Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Tuesday, December 15, 2009

Céu e Inferno!


Um gerador. Uma turbina. Gravitando. Ávido pelo que virá. Furor.
Uma longa esperança que em todos os sonhos estão sendo meticulosamente concentrados. Um guarda-costas de plantão o protege. Adivinha quem será?! E uma dupla de agentes de segurança se colocam a sua disposição hoje amanhã e alguns dias, outros você fugirá pelas barras da prisão.
À gravidade dos fatos. À mercê da gravidade. Venha. Estou aqui. NÃO TENHA MEDO; EU TEREI MAIS, COM CERTEZA. Tremerei de ponta a ponta mas com o sorriso sarcástico e provador na cara deslavada, enquanto você quebrar em pedaços algum penduricalho na estante de avisos.
Não nos conhecemos ainda, mas estamos loucos para estarmos cara a cara. E será o maior desafio! O gongo soará assim que você colocar os pés no ringue e largar o manto que estará escrito seu nome e embaixo, “ O DESAFIADOR”. A grande batalha que durará por anos, a vida toda. Seremos eu e você todos os dias e alguns dias a mais que nos afastaremos. Um golpe desavisado e um contra-golpe de bate pronto.
Você pode estar rindo agora se jogando de um lado para outro. Dando um “mosh” na platéia uterina. Eu estou preocupado, ansioso, no canto do ringue fazendo as flexões, criando estratégias, coisas que já fiz, as imagino, penso como deveria fazer de novo e como burlar os erros. Ah, os erros que cometi e sei que vou passar para você o que não deve fazer. Criar uma placa de proibido que você vai fazer questão de pichar. E cedo ou mais tarde cometerá seus próprios “pecados”. Ora, até Lúcifer foi um anjo. E era o preferido de Deus. Isso foi uma piadinha...Só para mostrar que viveremos entre o céu e o inferno.

Thursday, November 26, 2009

FINALMENTE,VOCÊ VAI SABER SER FELIZ!


Nem que você tenha que colocar a casa abaixo procurando pelo que sempre (e algumas vezes você achou que nunca) esteve por ali em cima dos livros, cds, dvds e um punhado de quinquilharias. Finalmente você vai saber ser feliz.
Quando sua maior atitude foi quebrar janelas, jogar cadeiras na parede, você viu que há muito mais do que reação em cada ação. Não fazer nada também se torna um gerador de ocasiões. Mas você faz isso por querer ser feliz. E temer também. Nem sabe o que essa palavra quer dizer. Sinceramente, não diz nada se você não souber o que ela representa. Que sensação causa. O que completa. Satisfaz. Difícil arte de harmonia. Não é natural do ser humano ser harmônico. Mas para você conhecer esse “estado” de estupor, de felicidade, você vai descobrir. Ser feliz. Feliz. Cidade, estado, sensação, coisa, pessoa, sentimento....Complete o questionário que quiser fazendo a co-relação, não pela conveniência, mas pelo seu significado.
Passou muita coisa nessa corredeira que chamamos de vida. Seguimos por atalhos e por diversos rios. Quase nos afogamos. Seguramos na margem em algum galho. Olhamos para trás, mas desviamos o olhar para não ficarmos como as pessoas que viraram estátuas de sal. As circunstâncias foram tão “idiotas” que tudo poderia ser diferente, mas não irá mudar de um dia para outro; se souber esse truque, me ensine.
Teve um momento que todos passamos em não dar o passo para frente. Só que o impulso nos alça. Isso depende de cada um. Há quem não dê importância; outros vivem para isso. Tudo isso para ser feliz. Por isso você tem que saber bem o que é. Sem buscar clichês.
Um dia, só num dia, você terá para ser feliz e agora sem pensar diga para si o que faria. Como fará. Espere alguns segundos. Pense mais um pouco. Se tiver a resposta, congratulações. Se precisar de mais tempo é porque você ainda está à procura como um caçador à espreita. Dessa vez há o porém de estar totalmente desarmado.
É um aprendizado contínuo que lhe deixa em recuperação volta e meia aplicando provas, testes e perguntas freqüentes. O objetivo disso tudo é que você descubra onde está a sua felicidade. Feliz, feliz, feliz. Uma simples palavra que é mais que uma palavra. Um adjetivo. É mais que isso. É a essência de tudo. Onde tudo se intercala, todos os sentimentos se conflitam, lutam e se encontram. A sua simplicidade está na nossa complexidade. Sua simplicidade é um luxo a ser conquistado.
Tudo isso para que você finalmente saiba como ser feliz. É uma lição dura para alguns. Do jeito que você descobrir seja feliz e finalmente, acabará ensinando alguém esse pequeno truque. Abracadabra!


