Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Friday, December 26, 2008

Despedida


Já passamos por isso. Qualquer um já passou. Eu já passei por isso mais de centenas de vezes e nenhuma delas foram melhores. Elas sempre são pesadas, carregadas com a eletricidade, com o atrito, com a provocativa passividade do ser humano. Todas as despedidas são melancólicas. São ofensivas. Da melhor forma, são um adeus disfarçado com intenções. Covardes ou conscientes. Vou repetir isso muitas vezes até me convencer.
O rompimento, a morte, a distância, a saudade se fundem. De um jeito bem particular para cada pessoa. São uma pirâmide onde lá em cima está a esfinge perguntando para você: Para onde você vai?
Desperdício de momentos para se fazer escolhas racionais sobre coisas que não têm a mínima noção para serem racionalizadas. A emoção entra no ringue com os dois punhos no ar, fazendo a guarda protecionista. Evitando um murro certeiro no meio do seu rosto, contraindo-o com o impacto e levando-o ao chão desacordado.
O adeus que nunca é simples, se torna uma passagem, a válvula de escape, a saída de emergência com todas as luzes vermelhas sendo acionadas através da marcha uníssona da contagem regressiva até o momento crucial, onde as escolhas o levam no colo.
Toda e qualquer forma de despedida são criadas por nós para nos surpreendermos. Você fala em sentimentos enquanto outro fala de decisões. Você argumenta e o outro lado rebate com fatos ou deixa o silêncio comemorar. Despedir-se com um aceno, uma piscadela, com a malícia que a vida corrompe diariamente. Ela ainda tem o poder de mexer com o meu mundo, com o seu, quando olhares são cruzados. Quando ouvimos as vozes de quem se pensa, na paz momentânea do seu quarto com as paredes balançando como se fossem de papel, ordinárias palavras para saber do seu bem-estar. As vias de acesso para uma fuga imediata estão bloqueadas. Quando desligamos o telefone, o “tchau” sai por obrigação mas quer ser contido, quer que tenha uma outra interpretação. Ouve-se o sinal apagando-se, a chamada sendo encerrada. Uma despedida a mais na prateleira da saudade que construímos ao lado da cama.
Despedidas nunca são fáceis. Sabemos. Não as queremos, mas elas não vão sumir. Todo o começo tem um fim, um entremeio, um enredo, seja qual for o ciclo da vida. Romance, nascimento, relacionamentos, amores, falecimentos. Despedidas para tantas opções. Tenros instantes de fúria e dor. Mágoas. E mesmo quando sabemos que fizemos a coisa certa, sentimos falta. Se pudéssemos correríamos rio acima e tomaríamos outro rumo. Covardia? Consciência. Egoísmo?
Despedidas e perdas. A única diferença é que nem sempre uma depende da outra, e mesmo assim não há propriamente uma diferença. Quando nos despedimos de alguém por qualquer motivo citado no decorrer dessas linhas, você está perdendo, alguém, alguma coisa. E temos uma causa e conseqüência. Ou várias. Nos tornamos covardes, com a consciência reclamando e assumimos nosso egoísmo.
Chegamos ao fim. De uma maneira que não estava planejado. Fechamos as portas da casa, cerramos as cortinas, ficando num escuro profundo.Porém, mesmo com tudo indo contra, com as decisões firmemente cravadas dentro de você, um ponto claro rompe seu abrigo que considerava hermeticamente lacrado. Um ponto falho no vão da janela, entre o balançar das cortinas, o Sol entra e ilumina o chão. Você fixa bem os olhos, com cuidado ao analisar uma jóia rara. E sabe naquele momento que nem toda despedida quer dizer que é um fim. Pode ser um recomeço de uma nova história. Uma pausa nas linhas. Você se levanta, arreganha as cortinas, destranca as portas, abre as janelas. E o Sol vai ao seu encontro abraçando-o. Você e a Esfinge já têm suas respostas.

Sunday, December 21, 2008

SOLILÓQUIO


Hoje ele está pronto para uma longa viagem. Sairá pelo mundo. Sair das asas da família, ao aconchego dos amigos, dos carinhos conhecidos e percorrer um vácuo. Um longo caminho. Está há um bom tempo escolhendo que roupas levar, o que mais irá precisar. Sapatos, botas, tênis, pois os caminhos podem ser dos mais diversos possíveis. Roupas, uma contínua dúvida nas roupas.
Ele olha as fotografias, uma a uma revivendo tudo. A cada minuto. Sentindo até o vento esbarrando no rosto. Ele não fecha os olhos, não quer perder nenhum resquício de tempo.
Ele deita-se na cama. E sente que está no asfalto. Dentro dele, com o rosto para fora, as mãos e a ponta dos pés. O resto faz parte do asfalto. Preso. Tenta falar, mas há muito ruído, e quando se dá conta, percebe que há um movimento ao seu redor. Pessoas passando por cima do seu corpo. Carros parando em cima dele. Os pneus dos carros passam por cima de suas mãos. Sapatos arranham seu rosto.
É um sonho. Ele dormira alguns minutos, os mesmos que ele não queria perder. Com as fotografias a sua frente como companhia querida. As roupas que estava escolhendo continuam em seus lugares no roupeiro. Mas na sua cabeça já estão devidamente selecionadas.
Assustado, ele ergue o dorso. Senta-se à cama de casal com os lençóis revirados. Está sem camisa e sente o corpo doído. A sua mão direita está dormente e com profundos cortes. Seu rosto ao contrair-se com o bocejo arde. Passa a mão na barba por fazer e escorre um filete de sangue na sua boca. Arregala os olhos e vai direto ao espelho dando um pulo sobre o chão atapetado. De pés descalços está diante do espelho analisando com minuciosa atenção.
Os dias têm sido assim. Sempre o asfalto. Tenta ser uma explicação para o que deve fazer. O passo para dar. Há uma resistência dentro dele. E ele nem faz a menor idéia do porque disso. Olha as fotos. As segura, com cuidado, como se movesse um artefato com explosivos. Vê quem ele precisava que estivesse ali. Vê todos os lances de um jogo que ele teima em não deixar terminar. Que ele repete, repete, repete. Colocando na sua cabeça uma prorrogação, um tempo a mais que já expirou. As fotos estavam na tela do seu computador sumiram e reinam soberanas impressas jogadas na cama. Uma coroa, uma auréola que o circula.
Não há muito que se possa fazer. Não há mais nada que possa impedi-lo. Não vai tocar o telefone como nos filmes, novelas e será salvo no último segundo antes de se r acionada a chave da cadeira elétrica. Ele tem que seguir, passar mais esse dia, evitar a primeira dose de pieguice, saudosismo e lamentações.
Ele se olha no espelho e vê que não há nenhum corte; só as marcas que a vida deixou bem talhadas. As rugas de quem sorriu tanto, que o maxilar quase veio abaixo. As mesmas que o caricaturaram em conjunto com as caretas de tanto chorar. Não, as fotos não vão ganhar vida. Não vão estender as mãos ou continuar com seus sorrisos preparados. Ele dá as costas para o espelho que o deixa ir e sem pensar muito arremessa boa parte das suas roupas em duas malas grandes. As fecha. E ele abre muito mais que seus olhos, seus pulmões respirando todo o ar que puder. Ele sente o cheiro de piche quente exalando. Sua. Mas mesmo assim se veste. Encara o espelho mais uma vez, e este retribui curvando-se em respeito. É a última chamada. O mundo que ele conhece está queimando. E o novo mundo ainda o espera sentado numa praça. Seus pés movem-se. Seu corpo sai do asfalto, ele ergue-se, retira a sujeira que o cerca, dando pequenos tapas na sua roupa. As pessoas o vêem e os carros param. Ele pega suas coisas e sai caminhando. No bolso da sua calça ele aperta com a mão machucada, as fotografias.

Sunday, December 07, 2008

Cartão de Visitas


O princípio de tudo é o beijo.
Siga as linhas do contorno dos lábios da pessoa que você quer. É a forma mais íntima. A língua na sua boca.
Daí explode a supernova. O big bang. O cartão de visitas é entregue.
Você pode fazer sexo com uma pessoa e não ser tão íntimo! Você pode romper tabus com essa pessoa, satisfazer o seu desejo, mais depravado, colocar sua libido à mostra, como uma cicatriz e nem assim seria tão íntimo. Você pode gozar aos gritos e isso não provará nada.
O beijo é a profundeza do sentimento fazendo você chafurdar, onde tudo começa, onde parte todos os movimentos em seus carros velozes correndo por avenidas sem fim. Onde mãos aprendem como devem agir. Onde o acelerador é cada vez mais apertado no piso do seu carro. O motor exigindo a próxima marcha.
É sua marca. Nenhuma pessoa é igual à outra; nenhum beijo também. Cada pessoa tem sua “pegada”, um cheiro misturado ao seu perfume que se modifica. A famosa química. E ela pode demorar surgir. Pode se prolongar mesmo quando os carbonos perfeitos já estão unidos. Estão friccionando outras bases. Emergindo de outros sais. São marcas registradas, rótulos colocados nas línguas. E mesmo assim você pode deixar um decalque ruim, ilegível.
O sexo através do beijo. A língüa indo pelo corpo, beijando os seios, os mamilos, o peito, as costas, a nuca, o pescoço, as coxas, virilhas, as nádegas, o sexo. A língüa sendo o agente da ação. Introduzindo, lubrificando, facilitando, conhecendo. A ação, o beijo. O início, o meio e o fim e se repetindo.
Você pode distribuir muitos cartões de visitas por ai. Recebê-los de volta com agradecimentos. Entretanto a química borbulha, em seus frascos, os corpos que são importantes, melhor ainda, quem é importante.
Por causa desse seu beijo, você ainda pensa, sozinho, numa boca especial que você conhece. E não se incomoda em lançar ao vento muitos cartões. E se lembra das bocas marcantes, das mordidas, e quando pode, fecha os olhos dentro de uma só.
Pode ser que considere isso uma forma ingênua e romântica de ver (ou viver) as situações da vida. Eu diria que não. O beijo e o sexo são partes do mesmo. A vida pode parecer promíscua, não se importando quanto tempo passe, as bocas continuarão se tocando, iniciando as pessoas em seus relacionamentos mesmo quando você parou de entregar seus cartões.
E qualquer um gozará desse prazer tão singelo, com todos os músculos contraídos, de cada beijo trocado. E os cartões voarão. De cama em cama, de bar em bar. De casa em casa. Sendo frutos de um sentimento límpido ou de uma vergonha de baixo calão. Somos assim, vivendo no fio da navalha, cortando os pés a cada passada.

