Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Sunday, October 26, 2008

Sinta o Gosto


O garoto brinca com um escorpião atiçando com uma vareta de plástico. Acuando até o canto do balcão da cozinha. Faz muito calor e ele está entediado. O perigo estranho, a aventura inerente os colocou no mesmo lugar. O escorpião tenta fugir da sua alçada. Rápido corre, mas o garoto usa seu tamanho e uma porcentagem do cérebro. Coloca sobre ele um pote de vidro. O escorpião imediatamente se posiciona para atacar e se defender. Golpeia seguidas vezes a parede de vidro que o cerca. O garoto aproxima seu rosto do pote. E os golpes se intensificam chegando a vibrar o copo que resvala na mesa. Seu veneno escorre pelas paredes de vidro. Mistura adrenalina do pânico com a sua natureza de predador. O garoto pousa a sua mão em cima do pote. O aprisionado para. Fica imóvel. Esperando pelo movimento. Suas pinças começam a mexer bem devagar. Suas antenas balançam. Sua cauda está ereta. De repente se curva formando um ângulo de 45º. O garoto não percebe porque o observa de cima através do vidro que deforma sua visão. Ele acha que o escorpião desistiu, está sem ar. Coloca uma das mãos ao lado do pote e a outra em cima. A excitação o emociona. Sorri. Ele, bem suavemente, ergue o pote. O aprisionado continua imóvel. O garoto crê que ele domesticou o inseto. Venceu. O conquistou. E vai arrastando sua mão mais perto dele. Chega mais perto, bem mais perto. E com o dedo indicador se aproxima quase o tocando. Tentação.
A temos todos os dias. A respiramos. De um simples olhar a uma oportunidade. Temos ao pé do ouvido como a desculpa que alguém nos conta. Que nos instiga em seguir adiante. Pagar para ver. Fazer o que não deve ser feito ou fazer assim que puder. No melhor momento quando piscamos os olhos.
Somos tentados a saltar de 10 mil pés de altura, num pára-quedas com a adrenalina enfiada na sua veia aos gritos. De correr mais que seu corpo sonha em agüentar tendo-a como sua dominadora. Vencer o seu adversário da pior maneira que sua índole jamais idealizou. A dizer sim quando todos os sinais nos acenam que não devemos. De desejar o seu mais esplendoroso objetivo. O seu alvo mais claro. Aquele que se teme. Que se quer. Satisfazer sua libido. Chegar ao clímax do seu prazer. Nesse ponto que chegamos com prazer viciado nessa sensação de arrepio, de quebrarmos os tabus, de enfrentarmos nossos mais sórdidos padrões. Ultrapassando limites trazendo consigo as vitórias pessoais. Estas que também trazem o peso de algumas derrotas maquiladas. Com um gosto amargo. Lambidas de fel. Porém isso não nos faz parar. Não mesmo. É uma espécie de incentivo, um cartão de livre acesso ao parque de diversões. E nem sempre é ruim. Não diga que é. A tentação nos invoca acima dos vulcões que vão surgindo, com suas erupções proibitivas. E delas sairemos no mínimo chamuscados. Com a camisa suada. Mesmo com o golpe de uma bola de aço maciço que é largada sobre sua cabeça, quando tiver a redentora oportunidade e será apenas ação versus reação. Não lemos as instruções de não tocar, de não manusear, de não pisar na grama. Sempre alguém vai deixar a porta entreaberta.
