Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Friday, October 26, 2007

Rasuras( Personagens )

Eu só pude pensar numa coisa para dizer naquele momento: - Atira, seu filho da puta! Não tenho que esperar pôr ti. Atira logo! Eu, de joelhos no chão, com o suor e o sangue correndo pelo meu rosto com ardência, encarando aquele sujeito corpanzil, de casaco de lã, tapando sua boca com um lenço pútrido. Falava sem pensar, não conseguia parar nem para tomar fôlego. Babava poças de saliva vermelhas. Cuspia-as na direção do agressor. Meu peito arfava – ‘Tá esperando o quê?! Você quer que eu peça pôr favor, seu merda! Encarei o cano do revólver e vi o clarão que dali pariu sem som. Como se o som fosse completamente inaudível. Como se só houvesse a imagem. Parecida com uma imagem fragmentada de um quadro de televisão. E de repente, com a aproximação do projetil, a tela do visor gerasse uma corrida desorientada que nada define. Criando um formigueiro em completo estupor. Imagens morfologicamente mal definidas e de maneira abstrata, com total indiferença, absurda e confusa. Textos ilegíveis vociferados pôr vozes idem. Rasuras de figuras indefectíveis, irascíveis. Sim, rasuras nas imagens. Manchas displicentemente colocadas uma sobre as outras, como miçangas. Borrões de silhuetas. Dava um contorno aconchegante, até familiar, quase íntimo com o som que não se ouvia. Parecia-me estar num lugar inócuo, lacrado à vácuo; transparente à ação do acontecimento. Descrito com facilidade, o caminho do projétil traçava uma linha imaginária. Quase parando no ar num movimento irregular, dirigindo-se para mim. E naquela tela, rusticamente delineada, eu escolhi momentos da minha vida que completavam o quadro geral. Via de um sentido disforme. Acenava com um álbum de reminiscências que pulavam à frente dos meus olhos; vilanias que proporcionavam uma enxurrada de arrependimentos, mesmo que inconsistentes.
Assim tão fácil, sim. Na luz se fez o ruído. Como se nascesse naquele segundo. Agora, ouço o som. Num estalar de dedos ritmados marcando o andar no espaço vago do projétil. Um trajeto lento num piscar de olhos. Um eco retumbante e inconseqüente como se fogos de artifício fossem alçados para o alto e o seu espocar alardeasse ao meu lado junto com a proximidade do projétil até atingir seu alvo.

Num diálogo insólito, retorno. - Vais acordar ou está muito difícil?! Arregalei os olhos embaçados, absorto, grogue, meio zonzo. Ouço a voz conhecida, mas não imagino quem seja. Sinto-me mal. O meu estômago se contorce, embrulhando-o. Miro o meu interlocutor e descubro esta pessoa remexendo nos meus livros, segurando algumas peças de roupas minhas. – Você não deveria estar aqui? Que fazes então?! Bocejo com força, chegando a estalar o osso do maxilar. – Estou cansado. Resumo e continuo. – Você já deveria ter pesado e misturado essa porcaria. Balbucio apontando para uma mesa. – Você precisa de um convite formal ou vai enfiar tudo isso nesse seu focinho. Prossigo, já irritado. – Dane-se, cretino! Vá para o inferno. Me deixa afundar nessa “farinha”, se quiser. Tenho que ficar assim, com os olhos bem abertos, e conseguir dinheiro. Vou misturar essa merda na hora que eu quiser, entendeu?! Enquanto você fica a noite inteira chafurdando em poleiro em poleiro, em puta e puta, em carreira em carreira, eu fico aqui pleiteando um pau para te sustentar. Arregaço minhas pernas para um qualquer. Tenho que ter toda atenção necessária. Azar o seu. Estás com sono, benzinho?! Vá para cama das tuas amiguinhas. Tenho que trabalhar, conseguir dinheiro e ainda pagar as tuas malditas contas e custear teu nariz. Gostaria mesmo de costurá-lo! Rasgo-me para te conseguir as coisas que tanto queres. Vou para cama e deixo que me batam, esfolem, gozem em mim, em cima de mim, dentro de mim e você o que diz? Nada! Só se preocupa se vais ter produto suficiente para animá-lo mais uma noite. Como se o que eu fizesse fosse nada. Um nada qualquer que possa te sustentar. Eu deveria dar um basta nisso tudo e te matar! Enfiar uma faca no teu coração. Sufocar você ou sei lá te picar com uma agulha infectada com passagem aérea só de ida ao inferno. Eu te amo! E pôr isso que te odeio mais e mais a cada dia, em cada segundo, em cada suspiro. E não ouvi mais nada. Eu vi aquele personagem se lamentando, choramingando e me agredindo cada vez mais num joguete de verborragia crua e grosseira. Mas não conseguia parar de falar. Um discurso vazio. Parecia um rabisco de desenho animado que mexe os lábios e sua fala é ridícula. – Só dessa forma eu entenderia tudo que eu passo. Morra, imbecil! Pôr favor, morra! Morra pôr mim! Faça algo pôr alguém que não seja só você. Se você me entender, apenas faça! Sentenciou. Até que enfim. Já não agüento mais ouvir essa ladainha. Bocejo. Noto que a figura teima em mexer os lábios, gesticula, acena com a cabeça como um “João - Bobo”. Que ressaca. Podia aumentar o volume dentro do meu cérebro e ouvir as palavras hostis que dali partem cuspidas sem direção. Mas prefiro continuar, virtualmente, surdo.

