chão fazendo o som crescer dentro daquele recinto. Aos mais desavisados era nítida a imagem de um soldado marchando ao seu destino. Para outros que o acompanhavam de soslaio, figurava um homem curvado que trazia sob suas costas uma culpa ou boas novas, pela pressa de seus movimentos, tal qual um predador atrás da caça.
E naqueles poucos metros até a porta da entrada do confessionário, ele deslumbrou com as cenas de ontem. Ouviu o grito daquela mulher ajoelhada no cordão da calçada da avenida central, chorando com um menino em seus braços desacordado. Centenas de pessoas circularam os corpos a sua frente e penalizaram o acontecido. Culpavam a violência, a velocidade, o motorista, o homem. Depois de alguns longos minutos, dois policiais prestaram socorro a mulher e ao menino ensangüentado. Trouxeram uma ambulância que abriu caminho em meio ao trânsito de carros e pessoas. Iniciou um empurra - empurra que resultou em crispas entre os observadores de plantão. Brevemente, todos foram se espalhando com o fim do incidente. A voz agonizante da mulher ainda ressoava pelas esquinas e o cochicho continuava se propagando. O eco se fez pela Igreja de uma forma cadenciada e gradual dando a sensação da presença às suas costas. Um terror corroeu o seu corpo e uma vontade incessante de chorar padeceu de seus olhos. Pensou naquela senhora que acabara de ver e da mulher de ontem com o seu menino. Voltou o seu olhar para a imagem do Cristo crucificado e lentamente, colocou os seus óculos escuros.
Do confessionário estava saindo um padre, desta vez. O homem girou o seu corpo e apressou o passo na sua direção. O religioso colocou a mão na testa, com um gesto que parecia que ele tinha esquecido de algo. Reabriu a porta do confessionário e desapareceu por alguns breves instantes. O homem de preto, novamente, retirou seus óculos. Parou diante da porta do confessionário aguardando o padre. A demora, quase imperceptível, parecia maior e o passar daqueles segundos transformaram-se em horas arrastadas. Sob suas costas, ele sentia um arranhão que perfurava a sua pele, causava-lhe dor, o fazia suar e enfraquecia suas pernas. Chegou a curvar-se diante da porta e aos poucos foi deslizando para o lado, onde estava a imagem de Nossa Senhora. Ele olhou para cima e sem mais e nem menos, parou de respirar. As velas dos fiéis se apagavam pela leve ação de uma brisa delicada, mas competente. Abriu os olhos e viu o teto da Igreja. Lá em cima tinha um desenho criado pelo tempo, pela sujeira, mofo e uma porção de resquícios de insetos que pintavam as teias de pequenas aranhas. Coisas febris que se alojavam em sua percepção. Crua realidade do final daqueles insignificantes seres submetidos aos caprichos sádicos de seu predador.
Em pé, já recuperado, enxugando a testa com a manga da camisa, o homem direcionou o seu corpo um pouco para o lado e deteve-se diante da porta do confessionário. Hesitou e finalmente empurrou - a. O movimento foi pesado e lento. Em seguida os seus olhos estavam vendo outra cena. Um grito; nada mais. Mais gritos. A voz de um homem e o pranto de uma mulher. A porta abrindo-se e o homem que gritava esmurrava a mulher que chorava. Rasgava suas roupas, puxava-a pelos braços, colocava para cima as pernas da mulher e a penetrava com força seguidas vezes. Esbofeteou-a ainda mais, deixando a mulher grogue. Ele virou a sua vítima de costas e a seviciou. Ao final, ainda deu-lhe um soco na nuca. Se vestia revirando a bolsa dela. Pegou algumas notas de sua carteira e foi saindo pela porta de entrada. A mulher estava desfalecida, tremendo, espumava pela boca e sangrava pelo rosto todo. Um casal de vizinhos entraram no apartamento da mulher violentada e a acudiram. Ligaram para a polícia e a ajudaram a ir para o HPS mais próximo. A porta continuava abrindo bem devagar e soava como um corte na frente de todos. “Me sinto nu. Estou aqui atrás de respostas. Estou nu, despido de consciências e com a alma a mercê. Estou nu por dizer coisas estúpidas demais e não fazer nada.”
