Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Sunday, November 30, 2008

No Jardim

Hoje já se passaram alguns dias. Pesam. E não vou colocar nenhuma fotografia, imagem, e nem pensei numa música. Sei que este espaço não é suficiente para você, nem o ideal. Não gostaria de envergonhá-lo. Nem sei se aqui é o lugar certo. Mas é o meu portão, meu lugar, o meu esconderijo, talvez. E com certeza a maneira que encontrei com todo o meu eu para dizer o quão importante você é, não foi, é. Mas nessas linhas que escondem lágrimas e como escreveram para os amigos, não serão de tristeza, serão de saudade. Não digo que serão alegres, mas nas lembranças que todos dividiram com você, elas serão alegres. Lembrar de suas características mais marcantes, sua teimosia, indignação, dedicação, seu jeito “senhor da razão”, com seus valores, suas opiniões, suas decisões, sua falta de paciência, sua independência, seu modo de viver e de tudo aquilo que viveu. Das histórias do “Pedro Malasartes”, do Chico sei lá o que, o Tião, de todos os personagens que o rodeavam, enquanto o ouvíamos. Com o chimarrão nas mãos, o português sendo reinventado, com a rudeza delicada, desculpe se errei algum nome ou reinventei, mas dessa forma que os lembro. Vestido com seu chapéu, reclamando do calor, andando pela casa, tantas casas suas, segurando a cadeira de praia em busca do lugar mais fresco, encontrando calma no seu jardim, de calças bege, preocupado com seus carros, com o andar da vida, como andariam seus filhos, netos, “enxertos”, amigos, parentes, com suas avaliações sobre os jogos de futebol e a atuação dos jogadores, se transformava em técnico, comentarista, contraditório de si mesmo. Construiu pontes no estado, iniciou as obras na cidade, e participou dos seus projetos, um autodidata. O filme Peixe Grande, de Tim Burton, ilustraria bem sua vida no imaginário de quem não o conhece num conto de fadas real. Podia chamá-lo de pai, mesmo não sendo. Ainda torço por nosso time de futebol e digo seu nome como se estivéssemos lado a lado. Mas posso afirmar que era meu amigo. Ajudou tantos como poucos. E fez mais que amigos; fez crescer famílias. Ele gostava de jardins, da natureza, veio do interior, e sofreu com sua família os desamparos da vida. E nunca reclamou, nunca deu justificativa para se tornar uma pessoa fraca. Nunca se deitou nos braços dos vícios mais comuns, porque achava desperdício e burrice, como dizia. São poucas linhas, enquanto ele precisava de livros para contar sua história, tomos, volumes, que não acabam por aqui. Estará junto do nosso convívio, de todas as suas famílias, que são chamados de amigos. Brindaremos como os vikings, bebendo sem parar para que Odin abra as portas de Vayhalla, onde os guerreiros continuam suas histórias. Espero que minhas lágrimas estejam sendo lidas por você todas as vezes que o dia nascer, que a noite passar protegendo os seus. E me resta olhar para cima, sobre os jardins, agradecer por ter vivido uma parte da minha com a sua presença. Ficam aqui, não minhas lágrimas ou minhas palavras, nem minhas lembranças, mas meus aplausos.

Saturday, November 22, 2008

Caminho sobre os seus Passos


Eu caminho sobre os seus passos. Tento seguí-los. Ver até onde vão dar. Sigo mesmo quando eles se misturam e dão giros, fazem contornos, vão para todos os lados ao mesmo tempo. Eu tento correr atrás de seus passos. Mesmo quando as pegadas estão se apagando em pisos diversos. Mesmo quando sobre o concreto eles não aparecem. Mesmo quando na areia afundam e também se deformam. Ora amassados na grama molhada. Resvalo. Caio no chão.
Mas me levanto com o impulso das minhas pernas ajudado pela base dos braços. Estufo o peito, ergo a cabeça, faço uma careta e o tônus muscular do meu corpo me auxilia. Eu me canso. O sofrimento vale a pena. Uma afirmação que já se tornou uma pergunta e se inverte. E não paro. Continuo o mesmo trajeto e dou alguns passos para trás, quando fico confuso. Seus passos adiante se divertem nessa dança marcada; eu sigo seus passos pisando em seus pés, apertando sua mão, segurando sua cintura. Mesmo quando você não está lá.
Eu erro, perco a passada. Mas recomeço, reinicio, vou atrás. Não desisto. Já desisti uma vez, não vou mais ceder. Estou ainda aprendendo a dançar. Enquanto você já está em outra dança, caminhando mais rápido, indo para longe, saindo do salão, correndo segurando o vestido mostrando através da fenda, suas pernas, largando os sapatos, sandálias pelos seus atalhos. Eu me levanto da cadeira que fiquei guarnecido para respirar. Você já teve espaço e tempo suficiente, e a minha troca de pares, já chegou ao limite máximo. Dessa vez eu quero virar as mesas, empurrar as cadeiras e me aproximar, não como um convidado indesejável, mas como aquele que disse todas as palavras que só você sabe quais são. Espero que se lembre delas.
Meu pensamento está em você assim como o seu teima às vezes em mim. Sei que olhando para frente você ainda me vê como uma parede para colidir. Sua maior negação. Eu me perdi de mim mesmo num tempo. Não fizemos nada errado. E se fosse, para nós foi o mais certo, possível. Não estou criando uma festa de salão fechado, com convidados escolhidos. Estou abrindo a casa para todos que quiserem se divertir. Os bares liberados, com “n” números de mesas à sua disposição. Uma multidão circulando. Cabelos, vestidos, ternos, calças, sapatos, bocas. E quando a música começar, ao toque da banda, daremos nossos passos, eu ainda seguindo cada movimento, cada lance novo desenvolto. Os pares estão à procura de seus ímpares. Nós poderíamos apenas acertar nossa coreografia. Todos os dias eu ensaio. Você tem vontade de correr, sair às pressas do salão, saltar os arbustos que enfeitam o jardim externo do salão, mas eu não deixarei de seguir seus passos. A música vai se alternando, a banda a desconhece, desafina, erra o tempo, mas a dança continua.
Você é meu par perfeito. Nós sabemos que a perfeição é plana, uma superfície uniforme sem nenhuma aspereza, mas vamos recriá-la, se necessário com suas ondulações. E você está ao meu lado. Ontem, hoje, amanhã. Dance comigo na fragilidade dos nossos passos e trace os caminhos pisando forte.