Sua mão está perto. O escorpião ainda parado. Eles agora estão lado a lado, estudando mutuamente. O garoto deita a cabeça sobre a sua mão que está mais próxima do escorpião. Sua inocência está em seu estado mais puro. O instinto animal, o predador. Instigado, curioso, tentado. Ele se move em direção do acuado. Sua mão se ergue, passa por cima dele. Seu movimento forma uma sombra. As pinças se mexem mais devagar ainda. A ponta da cauda brilha. O garoto sorri, excitado. Ele, enfim, agarra o escorpião num gesto rápido. E o aprisionado se debate esmagando seu corpo na mão do menino que sente toda a sua textura. Numa agilidade ímpar, o escorpião, em seus últimos indícios de vida, crava-lhe a cauda. Uma, duas, três vezes entre os dedos do garoto. O veneno queima sua mão. Ele o solta. O garoto sente dor, já não ri, sofre, tropeça no instante que tentava correr. Está acuado no canto da cozinha. Chorando de dor. Sozinho. E o escorpião se contrai na sua frente, ainda com forças para enfrentar seu adversário.

Sunday, October 05, 2008

Com as Unhas na Areia


7:32. O despertador tem uma crise histérica! 7:33. Dou fim a nossa agonia. 7:34. O bocejo doído acompanhado dos movimentos pesados dos braços. E mais um urro! Sinto como se eu estivesse saído direto de uma sessão de tortura. Essa é uma característica bem minha: piedade. Ou piadista. Gosto mais da última. Seja um defeito ou qualidade. Saio da cama num giro e salto para o dia pisando no chão de madeira comido por cupins. Fui até o banheiro de olhos fechados tateando o caminho. Chuveiro ligado. Água quente. E eu não. Dez minutos debaixo da água fervendo. Corpo ainda adormecido. Volto para o quarto e vejo com os olhos ainda opacos que um corpo ali está exposto. Com os seios à mostra e o resto espalhado pela cama. Os lençóis vestindo sua cintura embolada. Chego perto, sento ao lado, acaricio o rosto, dou um singelo beijo, quase puro. Como disse, um piadista. E depois disso tudo, de roupas acertadamente combinadas, cabelo penteado; creme para o mesmo, ficar fixo. Pé direto na porta para o dia. E uma olhada para ela que abre os olhos lentamente e sussurra: “te cuida”. Eu gostei, mas esperava outra resposta. Um grande erro. Sempre esperamos algo a mais.
Estava bem longe, além dos obstáculos da rua acidentada, do peso do calor sob o Sol forte, dos ruídos da cidade com suas buzinas que parecem flatos de seus canos de descarga aos arrotos, nada sutis do progresso. O som que saía rangido do meu tênis cansado. Vi o reflexo de copos vazios nas mesas de bufê a quilo, mas cheios de idéias para serem bebidas. Naquele meu ínterim não percebi que o movimento dos dados da vida. E a sensação de estar sendo observado. Carros, pessoas, cachorros, gatos, cavalos, carroças se fundindo ao meu redor surgiam, cresciam e se movimentavam com rapidez como se estivessem se preparando para um ataque. E diante de um carro a vi agitando os cabelos. Tentei esboçar um som, um chamado ao chegar na esquina, perto de casa, parando em cima do cordão da calçada pronto para atravessar para o outro lado senti a velocidade do vento, causando um ruído, na minha frente como fosse um animal gigantesco igual uma baleia se contorcendo, na minha direção. “Para!” Ouvi um grito ou um a buzina. Um abalroamento de um Gol vermelho num Fiat Fiorino que capotara na colisão e arrastou-se como uma Orca nas margens rasas da praia, até onde eu estava e por uma linha mal redigida (ou sorte) desviou-se, cerca de 1 metro de mim. E assim pude sentir que eu estava no jogo de novo seja ele qual for. Só sabia que eu era uma peça que avançara uma casa. Enquanto uma risada ao fundo dava um suspiro aliviado.
Depois de uma dose considerável de adrenalina, os gritos apareceram desenhando corpos e bocas. Eu em minha inércia fiquei girando o corpo. Dedos em riste. Um homem, saído do bar atrás de mim, comia um pastel esfarelado bradando que seu carro tinha sido atingido pelo resultado da colisão. O seu veículo era um Palio que estava estacionado perto da esquina. O rapaz saiu do carro capotado, passou a mão na cabeça e começou a discussão, enquanto os transeuntes faziam suas considerações rasas. Uma romaria se fez presente. No melhor dialeto humano, xingamentos e ofensas. Celulares como ferramentas para acionar seguradoras, pais, amigos, anjos da guarda. E o peso sentido no meu ombro se fez presente, me consolando.