“Como se o fogo - fátuo ardesse sob minhas veias, eu não sei se acredito mais”. O próximo passo que deu, o fez enxergar mais uma imagem daquelas que ilustravam seus pensamentos. Uma criança recém - nascida chora, enrolada em panos encharcados, em meio à sacos de lixo. Em sua boca sai um escarro misturado com vômitos. Do outro lado da rua, uma mulher corre apressada lacrimejando. Alguns garotos ouvem o som vindo do meio do lixo e retiram o bebê dali. Preocupados, eles também correm para um lado com o embrulho humano em seus braços. São dois meninos que jogavam futebol no campo da praça perto onde ficam os sacos de lixo. O bebê balança, sacode, chora e tenta se conter. Eles chegam a uma farmácia e a balconista lhes presta auxílio. A demora de encontrar socorro médico os faz agirem com emergência. Depois de ter os primeiros cuidados, a pequena criança se aninha num dos braços de quem a abraça. Ambos dirigem-se ao hospital mais próximo, felizes, porém ainda temerosos. É desse medo que o homem sentia. Dessa tensão de não saber até quanto vale a intenção das pessoas. Talvez, seja disso que realmente ele fale. Ou talvez do que ele nunca tenha sentido. “E em silêncio retornei meus pensamentos para outro local”. Um grupo de jovens estão numa rua movimentada, carros importados estão estacionados. O grupo era heterogêneo, moças e rapazes faziam parte de sua formação. Cigarros, cervejas e uma superfície lisa sob o capô do automóvel parado. Como um ritual cada um tinha a sua vez para consumir alguma droga. Do outro lado da rua, um grupo de meninos iniciam uma briga. Um deles retira da cintura um revólver e dispara no outro à queima - roupa. Berros e corre - corre. Grita, então, uma sirene pela avenida.
“Onde estão todos quando precisamos de ajuda? Quem pode, realmente, nos socorrer?” Novamente, o homem se viu diante do padre, que arrumava a única janela do recinto. Havia, ali, quadros e pinturas de Nossa Senhora, São José e do menino Jesus. Uma bíblia aberta sob um pequenino altar e uma estante enfeitada por arranjos de flores que ficavam do lado direito das cadeiras que estavam no meio da minúscula sala. As cadeiras ficavam lado a lado, uma de frente para outra. O padre percebendo que alguém entrara, mesmo de costas, pediu que sentasse em uma das cadeiras. Então, com calma, o homem sentou na cadeira que ficava de costas para a janela. Com um certo alívio, ele foi se acomodando, ainda com o corpo dolorido, essa dor que não tem nome.
O padre sentou-se a sua frente, mas não o encarou, sequer colocou os olhos nele. Abaixou a cabeça e colocou as mãos no rosto, fechou os olhos e o saudou. O homem salivou, coçou a garganta, olhou para cima e fez sua palavra o silêncio. O padre insistiu na palavra do homem. Ele, por sua vez, gaguejou as primeiras sílabas: - Paapa.. padre, eu estou aqui para conversar... - Claro, todos temos que falar. Ótimo você encarar esse momento de uma forma tão informal. Para um padre, conversar é... - Não é bem uma conversa informal, padre. É mais um diálogo. Eu tenho dúvidas e gostaria de dividi-las contigo para que tu consigas me esclarecer alguns pontos nebulosos. - Como assim, filho?! - Eu não sou seu filho, padre! Exclamou com um certa irritabilidade, o homem. A reação do padre foi de espanto e estupefação que deixou-o em silêncio. Com uma certa cautela ele continuou a conversa: - O que vieste fazer aqui? - Quero que tu me respondas. Estou cansado de procurar respostas que não existem; de perguntas que dilaceram as pessoas. - O que dizes é no mínimo ridículo. Quais são as perguntas e porque tanto drama?! Comentou ironicamente o religioso. - Padre, eu sou uma delas. Eu sou o mal, a fome, a faca que atravessa o amigo que lhe pede auxílio, do irmão que vira o rosto diante da falta de esperança do outro, aquele