Tenho vontade de vomitar. Como podemos adquirir esse tipo de coisa! Lendo essas notícias sangüinolentas estampadas em manchetes grotescas, com tarjas negras e fontes espichadas dando impacto à desgraça dos outros. Sem distinção de sexo, cor ou credo. Um enorme aglomerado de insultos literários e abusos jornalísticos. O papel onde é impresso não serve nem para cobrir os corpos que estão jogados nas valas vazias das colunas, enterradas nas linhas de cada texto. Jornalismo marrom, púrpura, escuso, sórdido, viscoso e ademais adjetivos que enfileiram o meu cérebro. Manchetes colorem o topo das páginas, tendo alguns exemplos: “HOMEM VESTIDO DE MULHER MATA ESPOSA E CURRA ENTEADA!” Ou pérolas como: “MULHER ENSINA CACHORRO A FAZER SEXO ORAL”. E ainda destacando, “JOVENS ESPANCAM VELHOS”, e mais, “TARADO DA ZONA É CAPADO NA FRENTE DA MULHER” e assim pôr diante. Nota-se o nível e a categoria dos jornalecos que circulam pôr aí. Caminho pela rua ainda enojado e hipnotizado pela leitura opressora e caricata da realidade enfant terrible. Me interesso cada vez mais, chego até a rir de alguns infelizes. Folheio algumas páginas sem me aprofundar na leitura das matérias, apenas exacerbado pela curiosidade das manchetes. Penso em ética. Respeito. Amor próprio. Cruzo os dedos, esfregando-os, para tentar limpar a tinta que os mancha. Papel de boa, ou melhor, “excelentíssima” qualidade. Ética! O que será que passa na cabeça das pessoas em ir até uma banca de jornal, desembolsar algumas moedas e ficar lendo notícias assim. Existe fotografias de mulheres nuas! Olha só. Viro na vertical a página para admirar com maiores detalhes. “A RAINHA DO MÊS” – Que carinha. Seios bonitos. Bundinha arrebitada. Coisinha boa. Digo em voz baixa para mim mesmo. Paro na frente de uma lanchonete e espirro três vezes seguidas, causando um alvoroço pelo meus gestos atabalhoados. Cheiro a minha mão e o aroma que exala do papel. Penso, mas não digo nada. Voltamos a pensar, agora em respeito. Com o jornal dobrado, entro na lanchonete e vou direto ao caixa. – Tens cerveja em lata? – Sim. Responde um senhor de camiseta justíssima, aparecendo o umbigo, de bigode e com boné de um banco de seguros. – Quanto custa? – Nacional, importada, light, bock. Mas pede ali no balcão, faz ‘licença! Vou até o balcão e solicito ao atendente que já ouvira o balconista. Abro a lata e dou um enorme gole. Prolongando-se na minha boca. Está quente e a cerveja quase. Na porta da lanchonete diz claramente “CERVEJA GELADA” e pode ter certeza que está mais para quase fria do que gelada. Folheio o jornal que eu dobrara e enfiara debaixo do braço. Leio o meu horóscopo. Não acredito muito nesses assuntos, mas é bom dar uma espiada e ver se as “coisas” estão bem. Acho bobagem. Vejo meu ascendente. Engraçado um diz uma coisa e outro diz absolutamente o contrário. Há uma manchete ao lado das previsões astrológicas. – Quem será que escreve isso? “JOGADOR DE FUTEBOL É PEGO COM A BOCA NA BOTIJA”, falando sobre o fato de um jogador de futebol de um time local ter sido abordado numa casa noturna pôr policiais e com ele foi encontrado 3 gramas de cocaína. A legenda com a fotografia do cidadão dava até pena. Matéria curta. A publicidade em torno do acontecido gerou uma azia, talvez pôr causa da história ou pela cerveja fria, quase quente. E a privacidade do cidadão é o ponto crucial da história. O respeito se perde nas entrelinhas. Há mais propaganda de colchões e de serviços de entregas à domicílio do que texto jornalístico. Me interesso cada vez mais pelo fato. Vejo que um dos colunistas já escreve à respeito do acontecido. Ele coloca a versão do próprio jogador em pauta. Culpa os policiais pôr terem trazido consigo jornalistas que divulgaram o flagrante. Dizia que tudo era uma armação até que se prove o contrário. O Jogador podia estar apenas na noite, bebericando, acompanhado pôr mulheres bonitas, tentando se divertir um pouco como qualquer ser humano e, sem saber, ter sido vítima das companhias. Mas se ele estava drogado deve ou não ser condenado, então devemos passar a mão na sua cabeça e está tudo desculpado? E se for verdade? Ele estava bêbado, então? É certo um profissional, um atleta, que ganha uma enxurrada de dinheiro ter esse privilégio sem responder pelos seus atos? E esse paternalismo cego de torcedor, tem o direito de se impor pôr meio de um veículo a sua idéia, movendo intencionalmente a opinião dos leitores? E quem tem culpa, afinal? A polícia ou os jornalistas? Penso numa dezenas de perguntas. Chego ao ponto de tirar do bolso uma caneta e um folheto amassado, escrevo todas no próprio para não esquecer. Continuo lendo o resto.