Sunday, November 30, 2008

No Jardim

Hoje já se passaram alguns dias. Pesam. E não vou colocar nenhuma fotografia, imagem, e nem pensei numa música. Sei que este espaço não é suficiente para você, nem o ideal. Não gostaria de envergonhá-lo. Nem sei se aqui é o lugar certo. Mas é o meu portão, meu lugar, o meu esconderijo, talvez. E com certeza a maneira que encontrei com todo o meu eu para dizer o quão importante você é, não foi, é. Mas nessas linhas que escondem lágrimas e como escreveram para os amigos, não serão de tristeza, serão de saudade. Não digo que serão alegres, mas nas lembranças que todos dividiram com você, elas serão alegres. Lembrar de suas características mais marcantes, sua teimosia, indignação, dedicação, seu jeito “senhor da razão”, com seus valores, suas opiniões, suas decisões, sua falta de paciência, sua independência, seu modo de viver e de tudo aquilo que viveu. Das histórias do “Pedro Malasartes”, do Chico sei lá o que, o Tião, de todos os personagens que o rodeavam, enquanto o ouvíamos. Com o chimarrão nas mãos, o português sendo reinventado, com a rudeza delicada, desculpe se errei algum nome ou reinventei, mas dessa forma que os lembro. Vestido com seu chapéu, reclamando do calor, andando pela casa, tantas casas suas, segurando a cadeira de praia em busca do lugar mais fresco, encontrando calma no seu jardim, de calças bege, preocupado com seus carros, com o andar da vida, como andariam seus filhos, netos, “enxertos”, amigos, parentes, com suas avaliações sobre os jogos de futebol e a atuação dos jogadores, se transformava em técnico, comentarista, contraditório de si mesmo. Construiu pontes no estado, iniciou as obras na cidade, e participou dos seus projetos, um autodidata. O filme Peixe Grande, de Tim Burton, ilustraria bem sua vida no imaginário de quem não o conhece num conto de fadas real. Podia chamá-lo de pai, mesmo não sendo. Ainda torço por nosso time de futebol e digo seu nome como se estivéssemos lado a lado. Mas posso afirmar que era meu amigo. Ajudou tantos como poucos. E fez mais que amigos; fez crescer famílias. Ele gostava de jardins, da natureza, veio do interior, e sofreu com sua família os desamparos da vida. E nunca reclamou, nunca deu justificativa para se tornar uma pessoa fraca. Nunca se deitou nos braços dos vícios mais comuns, porque achava desperdício e burrice, como dizia. São poucas linhas, enquanto ele precisava de livros para contar sua história, tomos, volumes, que não acabam por aqui. Estará junto do nosso convívio, de todas as suas famílias, que são chamados de amigos. Brindaremos como os vikings, bebendo sem parar para que Odin abra as portas de Vayhalla, onde os guerreiros continuam suas histórias. Espero que minhas lágrimas estejam sendo lidas por você todas as vezes que o dia nascer, que a noite passar protegendo os seus. E me resta olhar para cima, sobre os jardins, agradecer por ter vivido uma parte da minha com a sua presença. Ficam aqui, não minhas lágrimas ou minhas palavras, nem minhas lembranças, mas meus aplausos.

Saturday, November 22, 2008

Caminho sobre os seus Passos


Eu caminho sobre os seus passos. Tento seguí-los. Ver até onde vão dar. Sigo mesmo quando eles se misturam e dão giros, fazem contornos, vão para todos os lados ao mesmo tempo. Eu tento correr atrás de seus passos. Mesmo quando as pegadas estão se apagando em pisos diversos. Mesmo quando sobre o concreto eles não aparecem. Mesmo quando na areia afundam e também se deformam. Ora amassados na grama molhada. Resvalo. Caio no chão.
Mas me levanto com o impulso das minhas pernas ajudado pela base dos braços. Estufo o peito, ergo a cabeça, faço uma careta e o tônus muscular do meu corpo me auxilia. Eu me canso. O sofrimento vale a pena. Uma afirmação que já se tornou uma pergunta e se inverte. E não paro. Continuo o mesmo trajeto e dou alguns passos para trás, quando fico confuso. Seus passos adiante se divertem nessa dança marcada; eu sigo seus passos pisando em seus pés, apertando sua mão, segurando sua cintura. Mesmo quando você não está lá.
Eu erro, perco a passada. Mas recomeço, reinicio, vou atrás. Não desisto. Já desisti uma vez, não vou mais ceder. Estou ainda aprendendo a dançar. Enquanto você já está em outra dança, caminhando mais rápido, indo para longe, saindo do salão, correndo segurando o vestido mostrando através da fenda, suas pernas, largando os sapatos, sandálias pelos seus atalhos. Eu me levanto da cadeira que fiquei guarnecido para respirar. Você já teve espaço e tempo suficiente, e a minha troca de pares, já chegou ao limite máximo. Dessa vez eu quero virar as mesas, empurrar as cadeiras e me aproximar, não como um convidado indesejável, mas como aquele que disse todas as palavras que só você sabe quais são. Espero que se lembre delas.
Meu pensamento está em você assim como o seu teima às vezes em mim. Sei que olhando para frente você ainda me vê como uma parede para colidir. Sua maior negação. Eu me perdi de mim mesmo num tempo. Não fizemos nada errado. E se fosse, para nós foi o mais certo, possível. Não estou criando uma festa de salão fechado, com convidados escolhidos. Estou abrindo a casa para todos que quiserem se divertir. Os bares liberados, com “n” números de mesas à sua disposição. Uma multidão circulando. Cabelos, vestidos, ternos, calças, sapatos, bocas. E quando a música começar, ao toque da banda, daremos nossos passos, eu ainda seguindo cada movimento, cada lance novo desenvolto. Os pares estão à procura de seus ímpares. Nós poderíamos apenas acertar nossa coreografia. Todos os dias eu ensaio. Você tem vontade de correr, sair às pressas do salão, saltar os arbustos que enfeitam o jardim externo do salão, mas eu não deixarei de seguir seus passos. A música vai se alternando, a banda a desconhece, desafina, erra o tempo, mas a dança continua.
Você é meu par perfeito. Nós sabemos que a perfeição é plana, uma superfície uniforme sem nenhuma aspereza, mas vamos recriá-la, se necessário com suas ondulações. E você está ao meu lado. Ontem, hoje, amanhã. Dance comigo na fragilidade dos nossos passos e trace os caminhos pisando forte.

Sunday, November 09, 2008

O Perfume na Caixa de Pandora


Ele se encontrava dobrado, em posição fetal. Abraçado nas suas pernas dentro de uma caixa. Nu. Estava no escuro respirando com dificuldade. Seu corpo dolorido. Suava aos cântaros. Não ouvia um pio sequer do lado de fora. Suplicava por ajuda, mas não expressava nenhum ruído que não fosse sua respiração pesada. Tentou colocar a mão na boca, pois tinha a nítida impressão que sua língua tinha sido extirpada. Com um esforço absurdo, aos estalos, seu braço se desvencilha das pernas e se ergue trêmulo. A sua boca se abre. Tateando redescobre a sua língua. Seu rosto se contrai como se tentasse sorrir. E um ruído se faz. Com os olhos arregalados começa a perceber que a sua caixa se abre. Sua prisão será desfeita. Uma luz começa a perfurar sua pele. Ele fecha os olhos. O pavor toma conta do seu estado de espírito. Assume seu corpo. E a luz aumenta junto com uma lufada de vento. Ele abre os olhos e encara a luz. Começa a erguer-se da caixa que se encontra. Ele assim achava. Ereto, em pé, alonga o corpo e olha ao redor. Está na sala de estar da sua casa. Paredes brancas com pequenos pontos de sujeira no alto. Poucos móveis. Uma taça de vinho ainda cheia. Uma garrafa caída; vazia. A televisão ligada no canal de meteorologia. Ele está nu em pé, observando tudo. Respira fundo e sente o perfume no ar.
Tem medo de fechar os olhos de novo. Ele não tem idéia do que pode acontecer. Mas sabe muito bem o que se passou. Como chegou até ali. O porque disso tudo.
Olha para a mesa na sua frente perto da taça, o telefone. Coça a cabeça, seu corpo suado e exalando o doce perfume que o cerca. Dá dois passos e senta no chão. Suas costas doem. Mas mesmo assim ele pega o aparelho e disca um número decorado. Uma voz do outro lado atende com um simples “Alô”. Ele respira fundo. E começa falar. Gagueja. Mas continua. Do outro lado, uma voz feminina, diz “que bom”, e sorri. Ele sente-se mais seguro, seu coração pára de bater forte. Sua respiração mais leve. Ela, sim, o ouve. E ele a ela.
Começam a falar muito. E a saudade vem fantasiada pelo desejo e ao mesmo tempo algumas rusgas se fizeram presentes. Tão fortes que o assustaram, quando a voz dela ficou mais séria. Seu tom mais grave. E não havia sorrisos. Disse que fizera o que quis, por não haver nenhuma palavra dele contra. Não queria magoar ninguém e nem ser magoada. Ele ficou em pé. Nu, com o telefone colado no rosto, a ouvia. Disse que estava perdido. Que ela era seu trilho. Suas pedras marcando o caminho de volta. Ela hesitou, mas deu um risinho tão cínico quanto vencedor. Isso o irritou. Porém nada fez. Ela sabia que nada ia fugir do seu controle. Que ele tornou-se um brinquedo, uma marionete nas suas mãos. Sim, ela sentia algo por ele, o desejava, o queria por perto, mas o seu jeito, sua insegurança, não permitiam maiores profundidades. Ele também sabia. Sujeitava-se a isso. E ela odiava quando ele fazia isso. Tinha asco. Pediu que o perdoasse. Mas ela que queria ser perdoada, cobrada, proibida. Todas as atitudes desde da cama, eram dela. E isso fazia com que ela o matasse a cada dia. Uma assassina desse relacionamento. Não conseguiu levar a conversa mais adiante. Encheu o contêiner da sua paciência e disse apenas OK. Deu.
Ele ouviu o telefone do outro lado sendo desligado como se ele assim o fosse também.
Sabia que o perfume ainda estava ao seu redor. Que os males que dela o cercavam, o cerceavam. Os fantasmas mexendo com sua caixa. Mais ele ainda ama sentir o perfume na Caixa de Pandora. Mas dessa vez ele está fora da caixa esperando pelo que virá. E ela não. Agora sim ele sorriu agitando os braços.