No meio dessas situações, as coisas que você percebe se resumem na graça. A desgraça de um qualquer é a melhor piada. As atuações dos ofendidos e dos que atacam se alternando. Esquetes. Dramaturgia pura. Aparecem todos os clichês. Um calhamaço de versões dos sete pecados. E o relógio marca, 8:40. E do peso no ombro ao empurrão nas costas, me direciona de novo.
Aos poucos fui aumentando a rotação do meu corpo, dos olhos, da cabeça. Dei uma acelerada como se acionasse a tecla fast forward ao ser abordado por uma senhora que segurava duas sacolas de plástico abarrotadas de batatas. – Você está bem, meu rapaz?! A pergunta propícia que recebeu meia risada como resposta, enquanto desvinculava sua mão de cima do meu braço. Vieram outros e suas versões. – Vi ele cruzar a rua como um doido! Se não tivesse batido no outro, ia direto em você. Dizia um homem rubro que exalava uma mistura tóxica de cerveja, cachaça e etanol (pelo menos assim pensei). Fui me afastando, retirado pelo puxão da brisa.
9:00. Cruzei a porta do prédio onde trabalho com uma agilidade atlética. Passei pela recepção acenando numa mescla de sorriso e palavras. O porteiro, atenciosamente, retribuiu sem tirar de suas mãos o jornal que folheava. Esmaguei o dedo indicador no botão do elevador para chamá-lo. Creio que meia-hora se passou para aquele minuto chegasse ao abrir à porta do elevador. “Calma. Respira fundo Estou contigo”. Olhei para trás, para cima, para os lados. Nada. Aquilo me deixou em vez de nervoso, sereno.
Faltam algumas horas para o ano acabar. Contagem regressiva desde o amanhecer. Desde o meu bota fora pelo despertador com a imagem dos raios do Sol invadindo a persiana emoldurando-a. Hoje todos no setor resolveram desovar suas pastas em cima de mim. Problemas que foram passados de pé em pé até chegar na frente da área, diante do gol e acabaram chutando na minha cara. E eu não sou o goleiro! Sou no máximo uma parede. 9:10. Faltam mais de doze horas para o ano acabar. Um dia inteiro. Eu pareço estar dentro de uma ampulheta gigante e cada grão me esmaga na passada dos minutos. Faltam todas as horas para eu sair daqui. Sem tempo para tomar um café, extremamente, adoçado! Olhos na tela para digitar centenas de documentos, relendo-os, corrigindo-os, errando desaforadamente. Consigo fugir até a cozinha, driblar uns cinco colegas, giro o corpo como um contorcionista e me refugio no banheiro. Sento sobre a tampa da privada e olho fixamente o teto imaginando a fumaça que sai do Box ao lado afobada. Aqueles minutos se vão como a fumaça. OK está na hora de voltar. “Vamos te ajudo”. Ergo-me, vou até a pia, abro a torneira girando-a e deixo a água correr. Molho as mãos e as passo no meu cabelo tentando desenhar um penteado convencional. Olho para o espelho e tento ver se alguém mais no banheiro do que o fumante abafado. Seco as mãos, olho mais uma vez para o espelho e saio do banheiro indo atrás dos problemas. Ouço: “Você consegue”. Isso me dá segurança.
Sento na minha cadeira com o rodízio quebrado, diante do meu computador com sua tela rindo, mostrando cada caminho e funções que tenho que executar esboçando os caninos. Um rádio é ligado para abafar os comentários e conversas dos colegas, enquanto o ar condicionado consegue superar todos com sua turbina de 30 sei lá do quê de potência. Minha cabeça lateja igual ao martelo do marceneiro que ajeita uma estante na parede bem ao meu lado, apenas separado por uma fina divisória. O relógio bem no alto da sala marca 9:35. Dedos digitam rapidamente um requerimento que foi esquecido graças à desorganização de alguém. Minha com certeza e mais provável. Só que dessa vez não foi. Um feito. Marco três pontos num arremesso antes da linha do garrafão.Sinto a cabeça como um ringue de luta livre onde os neurônios estão se jogando de um lado para outro. Ou um fazendo um globo da morte com suas motos envenenadas. Um strike de garrafas da noite passada.