que cobiça a mulher do próximo, que violenta o desejo e a vontade do mais frágil; que cala ao deparar-se com uma injustiça e faz dela um escudo usufruindo de seus deméritos. Sou aquele ri da desgraça e desafortúnio dos menos favorecidos. Aquele que quer derrotar e arrota pela alma com vitórias sem glórias. Eu sou a resposta cada vez que alguém é estuprado, que uma mulher, criança é totalmente humilhada. Sou eu, padre, eu que vim te procurar para que tu me respondas essa pergunta que deslumbro todos os dias, todas as horas e que nunca teve uma resposta digna, a não ser eu mesmo! Vamos padre, diga! Tu não és um homem - santo, o porta - voz de Deus. Vamos, mostre - me o que eu vim procurar. - Você é louco!? Disse assustado o padre, sem olhar o homem nos olhos. E ele riu, levantou-se da cadeira e andou em círculos pela sala. - Observe padre, quantas pessoas morrem por dia e sequer alguém derrama uma única lágrima por eles? Ninguém quer saber do próximo, padre, ninguém. As pessoas querem que seus filhos, seus bens, seus futuros dêem certo, que seus amigos sejam grandes amigos, que tenham, junto com eles, o mesmo sucesso mas não mais. É essa a imagem e semelhança de Deus? É assim que Deus se parece? - É óbvio que Deus não é assim! O homem é que distorce tudo, acaba contudo, quer o mal do outro. Deus é amor. Concluiu o padre. - Muito bonito. Quanta poesia! Mas explique-me. Eu, que sou a raiz que apodrece a terra, que sou o ódio estampado nos rostos delicados de uma criança ou a raiva dos homens que querem se apossar de tudo e de todos, eu, que sou igual ao seu vizinho ao seu filho e ao seu amante, eu que quero destruir sua imagem, terminar com sua doutrina, apagar sua existência; eu. O padre tentou levantar a cabeça, mas o homem pousou a mão em seu ombro e o fez desistir sem usar nenhuma força. - Não consigo entender o que você diz e nem o que fazes aqui. Estou aqui, agora, para trazer paz aos corações aflitos e de certa forma, dar a palavra de perdão de Deus. Por mais que você fale, eu não entendo. - Murmurou o religioso. - O que eu faço aqui, padre, é a mesma coisa que todos quando chegam por aquela porta e despejam o seu “mundinho” que reclamam tanto, que temem ainda mais. Eu sou aquilo que as pessoas te contam, estou ali dizendo, salivando, cuspindo os problemas, invejas e faltas. Sou eu que estou ali, não Deus todo poderoso. Só eu. - Duvido que você saiba o que estás dizendo. Ouça a palavra do Senhor e verás que tudo isso não passa de uma idiotice insana vinda da sua cabeça. Você precisa de um médico, de auxílio espiritual. O homem começa a rir e senta-se na cadeira de novo, logo após um breve momento de silêncio; ele começa a choramingar. - Padre, eu sou a doença que mata, aquela que flagela, que tortura, que ronda os lados escuros da vida. Balbuciou. Desta vez o padre colocou a mão no ombro do homem e tentou olhá-lo, mas um filete de luz vinda do Sol interferiu de forma veemente. Naquele momento, o tempo e o espaço deram uma guinada na cabeça do religioso. Ele observava algumas crianças brincando num pátio; o pátio da escolinha atrás da Igreja. Não dessa Igreja, da outra perto do Seminário onde o atual padre estudava. Os dias pareciam de pura devoção às belezas da vida e da fé. Aquelas crianças corriam, riam e pulavam de um lado para outro como se não houvesse maldade, como se o Universo se resumisse nas suas brincadeiras. “Nessa época eu tinha vindo de uma infância e adolescência sem muitos conflitos; meus pais eram conservadores, cristãos e não eram praticantes. Escolhi ser padre por causa do conhecimento, por ter a condição de ser a ponte entre Deus e os homens mostrando que os pecados que cometemos podem ser perdoados se nos dispomos a isso. Queria poder mostrar o quão fantástico é a vida religiosa, de como é magnífico