Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Tuesday, April 22, 2008

Saudade é um Visitante Inesperado que Invade a Sala de Estar...

Nada é para sempre...O que fica é a saudade. Palavra sem tradução em outra língua. Que traz o gosto de outra língua na sua boca. O perfume. O toque. Que machuca às vezes, se torna algoz, se torna a única parceira em momentos que você roda e roda na sua cabeça de olhos fechados.
Saudade é um visitante inesperado que invade a sala de estar, colocando os pés sobre a mesa diante da televisão, com o controle remoto na mão, bebendo Tequila e tendo na boca todas as palavras que se resumem em você...
Você que se esconde na saudade.
Vem como um trem desgovernado que não perdoa quem estiver na sua frente. Atiça desejos, gira o quarto, envenena a calmaria, traz consigo a solidão. Atropela. Mas você sabe que ela é sua parceira. A saudade vem com o sorriso, com a brisa do dia de outono gelando o rosto, acariciando a pele que arrepia. Faz chorar como se contasse todas as verdades que não se quer ouvir. Ou das mais sinceras desculpas que não foram ditas.
É amiga inseparável e completamente fora de contexto, despretensiosa. E também pode ser a maior cretina. Está presente, convidando-se para mais uma conversa.
Saudade pode ser ela, ele, o momento, em todos os instantes. Tem a força para mover oceanos, assoprar sonhos, nos deixar meditando. O copo tilinta aos seus goles e seu olhar permanece no horizonte seguindo a linha da lembrança. O que faz você sentir saudades? Uma pergunta capciosa, um tipo de “pega ratão”. É exatamente aquilo que você sente ao se ver no espelho por um segundo, um naco do seu tempo. Olhar fundo, ficar etéreo. Ali você vai abrir seu baú e a saudade vai aparecer de sorriso escancarado, estendendo as mãos, abraçando-o, e, ela nunca está desacompanhada. À tira colo alguma coisa, alguém, algum fato, algo está lá pendurado e vai se esparramando no sofá da sala de estar. Você não consegue pegar o controle remoto. Nem sair do recinto. Preso quase sem querer, com os pés amarrados, mãos atadas esperando a próxima rodada para a conversa continuar.
Ouvir uma música pode trazer consigo a saudade ao seu colo. Pode levar você a mil pés e jogá-lo lá de cima. Sacudir sua cabeça como um liquidificador, e de repente parar. Seu olhar vai ficar perdido, por mais que um breve segundo. Talvez fique ali por mais tempo até a saudade soltar a sua mão. Mesmo que fique deitada ao seu lado. Só que em silêncio. Nada é para sempre...Até que saudade traga você junto. E o sempre será o quanto tempo estivermos juntos.

Tuesday, April 15, 2008

Um golpe vulgar de força direto no rosto

Quando leio um livro, o folheio com atenção, página por página, circulo frases, sublinho expressões. Li livros quando era mais novo, aos quinze anos, e achei o máximo. Queria viver aquilo tudo que estava naquelas páginas. Reli o mesmo livro quinze anos depois em formato diferente, mas o mesmo, a mesma história e ela me fez sentir tudo aquilo de novo. Vemos a vida assim, cada passagem, cada dia como uma página virada, o que passou não volta. Mas quando aquilo que está naquela página lhe marcou, você retornará, só para ver se o que estava escrito ainda é verdadeiro. Um golpe vulgar de força direto no rosto.
As pessoas têm medo de dar um passo à frente e mais ainda reconhecer que se pode girar sobre os calcanhares; e se deparar que não viu algo, que faltou ler mais uma frase que passou ou por estar mal escrita ou por não ter entendido naquele momento.
Tudo isso pode acarretar mudanças. Mudanças. Movendo-se. Virando a página. Folheando. Empurrando uma estante escada acima ou descendo com as malas prontas para qualquer viagem. O simples fato de acordar, encarar o dia, já é motivo para uma mudança. Mais uma página escrita. Às vezes temos o impulso de jogar tudo longe, arremessar com furor as nossas expectativas e frustrações acertando a cara de quem nos quer mais longe ainda. Mudar de estado civil, uma simples palavra que pode causar uma reação em cadeia. Mudar de endereço tentando se encontrar no que chamamos de futuro. Mudar de emprego com a intenção de crescer pessoalmente. Mudar de amor. Não se muda, ele apenas surge. Trazendo mudanças. Escrevendo mais linhas inclusive no mesmo livro já folheado, no amor já vivido, anotando no rodapé, entrelinhas apertadas, recriando novas formas de ver o que se passa. O que ainda não passou. Que o amor ainda está lá.
Ler o mesmo livro, que você já conhece o final, mas em alguma parte dele é bom voltar. Imaginar exatamente como o pegou pela primeira vez, interpretá-lo de outras maneiras, até pára se ter certeza que o lera corretamente. O autor também erra ao escrever, quem dera o leitor.
Não peço mais do que uma nova leitura. Do teu corpo no meu, no teu beijo no meu, na tua língua na minha, no teu cochilo no meu. Como qualquer mudança, perdas são sentidas, mas algumas páginas poderiam ser escritas com os mesmos personagens para fins que você jamais imaginou. Vai ser covardia não dar uma chance à memória unida ao sentimento. Linhas e linhas em vão de tudo aquilo que se foi. Rasgar cada página, virá-las e fechar o livro guardando-as nessa estante que você já deve ter movimentado. Não esqueça que ainda estamos escrevendo nossas histórias.
Pegue uma caneta. Me reescreva. Nos leia.