Sunday, October 26, 2008

Sinta o Gosto


O garoto brinca com um escorpião atiçando com uma vareta de plástico. Acuando até o canto do balcão da cozinha. Faz muito calor e ele está entediado. O perigo estranho, a aventura inerente os colocou no mesmo lugar. O escorpião tenta fugir da sua alçada. Rápido corre, mas o garoto usa seu tamanho e uma porcentagem do cérebro. Coloca sobre ele um pote de vidro. O escorpião imediatamente se posiciona para atacar e se defender. Golpeia seguidas vezes a parede de vidro que o cerca. O garoto aproxima seu rosto do pote. E os golpes se intensificam chegando a vibrar o copo que resvala na mesa. Seu veneno escorre pelas paredes de vidro. Mistura adrenalina do pânico com a sua natureza de predador. O garoto pousa a sua mão em cima do pote. O aprisionado para. Fica imóvel. Esperando pelo movimento. Suas pinças começam a mexer bem devagar. Suas antenas balançam. Sua cauda está ereta. De repente se curva formando um ângulo de 45º. O garoto não percebe porque o observa de cima através do vidro que deforma sua visão. Ele acha que o escorpião desistiu, está sem ar. Coloca uma das mãos ao lado do pote e a outra em cima. A excitação o emociona. Sorri. Ele, bem suavemente, ergue o pote. O aprisionado continua imóvel. O garoto crê que ele domesticou o inseto. Venceu. O conquistou. E vai arrastando sua mão mais perto dele. Chega mais perto, bem mais perto. E com o dedo indicador se aproxima quase o tocando. Tentação.
A temos todos os dias. A respiramos. De um simples olhar a uma oportunidade. Temos ao pé do ouvido como a desculpa que alguém nos conta. Que nos instiga em seguir adiante. Pagar para ver. Fazer o que não deve ser feito ou fazer assim que puder. No melhor momento quando piscamos os olhos.
Somos tentados a saltar de 10 mil pés de altura, num pára-quedas com a adrenalina enfiada na sua veia aos gritos. De correr mais que seu corpo sonha em agüentar tendo-a como sua dominadora. Vencer o seu adversário da pior maneira que sua índole jamais idealizou. A dizer sim quando todos os sinais nos acenam que não devemos. De desejar o seu mais esplendoroso objetivo. O seu alvo mais claro. Aquele que se teme. Que se quer. Satisfazer sua libido. Chegar ao clímax do seu prazer. Nesse ponto que chegamos com prazer viciado nessa sensação de arrepio, de quebrarmos os tabus, de enfrentarmos nossos mais sórdidos padrões. Ultrapassando limites trazendo consigo as vitórias pessoais. Estas que também trazem o peso de algumas derrotas maquiladas. Com um gosto amargo. Lambidas de fel. Porém isso não nos faz parar. Não mesmo. É uma espécie de incentivo, um cartão de livre acesso ao parque de diversões. E nem sempre é ruim. Não diga que é. A tentação nos invoca acima dos vulcões que vão surgindo, com suas erupções proibitivas. E delas sairemos no mínimo chamuscados. Com a camisa suada. Mesmo com o golpe de uma bola de aço maciço que é largada sobre sua cabeça, quando tiver a redentora oportunidade e será apenas ação versus reação. Não lemos as instruções de não tocar, de não manusear, de não pisar na grama. Sempre alguém vai deixar a porta entreaberta.
Sua mão está perto. O escorpião ainda parado. Eles agora estão lado a lado, estudando mutuamente. O garoto deita a cabeça sobre a sua mão que está mais próxima do escorpião. Sua inocência está em seu estado mais puro. O instinto animal, o predador. Instigado, curioso, tentado. Ele se move em direção do acuado. Sua mão se ergue, passa por cima dele. Seu movimento forma uma sombra. As pinças se mexem mais devagar ainda. A ponta da cauda brilha. O garoto sorri, excitado. Ele, enfim, agarra o escorpião num gesto rápido. E o aprisionado se debate esmagando seu corpo na mão do menino que sente toda a sua textura. Numa agilidade ímpar, o escorpião, em seus últimos indícios de vida, crava-lhe a cauda. Uma, duas, três vezes entre os dedos do garoto. O veneno queima sua mão. Ele o solta. O garoto sente dor, já não ri, sofre, tropeça no instante que tentava correr. Está acuado no canto da cozinha. Chorando de dor. Sozinho. E o escorpião se contrai na sua frente, ainda com forças para enfrentar seu adversário.

Sunday, October 05, 2008

Com as Unhas na Areia


7:32. O despertador tem uma crise histérica! 7:33. Dou fim a nossa agonia. 7:34. O bocejo doído acompanhado dos movimentos pesados dos braços. E mais um urro! Sinto como se eu estivesse saído direto de uma sessão de tortura. Essa é uma característica bem minha: piedade. Ou piadista. Gosto mais da última. Seja um defeito ou qualidade. Saio da cama num giro e salto para o dia pisando no chão de madeira comido por cupins. Fui até o banheiro de olhos fechados tateando o caminho. Chuveiro ligado. Água quente. E eu não. Dez minutos debaixo da água fervendo. Corpo ainda adormecido. Volto para o quarto e vejo com os olhos ainda opacos que um corpo ali está exposto. Com os seios à mostra e o resto espalhado pela cama. Os lençóis vestindo sua cintura embolada. Chego perto, sento ao lado, acaricio o rosto, dou um singelo beijo, quase puro. Como disse, um piadista. E depois disso tudo, de roupas acertadamente combinadas, cabelo penteado; creme para o mesmo, ficar fixo. Pé direto na porta para o dia. E uma olhada para ela que abre os olhos lentamente e sussurra: “te cuida”. Eu gostei, mas esperava outra resposta. Um grande erro. Sempre esperamos algo a mais.
Estava bem longe, além dos obstáculos da rua acidentada, do peso do calor sob o Sol forte, dos ruídos da cidade com suas buzinas que parecem flatos de seus canos de descarga aos arrotos, nada sutis do progresso. O som que saía rangido do meu tênis cansado. Vi o reflexo de copos vazios nas mesas de bufê a quilo, mas cheios de idéias para serem bebidas. Naquele meu ínterim não percebi que o movimento dos dados da vida. E a sensação de estar sendo observado. Carros, pessoas, cachorros, gatos, cavalos, carroças se fundindo ao meu redor surgiam, cresciam e se movimentavam com rapidez como se estivessem se preparando para um ataque. E diante de um carro a vi agitando os cabelos. Tentei esboçar um som, um chamado ao chegar na esquina, perto de casa, parando em cima do cordão da calçada pronto para atravessar para o outro lado senti a velocidade do vento, causando um ruído, na minha frente como fosse um animal gigantesco igual uma baleia se contorcendo, na minha direção. “Para!” Ouvi um grito ou um a buzina. Um abalroamento de um Gol vermelho num Fiat Fiorino que capotara na colisão e arrastou-se como uma Orca nas margens rasas da praia, até onde eu estava e por uma linha mal redigida (ou sorte) desviou-se, cerca de 1 metro de mim. E assim pude sentir que eu estava no jogo de novo seja ele qual for. Só sabia que eu era uma peça que avançara uma casa. Enquanto uma risada ao fundo dava um suspiro aliviado.
Depois de uma dose considerável de adrenalina, os gritos apareceram desenhando corpos e bocas. Eu em minha inércia fiquei girando o corpo. Dedos em riste. Um homem, saído do bar atrás de mim, comia um pastel esfarelado bradando que seu carro tinha sido atingido pelo resultado da colisão. O seu veículo era um Palio que estava estacionado perto da esquina. O rapaz saiu do carro capotado, passou a mão na cabeça e começou a discussão, enquanto os transeuntes faziam suas considerações rasas. Uma romaria se fez presente. No melhor dialeto humano, xingamentos e ofensas. Celulares como ferramentas para acionar seguradoras, pais, amigos, anjos da guarda. E o peso sentido no meu ombro se fez presente, me consolando.
No meio dessas situações, as coisas que você percebe se resumem na graça. A desgraça de um qualquer é a melhor piada. As atuações dos ofendidos e dos que atacam se alternando. Esquetes. Dramaturgia pura. Aparecem todos os clichês. Um calhamaço de versões dos sete pecados. E o relógio marca, 8:40. E do peso no ombro ao empurrão nas costas, me direciona de novo.
Aos poucos fui aumentando a rotação do meu corpo, dos olhos, da cabeça. Dei uma acelerada como se acionasse a tecla fast forward ao ser abordado por uma senhora que segurava duas sacolas de plástico abarrotadas de batatas. – Você está bem, meu rapaz?! A pergunta propícia que recebeu meia risada como resposta, enquanto desvinculava sua mão de cima do meu braço. Vieram outros e suas versões. – Vi ele cruzar a rua como um doido! Se não tivesse batido no outro, ia direto em você. Dizia um homem rubro que exalava uma mistura tóxica de cerveja, cachaça e etanol (pelo menos assim pensei). Fui me afastando, retirado pelo puxão da brisa.
9:00. Cruzei a porta do prédio onde trabalho com uma agilidade atlética. Passei pela recepção acenando numa mescla de sorriso e palavras. O porteiro, atenciosamente, retribuiu sem tirar de suas mãos o jornal que folheava. Esmaguei o dedo indicador no botão do elevador para chamá-lo. Creio que meia-hora se passou para aquele minuto chegasse ao abrir à porta do elevador. “Calma. Respira fundo Estou contigo”. Olhei para trás, para cima, para os lados. Nada. Aquilo me deixou em vez de nervoso, sereno.
Faltam algumas horas para o ano acabar. Contagem regressiva desde o amanhecer. Desde o meu bota fora pelo despertador com a imagem dos raios do Sol invadindo a persiana emoldurando-a. Hoje todos no setor resolveram desovar suas pastas em cima de mim. Problemas que foram passados de pé em pé até chegar na frente da área, diante do gol e acabaram chutando na minha cara. E eu não sou o goleiro! Sou no máximo uma parede. 9:10. Faltam mais de doze horas para o ano acabar. Um dia inteiro. Eu pareço estar dentro de uma ampulheta gigante e cada grão me esmaga na passada dos minutos. Faltam todas as horas para eu sair daqui. Sem tempo para tomar um café, extremamente, adoçado! Olhos na tela para digitar centenas de documentos, relendo-os, corrigindo-os, errando desaforadamente. Consigo fugir até a cozinha, driblar uns cinco colegas, giro o corpo como um contorcionista e me refugio no banheiro. Sento sobre a tampa da privada e olho fixamente o teto imaginando a fumaça que sai do Box ao lado afobada. Aqueles minutos se vão como a fumaça. OK está na hora de voltar. “Vamos te ajudo”. Ergo-me, vou até a pia, abro a torneira girando-a e deixo a água correr. Molho as mãos e as passo no meu cabelo tentando desenhar um penteado convencional. Olho para o espelho e tento ver se alguém mais no banheiro do que o fumante abafado. Seco as mãos, olho mais uma vez para o espelho e saio do banheiro indo atrás dos problemas. Ouço: “Você consegue”. Isso me dá segurança.
Sento na minha cadeira com o rodízio quebrado, diante do meu computador com sua tela rindo, mostrando cada caminho e funções que tenho que executar esboçando os caninos. Um rádio é ligado para abafar os comentários e conversas dos colegas, enquanto o ar condicionado consegue superar todos com sua turbina de 30 sei lá do quê de potência. Minha cabeça lateja igual ao martelo do marceneiro que ajeita uma estante na parede bem ao meu lado, apenas separado por uma fina divisória. O relógio bem no alto da sala marca 9:35. Dedos digitam rapidamente um requerimento que foi esquecido graças à desorganização de alguém. Minha com certeza e mais provável. Só que dessa vez não foi. Um feito. Marco três pontos num arremesso antes da linha do garrafão.Sinto a cabeça como um ringue de luta livre onde os neurônios estão se jogando de um lado para outro. Ou um fazendo um globo da morte com suas motos envenenadas. Um strike de garrafas da noite passada.
Quinze minutos de paz. Pelo menos sem ninguém me pedindo nada. Acesso a Internet. Visito a minha página no site de relacionamento. Vejo meus amigos, scraps, depoimentos, dizeres, amigas. Noto meu vouyerismo, meu exibicionismo, minha necessidade, minha vaidade.
9:59. Mais um pouco. E o corpulento chefe entra pela sala sacudindo um calhamaço de pastas de cor parda, surradas, com dobras e uma dezena de bilhetes pregados. Meu serviço é meramente servir ao sistema. E com um sorriso de mescla de ironia e falsa simpatia, despeja em cima da minha mesa todos os documentos para eu lê-los. O faço mecanicamente, fazendo ruído com a boca como se minhas articulações fossem robóticas. Um andróide. A próxima geração daquela raça, quase extinta, chamada humana.
E o dia assim continua. Almoço num pardieiro onde a fiscalização sanitária foi banida em vidas passadas. Sozinho na mesa manchada de molhos, restos e memórias, eu sinto como se a cadeira a minha frente tivesse sido empurrada. E uma luz ali surgisse eventualmente, como alguém sorrindo abertamente para mim. Esse dia fecho os olhos e analiso quantos sorrisos tive hoje. E seus níveis de veracidade. Tipos. Uma brisa fria arrepia meu braço. “Falta pouco”, assovia. Saio bem ressabiado do restaurante olhando todos a minha volta, para os cães na rua, para os carros. Pela primeira vez em anos vou quase correndo para o escritório e me protejo atrás da minha mesa. Ninguém fala comigo. Batimento cardíaco quase audível. Estou na minha barricada.
Dizem que sou uma pessoa apreciável. Mas a gentileza é uma navalha que corta fino. E a minha proteção se municia na minha ironia. De uma hora para outra estou assustado. Quase choro. Mas aconteceu uma coisa. Sozinho, atrás da minha mesa atabalhoada de papéis, um bem-estar tomou conta do ambiente. As folhas jogadas em cima da mesa foram sendo empurradas para o lado e o calor se aproximando do meu rosto. Meu coração continua acelerado, mas não tenho medo. O toque no meu rosto, um carinho, uma mão ali pousou. E eu me levanto. Vou até onde aquele calor emana. Fecho os olhos. Abraço. E beijo. Com toda a força e volúpia que eu poderia ter. Como se aquele gesto fosse minha salvação. Meu ar. Minha camisa é retirada do meu corpo, e sinto fazer o mesmo. O gosto da pele jaz na minha boca. O formato dos seios abocanhados. Minhas mãos agarram os quadris, procurando a calcinha, desse alguém, dessa pessoa, dessa mulher. Sou colocado sentado na mesa e meu sexo é exposto. O calor da sua boca me leva da respiração ao gemido em instantes. Fazemos sexo. Amor. Tesão. Fazemos parte da vida.
Minutos se passam. Horas talvez. Estou com o dorso sobre a mesa e com a cara enfiada nas pastas. A sala vazia. Nenhum som. Levanto lento, como de manhã. Todos já foram embora do escritório. O dia já se entrega aos caprichos. Estou chegando em casa. Abro a porta, dirijo-me até meu quarto.
E diante da janela aberta, nua, com a cidade ainda agitada, ela de costas, admira tudo. E eu vou até seu encontro. A entrelaço. Beijo sua nuca. Enquanto ela abaixa a cabeça, aceitando o agrado, e diz: eu te amo ecoando pelas ruas.