ter fé e com ela viver intensamente, muito mais intenso do que qualquer prazer mundano.” Alguns momentos foram se adiantando nos olhos do padre e ele trouxe para si outras lembranças. “Quando eu acordei naquela manhã de março, eu sabia que alguma coisa iria acontecer. Um dos seminaristas correu até meu quarto e disse que uma das crianças tinha sofrido um acidente. Por sermos muito amigos, nós corremos juntos pelos corredores da Igreja até encontrarmos a criança acompanhada de um casal. Eles me diziam que o menino havia chegado anestesiado em casa altas horas da noite e com alguns hematomas pelo corpo. Eu e o outro seminarista o levamos até a uma ante-sala para deitá-lo num divã. Os pais se identificaram e pediram para que fizéssemos alguma coisa, pois eles iriam embora. Meio nervoso, não contestei. Droga. Não contestei! O menino deitou-se e reclamou de dor. O garoto não tinha mais do que seis anos, pele levemente morena, cabelos raspados. Perguntamos o que tinha acontecido e ele desviava o assunto perguntando várias coisas à respeito da Igreja. Pelo nervosismo, nós dois não conseguíamos argumentar. Pedimos que ele nos contasse o que tinha ocorrido para estar machucado e porque os seus pais não o levaram até um posto médico. Ele, finalmente, resolveu colocar-se sobre o divã. Começou a cantarolar uma música popular, daquelas que povoam as rádios e programas de televisão todos os dias. O outro seminarista disse que iria buscar água e curativos. Sozinhos, o menino disse-me tudo que eu não queria saber. - Bateram em mim. Me fizeram sentir dor. Me deixaram assim deitado e enfiaram aquilo dentro de mim. Doeu muito. Doeu demais, mas não paravam de enfiar. Aquilo era grosso, grande, duro. Me Sujaram, me bateram de novo. Me enfiaram aquilo de novo. Tentaram por na minha boca. Não deixei e apanhei mais ainda. Me lambuzaram com aquilo que saía de lá. Espalharam na minha cara, como já tinha escorrido por mim inteiro. Eu falei para o padre e ele disse para eu nunca falar para ninguém. - Toda aquela cena me destituiu das nuvens. - Quem foi que fez isso? Um padre?! - Naquele instante, o outro seminarista entrou na ante-sala e o menino se calou. - O que houve? O que ele disse?! Perguntou o seminarista. Acenei com a cabeça negativamente e disse-lhe que não entendera bem o caso. Ele pediu para que deixasse o menino a seus cuidados, que já o conhecia. Eu fiz exatamente isso. Fui embora, depois de tudo que ouvi. Deixei aquele menino com uma dor que eu não soube curar, um mal que ele jamais vai tirar de seu corpo. O deixei com alguém que ele conhecia. Com alguém que poderia ser o causador daquele mal ou não, mas o que importa é que eu fui embora. Não o ajudei.” Corre por suas lembranças algumas cenas. “ Deus me deu a resposta. Dez dias depois, o seminarista, vou chamá-lo de Ivan, não apareceu a uma das aulas do fim do dia. Fomos, eu e mais dois seminaristas, ver o que tinha acontecido com o nosso colega que nos últimos dias estava muito calado, deprimido, desligado das aulas e das orações. Chegamos ao seu quarto e o vimos. Ele estava pendurado pelo pescoço enforcado num cinto de couro amarrado nos suportes do alto da janela. Um homem de estatura pequena, de farta cabeleira, um pouco acima do seu peso estava ali, morto, nu. Descobrimos que um tio do menino tinha vindo até o seminarista e o ameaçou, não contente foi a polícia e fez uma denúncia acusando-o de molestar o seu sobrinho e mais alguns meninos que brincavam no pátio ao lado do Seminário. Eu tive culpa. Poderia ter ajudado o menino e a tantos outros que foram sendo identificados como vítimas do Ivan. Talvez pudesse ter ajudado ele a se curar, a se conter e a procurar paz. O nome Ivan não existe na verdade, mas o autor dessa barbárie, sim, numa verdade qualquer. Deus me perdoe”.