Coloquei todas aqueles enfeites em cima da mesa marrom – escura do centro da sala de estar. Bolas de plástico coloridas, lâmpadas pisca-pisca foram sendo retiradas da caixa de papelão juntamente com bibelôs de pano com formas de imagens natalinas. Pequenos animais, renas, trenós, árvores minúsculas e um grande número de Papais – Noéis tão agrupados que os fios que os enrolavam pareciam estarem unidos pôr um cordão umbilical advindos da volumosa árvore plástica. Ao colocá-la no pedestal, fui adicionando os penduricalhos. Puxando fios, deixando cair as bolas coloridas no chão onde algumas se espatifavam e outras picavam como se adquirissem vida, obtendo à liberdade para um mundo novo, porém as recolhia numa disputa de quem seria o mais hábil.
Vi meu pai sentado diante da árvore que teimava, incessantemente, pender para um dos lados. Ele me observava sob o jornal que lia. Esboçava um misto de sorriso e seriedade. Parecia, para os mais incautos, que ele rogava os mais “calorosos” votos de insucessos na minha empreitada. Olhei-o com um certo desafio. Apertei uma das bolas coloridas na minha mão até quebrá-la. Ele não moveu nenhum músculo para me ajudar. Ficava ali, analisando, ironizando, sugestionando com ele mesmo o que deveria ser feito e o que estava certo ou errado. Mesmo sabendo que logo depois ele colocaria suas mãos no pinheiro para retocá-lo.
Avistei ao longe uma fagulha no céu que se atreveu num rebuscado traço artístico na escuridão; uma repentina claridade desenvolveu-se. Uma tranqüilidade cresceu com aquele sorriso no céu. Fui para mais perto da janela e encostei o meu rosto no vidro, esmagando-o.
Hoje é Natal, e já sinto vontade de confraternizar. O tempo melhorou, como se aquele trovão prometesse os seus votos de felicitações naquela noite. Ver familiares, amigos, trocas de presentes, sorrisos e mais sorrisos agregados a esbórnia gastronômica que preferimos. Numa coleção de gracejos, vi meu pai discutir e proferir um dos seus discursos postulando posições entre divergentes, covardes, fascistas e lúdicas sobre os mais amplos itens em torno do assunto primordial de inúmeras e morosas horas. A festa iniciada, a troca iminente de presentes, o adivinhar dos amigos secretos e a mesa posta aos convivas movidos nos enormes goles de qualquer bebida alcóolica colocada aos seus alcances. E os parentes exaltando-se em meio à bebedeira, copos caindo no piso, derrubados em cima das mesas, cachoeiras de vinhos, cervejas e muita comida decompondo-se sob os pratos remexidos junto às sobras.
A prece foi feita, todos crentes ou não, ali estavam rezando pelos seus, pôr si e pelo futuro. A família cortês, recebia os convidados, nos cantos outros permaneciam quietos com olhares tristes nos fogos e suas explosões jaziam tais quais lágrimas estendidas no céu negro, iluminando-o. Das conversas, surgiram piadas e delas lembranças junto com certos culpados e inocentados. O telefone esperneando era atendido às gargalhadas. As crianças corriam de um lado para outro com seus brinquedos novos. Os votos eram renovados felicitando todos os presentes e aqueles que não puderam comparecer. Planos foram feitos.