Saturday, September 27, 2008

Mergulhe!


E pode parecer estranho que o tempo passou desabando pelos dias, tendo as lembranças como um bólido alegre. Foi declarado tudo, assinado, agendado. Cada dia foi virando mais uma forma de esclarecer aos olhos de alguns o que pode acontecer. Uma brincadeira, um agrado, uma esperança, uma saudade, um começo de felicidade.
Sempre em busca do próximo olhar, do seu olhar, do nosso. Mesmo longe, por algumas horas, por dias, por outros lugares, por outras pessoas. E nossas vozes ainda são ouvidas, gostos ainda são reconhecidos. Das nossas bocas, dos nossos corpos, das nossas manias. Mudamos nesse tempo. Cabelos, corpos e de corpos. Corremos contra o fluxo ao mesmo tempo, que queremos que a maré nos leve. Não há o que esquecer, nem o que deixar para trás. Depois da tormenta, de ondas gigantes tentando nos afogar, hoje as temos para surfar, criando manobras, sendo parte desse oceano.
Não vou cair. Nem me afogar. Sei que pode acontecer, mas não vou. Você também. Não quer mais vai. Pelo menos pode. Cair em prantos. Cair de joelhos. Cair nos braços de alguém. Se apaixonar. Se afogar no corpo de alguém, na boca, no sentimento. Não quer prostituir o que sente. Não quer ser uma puta. E nenhuma puritana submissa. Quer ser as duas também. Não quer vender o que tem por preço algum pensando em querer ser feliz. Mas negociar da melhor maneira. Quer entrar nesse mar, indo até onde ele possa levar, por águas mais calmas e agitadas que nos deixem além dos Oceanos, enfrentando todos os perigos que lá estão.
As palavras nem precisam ser ditas, todas, de uma vez, elas perdem o seu significado. E podem nos separar como vírgulas, que nos pausam e mal colocadas nos afastam. E o que pode nos confortar, ser nossa casa, que preenche o vazio que o silêncio festeja, muito mais claro do que o som dessas palavras que discutimos e nos perdemos.
Caminhamos com nossos próprios pés. Um de cada vez. Aceleramos, porque não. E continuamos com as passadas maiores, indo pela areia, pelos contornos das dunas, chegando na beira do mar que não nos teme e vem com a serenidade e fúria chamando para perto. Sem dizer nenhuma palavra. Ficamos parados diante de suas ondas, com os pés afundando na areia, com a espuma da maré crescendo. Estamos dentro de suas águas. Abrimos os braços e seguimos cada passo, com o arrepio causado pelo choque das ondas aumentando. Somos abraçados pela cintura e puxados para dentro, mergulhamos, e com o Sol sobre nossas cabeças temos a cama desfeita.
E você, assim, como eu, procuramos uma ilha no meio dessa imensidão. E ela pode estar no desenho do seu pescoço, nas suas costas, nos seus braços, na sua cintura, para volta e meia navegarmos junto tendo um porto seguro. Sabendo que qualquer furação pode nos banir. Mas estaremos alegres nesses dias em que nossos corpos sejam apenas um. Num longo mergulho. Em silêncio.

Monday, September 08, 2008

Brincando em Campo Minado



Desde criança brincamos, buscamos novas brincadeiras, recriamos as que conhecemos refazendo as regras, às vezes, e sempre para nos satisfazer. Com isso cativamos amigos, novos e os que estão sempre ao nosso lado. Brincamos no primeiro dia na escola, no jardim, na pré-escola, os tutores, professores, “tias” nos colocam em grupos para brincarmos. Saímos com a vontade única de diversão. E crescemos com essa vontade. Nos descobrimos na puberdade brincando. Com o nosso corpo, com o corpo alheio. Antes sem conseqüência começamos da brincadeira para um jogo mais perigoso, com caminhos cheios de armadilhas. E não paramos de brincar. E nem de jogar.
Quando adultos resolvemos apostar nas brincadeiras e ficamos viciados no jogo, seja qual forem regras, as quebramos ou as seguimos de acordo com a nossa vontade. E participamos. Já pulamos por areias movediças, ficamos presos em jaulas, saltamos sobre muros, nos arrastamos por baixo de cercas de arames farpados, esquivando de uma saraivada de tiros, desviando das miras infravermelhas, e correndo de animais ferozes.
E não paramos de brincar. A cada saída, festa, reunião, convivência, nós brincamos, fazemos piadas, rimos, damos largas gargalhadas, dançamos sobre os caixões de relacionamentos já passados, e ficamos surpresos, alegres, estupidamente sensíveis ao conhecer novos amigos e amigas e mais corpos para brincar. Convocamos times certos para disputar as partidas. Mesmo que seja um esporte coletivo, nos expomos para a torcida, ajudamos o time. O seu esporte está na platéia, na torcida desligada, tentando chamar a atenção. E quando conseguimos, trazemos para o nosso lado uma parceira ou parceiro para um jogo mais nosso. É bom ensinar; é bom aprender. É bom brincar. E muitas vezes viramos o objeto da brincadeira. Mas há as regras e elas dificultam. E brincamos ao burlar. Sim passar a perna, descobrir os atalhos, ir no F2 de qualquer jogo de computador e ver como saímos de determinada situação. E mesmo quando perdemos nossas “vidas extras” ou bônus, nós continuamos com a cara mais desaforada e com a adrenalina como combustível. Suamos a camiseta, pelo esforço. Nos dedicamos. Tentamos melhorar nossa performance. Nesse jogo de qualquer tipo de relacionamento entramos correndo atrás com o placar marcado pela vida com um ponto à frente. Qual é seu jogo preferido? Bater bafo, ou bater figurinha, onde você engana o adversário lambendo suavemente a mão para a figurinha ficar grudada do mesmo jeito que você o faz no lábio inferior da pessoa que você está conquistando. BUM! Caiu na armadilha de suas pernas. Ou quem sabe você prefere o jogo da garrafa, verdade ou desafio, indo e vindo, aproveitando a situação para penetrar na intimidade do alheio com olhos de canto no terceiro alvo. Há um obstáculo diante de você. Força! Salte, defenda-se, curve-se, sente-se, rasteje, domine, derrote, conquiste. Vamos girar em círculos, rápido, de braços abertos e seguir atrás de alguém. Brincar com gelo, doces, objetos, dedos, mãos guiando o rebolado de nossas danças. Brincando o tempo todo. Sorrindo, caindo em graça, fazendo graça.
E cada um segue com suas regras, as quebrando uma a uma, para sobreviver no jogo. Brincando com um humor negro sarcástico, irônico, debochado querendo mais e mais vencer a partida, passar para o próximo nível, ter créditos maiores, mesmo que esteja desacreditado.
Essa busca de brincar nos seus relacionamentos. Lingeries, fantasias, descoberta de fetiches, criação de personagens, quebra de tabus. Tudo isso para um bem maior. E você já sabe o que fazer. O que usar. Aonde ir. Vá brincar!

Saturday, August 23, 2008

Abismo - Só Um Passo


Quem pode saber quando está amando alguém?
Quem pode realmente dizer, eu amo você ou amo ele(ela) com certeza? Você já fez essa pergunta, confesse. Amor é uma das palavras com a rima mais pobre, dizia Bezerra da Silva. Mas a pergunta seria, Você sabe quem ama?

