Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Saturday, August 11, 2007

Crônicas de Bate-Papo III- SEX MACHINE


Você já deve ter se identificado com alguns personagens na sua vida. Criado alguns, retirado tantos outros que fizeram um mau papel em seu roteiro. Nesse filme sem fim que se tornou sua vida com uma série de curtas-metragens, você assim, como eu, sabe que o melhor de tudo é se reinventar a cada dia. Com certeza todos com suas falas improvisadas têm sua importância; não são apenas coadjuvantes, eles fazem ou já fizeram parte de você, o protagonista. Assim como eu; é claro.
Então saímos de casa. Eu, você, a vizinha, o vizinho todos com seus roteiros sem saber muito bem o que está na página seguinte que ainda está em branco. Do elevador até a garagem um estranho sentimento de cumprimentos secos amanhecidos. Daqui cada um parte para seu cenário. O vizinho vai estudar numa escola de línguas, a vizinha vai para seu escritório onde é proprietária, você, bem, você sabe para onde vai e eu para a academia de musculação aproveitar meu tempo ocioso cuidando da quilometragem avançada do meu corpo. Indo para página dois.
Quase todos os dias faço disso a minha rotina “desencanada”. Pelo caminho vejo os outdoors com suas promoções de varejo, nos tapumes de madeira dos prédios em construção estão cartazes dos shows na cidade, nas bancas de jornal, revistas exploram manchetes sobre a novela das oito em conjunto com escândalos da aviação e deslizes grosseiros dos nossos políticos. Personagens; penso. Cantarolo canções e letras que compus assobiando na rua. Demoro cerca de vinte minutos para chegar até a academia. O céu azul está coroado pelo Sol alto avermelhado. O dia está perfeito para o inverno. Clima seco com um leve vento gelado.
Diante da porta de vidro da academia faço-a correr para os lados dando um rangido que chama a atenção de alguns. Mais personagens. Entro a passos firmes e com sorriso aberto como se chegasse na casa de um ente querido bonachão. E vejo os personagens de uma pequena história; de um filme curta-metragem que se repete quase todos os dias como reprises da Sessão da Tarde. Vou até uma das máquinas de correr, as esteiras propriamente ditas. Olho ao redor e me sinto no meio de uma câmara de tortura da época medieval, damas de ferro, espinhos, cruzes, roldanas. Se materializasse alguém daquela era, um inquisidor estaria realizado com essa tecnologia às suas mãos. O suor estampado na cara dos freqüentadores atrás de saúde, bem-estar e porque não, sexo.
Lá estão os atores, o grande predador com seu jeito politicamente sedutor e atencioso, digno olhar de 360 graus, (rotação em seu próprio eixo) um rapaz lá pelos vinte e alguns anos conversando com todo cuidado com uma aluna a ponto de se ter idéia que ela seja um bibelô pode ter uma franjinha arredondada, grandes olhos claros, ou bem dotada fisicamente, decotes e preferência nacional; o galã (poderia ter o aval da produtora As Brasileirinhas), jovem também na mesma base de idade do antecessor, porém com estilo mais rebuscado, direto, rosto de propaganda de lâmina de barbear, com boné enterrado na cabeça, braços cruzados, feições fechadas escondendo pequenos trejeitos de moleque às alunas que forçam olhares com ele que variam com seus sorrisos dengosos, que o procuram passando por todos como se o resto dos homens a sua frente fossem cones de sinalização, balizas humanas sem rosto; o perito, o comandante de horda de técnicos com seu jeito de prefeito de cidade serrana, aparece acenando, cumprimentando todas as pessoa que você possa imaginar e é claro, deixando no arquivo B o futuro nada certo com quem quiser se engajar em sua campanha com a única restrição que seja feminina. Eleitoras sempre existem. Temos do outro lado do ringue “as chefas” que coordenam ao longe os anseios e possíveis alvos de “atiradores” de elite e nem tanto assim. Colocam em ordem na casa sacudindo a masculinidade alheia inibindo qualquer ataque. Idade é um dado que nenhuma mulher gosta que revelem e como quem já levou chibatadas por esse deslize, então deixemos isso de lado. Todos estão nesse filme, o restante estará em outras cenas do próximo capítulo, se houver verba suficiente(e juízo) para uma continuação. E eu trotando em cima da esteira em velocidade média, ao meu lado outro aluno e iniciamos uma disputa de quem venceria essa corrida. Como chegara antes, fui o medalista de ouro. Exigi aos gritos, aplausos que me foram abafados por olhares desconcertantes. Agora eu estou parado em outro aparelho observo cada movimento, cada respiração – no fundo a música do The Police, Every Breathe You Take.
Eu, como um abutre à espreita, continuo o meu vôo. O abutre é sempre aquele ser irônico nos desenhos animados que parece estar com um sorriso no rosto pronto para ver que a presa enfraqueça. Eu sou esse abutre esperando os personagens desse meu filme “vacilarem”. Gosto de rir das minhas próprias piadas. Imagino o diálogo em balões acima da cabeça deles. Seus diálogos e seus atos muito além da música repetitiva estão prontos fora dali. Em algum apartamento, numa rave, num bar, numa cama. MOVE, baby! Shake it!
Todos ouvindo James Brown, Sex Machine. Todos procuram saúde, bem-estar e como já tinha dito, sexo. Somos uma máquina.Uma máquina de sexo. Incansável. Querer o inalcançável. A grama do vizinho sempre é mais verde. Insaciável.
O abutre bate asas e sai de cena.