E sem sombra de qualquer dúvida, eu era o alvo. O projétil parecia-me desenhar-se no vazio entre nós dois. O homem, antes, discutira comigo. Reclamava da sua sorte, das nossas desavenças, da falta de respeito mútuo, enfezava-se com vários fatos. Carregava em uma das suas mãos uma peruca castanha. As palavras pesadas fizeram-se presentes na ausência de outras testemunhas. Não tinha a intenção de brigar com ninguém, pelo menos até então. Agilmente, tentei desviar do trajeto periférico que o projetil realizava em lentidão. Joguei meu corpo para trás, mas o tempo é mais relativo do que meus movimentos. Eu, desajeitadamente, jogara minha cintura para um lado e o peitoral permanecia imóvel causando ao espectador a noção de que a sua frente estava uma estátua em forma de “S”. Contorcendo-se como uma cobra, no extremo da imaginação. Uma figura cômica, tentando provar que todas as teorias da física estavam erradas. Naqueles milésimos de segundos, os acontecimentos demoravam para que fossem explicados. Não compreendia, até então, porque ocorrera tudo aquilo. Estava certo de que não passava de um enorme engano; que aquele projétil não era direcionado para a minha pessoa, mas para outro que cultivara maiores atritos. Queria realmente crer naquilo. Minha vida só podia depender disso! Porém, já não importa mais. O alvo é atingido. Eu caio no chão como um saco de batatas, esparramando o meus membros no piso. Respiro com dificuldade, coloco a mão no meu peito e o sinto encharcado. Olho para cima, para os lados, em todas as direções. Ouço passos lentos vindo na minha direção. Aperto o ferimento. Começo a chorar. Os passos estão mais próximos, param quando chegam ao meu lado. Vejo o meu algoz se ajoelhar, em silêncio. Começo a ofendê-lo, mas minha voz é fraca e quase nada é ouvido. Assemelhando-se a uma oração. A mão alheia pousa sobre os meus olhos, fechando-os. A escuridão me assusta muito mais do aquela cena toda. Tento reabri-los, mas não consigo. Apenas ouço o movimento ao redor.

Tentei me erguer da cama e o mundo girou. A voz ressurgiu junto com um tapa na cara. Abri bem os olhos e não consegui ver nada. – Espera um pouco! Gritei. – O que está acontecendo! Espera um pouco. Afastando com força a pessoa que me agredira. – O que? Estás com medo. Não queres me “peitar”?! Respondeu. Tonto, ainda, tentei permanecer em pé, mas não obtive êxito. Entretanto, a outra pessoa já vinha para cima de mim carregando na mão direita uma estatua. Tentou um número incalculável de vezes me acertar, mesmo não mantendo o equilíbrio e nem coordenação.
Perdi a noção de tempo–espaço, desabei sobre a mesa da escrivaninha. Recuperei - me rápido. Vi que o personagem que bradava, continuava tentando me atingir, estabanado e afoito. – Pare com isso! Gritei. Recebi como resposta mais um golpe. – Você é doente. Estás completamente fora de si. Tentei dialogar. – Fora de mim, estou desde que te vi pela primeira vez! Discursou.– Porquê tudo isso? Perguntei, ainda caído. Os olhos avermelhados daquele personagem era assustador e ao mesmo tempo melancólico. Parecia dizer muito mais que seus atos. Eles mudaram de direção pôr alguns breves momentos de divagações. Cheguei a ficar com pena daquele fantoche. Parecia-me um desenho mal animado feito às pressas. E como tal se tornou tão vulnerável. Um marionete de pano sem ser manipulado, colocado num baú. Vi o brilho da oportunidade perto da minha mão. Agarrei uma tesoura que estava escondida sob uns rascunhos e desferi quatro estocadas, atingindo o pescoço, peitoral e seus braços, com os quais tentava, em vão, defender-se. – E agora, chora! Chore mais um pouco! Quer que eu morra?! Olha só o que você me obrigou a fazer. Queres um elogio. Um abraço?! Então venha “pegar” seu prêmio! Grunhia. Quando vi os seus olhos abertos, pensei em ir abraçar a vítima. Entretanto, me reservei em ficar em pé e o meu estômago contraiu-se. Mesmo com aquele corpo atirado no chão sangrando, tomei de sobressalto uma resolução: sair para a rua. Precisava de uma dose. Depois limparia o tapete, sempre é bom deixar a casa organizada, já não posso contar com mais ninguém.