Ela o amava. E ela amava o outro. Eles a amavam. Amava do mesmo jeito pessoas diferentes. Amava diferente com o mesmo sentimento. Sua vida cômoda, sem nenhum percalço, foi sacudida, como se a colocassem dentro de uma caixa de fósforos. A sacudiram com força. Antes realizava-se com a felicidade que ele a proporcionava. A satisfazia com amor. E numa troca de olhares, ela descobriu-se amando o outro. O outro que a cativou pelo olhar quase sem piscar, que a seguia sobre os calcanhares, pelo manear de seus cabelos, pelo sorriso contido. E dos beijos quase que involuntários, movidos pelo desejo, pela vontade, pela atração, pelo escuro do momento iluminado diante dos olhos que seguiam. Aconteceram. Cada dia aumentando, crescendo, tomando para si o destino, a saudade como fio condutor de energia. A surpresa como a lanterna nesse túnel escuro. E ele continua amando-a. E ela a ele. E o outro a ama; e ela também retribui. Até quando? Como saber?
O medo tomou conta dela como se o novo fosse uma armadilha e o atual, o seu presente certo, trouxesse não só a segurança, mas sua vida completa.O kit estava pronto, já conhecia, decorado, todo o manual. O novo amor está ali presente também. A dúvida como tempero, apimentado, que arde na língua. Coloca diante dela as cartas de apresentação, seu menu de opções que é ele. Clique para acessar, convida. Nesse momento tudo se mistura, ele é o outro; o outro ele também. Ela não sabe como escolher, não sabe se deve escolher. Nem se precisa. O outro deixa a seu critério, por não querer sair da sua vida. Ele, o atual, não sabe o que acontece, crê que nada abalaria seu amor. Ou faz de conta que ela sempre o terá. A confiança é sua única convicção. Até quando? Um será o outro e o outro será ele?
Quando ela decidir pelo amor atual e deixar o novo vagar sozinho e ver logo adiante que perdera mais do que uma paixão, mas aquele que poderia ser seu amor. Ou ter a certeza que fizera a escolha certa. Que seu amor hoje é único que lhe preenche os espaços. Não importa a escolha, todos sofremos com isso, nos convencionamos a isso, e assumimos nossas falhas. Escolher pode ser um passo para frente, aquele passo que se dá na beira do precipício que chamamos de vida.
Todos sabemos quando temos que escolher, mas em algum lugar da sua vida, em algum momento crucial entre escovar os dentes e pentear o cabelo, você vai perguntar se fez a escolha certa. E você só terá duas respostas: Sim ou não. Escolha.

Saturday, August 16, 2008

Água no Espelho

A sua imagem e semelhança. Quando começa uma termina a outra.
Bela e Linda, duas irmãs, uma com seus cabelos castanhos escuros e a outra com seus castanhos claros.
Bela com seus vinte e dois anos; Linda, dez segundos mais nova. As duas com seus nomes adjetivados, movendo mundos masculinos nas suas vidas. Cada uma em seu jogo particular arrasando (arrastando) os corações dos marinheiros incautos por hobbie. Uma coleção de amores desfeitos como troféus. Medalhas expostas nos diários. Cada uma com seu texto pronto, com suas paixões que se perdiam com o passar dos dias, alguns meses para os que tinham mais sorte.
Bela casou-se cedo como por capricho. Quis experimentar a monogamia como um passatempo além do jogo de palavras cruzadas que fazia a cada festa, a cada saída, a cada novo amigo, romance e desejo aplicados na veia ativando sua sexualidade por um estopim misturando carência, competitividade e tesão. Num desses reveses havia encontrado o amor. Sobreviveu aos dias de convívio como namorada. Entregou-se para o outro assim como sujeitou ao subordinado despojo maior. Quatro anos de um namoro irresponsável na doce brincadeira de criança, de esconde-esconde, de casinha. Para não sucumbir à perda da escolha, o traía eventualmente com a desculpa de que o seu compromisso era apenas uma convenção hipócrita. Precisava de ares para fortalecer o relacionamento, seu amor estava acima do desejo. Entre culpas, e mentiras mal costuradas deu um basta para si e para o seu, então, amado. Ainda sonha com ele.
Linda, perambulava na alegria de estar só ao mesmo tempo de ter todas as bocas para beijar. Era escolhida e escolhia a dedo quem ela queria. Não se sentia uma qualquer por divertir-se, mas sentia o golpe quando se via enganada. No fundo buscava um parceiro que não só a satisfizesse apenas na cama, mas no convívio. Encontrou numa tarde um modelo diferente que a vida moldava diante dela. Alguém que ia contra seus preceitos e presunções. Alguém que era seguro sem ser para ela. Que lhe causava estranheza, mas a atraía. Cabelos desgrenhados, olhar fixo, sem meias palavras. E a paixão tornou-se tão forte, que o amor ali deu seu cartão de visitas. Foram momentos diferentes. Ela entregou-se como já havia se entregue a outros, mas não só o seu corpo, nem só sua luxúria, abriu mais do que a porta de seus tabus, e seu sentimento; arrombou a segurança da sua alma, do seu amor.
O sexo sempre foi o melhor companheiro das duas. Cada uma com seus amantes e pretendentes próximos de mais ao gozo e distante de relacionamentos mais profundos. Tão rasas, mas buscavam a profundidade para mergulharem no que acreditavam. Queriam ter filhos, profissão, casa, marido, carro na garagem, tudo certo, bem planejado, mas iam e vinham por caminhos diversos e outros mais.
Bela, depois de separada e lamentando ter escolhido o momento errado para fazer a coisa certa, voltou a entrelaçar-se nos braços e pernas de alguns e mais outros afogada na saliva de beijos de gostos diversos; Linda, disciplinou-se em ter um amado. Um corpo todos os dias, mandando mensagens pelo celular, deixando recados na página dele em sites de relacionamentos, recebendo flores, fazendo compras, andando no parque de mãos dadas.
Ambas saíram juntas coisa que há muito não faziam. Encontraram amigos, amigas numa festa badalada. Riram, ouviram suas histórias, contaram detalhes das suas últimas, deram as mãos, eram unidas, estavam cada uma do seu jeito: felizes. Ao final da festa, Linda encontrou o seu redentor guiando pelo seu caminho ainda a ser descoberto e Bela abraçou seu santo Graal, que não via há tempos, que tinha ficado numa esquina de anos atrás como aqueles amores defeitos, mas que o nó ainda teimava em não se soltar.
Longe dali uma menina deitada no chão olha para o teto branco. Levanta-se e joga a água do seu copo no espelho escorrendo na sua imagem, onde ela se escondia.

Wednesday, August 13, 2008

Hoje Procurei Teus Olhos

Hoje procurei teus olhos
Como se procurasse meu Sol
Mesmo num dia nublado
Sorrindo para mim
E acordaria com teu calor
Dormiria no teu corpo
Como um abrigo, um aconchego
Minha rendeção
Faria desse céu meu caminho
E da tua boca meu lugar
Hoje procurei teus olhos
Como se procurasse meu Sol
Mesmo num dia nublado
E teria a certeza que tudo
Se resumiria em todos os caminhos
Traçados pelas linhas do teu corpo
Meu perdão
Criaria todo um mundo
Adivinhando os teus desejos
Descobrindo teus segredos
Hoje procurei teus olhos
Como se procurasse meu Sol
Mesmo num dia nublado
Minha ilusão
Sentiria além do teu toque
Apaixonado e apaixonando
Cada minuto, segundo, hora
Em oração
Como se tudo acabasse em ti
Recomeçasse em mim
Palavras, silêncio
Compreensão
Serei teu
Enquanto minha
Únicos
E apenas
Hoje procurei teus olhos
Como se procurasse meu Sol
Mesmo num dia nublado
Te esperando...

Saturday, July 19, 2008

TSUNAMI

Antes de você eu já existia.
Muito tempo atrás eu já fazia das minhas histórias outras histórias. Já era o protagonista do dia a dia. Quando eu deixar de enviar uma mensagem para você, um vídeo, e-mail, um Oi, não quer dizer que você foi esquecida, mas que eu estou me afastando, tomando fôlego, ouvindo a chuva, em breve me preparando para estar em queda livre. Para ser blindado. Procurando terra firme.
Isso não é um ato de covardia, é auto-preservação. Você sabe melhor do que ninguém que me terá quando quiser, quando der um telefonema, quando disser que me quer na sua vida. Não quer dizer que é fácil. Nada é fácil, tudo tem seus percalços. Vai ser um estalo no ar. Um rompante. Como uma bolha estourando. Como um projétil atingindo seu alvo. Não é esperança, é o que se pode esperar. Aquilo que não virá. Ou a volta que a vida dá, no giro do planeta. E por isso estarei respirando fundo.
Para não abaixar a cabeça, não ver o que não está ali. E querendo ou não, mas verei. E fixarei os meus olhos nos seus.
Quando eu deixar de ler seu nome, de esticar os braços, abrir as mãos tentando buscar você na memória vai ser mais doloroso do que não estar ao seu lado. Mas vou fechar os olhos e esboçar um sorriso.
Quero que você seja feliz. Sim, quero, quero você. Quero também ser feliz. Nós podemos. Mas tudo não passa de uma decisão minha nesse momento, nessas poucas vezes, nessa segunda chance pra mim mesmo. Por que você continua descendo e subindo as escadas. E eu escalando as paredes. Num desses momentos turvos, cheios de ondas, maremotos, vendavais, sem perceber o tsunami que nos afogará em nós mesmos.

Saturday, June 21, 2008

Você Entre Vírgulas

Ah, ainda me lembro! Tenho diante dos meus olhos o momento que tive você. Quando começamos a conversar, trocar beijos, olhares além das nossas roupas que caíram, foram se soltando. Minha língua correu da sua boca pelos seus seios, pela sua barriga, subindo até seu pescoço, dançando ao movimento do seu corpo, virando você de costas. Beijar você deitada até suas coxas. Ver sua lingerie se soltando no ar, levando quase o mesmo tempo do meu desejo. Seios à mostra. Sexo desnudo. Desenho de muitos outros verões. Minha língua tatuando a saliva pelos arrepios da sua pele. Ambos ofegantes, olhos semi-cerrados. Cabelos desarrumados. Beijos, beijos, beijos sendo nossa linguagem indo muito mais do corporal. Estamos únicos. Eu em você. Você movimentando meu corpo. Sua boca é a minha. De olhos abertos nos encaramos. O calor do seu sexo é exato ao meu. Que contrai, que solta, que suspira em cima dos gemidos que ambos trocamos. Você se entrega, grita, nesse instante meu peito arfa, explode assim como seu gozo. E você desmonta, cai ao lado. Olha para o meu desejo ainda pulsando e oferece sua boca com magnetismo. Sua saliva quente escorre em mim que já estou banhado por seu prazer. Você de joelhos me guia, mãos ágeis orquestram minha segurança, minhas pernas dobram, eu, em pé, olhando seu rosto, o segurando, evitando não segurar demais, não a empurrar, não prender, deixar você livre para me usufruir. Você num pequeno instante me olha, acelera, e, eu tento me segurar nas paredes, falo o seu nome, eu digo que a amo, e ela, me sorve, me engole, não só meu corpo, mas minha alma. No banho a tenho diante de mim, e o desejo é invocado mais uma vez. Sua boca entreaberta diz que me ama. Penso em você todo o tempo. E o desejo é meu confessor; o meu amor meu confidente. E você entre vírgulas.

