Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Wednesday, May 16, 2007

Bufos

A primeira coisa a ser vista foi quantas garrafas acumulavam-se em cima da mesa. Olhei com firmeza sem dar maiores atenções às pessoas ao redor. Todos viram-me parado, observando as garrafas e me cumprimentaram. Um deles, com sorriso largo, convidou-me para me juntar a eles. Pestanejei e novamente insistiram, agora em coro. E eu, instigado, me juntei a eles, permanecendo ao lado, em pé. Via suas vozes e atitudes se elevarem às gargalhadas. Ouvia o tilintar de copos estraçalharem-se. Brincadeiras à parte, um copo de cerveja tomba sob a mesa fazendo da sua ação o centro de um rebuliço maior. Entre a gritaria e os dizeres mais iconoclastas possíveis, desculpa-se a autora.
Seis pessoas sentadas, quatro em pé e eu escorado numa das pilastras do café – bar. É moda em Porto Alegre. Um nome mais refinado para entornar litros de cerveja, sem que seja pejorativo. Ao nosso redor outras mesas de seis lugares abarrotadas de pessoas diferentes, iguais e semelhantes em suas roupas, maneiras, estilos e conversas, até o sexo, também povoavam o universo etílico.
Como um estudioso, fico ali, revelando aos meus conceitos à personalidade de outros. Meço suas atitudes, seus gostos, seus semblantes. Beberico de outros copos, goles e mais goles de cerveja. Multiplica-se o número de garrafas com a minha chegada. Mais uma vez, aos berros os meus colegas de bar me alcançam um copo só meu. Sou servido até transbordar os afagos dos amigos.
Tinham uns tipos bem definidos. O JH, um homem de quarenta anos viciado em refrigerante dietético e cerveja, devorava saches de maionese com voracidade. Espremia-os na sua língua, lambujando-se. GA, já mais gritante do que de costume, fez presente com um sonoro arroto que atraiu atenção, aplausos, sorrisos e ânsias. SE, uma menina de dezenove anos, mas com a massa muscular de cento e cinco, sorria de boca escancarada. JH ensaiava rituais performáticos com as mãos tentando agarrar as lâmpadas no alto do bar. FR tinha o ar sério, bebia com calma, lento, quase parando. Um beija-flor de mesa de bar. Uma nova cria de “barfly”. Aos cochichos, JU e LR, abraçavam-se movendo os lábios e os olhos para um lado e para outro repleto de insinuações. GA tentava em vão participar desse mundo aparte. Através de sorrisos amarelados e copos vazios, foi sumariamente rechaçado. O cenário perfeito. Como se os outros estivessem invadindo sua casa, os seis, sentados, faziam caras e bocas costurados por comentários nada gentis; os quatro, de pé, analisavam cada mulher que entrava no bar e suas características mais marcantes. E eu, encostado, observava como uma câmara de vídeo, dando zoom, avançando, retrocedendo, mostrando closes, cortes, aumentando o som e colocando todos em mute. Assim estávamos, no calor impertinente fora de época. Num agosto à base dos vinte e poucos graus no meio da noite sulista. Bebíamos à esmo, como se não tivéssemos fundo. Dava para notar na silhueta de cada um: gordos, flácidos, obesos, sedentários zunindo de lá para cá. Correndo, no máximo, até o banheiro. Se muito iam, aos atropelos, no balcão exigir a próxima rodada. Os saudáveis atletas de levantamento de copos e flatos à distância. CB batia no peito dizendo-se mais torcedor que todos ali presentes. Chegava a ficar rubro, como a camisa do seu time, para demonstrar tamanha dedicação. TA, engoliu toda a cerveja do seu copo de duzentos e cinqüenta mililitros, para contrapor-se ao dedicado torcedor. Mostrou sua tatuagem com o escudo do clube. JH participava do diálogo em expressões que criara no dileto lúdico dos beberrões. O pacificador, MD, abraçava os dois dizendo a todos que o importava era a paixão. Eu atiço a todos em projetar suas fúrias aos torcedores do rival. Um levante se instalou. Casais discutiram abertamente. Mães foram citadas de forma nada puritanas. Amigos empurraram-se tentando chegar às vias de fato. Silêncio, enfim! Chegou mais uma rodada.
Enquanto isso os donos da casa foram esbarrados pelos turistas de plantão. As ofensas musicavam o ritmo das conversas paralelas. Os estrangeiros atreveram-se em responder. Fúria. Quedas. Rebelião. E o inevitável, deixa disso. Sem antes uma instalação de demarcação do território.
Quietos, mais comedidos, conversavam. Diziam-se muito mais próximos um dos outros. Marcaram encontros e o que iriam fazer daqui algumas horas. Uns nãos e outros confirmados, foram-se. Fiquei ali, com um copo na mão rindo. Guardei as imagens certas e olhei para o céu. Negro, sem nuvens. A poesia de concreto, cimento e argamassa de JH estava escrita em versos engessados nos anais dos guardanapos de papel em cima da mesa, onde uma parte estava manchada e ilegível: Na sua boca...sua cadela loca...

Dei o stop.