O padre voltou a si dentro do confessionário, mas estava sozinho. Olhou ao redor e procurou o homem que antes estava trazendo suas lembranças. Levantou-se da cadeira, ficou em pé e logo depois ajoelhou-se nos pés da janela. Sentiu o calor do Sol em seu rosto, entretanto uma sombra se pôs a sua frente. Ele abriu os olhos e viu o homem de preto. - O que foi padre, encontrou as respostas?! Debochou, ele. O padre abaixou a cabeça, juntou as mãos e começou a rezar. - Eu não estou ouvindo?! Me diga, vamos! Insistiu o homem. As orações começaram a aumentar a ponto de se tornar uníssono e inaudível.
As pessoas que estavam dentro da Igreja passavam caminhando pela frente do confessionário. Percebia que o padre orava; alguns paravam diante da porta, outros comentavam e seguiam seus caminhos. As conversas aumentavam com a mesma ênfase que eram deferidas as orações dentro do confessionário.
Algumas lembranças recomeçaram e o padre deteve suas preces. Era uma tarde igual a hoje, um homem veio conversar com ele no confessionário. “Foi como agora, de repente. Um sujeito entrou e se sentou. Murmurava baixinho com medo. Eu ouvia com atenção. Eram pequenas coisas, sem nada de agravante, até ele começar a falar o que realmente tinha feito, antes de vir até aqui. - Padre, o senhor pode perdoar os pecados de qualquer cristão, certo?! - Não sou eu quem perdoa, meu filho; é Deus, pai todo poderoso. Diga-me que mal te afliges e serás agraciado pela dadiva do Senhor. - Eu matei uma pessoa, padre. - Como??? - tentei manter a calma. - Eu matei minha mulher. Matei com uma pá. Ela me enchia, não agüentava mais a voz dela, o jeito dela, o cheiro dela, a cara, o corpo. Meti a pá na cabeça dela, enquanto dormia que nem um bicho. Foi hoje pela manhã. Me perdoa, padre. - disse o assassino confesso. Eu não sabia o que fazer, de novo. Pensei, eu juro, pensei em chamar a polícia, mas ele estava sob sacramento sagrado da confissão. - Creia que você só terá a paz, quando te entregares às leis dos homens. Só assim Deus te perdoará. - o confessor admitiu a possibilidade de imediato e sem mais pestanejar, se retirou. Tudo muito rápido e eu sequer pude entender o que havia acontecido. Pensava que no fundo tinha feito o que era certo. Dois dias depois, lendo um jornal, descobri o que acontecera com o assassino confesso: ele tinha sido assassinado no presídio central, sem ter tido julgamento ou defesa. Segundo testemunhas, no seu depoimento, ele admitia a culpa e exigia ir para o Presídio Central, pois só assim Deus o perdoaria. E eu sequer prestei auxílio a ele como devia. Eu estou aqui em nome de Deus ou porquê?” Sentenciou, o padre.
Um carro acelerava do lado de fora da Igreja. O ruído que saía de seu motor era ensurdecedor. A barulheira trouxe o padre para o presente. Ele viu-se de costas para o homem com quem conversava, tentou virar-se, mas por vontade própria desistiu. A poluição sonora perpetuava incessantemente até que de repente, findou-se. - O que houve, padre? Lembraste de algo, não é?! Indagou o homem. - Não sei o que você tem haver com o que aconteceu, mas eu sinto no meu coração que você estava lá. Disse ele. - Eu não lhe disse que sou eu. Sempre eu! Confirmou. - Me disseste que és o mal, o erro e o que vejo aqui é que você não passa de um homem apenas. Disse o padre olhando, finalmente, para o seu companheiro. Em silêncio o outro permaneceu andando de lá para cá, parou e encarou o padre. - Amigo, sou eu que protejo, que não deixo você morrer causado pela violência ou maluquice do próximo. Sou eu que estive sempre ao seu lado, quando choraste, quando te descobriste homem, ser humano e frágil. Eu, somente, eu. Vim aqui para descobrir porque andamos nessa tênue linha que cruza os nossos dias entre o que é certo e o que é errado; o que é bom e o que é mal. Quem tem o direito de desenhar os personagens das nossas histórias e mudar o andamento do nosso enredo, que chamam de destino, por mero prazer. Sou eu, eu que não acredito mais. Estou aqui para saber porque você ainda tenta se convencer a acreditar. Ele encostou-se na parede e sentiu a umidade que dali escorria. “Parecem lágrimas”.