Saturday, June 07, 2008

Ácido no País das Maravilhas - Uma Aventura além do Arco-Íris






Uns dos contos infantis mais doidos de todos os tempos é Alice no País das Maravilhas. Já houve estudos políticos, sociais, psicológicos em cima disso. Alice já foi literalmente desnuda de todas as formas. Tiraram sua roupa peça por peça até chegar na alma. A analisaram até sexualmente falando. E como jargão, serve para falar sobre alguma pessoa que vive a esmo. Cá entre nós, sei que até já falaram sobre isso, mas Alice teve uma aventura alucinógena! Você já pensou nisso?!
Se você pincelar algumas passagens, inclusive se tiver na memória o desenho, pode-se deduzir que ela teve experiências desse tipo. Ela era muito "louca"! Hum...
Estou esperando alguém parar de rir. Um, dois, três...Deu, vamos lá...Aquele encontro com o acelerado chapeleiro, com seu bulê, falando todo momento, com os dentes trincados; ou o gato listrado que aparece e desaparece como fumaça, com sorriso enorme e com a fala mansa dando algumas baforadas; o Coelho branco de colete sempre atrasado correndo, correndo; os impronunciávess tweedledeem e o tweedledum que só se pode repetir seus nomes com maestria depois de uma rodada de dez cervejas; todo o universo com a rainha de Copas querendo cortar as cabeças alucinada com suas pupilas dilatadas, o exército de cartas; o chá, ah, o famoso chá que a deixa tonta, a faz crescer, diminuir, ela vê imagens distorcidas, sentada em cima de cogumelos, abrindo as portas da percepção e indo além do arco-íris.
Alice é uma loirinha de vestido rodado com a curiosidade e ímpeto do ser humano de querer descobrir o que há por trás da cortina do palco. Faminta por experiências, por novidades, por se encontrar ou desestruturar a mesmice. Mexendo com sua libido. Correndo perigo. Isso não é apologia a nada, mas a viagem que ela fez ultrapassou o bom senso e o melhor de tudo que não deixou seqüelas maiores. Não desse tipo. E acima de tudo é um conto emocional. Apaixonou-se na época pelo chapeleiro e pelo gato ao mesmo tempo. Ficou em dúvida, mediu as diferenças, um era o ar, outro chão, um era acelerado, o outro vivia por si. Acabou optando encontrar os dois num só ou algo mais parecido com ela. Ainda pensa nos dois; ainda imagina como seria, mas ficou para trás. Quem sabe pudesse voltar. Bastaria um movimento pra que isso acontecesse. Ou se ela tomasse o chá novamente.
Alice hoje deveria ser uma avó daquelas que faz bolos em formato de bichos para os netos. Que faz os olhos com balas de goma. Viúva do seu amor, que ela suspira quando chega em casa depois de andar as escadarias da igreja próxima da sua casa, porém não o maior, se isso é possível. De vez em quando ela acende o narguilé que ganhou numa tour que fizera na Índia, pensando nas aventuras com o chapeleiro, com o gato, com os talheres, e xícaras falantes, com a rainha resmungando, e sorri por ter vivido aquilo, mesmo que dê uns espaços em branco na sua memória. Causa disso tudo não precisa nem ser comentado. Lera Timothy Leary sem entender muito bem, mas não largava o On the road, de Jack Kerouac.
Alice teme pelos seus netos e pela sua insegurança, mas se vê feliz. E essa felicidade sempre pode ser maior, basta saber qual viagem você fará. Em qual país de maravilhas você está buscando. Alice sente na boca o gosto do chá. Volta e meia pensa em fazer em casa, mas estará sozinha e não quer sentir a paranóia do que – ou de quem – passou. Olha para a janela, faz com a ponta dos dedos desenhos no vidro embaçado. Corações, chapéus, gato, iniciais. Alice descobre-se ao olhar de relance o espelho, se vê de novo garotinha. Sexualidade, saudade, segurança. E isso a faz abrir um sorriso conhecido. E como se estivesse segurando uma xícara de chá simplesmente bebe com vontade. A aventura ainda não acabou. Então mexa-se Alice! Ela saltita e sai pela porta pulando amarelinha enquanto no céu cruza um arco-íris multicolor.

Monday, June 02, 2008

A Piada Repetida

Sempre tive a impressão que Deus fosse um piadista. Calma, antes que alguém me acuse de herege. Deus é um ser bem humorado. Ele não sofre. Isso cabe aos fiéis. Ele é um Ser Supremo. Acima de tudo e todos. Okay haverá outras crenças e religiões com seus seres superiores, até os etemaníacos podem se manifestar. O que importa nisso tudo é que esse ou esses Ser(es) tem(têm) bom humor! Mas não são tão criativos. São repetições que nem sempre vale a pena ver de novo.
Quando há uma catástrofe, rezamos, oramos por ajuda. Dizemos que é por nossa culpa. Concordo. Mas quando temos alguma coisa boa em nossas vidas, cabe exatamente um degrau acima de agradecimento à hierarquia da fé.
Deus(vou colocá-lo em foco para ilustrar, calma crentes de outras verves!) deve sentar-se diante da sua poderosa tevê de tela plana de duzentas polegadas para abranger todo o conteúdo do mundo e dar boas risadas. Quem sabe ele pode mesmo chorar com nossas desgraças, desilusões ou pegar uma caneta no rabo de um cometa e escrever nossas histórias. Novelas mexicanas com sofrimento, lágrimas e com finais felizes. Até iniciar o próximo capítulo. Deus escreve certo por linhas tortas e piegas. Podia ter um corretivo daqueles branquinhos para apagar algumas coisas. E alguns chamam de destino. Ele intitula com simplicidade, o nome de cada novela, de cada folhetim com nomes próprios e alguns títulos de impacto e já repetitivos.
Deus é um piadista! Assim como Buda, como Alah, Jah, Oxalá, todo mundo faz uma piada com você. Mas isso não é maldade, é bom! Rir da vida, rir da desgraça alheia faz parte da criação humana, faz parte de todos nós. Quem não ri de alguém que se engasga, cai, tropeça? Eu rio. E os deuses, os Seres Superiores, com certeza diante de suas telas planas também.
Acho que se todos essas divindades formassem uma banda seria um grande sucesso. Imagine ouvir suas orações embaladas por um ritmo com esses multiinstrumentistas divinos nessa fusão ecumênica musical. Todos juntos e todas as misturas, rock, samba, funk, jazz, hiphop, djs, e claro, muito soul. Isso pode parecer piada do “coisa ruim”, mas não é.
Pense na piada, que é repetida pelo seu colega de trabalho, no escritório 100 vezes e você ainda ri; quando ele espreme os dedos na gaveta ou faz uma imitação de drag queen. E você pensa, não sei se ele é gay, mas ele está fazendo curso, ah, com certeza está.
Deus é isso, bom humor, alegria. Humor negro. E você crê em deus na forma ou da maneira que quiser, em energia, em felicidade, em humildade, em conhecimento, em amor, então mesmo que a piada se repita siga crendo. A piada vai continuar. Gargalhe. E aproveite a forma do seu amor e beije até que se repita, pelo amor de Deus!

Monday, May 12, 2008

Fátuo


Meu nome não interessa. Pode me chamar de qualquer coisa. Pelo meu apelido. Invente um agora. Um até pejorativo, deve ter uma dezena passando pela sua cabeça agora. Inferno! Pode rir, não será a última bobagem que saberá de mim. Tenho o lado bom e o ruim, escolha qual máscara você quer. Absurdamente quero apresentar minhas armas, cortar você com minha língua afiada. O acaso venha de braços abertos, mas que esteja armado com suas melhores frases ou disposto a brigar. Estou chegando bem perto de você. Já estive dentro de você, dancei com você, cobri seu corpo com minha saliva e suor. Você deve estar rindo mais alto agora. Não estou nem aí. Você quer que eu desista. Eu só vou recuar e deixar o acaso dar uns primeiros golpes. Você está indo para longe. Para o canto do ringue. Mas quem sabe você rodopie e se veja diante de mim. Não vou correr, como disse, o acaso tem seus direitos adquiridos. Contagem aberta. Vou reencontrar essa disposição, essa falácia que eu sempre vivenciei. Ainda irrito você, de algum jeito. Viva a sua vida como quiser, com quem quiser, e eu darei meus movimentos nesse tabuleiro. Vou guerrear com meus atributos nos hangares das fundações que vou derrubar. Estarei passeando com a minha alma. Colocando os óculos escuros quando encarar o Sol e desafiá-lo. Posso fazer qualquer coisa, e se pretende seguir fazendo as coisas certas, o faça, só responda rápido o que é certo. Se quiser, mude de opinião, mais rápido ainda, quando achar necessário ou válido. Errar faz parte. Acertar é um bônus. Falta algo, não falta? De algum jeito sua felicidade não se completa. Você não consegue que o cubo mágico tenha os seis lados perfeitos. Não adianta desmontá-lo e colocar peça por peça. Quando o movimentar, não formarão o cubo com todas as cores. Ridicularize o sentimento alheio. Se sinta ridicularizado também. É a ordem do jogo. Não quer jogar? Impossível, assim que acordou hoje, o tabuleiro foi sacudido. E todas as peças caíram, os Peões, os Cavalos, Bispos, as Torres, o seu Rei e sua Rainha. Reinicie a jogada. É bobagem, você vai dizer. Estou ouvindo sua voz. Vejo seu nome em crachás de caixas de supermercados, em fachada de loja, ouço seu nome pronunciado por pessoas que nunca devem ter lhe visto, mas o falam para seus homônimos. Acha que fico feliz com isso? Não quer nem saber a resposta. E daí, mais uma vez você vai dizer. Fazer bico, desdém. Vai ir direto para os braços que o acaso, o novo, o inesperado, crie a surpresa. Ou não. Não há proibições. Nunca houve. Consideração, sim. E eu vou jogar as coisas na parede, o que estiver ao meu alcance. Arrancar pela fresta do vidro qualquer menção que está ali. Vou ajudar quem eu acho que mereça, mesmo que tenha que fazer uma romaria pra levar alguém que pede auxílio. Não terei vergonha dos meus dedos quebrados e nem das cicatrizes que o acaso continua fazendo. Estarei pronto para qualquer golpe, e vou senti-los, vou cair, sorrir com raiva e a boca escorrendo sangue. Mas não vou ser nocauteado. Vou olhar fixamente. Apoiar-me sobre os braços, levantar a cabeça, dar uma gargalhada, fincar os pés no chão e continuar com os olhos vidrados bem direto nos do adversário. Estarei na luta. Sem sacrifícios, em busca do que foi perdido, pedido, e do que ainda vou ter. Seja como for, criando um lugar melhor para o amanhã. As crendices me levam como se soprassem boas novas ao ouvido. Tento enxergar as promessas que fiz e delas encontrar as indagações que o inferno não é um lugar tão ruim assim. Aqui as histórias são mais cruas, com mais erros de continuidade. E daí sairá da sua boca, não uma pergunta, mas uma exclamação do que virá. Enquanto isso as peças estarão sendo colocadas para mais uma partida.

Thursday, May 01, 2008

Por Acaso, Obrigado!