Monday, November 02, 2009

O Soberano em seu Castelo de Areia




Um Imperador com tantas histórias; daquelas que estão do outro lado da rua, sobre o vizinho que mal você vê, que nem o cumprimenta, que troca gentilezas frias no elevador.
O soberano, rei, o imperador, em seu próprio castelo adorava passar os anos em seus salões enormes, revestidos por paredes lisas e cortinados que iam do teto até o chão. As vidraças acompanhavam do teto até esconderem-se pelas cortinas. O Sol invadia os salões iluminando as manhãs e as tardes. O luar era convidativo dando o mesmo esplendor. O ponto alto estava nas luzes dos imensos candelabros que davam o brilho aos convidados em suas danças intermináveis. E mesmo quando se armavam vendavais, ali todos se asseguravam na força do castelo e no pulso forte e seguro do Imperador.
O Imperador ficava com seus olhos indo e vindo numa panorâmica, ao seu bel-prazer. Colocava a mão no queixo distribuindo sorrisos. Ele vivia os sonhos por ali. De amigos, conhecidos, vitórias e esquecia suas derrotas. Porém o tempo estava com pressa e trazia tormentas mais seguidas.
Numa dessas, as vidraças estremeceram. O medo tomou conta do semblante alegre dos convidados que se amontoavam pelos cantos dos enormes salões, tentando proteger do que se aproximava. O vento tinha tamanha força que seu uivo tornou-se um agudo grito. O Imperador olhava atônito para fora meio desconfiado, com medo e perdido. Procurava os convidados e os via cada vez mais longe. Ergueu-se de seu trono firmando os calcanhares e apontou a saída a todos com a intenção de que fosse para algum lugar mais seguro, mesmo ele achando que ali sempre fora o mais intocável.
Ao olhar para cima sentiu em seu rosto uma grande quantidade de pó caindo. Esfregou as bochechas, a testa e a textura porosa do pó o fez ver que era areia. O castelo balançava. Ele tentou caminhar alguns passos, mas tropeçou logo no segundo. De joelhos, pensou no sobrenome que o persegue. “Esperança”. Porque esse sobrenome? Porque seu amor tem nome próprio e a esperança é o acompanhamento dessa alegria, dessa felicidade ao juntar os dois. O seu castelo estava firmado em cima disso. Desse nome completo. Ele achava, sinceramente, que seu castelo tinha bases mais fortes, mais resistentes. Que a alegria seria eterna. Que ela ressurgiria de braços abertos e ali morreria passando sobre todos os feridos de diversas batalhas. Mas o castelo estava se desmoronando e ele, o Imperador, com toda sua magnitude, não conseguia colocar ao seu lado, do seu trono, toda a sua vida. A alegria.
Ele ficou em pé. Foi a passos lentos até a janela que tremia sem parar pelo vento e a tempestade que castigava o vidro com a chuva feroz. Abriu as portas. E caminhou para dentro da tempestade. Abriu os braços. Murmurou um nome e sobrenome. Sorriu no mesmo instante que as lágrimas misturam-se a chuva. Seu castelo afundou dentro dele. Ele ainda aguarda que o ouçam. Quem ele chamou para reconstruir seu castelo. Mesmo que ele tenha que repetir isso todas vezes, todos os dias....

Monday, October 05, 2009

Exclamando Você!

Eu peço desculpas quantas vezes for possível, mas sei que não será nunca suficiente. Errei. Errei no momento que mais deveria acertar. Justamente quando meu sonho maior se ajusta. Nem todas as histórias do mundo eu estou envolvido. E você não tem como acreditar. Amo quem eu amo. Você. E você sabe o que sinto. Errei. Errei pelo egoísmo. Pela minha frustração comigo. Minha imaturidade. Nunca teve haver contigo. Nunca! E aos seus olhos sou apenas uma sombra. Vou lutar para lhe ter de volta. Isso não é uma promessa é um objetivo. O fruto desse sentimento vai ser a dádiva que teremos. Receberá toda a atenção e cuidado até como desculpa. Mas será por amor. Não posso voltar a trás, queria, e como queria. Se pudesse daria a minha alma em troca, mas não dá. Meu corpo dói. Choro como quem urra da alma. Como se o corpo fosse queimado. Sinto cada pedaço do meu corpo ser quebrado cada hora. Arrancado com uma faca. Ao respirar dói. Não durmo, desmaio. Levanto e tento seguir. O que me leva a ir em frente é exatamente o objetivo, você. Eu amadureci em poucas horas os anos que se passaram. Ainda me verá diferente. Eu terei um valor que se somará. Queria apressar o tempo já que não posso fazê-lo voltar atrás. Estarei todos os dias lutando essa batalha inglória, segundo você. Vou chorar todos os dias, não importa. Se isso um dia me trouxer você. Eu estarei sempre, exclamando você!