Os passos das pessoas fora do confessionário aumentaram a velocidade e por conseqüência, o som se propagou ao exagero. O padre curvou-se em sua cadeira e encolheu-se, parecia que ele queria se afogar em si mesmo. Pensava em tudo o que acontecera, no que estava acontecendo e nas palavras vociferadas pelo estranho parceiro. Recordava de rostos que se deformavam em segundos e de vozes que se assemelhavam a grunhidos. Sua mãe apareceu nítida em meio aos seus assombros. Ela sorria de braços abertos. Cheiro de comida caseira, feijão com lingüiça, arroz soltinho, pão de ló, imagens de casa. Seu pai veio em seguida com as feições fechadas e gestos contidos, demonstrações inrustidas de carinho. Bons momentos em casa.
A porta do confessionário foi sendo aberta lentamente. O padre e o visitante olharam juntos para ela e viram que duas senhoras estavam entrando. Ao depararem-se com os dois, elas imediatamente fecharam a porta e sumiram. A atitude atabalhoada das duas fez com que eles rissem. O ambiente ficou menos claustrofóbico e ambos puderam relaxar. O homem de preto pegou o seu isqueiro e começou a brincar com a chama. O padre pôs-se de pé e procurou folhear a bíblia, talvez para descobrir alguma coisa que pudesse, enfim ajudá-los. Fechou os olhos e repetiu alguns trechos em latim. Contrapartida, o homem apagou a chama do seu isqueiro na parede e olhou para o raio de Sol que teimava em emoldurar aquele lugar. - Você sabe onde está Deus, padre? O que ele faz para se divertir? O que representamos para ele? Esse tipo de pergunta infantil que nunca tem resposta e com o passar do tempo temos medo de repeti-las. Você sabia que o mal poderia bater na sua porta, padre?! Eu não! Nunca imaginei isso. Pensei que Deus nos poupasse desse tipo de situação. Que Deus nos ajude! - gritou o homem de braços abertos para os raios solares que invadiam os seus olhos. O padre parou de orar, ficou olhando para a cena patética que o visitante realizava a sua frente, riu baixinho sem jeito e retornou a faceta triste. - Queria ter todas as respostas. Gostaria de mostrar para ti o quão errado tu estás, mas creio ser impossível, realmente impossível - disse já resignado, o padre.
Os dois se encararam, pensamentos afloraram em ambos e nenhuma palavra foi dita. O Sol já não brilhava tanto e seus raios também se iam. O confessionário estava igual a um pequeno buraco, a uma gruta, como um lugar desabitado, distante, inóspito. Eles estavam duelando com seus pensamentos e das imagens que povoavam o seu interior. O visitante, o companheiro, o parceiro, o pecador atrás de redenção quebrou aquele código íntimo e se pronunciou: - Vou embora. Já fiz mais do que queria ter feito. Descobrimos juntos esse paradigma que nos envolve, que abrange muito mais do que dogmas, do que diretrizes, premissas e doutrinas. Estou pedindo perdão à ti, não à Deus. Temo a imagem que criaste mais do que o criador que acreditas. Um Deus que ama não precisa perdoar. - o homem foi até a porta do confessionário e antes de cruzá-la, voltou-se e o padre mergulhou em seus olhos. Viu-se neles até formar o seu rosto no do outro. Ele correu em direção ao homem que estava parado na porta, mas este foi-se. O padre caiu no chão e levantou os braços, pediu clemência, logo depois chorou lacônicamente. Estava, desta vez, só.
O dia estava acabando e a brisa da tarde crescia, tomava forma, corpo e embalava a chama das velas do interior da Igreja, como se entonasse uma cantiga de ninar. Um homem acendeu uma vela junto às outras que ali estavam. Só se pôde ouvir seus passos pesados marcando o ritmo da brisa como se ela o tivesse levado. As velas continuaram dançando, mesmo quando ele já não estava mais ali. Uma entre tantas velas, se apagou.