Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Friday, December 26, 2008

Despedida


Já passamos por isso. Qualquer um já passou. Eu já passei por isso mais de centenas de vezes e nenhuma delas foram melhores. Elas sempre são pesadas, carregadas com a eletricidade, com o atrito, com a provocativa passividade do ser humano. Todas as despedidas são melancólicas. São ofensivas. Da melhor forma, são um adeus disfarçado com intenções. Covardes ou conscientes. Vou repetir isso muitas vezes até me convencer.
O rompimento, a morte, a distância, a saudade se fundem. De um jeito bem particular para cada pessoa. São uma pirâmide onde lá em cima está a esfinge perguntando para você: Para onde você vai?
Desperdício de momentos para se fazer escolhas racionais sobre coisas que não têm a mínima noção para serem racionalizadas. A emoção entra no ringue com os dois punhos no ar, fazendo a guarda protecionista. Evitando um murro certeiro no meio do seu rosto, contraindo-o com o impacto e levando-o ao chão desacordado.
O adeus que nunca é simples, se torna uma passagem, a válvula de escape, a saída de emergência com todas as luzes vermelhas sendo acionadas através da marcha uníssona da contagem regressiva até o momento crucial, onde as escolhas o levam no colo.
Toda e qualquer forma de despedida são criadas por nós para nos surpreendermos. Você fala em sentimentos enquanto outro fala de decisões. Você argumenta e o outro lado rebate com fatos ou deixa o silêncio comemorar. Despedir-se com um aceno, uma piscadela, com a malícia que a vida corrompe diariamente. Ela ainda tem o poder de mexer com o meu mundo, com o seu, quando olhares são cruzados. Quando ouvimos as vozes de quem se pensa, na paz momentânea do seu quarto com as paredes balançando como se fossem de papel, ordinárias palavras para saber do seu bem-estar. As vias de acesso para uma fuga imediata estão bloqueadas. Quando desligamos o telefone, o “tchau” sai por obrigação mas quer ser contido, quer que tenha uma outra interpretação. Ouve-se o sinal apagando-se, a chamada sendo encerrada. Uma despedida a mais na prateleira da saudade que construímos ao lado da cama.
Despedidas nunca são fáceis. Sabemos. Não as queremos, mas elas não vão sumir. Todo o começo tem um fim, um entremeio, um enredo, seja qual for o ciclo da vida. Romance, nascimento, relacionamentos, amores, falecimentos. Despedidas para tantas opções. Tenros instantes de fúria e dor. Mágoas. E mesmo quando sabemos que fizemos a coisa certa, sentimos falta. Se pudéssemos correríamos rio acima e tomaríamos outro rumo. Covardia? Consciência. Egoísmo?
Despedidas e perdas. A única diferença é que nem sempre uma depende da outra, e mesmo assim não há propriamente uma diferença. Quando nos despedimos de alguém por qualquer motivo citado no decorrer dessas linhas, você está perdendo, alguém, alguma coisa. E temos uma causa e conseqüência. Ou várias. Nos tornamos covardes, com a consciência reclamando e assumimos nosso egoísmo.
Chegamos ao fim. De uma maneira que não estava planejado. Fechamos as portas da casa, cerramos as cortinas, ficando num escuro profundo.Porém, mesmo com tudo indo contra, com as decisões firmemente cravadas dentro de você, um ponto claro rompe seu abrigo que considerava hermeticamente lacrado. Um ponto falho no vão da janela, entre o balançar das cortinas, o Sol entra e ilumina o chão. Você fixa bem os olhos, com cuidado ao analisar uma jóia rara. E sabe naquele momento que nem toda despedida quer dizer que é um fim. Pode ser um recomeço de uma nova história. Uma pausa nas linhas. Você se levanta, arreganha as cortinas, destranca as portas, abre as janelas. E o Sol vai ao seu encontro abraçando-o. Você e a Esfinge já têm suas respostas.