Tem até palavras cruzadas! Que bom! O tempo vai mudar pelo jeito. Olhei para cima analisando o aproximar das nuvens e o discreto Sol. As horas avançam. Já tem um cheiro de chuva no ar, como dizem no interior. Cheiro de terra molhada. Vejo que não comi nada até agora. São seis e quinze da tarde. E a fome já começa dar sua graça. Eu vi alguma coisa sobre buffet barato aqui no jornal. Onde está? Veja só! Mais notícias. Política. “SOBE IPTU.CIDADE MAIS CARA, MENOS MORADIAS.” Ninguém vê que aumentar e aumentar não resolve. Onde o cidadão vai conseguir pagar suas contas, ter as condições mínimas para sobreviver. E tem mais aumentos. “GASOLINA MAIS CARA.” Mesmo com toda as manifestações internacionais para abaixar os preços sobre os combustíveis, nós aumentamos. Faço contas de cabeça para saber quanto tenho no bolso. Vejo na rua, uma dezena de carros buzinando diante de um cruzamento. Como um bando de bárbaros acompanhados pôr pedintes, vendedores de balas, floristas, mendigos, mães com bebês de colo, crianças e limpadores de pára-brisas se alojam ao lado dos carros e pedem, oferecem, insultam até pôr alguns trocados. Será que eles também aumentaram seus pedidos? Imagino. Viro à página.
Acho esse jornal imoral, obsceno e deturpador. Amasso-o em algumas partes, dobro outras e perco-me na curiosidade das manchetes. Pego, de novo, a minha caneta e circulo algumas palavras e pensamentos, dizeres e comentários. Entro naquele circo como um trapezista amador. Sinto a cada frase uma sensação de desconforto e êxtase. Sorrio, quando penso que sou um tarado literário em busca de prazer jornalístico bestial. Com os olhos enfiados nessas páginas, mal vejo para onde vou. Ninguém passa pôr mim. Paro e observo a minha localização. Estou no fim do centro da cidade. Perto de um beco. O faro jornalístico se mobiliza. Há algo no fim da rua. Existe um corpo no chão, segurando uma peruca. Examino com cuidado de não me aproximar muito. Estou à quatro metros do corpo e já acho muito perto. Não percebo se respira ou não. Tento fazer observações e concluo que o mais correto é chamar às autoridades. Corro até uma cabina telefônica e disco o número da emergência. Relato o acontecido e me pedem dados pessoais que me recuso a dar. Encerro a ligação. Tenho uma idéia e disco novamente, dessa vez para o editor do jornal que eu estava folheando.
A noite já aparece ao horizonte com o despojar do Sol. Depois de falar com o editor, resolvo voltar pelo meu caminho, não antes de ler a seguinte nota: “JUIZ DIZ QUE NÃO ROUBOU; NÃO SABE DE QUEM É A CULPA”. Começo a rir.