Sunday, November 09, 2008

O Perfume na Caixa de Pandora


Ele se encontrava dobrado, em posição fetal. Abraçado nas suas pernas dentro de uma caixa. Nu. Estava no escuro respirando com dificuldade. Seu corpo dolorido. Suava aos cântaros. Não ouvia um pio sequer do lado de fora. Suplicava por ajuda, mas não expressava nenhum ruído que não fosse sua respiração pesada. Tentou colocar a mão na boca, pois tinha a nítida impressão que sua língua tinha sido extirpada. Com um esforço absurdo, aos estalos, seu braço se desvencilha das pernas e se ergue trêmulo. A sua boca se abre. Tateando redescobre a sua língua. Seu rosto se contrai como se tentasse sorrir. E um ruído se faz. Com os olhos arregalados começa a perceber que a sua caixa se abre. Sua prisão será desfeita. Uma luz começa a perfurar sua pele. Ele fecha os olhos. O pavor toma conta do seu estado de espírito. Assume seu corpo. E a luz aumenta junto com uma lufada de vento. Ele abre os olhos e encara a luz. Começa a erguer-se da caixa que se encontra. Ele assim achava. Ereto, em pé, alonga o corpo e olha ao redor. Está na sala de estar da sua casa. Paredes brancas com pequenos pontos de sujeira no alto. Poucos móveis. Uma taça de vinho ainda cheia. Uma garrafa caída; vazia. A televisão ligada no canal de meteorologia. Ele está nu em pé, observando tudo. Respira fundo e sente o perfume no ar.
Tem medo de fechar os olhos de novo. Ele não tem idéia do que pode acontecer. Mas sabe muito bem o que se passou. Como chegou até ali. O porque disso tudo.
Olha para a mesa na sua frente perto da taça, o telefone. Coça a cabeça, seu corpo suado e exalando o doce perfume que o cerca. Dá dois passos e senta no chão. Suas costas doem. Mas mesmo assim ele pega o aparelho e disca um número decorado. Uma voz do outro lado atende com um simples “Alô”. Ele respira fundo. E começa falar. Gagueja. Mas continua. Do outro lado, uma voz feminina, diz “que bom”, e sorri. Ele sente-se mais seguro, seu coração pára de bater forte. Sua respiração mais leve. Ela, sim, o ouve. E ele a ela.
Começam a falar muito. E a saudade vem fantasiada pelo desejo e ao mesmo tempo algumas rusgas se fizeram presentes. Tão fortes que o assustaram, quando a voz dela ficou mais séria. Seu tom mais grave. E não havia sorrisos. Disse que fizera o que quis, por não haver nenhuma palavra dele contra. Não queria magoar ninguém e nem ser magoada. Ele ficou em pé. Nu, com o telefone colado no rosto, a ouvia. Disse que estava perdido. Que ela era seu trilho. Suas pedras marcando o caminho de volta. Ela hesitou, mas deu um risinho tão cínico quanto vencedor. Isso o irritou. Porém nada fez. Ela sabia que nada ia fugir do seu controle. Que ele tornou-se um brinquedo, uma marionete nas suas mãos. Sim, ela sentia algo por ele, o desejava, o queria por perto, mas o seu jeito, sua insegurança, não permitiam maiores profundidades. Ele também sabia. Sujeitava-se a isso. E ela odiava quando ele fazia isso. Tinha asco. Pediu que o perdoasse. Mas ela que queria ser perdoada, cobrada, proibida. Todas as atitudes desde da cama, eram dela. E isso fazia com que ela o matasse a cada dia. Uma assassina desse relacionamento. Não conseguiu levar a conversa mais adiante. Encheu o contêiner da sua paciência e disse apenas OK. Deu.
Ele ouviu o telefone do outro lado sendo desligado como se ele assim o fosse também.
Sabia que o perfume ainda estava ao seu redor. Que os males que dela o cercavam, o cerceavam. Os fantasmas mexendo com sua caixa. Mais ele ainda ama sentir o perfume na Caixa de Pandora. Mas dessa vez ele está fora da caixa esperando pelo que virá. E ela não. Agora sim ele sorriu agitando os braços.