Sunday, December 21, 2008

SOLILÓQUIO


Hoje ele está pronto para uma longa viagem. Sairá pelo mundo. Sair das asas da família, ao aconchego dos amigos, dos carinhos conhecidos e percorrer um vácuo. Um longo caminho. Está há um bom tempo escolhendo que roupas levar, o que mais irá precisar. Sapatos, botas, tênis, pois os caminhos podem ser dos mais diversos possíveis. Roupas, uma contínua dúvida nas roupas.
Ele olha as fotografias, uma a uma revivendo tudo. A cada minuto. Sentindo até o vento esbarrando no rosto. Ele não fecha os olhos, não quer perder nenhum resquício de tempo.
Ele deita-se na cama. E sente que está no asfalto. Dentro dele, com o rosto para fora, as mãos e a ponta dos pés. O resto faz parte do asfalto. Preso. Tenta falar, mas há muito ruído, e quando se dá conta, percebe que há um movimento ao seu redor. Pessoas passando por cima do seu corpo. Carros parando em cima dele. Os pneus dos carros passam por cima de suas mãos. Sapatos arranham seu rosto.
É um sonho. Ele dormira alguns minutos, os mesmos que ele não queria perder. Com as fotografias a sua frente como companhia querida. As roupas que estava escolhendo continuam em seus lugares no roupeiro. Mas na sua cabeça já estão devidamente selecionadas.
Assustado, ele ergue o dorso. Senta-se à cama de casal com os lençóis revirados. Está sem camisa e sente o corpo doído. A sua mão direita está dormente e com profundos cortes. Seu rosto ao contrair-se com o bocejo arde. Passa a mão na barba por fazer e escorre um filete de sangue na sua boca. Arregala os olhos e vai direto ao espelho dando um pulo sobre o chão atapetado. De pés descalços está diante do espelho analisando com minuciosa atenção.
Os dias têm sido assim. Sempre o asfalto. Tenta ser uma explicação para o que deve fazer. O passo para dar. Há uma resistência dentro dele. E ele nem faz a menor idéia do porque disso. Olha as fotos. As segura, com cuidado, como se movesse um artefato com explosivos. Vê quem ele precisava que estivesse ali. Vê todos os lances de um jogo que ele teima em não deixar terminar. Que ele repete, repete, repete. Colocando na sua cabeça uma prorrogação, um tempo a mais que já expirou. As fotos estavam na tela do seu computador sumiram e reinam soberanas impressas jogadas na cama. Uma coroa, uma auréola que o circula.
Não há muito que se possa fazer. Não há mais nada que possa impedi-lo. Não vai tocar o telefone como nos filmes, novelas e será salvo no último segundo antes de se r acionada a chave da cadeira elétrica. Ele tem que seguir, passar mais esse dia, evitar a primeira dose de pieguice, saudosismo e lamentações.
Ele se olha no espelho e vê que não há nenhum corte; só as marcas que a vida deixou bem talhadas. As rugas de quem sorriu tanto, que o maxilar quase veio abaixo. As mesmas que o caricaturaram em conjunto com as caretas de tanto chorar. Não, as fotos não vão ganhar vida. Não vão estender as mãos ou continuar com seus sorrisos preparados. Ele dá as costas para o espelho que o deixa ir e sem pensar muito arremessa boa parte das suas roupas em duas malas grandes. As fecha. E ele abre muito mais que seus olhos, seus pulmões respirando todo o ar que puder. Ele sente o cheiro de piche quente exalando. Sua. Mas mesmo assim se veste. Encara o espelho mais uma vez, e este retribui curvando-se em respeito. É a última chamada. O mundo que ele conhece está queimando. E o novo mundo ainda o espera sentado numa praça. Seus pés movem-se. Seu corpo sai do asfalto, ele ergue-se, retira a sujeira que o cerca, dando pequenos tapas na sua roupa. As pessoas o vêem e os carros param. Ele pega suas coisas e sai caminhando. No bolso da sua calça ele aperta com a mão machucada, as fotografias.

Sunday, December 07, 2008

Cartão de Visitas


O princípio de tudo é o beijo.
Siga as linhas do contorno dos lábios da pessoa que você quer. É a forma mais íntima. A língua na sua boca.
Daí explode a supernova. O big bang. O cartão de visitas é entregue.
Você pode fazer sexo com uma pessoa e não ser tão íntimo! Você pode romper tabus com essa pessoa, satisfazer o seu desejo, mais depravado, colocar sua libido à mostra, como uma cicatriz e nem assim seria tão íntimo. Você pode gozar aos gritos e isso não provará nada.
O beijo é a profundeza do sentimento fazendo você chafurdar, onde tudo começa, onde parte todos os movimentos em seus carros velozes correndo por avenidas sem fim. Onde mãos aprendem como devem agir. Onde o acelerador é cada vez mais apertado no piso do seu carro. O motor exigindo a próxima marcha.
É sua marca. Nenhuma pessoa é igual à outra; nenhum beijo também. Cada pessoa tem sua “pegada”, um cheiro misturado ao seu perfume que se modifica. A famosa química. E ela pode demorar surgir. Pode se prolongar mesmo quando os carbonos perfeitos já estão unidos. Estão friccionando outras bases. Emergindo de outros sais. São marcas registradas, rótulos colocados nas línguas. E mesmo assim você pode deixar um decalque ruim, ilegível.
O sexo através do beijo. A língüa indo pelo corpo, beijando os seios, os mamilos, o peito, as costas, a nuca, o pescoço, as coxas, virilhas, as nádegas, o sexo. A língüa sendo o agente da ação. Introduzindo, lubrificando, facilitando, conhecendo. A ação, o beijo. O início, o meio e o fim e se repetindo.
Você pode distribuir muitos cartões de visitas por ai. Recebê-los de volta com agradecimentos. Entretanto a química borbulha, em seus frascos, os corpos que são importantes, melhor ainda, quem é importante.
Por causa desse seu beijo, você ainda pensa, sozinho, numa boca especial que você conhece. E não se incomoda em lançar ao vento muitos cartões. E se lembra das bocas marcantes, das mordidas, e quando pode, fecha os olhos dentro de uma só.
Pode ser que considere isso uma forma ingênua e romântica de ver (ou viver) as situações da vida. Eu diria que não. O beijo e o sexo são partes do mesmo. A vida pode parecer promíscua, não se importando quanto tempo passe, as bocas continuarão se tocando, iniciando as pessoas em seus relacionamentos mesmo quando você parou de entregar seus cartões.
E qualquer um gozará desse prazer tão singelo, com todos os músculos contraídos, de cada beijo trocado. E os cartões voarão. De cama em cama, de bar em bar. De casa em casa. Sendo frutos de um sentimento límpido ou de uma vergonha de baixo calão. Somos assim, vivendo no fio da navalha, cortando os pés a cada passada.