Todos já estão de partida, juntando seus pertences, seus presentes, aglomerando-se em grupos. Enfileirando-se para se despedir. Cumprimentam-se, agradecem e falam alto quase aos gritos. Brincam uns com os outros com piadas tolas que só são engraçadas quando o álcool já se torna anfitrião. Em meio à bobagens, novos votos são repetidos pôr vezes como se ninguém os tivessem ditos antes. Algumas crianças estão entregues ao sono e ao cansaço de suas correrias. Seus rostos empolados nos braços dos pais; outros amontoados embaixo das almofadas do sofá. O mau – humor dos que são acordados tem como resultado imediato, um choro dolorido e sonoro.
O cansaço torna-se uma epidemia. O festejo de bocejos se concretiza. Todos perdem seu brilho, seu aprumo e desarrumam-se no continuar da noite. A família, enfim, se recolhe; e eu fico ao luar hipnotizado pelas horas que se foram. Reflito numa demora se fim. Aprecio o gosto acre da cerveja, deixando minha língua pastosa. Passo a mão pelos galhos de plástico da árvore de Natal, ainda piscando. No trevoso ambiente, fico pasmo com o movimento nulo. Às escuras, busco me acalentar mais perto da árvore no seu acende e apaga.
Atrevo-me a pensar no que faria se estivesse do outro lado. Enfrentando a madrugada. Na sua soturnidade, embrenharia numa caminhada sem estar muito certo para onde iria ou o que faria. Fico só no pensamento acolhido pelos galhos da árvore. Um pingente cai sobre mim e me assusto. Resgato-o e destroço-o. Me levanto, seguro uns dos galhos e os arranco. Numa vontade vã, saio da sala e corro até a dispensa. Encontro um martelo, uma garrafa de querosene, panos e fósforos. Regresso até a sala e vejo a árvore tombando. Dava a impressão que ela tinha ensaiado a cena. Uma atuação irrepreensível, digna dos mais ardorosos aplausos. Contudo, não o suficiente para amenizar o que eu estava prestes a fazer com ela.
Confesso, que cheguei a temer o que aconteceria, mas estaria mentindo se dissesse que estava tendo cuidado. Empapei os panos com querosene e os enfiei entre os galhos da árvore tombada. Risquei o fósforo e joguei em cima dela. Como num tilintar de copos, o fogo cresceu espalhando-se com rapidez. Eu, sentado, à sua frente, assobiava melodias natalinas.
As labaredas aumentavam, chegavam ao topo do teto dando-lhe uma coloração chamuscada. O odor de gesso queimado e a fumaça chamaram a atenção dos familiares que se puseram a acordar. A correria e os gritos histéricos foram instantâneos. De roupas íntimas, pijamas ou roupões, debandavam com o que podiam carregar porta à fora. E eu estava bem ali, debaixo dos braços calorosos da árvores natalina, despencando-se. Naquele momento, eu ouvi disparos vindos da rua. Nada fiz; estava acabando o Natal.

Ele colocou minha cabeça sobre suas pernas e o vi mais de perto. Enfim, retirou aquele lenço encardido da sua boca. Ele disse algumas palavras e eu só poderia responder de uma forma: um cuspe! A saliva correu pela sua testa. O espanto da minha ação, o deixou furioso. Largou a minha cabeça como quem larga o lixo. Senti o choque do meu crânio com o cimento ressoando num som surdo. Vi os seus passos se afastarem e retornarem com velocidade prontos para me dar um pontapé no rosto. Todavia, ele mudara de idéia, poupando-me de mais dor. Estou tremendo e ele deve ter notado. Sentou-se alguns metros longe de mim, depois ergueu-se e urinou na parede. A sua volta uma moldura de fogo. Creio que vinha atrás dele ou senão era a própria encarnação do demônio. Ele virou-se para ver de onde vinha aquele clarão. Ficamos assistindo aquilo tudo. Eu no chão definhando; ele em pé observando.

Na esquina, eu vi um prédio em chamas. Estou em chamas. O meu estômago dói. Sigo o fogo, não sei porquê, mas vou atrás dele vendo até onde estarão as chamas. Não tenho ninguém para recorrer. Tropeço no cordão da calçada e caio em cima de um arbusto cheio de espinhos. Eles me machucam o rosto, as mãos e os braços. Me levanto com dificuldade. Agora, a dor aumenta. Rodopio. Preciso de algo. Tenho que consertar as coisas antes que seja tarde demais. Uma dose seria ideal. Seria bom poder pensar com maior clareza. As Chamas. Vou seguir o fogo.

Estou chegando perto de casa. Fico pensando naquele corpo. Olho para trás e imagino que aquele corpo poderia estar ainda vivo. Não sabia se era homem ou uma mulher. Não cheguei nem perto para saber se precisava de ajuda. Vejo, antes de entrar na portaria do meu prédio, um outro prédio em chamas. Dois carros de bombeiros passam com as sirenes abertas exigindo passagem livre. Dirigem-se para lá. Não, foram para outro lado. Não parece ser fogo. Parece só luzes avermelhadas, as mesmas que colocamos na noite de Natal para enfeitar. Checo a última página do meu jornal. Leio as últimas. “MANÍACO PÕE FOGO NA CASA EM NOITE DE NATAL”. Será que sairá o meu achado nas manchetes?!