Quinze minutos de paz. Pelo menos sem ninguém me pedindo nada. Acesso a Internet. Visito a minha página no site de relacionamento. Vejo meus amigos, scraps, depoimentos, dizeres, amigas. Noto meu vouyerismo, meu exibicionismo, minha necessidade, minha vaidade.
9:59. Mais um pouco. E o corpulento chefe entra pela sala sacudindo um calhamaço de pastas de cor parda, surradas, com dobras e uma dezena de bilhetes pregados. Meu serviço é meramente servir ao sistema. E com um sorriso de mescla de ironia e falsa simpatia, despeja em cima da minha mesa todos os documentos para eu lê-los. O faço mecanicamente, fazendo ruído com a boca como se minhas articulações fossem robóticas. Um andróide. A próxima geração daquela raça, quase extinta, chamada humana.
E o dia assim continua. Almoço num pardieiro onde a fiscalização sanitária foi banida em vidas passadas. Sozinho na mesa manchada de molhos, restos e memórias, eu sinto como se a cadeira a minha frente tivesse sido empurrada. E uma luz ali surgisse eventualmente, como alguém sorrindo abertamente para mim. Esse dia fecho os olhos e analiso quantos sorrisos tive hoje. E seus níveis de veracidade. Tipos. Uma brisa fria arrepia meu braço. “Falta pouco”, assovia. Saio bem ressabiado do restaurante olhando todos a minha volta, para os cães na rua, para os carros. Pela primeira vez em anos vou quase correndo para o escritório e me protejo atrás da minha mesa. Ninguém fala comigo. Batimento cardíaco quase audível. Estou na minha barricada.
Dizem que sou uma pessoa apreciável. Mas a gentileza é uma navalha que corta fino. E a minha proteção se municia na minha ironia. De uma hora para outra estou assustado. Quase choro. Mas aconteceu uma coisa. Sozinho, atrás da minha mesa atabalhoada de papéis, um bem-estar tomou conta do ambiente. As folhas jogadas em cima da mesa foram sendo empurradas para o lado e o calor se aproximando do meu rosto. Meu coração continua acelerado, mas não tenho medo. O toque no meu rosto, um carinho, uma mão ali pousou. E eu me levanto. Vou até onde aquele calor emana. Fecho os olhos. Abraço. E beijo. Com toda a força e volúpia que eu poderia ter. Como se aquele gesto fosse minha salvação. Meu ar. Minha camisa é retirada do meu corpo, e sinto fazer o mesmo. O gosto da pele jaz na minha boca. O formato dos seios abocanhados. Minhas mãos agarram os quadris, procurando a calcinha, desse alguém, dessa pessoa, dessa mulher. Sou colocado sentado na mesa e meu sexo é exposto. O calor da sua boca me leva da respiração ao gemido em instantes. Fazemos sexo. Amor. Tesão. Fazemos parte da vida.
Minutos se passam. Horas talvez. Estou com o dorso sobre a mesa e com a cara enfiada nas pastas. A sala vazia. Nenhum som. Levanto lento, como de manhã. Todos já foram embora do escritório. O dia já se entrega aos caprichos. Estou chegando em casa. Abro a porta, dirijo-me até meu quarto.
E diante da janela aberta, nua, com a cidade ainda agitada, ela de costas, admira tudo. E eu vou até seu encontro. A entrelaço. Beijo sua nuca. Enquanto ela abaixa a cabeça, aceitando o agrado, e diz: eu te amo ecoando pelas ruas.