Quantas vezes você pôde agradecer a alguém por ter entrado na sua vida?
Entrou arrombando a porta, quebrando alguns pratos.
Mas estou falando sobre alguém que o fez amar. Do jeito que só você soube que era, mesmo quando apagaram-se as luzes nesse palco de atuações e devaneios, que chamamos de vida. Destino. O acaso.
Não é o caso de uma pessoa que lhe dá um emprego, lhe presenteia, lhe ovaciona.
Você já deve ter ficado irritado, magoado, triste, alegre, por esse alguém, porém dificilmente você agradeceu por esta pessoa ter surgido. E deveria.
Veio num olhar, num arrepio, numa caminhada, num dia de sol, no meio do escritório, simplesmente veio. Surgiu de repente. Chegou abrindo as janelas que estavam cerradas, pintou as paredes, jogou o tapete escada abaixo, colocou fogo na cozinha e nas roupas antigas. Trouxe a felicidade como sua mala e se pôs em pé diante de você esperando o próximo embate. Um beijo. Um alô. Um telefonema. Uma mensagem. Fez você ouvir músicas que não conhecia, ler livros entrando em seu mundo por tabela, enxergando as coisas de modo diferente, aproximando das cores, os detalhes, os minúsculos traços, ranhuras. E você talvez não tenha visto que ela trouxe tudo isso, convidando você para acender todas as luzes, clareando o seu caminho. Ela foi a sua luz, lhe pegou pela mão, o empurrou devagar para uma passagem até descobrir o que seu coração poderia entender, mesmo tarde, mesmo depois que ela bateu a porta atrás de você.
Agradecer a facilidade de ter a felicidade ao seu lado, por um lapso momentâneo do tempo. Ou já ter estado. E se amanhã não estiver, o que importa?!
Mas sei que vai importar, muito.
O que a solidão não aceita e o que você não compreende é que essa pessoa continua dentro de você.
Tatuada na pele. Correndo pelo suor. Sorrindo quando você fecha os olhos.
Nas lembranças de acordar junto.
Na melhor maneira de se despedir de alguém, agradecendo. Acenando para os quatro cantos do mundo tentando ser visto. No fundo tentando trazer de volta tudo isso todos os dias. Por isso você tem que dizer de todas as formas, se tiver oportunidade nessa roleta russa com a arma engatilhada bem na sua cabeça, obrigado, e se tiver de novo, mais uma vez, voltar atrás, complemente com Eu te amo!
E se não conseguir, reconheça, admire o melhor do que teve, se desculpe caso precise. Agradeça por ter sido apresentado a este estranho sentimento que é chamado de amor. Que você não explica.
E recomece a amar de novo.

Tuesday, April 22, 2008

Saudade é um Visitante Inesperado que Invade a Sala de Estar...

Nada é para sempre...O que fica é a saudade. Palavra sem tradução em outra língua. Que traz o gosto de outra língua na sua boca. O perfume. O toque. Que machuca às vezes, se torna algoz, se torna a única parceira em momentos que você roda e roda na sua cabeça de olhos fechados.
Saudade é um visitante inesperado que invade a sala de estar, colocando os pés sobre a mesa diante da televisão, com o controle remoto na mão, bebendo Tequila e tendo na boca todas as palavras que se resumem em você...
Você que se esconde na saudade.
Vem como um trem desgovernado que não perdoa quem estiver na sua frente. Atiça desejos, gira o quarto, envenena a calmaria, traz consigo a solidão. Atropela. Mas você sabe que ela é sua parceira. A saudade vem com o sorriso, com a brisa do dia de outono gelando o rosto, acariciando a pele que arrepia. Faz chorar como se contasse todas as verdades que não se quer ouvir. Ou das mais sinceras desculpas que não foram ditas.
É amiga inseparável e completamente fora de contexto, despretensiosa. E também pode ser a maior cretina. Está presente, convidando-se para mais uma conversa.
Saudade pode ser ela, ele, o momento, em todos os instantes. Tem a força para mover oceanos, assoprar sonhos, nos deixar meditando. O copo tilinta aos seus goles e seu olhar permanece no horizonte seguindo a linha da lembrança. O que faz você sentir saudades? Uma pergunta capciosa, um tipo de “pega ratão”. É exatamente aquilo que você sente ao se ver no espelho por um segundo, um naco do seu tempo. Olhar fundo, ficar etéreo. Ali você vai abrir seu baú e a saudade vai aparecer de sorriso escancarado, estendendo as mãos, abraçando-o, e, ela nunca está desacompanhada. À tira colo alguma coisa, alguém, algum fato, algo está lá pendurado e vai se esparramando no sofá da sala de estar. Você não consegue pegar o controle remoto. Nem sair do recinto. Preso quase sem querer, com os pés amarrados, mãos atadas esperando a próxima rodada para a conversa continuar.
Ouvir uma música pode trazer consigo a saudade ao seu colo. Pode levar você a mil pés e jogá-lo lá de cima. Sacudir sua cabeça como um liquidificador, e de repente parar. Seu olhar vai ficar perdido, por mais que um breve segundo. Talvez fique ali por mais tempo até a saudade soltar a sua mão. Mesmo que fique deitada ao seu lado. Só que em silêncio. Nada é para sempre...Até que saudade traga você junto. E o sempre será o quanto tempo estivermos juntos.

Tuesday, April 15, 2008

Um golpe vulgar de força direto no rosto

Quando leio um livro, o folheio com atenção, página por página, circulo frases, sublinho expressões. Li livros quando era mais novo, aos quinze anos, e achei o máximo. Queria viver aquilo tudo que estava naquelas páginas. Reli o mesmo livro quinze anos depois em formato diferente, mas o mesmo, a mesma história e ela me fez sentir tudo aquilo de novo. Vemos a vida assim, cada passagem, cada dia como uma página virada, o que passou não volta. Mas quando aquilo que está naquela página lhe marcou, você retornará, só para ver se o que estava escrito ainda é verdadeiro. Um golpe vulgar de força direto no rosto.
As pessoas têm medo de dar um passo à frente e mais ainda reconhecer que se pode girar sobre os calcanhares; e se deparar que não viu algo, que faltou ler mais uma frase que passou ou por estar mal escrita ou por não ter entendido naquele momento.
Tudo isso pode acarretar mudanças. Mudanças. Movendo-se. Virando a página. Folheando. Empurrando uma estante escada acima ou descendo com as malas prontas para qualquer viagem. O simples fato de acordar, encarar o dia, já é motivo para uma mudança. Mais uma página escrita. Às vezes temos o impulso de jogar tudo longe, arremessar com furor as nossas expectativas e frustrações acertando a cara de quem nos quer mais longe ainda. Mudar de estado civil, uma simples palavra que pode causar uma reação em cadeia. Mudar de endereço tentando se encontrar no que chamamos de futuro. Mudar de emprego com a intenção de crescer pessoalmente. Mudar de amor. Não se muda, ele apenas surge. Trazendo mudanças. Escrevendo mais linhas inclusive no mesmo livro já folheado, no amor já vivido, anotando no rodapé, entrelinhas apertadas, recriando novas formas de ver o que se passa. O que ainda não passou. Que o amor ainda está lá.
Ler o mesmo livro, que você já conhece o final, mas em alguma parte dele é bom voltar. Imaginar exatamente como o pegou pela primeira vez, interpretá-lo de outras maneiras, até pára se ter certeza que o lera corretamente. O autor também erra ao escrever, quem dera o leitor.
Não peço mais do que uma nova leitura. Do teu corpo no meu, no teu beijo no meu, na tua língua na minha, no teu cochilo no meu. Como qualquer mudança, perdas são sentidas, mas algumas páginas poderiam ser escritas com os mesmos personagens para fins que você jamais imaginou. Vai ser covardia não dar uma chance à memória unida ao sentimento. Linhas e linhas em vão de tudo aquilo que se foi. Rasgar cada página, virá-las e fechar o livro guardando-as nessa estante que você já deve ter movimentado. Não esqueça que ainda estamos escrevendo nossas histórias.
Pegue uma caneta. Me reescreva. Nos leia.

Saturday, March 29, 2008

Na Certeza da Incerteza

Não sabia que isso poderia acontecer, mas aconteceu. Nunca estive tanto a mercê, só que fiquei. Tudo teve um motivo meticulosamente arquitetado na insensatez da vida, seja pelo jogo que os deuses resolveram apostar as fichas ou nas cartadas que cada um de nós deu. Você apareceu no tempo certo trazendo consigo a incerteza do novo. Enquanto eu ali permaneço com a certeza do que sinto. Te chamo por apelidos; por apelidos sou chamado. Tenho uma vida inteira para te mostrar e quero ser apresentado ao cenário que você pintar seja colorido ou em preto e branco. Tenho todas as formas para dizer que gostaria de amar você e ouvir ao acordar com o seu sorriso entre seus cabelos desalinhados, o mesmo. Cada dia o desejo de estar com você aumenta, cresce, toma forma. Se o futuro nos aguarda, é algo que vamos ver logo na esquina. Mas o certo é o presente que nos uniu. O resto será descoberto aos poucos, a cada movimento, a cada instante. Na certeza da incerteza. Na declaração simples, Pequena...

Sunday, March 09, 2008

O Sol na Cara

O Sol na cara. Rosto ardendo, olhos fechados. Os óculos ajudariam, se eu soubesse onde os tinha colocado. Sentado dentro do meu carro ouvindo um cd recém copiado de uma nova banda que deve ser a “maior sensação” até a próxima estação climática ou quando algum crítico desocupado investir seu precioso tempo em garimpar por aí. Tenho no pulso a saudade que devolvi. Entre tantos presentes que os anos trouxeram. Fiquei pensando que p* eu faço diariamente desde os meus tenros dias de adolescente. Meu fetiche por ser o agente 007 ou o super-herói de quadrinhos que acaba apenas desenhando os traços antipáticos, ridículos até. Sou esse João qualquer, um homem qualquer, sem diferença só semelhanças com a fraqueza masculina, o lugar comum. João. João de sobrenomes variados e variantes Silvas. Fico pensando na confusão que eu me meto, me meti e que provavelmente me enfiarei. Rabo à dentro.
Calor aumentando. Mudo a música por achar a anterior muito parada e a minha batida cardíaca precisa mais do que um acompanhamento. Precisa de uma perseguição sonora. Como sexo. Rápido, veloz, cadenciado, sincronizado, achando seu tempo, procurando pernas, lugares para se estar, procurar, mãos correndo de cima a baixo toda a anatomia do alheio. Calor subindo às alturas. Paixão. Um passo à frente e você está apaixonado. Num piscar de olhos, amando. Noutro sofrendo, fazendo sofrer. Toda a escolha tem um ferido. Alguém que tromba num poste. É um aprendizado. Lição de vida. O problema que sempre fui um aluno que pegava recuperação, dependência. A lição era apenas sabida para passar de ano.
Amor. Palavrinha difícil essa. Tão simples. Tão confusa. Complexa. Sádica. Num arranjo de idéias ela vira nome de uma Capital, de uma fruta, de uma ação bélica. Amor e desejo e paixão e...o que mais?! O que mais pode se esperar. Li que a humanidade é promíscua e a monogamia não nos pertence... Era mais ou menos esse o contexto. Amar e desejo e paixão e...o que mais?!
Risco com o dedo o painel do carro que está empoeirado, sujo, como muitos se sentem. Culpados. Com as dores do mundo. E o mundo é grande. Quem poderia ser o médico, o fisioterapeuta para endireitar tudo? Por isso que as pessoas buscam essa jornada infinita por satisfação. Seja por sexo, por dinheiro, por ganância, por egoísmo, pelos 7 pecados capitais. O carro está todo sujo. Poeira nos cantos, nos vidros, fios e mais fios de cabelos de quem sentou por ali. De todas as cores e tamanhos. Antes de ontem e depois de amanhã. Nesse tempo. Bato com palma da mão no estofamento e fico acompanhado com o pó que sobe com a luz do Sol que inunda todo o carro. Eu mergulhado no mar de pó e Sol. Calor aumentando; desejo idem. Esperando pelo motivo para sair dali.
Na pior das hipóteses vou sair daqui quando Sol estiver caindo no horizonte, uma das cenas mais lindas e melancólicas, e ir de braços abertos onde fantasia cria corpo, asas, e sentimento. Vou matar a fome da solidão não só com sexo, mas preencher as lacunas que procuro. O desejo que passa a perna no desejo. O Sol na cara. O beijo longo, o rosto contorcendo, movimentos da língua, respiração acelerada. Calor. Todo o meu calor é seu. Como o Sol na sua cara.

Sunday, March 02, 2008

FAMINTO

Você está faminto

Satisfazendo todas as suas vontades

É mais que desejo, eu sei

Suprir necessidades....



Hoje será o melhor dos dias

Onde sua fome irá acabar,

aquilo que lhe sacia

também nos consumirá



Feche os olhos

mergulhe fundo

Quando chegar até o fim

Recomece e devore tudo........

Thursday, February 28, 2008

Segunda Versão de Vida

Muitos pensam e você nada diz
se alguém falar diga você se é feliz

o preconceito exposto como uma ferida
no corte do seu rosto, no decorrer da sua vida;

vida que se negocia
vida de lucros e saldos
vida à deriva
vida de quedas e saltos

ei, você que permanece calado no canto do mundo
aproveite o seu direito
grite, grite
não fique mudo!

Monday, February 18, 2008

Mea Culpa

Porque sou um idiota?
Porque deixei você ir embora?
Porque cometi erros demais?
Porque não os evitei?
Porque bebi tanto?
Porque não entendi o que você fez por mim?
Porque nada tem sentido?
Porque fiz as escolhas que não deveria ter feito?
Porque não sei o que fazer?
Porque me excedo?
Porque não mudo?
Porque deixei as coisas ficarem tão confusas?
Porque não te fiz feliz?
Porque não fui feliz?
Porque........................................................................
sou um idiota...............................................................

Wednesday, February 13, 2008

Taco de Beisebol

Às vezes o mundo te atinge com golpes de um taco de beisebol. Bem na altura dos joelhos para que caia e se curve aos seus caprichos. Cria-se toda uma armadura para se proteger desses golpes. Mesmo assim ele atinge seu corpo e faz cambalear, caindo direto no chão. Fica ali se debatendo, tentando se erguer, enquanto o mundo o golpeia mais e mais em todas as partes.
No trabalho, aquele que todo o santo dia você se dedica, que se sobressai e ninguém o vê, e, quando os erros inundam as saletas, o zunido do taco no ar o acerta bem no meio do rosto.
E a vida é essa vilã. A autora algoz. Que coloca na mão de quem te vê todo dia no espelho, aquela mesma pessoa que vê sua barba crescer, sua barriga aumentar ou diminuir, os músculos mais rijos, tesos, que conversa contigo, que te diz exatamente o que pretendes, pensar, agir. Mas essa pessoa tem nas suas mãos esse taco que te acerta. Derruba, bate nas suas costas, te coloca no chão e continua golpeando tua cabeça, teus ombros, destruindo tuas articulações. Essa pessoa que sempre confiaste; que sempre esteve ali te olhando. Essa pessoa que tu sempre acreditou. Que esteve ao teu lado, te dando esperança. Esse alguém no teu espelho, assim como no meu, está ali debochando da tua cara. Ele faz acreditar no que pode dar certo, sem que identifiques as falhas. Ele chega de repente e te golpeia no rosto. Com um taco de beisebol. Tu estás no chão se contorcendo.
Então queres se apoiar em algo. Joga-se no passado não importa se passaram dois, três, cinco, seis, sete, quinze anos. O passado serve como uma muleta. Coisas boas. Coisas ruins. Mas daí, hoje, o golpe do taco te pega desprevenido. Não esperava por isso. Eu não esperava por isso. Sabia, mas não esperava.
Daí o que posso sugerir ao enfermo agonizando no chão? Nada. Eu me abraço na amiga que espera de braços abertos. Que eu sei o que dela posso ter e ela idem, sabendo que não vou decepcioná-la. A chamo apenas de Tequila. Enquanto zuni pelo ar, o taco de beisebol sobre minha cabeça.

Sunday, January 27, 2008

Saturday, January 26, 2008

Jogando moedas para cima

Todo o dia temos algo para provar. Algo que não nos satisfaz; que nos deixa ansiosos. Buscamos as melhores oportunidades para nos soltarmos, sentirmos mais alegres. Encontramos amigos, beijamos bocas diferentes e até, muito mais, as conhecidas. Todo dia fazemos uma aposta. Numa fé de que tudo vai melhorar. Na megasena acumulada, numa mesa de sinuca, numa festa, numa entrevista de trabalho, num dia comum de trabalho cansativo. Num novo relacionamento ou num velho que tentamos renovar os votos já expirados. Apostar. Jogar os dados na mesa e ver no que vai dar; fazer aquela promessa pra si e ver até onde as crendices podem te levar. Onde a sorte pode ser tua parceira ou o azar ser teu confidente.
Todo o dia estamos dispostos a sermos os melhores fazendo as piores coisas. Traição, fofocas, mau caratismo, falsidade, egoísmo, mentira...Um cem números de atos que nos preenchem diariamente com nossas falhas. Humanos, diriam alguns.
E continuamos tentando errar menos, em fazer tudo da maneira mais obscena, porém ainda apostamos no que pode dar certo. Uma aposta sem fim prontos para quebrarmos a banca. Jogando moedas pra cima.

Thursday, January 03, 2008

Crônicas de Bate-Papo IV- O Abutre Ainda Voa

Ah, chefe é chefe.

Todos almejam um dia chegar ao cargo de chefia. Seja por mérito; seja por ocasião. Vem com direitos, deveres, obrigações, respeitabilidade, confiança e status quo. Mas todos temos ressalvas contra os nossos chefes. Eles deixam de ser nossos amigos para se tornarem os mais cruéis e críticos. São nossos amigos quando são meros colegas, mas quando assumem o cargo de chefia, babaus. Os homens, hoje em dia, têm além da disputa acirrada com o seu colega ao lado, a crescente escala de mulheres no comando. Para alguns o final dos tempos. Para outros, um chefe de saias. Um inimigo na trincheira de saltos.
Faço academia para ter desculpas para minhas beberragens, comilanças, desaforos e excessos. Vou quase todos os dias e posso afirmar que faz efeito! O que me possibilita arranjar mais desculpas(vales e descontos) para comer, beber e afins. E lá temos um desses exemplos. Chefe. A pequena da cor do pecado é a chefe de plantão, a coordenadora do restante dos instrutores. Com seus cabelos ondulados, às vezes soltos outras, preso. Cumprimentando todos, conversando e dando dicas. Colocando a casa em ordem. Por motivos de horário ela conseguiu dividir seu tempo hábil com outro chefe. Um homem. O nosso herói da causa maior, o eterno candidato às eleições para qualquer cargo. Riso no rosto. Mais um chefe. Uma dupla dinâmica coordenando os mais curiosos e promissores chefes.
Eu sobrevôo a academia, entro batendo as asas e me posto em cima das esteiras. Posto de observação de 180º. Entre olhar os chefes balanço a cabeça para as bundas e seios que transitam de um lado para outro como uma orquestra bem sincronizada. Vejo os instrutores da nova geração. Primeiro: Miojo. O rapaz de seus vinte e alguns anos, magérrimo com seus tênis e bermudas de skatista que se aproxima de qualquer mulher que tenha os requisitos certos para ser aplaudida em pé. Rápido, instantâneo em 3 minutos de conversa. De outro lado se aproxima para o cumprimento diário 71. O algoz de fala macia, olhar denso e discurso decorado tecnicamente executado para suas alunas, através de perguntas sobre alongamento, se ela já foi bailarina, que abertura de pernas. Inocentemente 71. Algo que qualquer mortal o fizesse soaria como o mais canalha das cantadas. E mais, temos nesse cenário, a mais nova versão de galã, o Aquaman. Com sua fisionomia de herói de quadrinhos com atitudes levemente estáticas (nos quadrinhos eles não se movem), poderia muito bem fazer parte de alguma novela, pois suas expressões são inexistentes, mas quando as alunas circulam seu Cosmos, haja sorriso. Fora que temos o prazer de uma celebridade. Frodo. Do Senhor dos Anéis. Lá com seu anel de compromisso na mão e com ar que acordou faz pouco tempo por que estava na piscina pegando um bronzeado. Além da chefa com a cor do pecado e o fogo nos olhos, que imagino ter o sabor de pimenta para quem experimenta. E da outra chefa que saiu de férias deixando órfãos os seus alunos. Temos em BG, a BA> Beatiful Girl rules ou Big Ass rules! Sem ofensas, apenas constatações para alegrar os dias quentes e os homens que a cercam com uma horda desgovernada. A dor de levantar além da conta, os pesos em halteres, barras, se perdem com a sua presença e o sorriso suado de seus orientados. Não é uma visão machista, mas uma visão de todos ao mesmo tempo no alvo. Qual é o alvo? VOCÊ É CEGO???? Existem, para a sorte da maioria masculina, outras professoras com suas estrelinhas no pescoço saltando para lá ou para cá, morenas com suas corridas e microfones incentivando, e o para o deleite do grupo feminino e de alguns que por ali transitam, o Samurai com sua aula de artes marciais de boxe Ninja.
As alunas se destacam. Existe uma gama de mulheres e tipos, homens e arquétipos. Destaque, meu, seria a que todos chamam de a Torta. Onde uma ambulância é exigida a cada aparição. Morena de cabelos encaracolados, mulata, brasileira, olhos claros, corpo de fazer inveja e povoar sonhos. Curvas que dariam inveja as da Estrada de Santos, como canta o rei Roberto Carlos. Causa maior dor nos pescoços masculinos do que a postura incorreta de realizar os exercícios. Sonho de consumo entre dez de oito homens (excluídos os casados,- temporariamente – e os que “transitam no grupo feminino”). Fora isso muita coisa pode acontecer nas aulas de Jump. Onde os saltos mexem com o ego e o físico. De quem pratica e observa, óbvio. Nunca gostei tanto de funk do Rio como agora.
Pois é, o abutre já deu seu ar. 2008 chegou. Todos saindo dando bons votos. Sonhos sendo feitos. E como o abutre nem foi percebido que passou por aqui deixou apenas penas caídas no chão que foram prontamente varridas. Nem assim. E o sonho de consumo ainda prevalece. Alguém sabe o telefone do Papai Noel????? Quem sabe no próximo Natal.