Sunday, October 04, 2009

Reconstruindo Sob Ruínas e Esperanças

Reconstruir é recomeçar. Passar antes do zero e seguir em frente até chegar num número alto e positivo. Desqualificar o significado do que é uma linha. Um ponto para chegar até o outro ponto. Uma linha pode ser cruzada. Você não quer, mas usa a oportunidade para fazê-lo. Perde-se nas linhas. Não sabe como seguir a linha inicial; reta com o objetivo reafirmado. Erra na junção das retas. Mesmo que você a transforme numa parábola. Uma linha que fica arredondada. Mas e o erro? Você tem que criar uma nova reta. Mais uma linha. Refazer o itinerário. Será que consegue?
O esforço terá seu valor, quando provado. Rebusque. Rasure. Insista. Chegue a tocar na linha alheia. Mostre que você pode acertar dessa vez. Você sabe que terá que partir do ponto A para o ponto B. E não ir de encontro ao C. Suas esperanças estão em cima do que você já tinha sonhado. O resultado final.
A melhor maneira de se reinventar é acreditar no futuro.
Você cometeu um deslize e tanto. Criou um farnel de mentiras, um verdadeiro esconderijo raso de mediocridade, imaturidade e mau-caratismo. Okay, eu sei o que você fez e o porque, mas o resto do mundo está atônito. E mesmo eu sabendo, pode ter certeza que não se justifica.
Não sei bem quem será seu amigo nesse momento crucial. A cruz estará nas suas costas. Todos vão torcer o nariz para você e lhe dizer com todas as letras: I-M-B-E-C-I-L. Mas será diferente das outras vezes você sabe o que fazer, só não tem a mínima noção do que será daqui para frente. Dessa nova linha. Seguirá em frente tentando recomeçar a linha antes tracejada.
A linha do tempo será seu fio condutor. Seu caminho. Onde você vai chegar? Obviamente em algum lugar, mas não sei se será onde você queria. Você teve a chance de dizer “não” e o que fez? Deixou a vida lhe levar. Você tem uma frase escrita na sua vida. A decore. Leia quantas vezes for necessário. Sério, a leia, ela começa assim: “Aprenda...” O resto você irá completar e faça da melhor maneira, pense antes de qualquer movimento. Não vá encher a cara, saltar do prédio ou injetar uma seringa cheia de ar na veia. Mostre-se como um pavão que está envelhecendo com todas as cicatrizes. Com a sua mudança de penugem.
Peça desculpas. Vamos, não se envergonhe mais. Ajoelhe-se. Não só física, mas moralmente. O pavão perde suas penas e caminha mais devagar. E atrás dele, com as linhas alongadas, vê-se um caminho partindo antes do zero. A esperança saindo das ruínas. Basta você conseguir reconstruir o seu futuro.

Wednesday, September 16, 2009

O demônio está esperando do lado de fora


O demônio está esperando do lado de fora, atrás da porta e batendo com os nós dos dedos na madeira. Do outro lado eu estou com as costas grudadas na porta.
Eu me escondo no canto da madeira. Sinto a respiração pressionando a porta. Mas de algum jeito fica menos pesada e some. O silêncio quebrado pelos passos que se afastam.
O demônio saiu. Ele caminha pela noite levado pelo vento que aumenta revirando seus cabelos; veste uma calça social preta, uma camisa lilás suave e um fino blusão de malha preta, suas mãos entrelaçadas colocadas as suas costas, segurando displicentemente o guarda chuva de cabo pequeno, seus sapatos pretos quadrados na ponta, olha para frente e aos poucos ergue a cabeça vendo a noite, respira fundo, enquanto se aproxima, assim como a chuva que começa a se fazer presente com pequenas gotículas gélidas.
Eu estou na rua olhando pra cima vendo que se aproxima a chuva, no chão a minha sombra é bem maior do eu propriamente e meu ego já foi tão faminto que nos devoraria nesse momento.
Ando por um mundo cheio de tatuagens pelo corpo onde estão todos os traços das pessoas. Onde as palavras se perderam pelas imagens e símbolos suprimindo a verborragia por onomatopéias, sinais gráficos quase de trânsito livre e irrestrito de comunicação.
No meio fio esbarro com o demônio que sorri. Um sorriso de canto de boca. Ele dá um passo para trás e encosta-se no muro branco e alisa a textura áspera do cimento. Eu fico com um pé suspenso no ar pronto para dar um passo à frente, mas congelo. Estagnado. Ficamos nos observando como dois lutadores dentro de um vale tudo. Ele nem se mexe. Eu desço o pé bem devagar. Quando tenho o contato no chão, ele dá uma risada mais alta. Sinto a chuva que se torna implacável. O próximo movimento é um golpe. Óbvio, que eu caio no chão esparramando o corpo pelo asfalto. A chuva apenas faz o terreno ser mais sujo, escorregadio dificultando toda reação. Mas eu faço de tudo para me erguer e de uma maneira atabalhoada avanço contra o meu agressor. Consigo uma certa vantagem pela surpresa. Contudo se perde com a falta de qualquer habilidade. Sinto mais um golpe, ao mesmo tempo, que tento contrapor.
No final quem foi alvejado? Quem acertou o adversário derrotando-o? Não estou falando sobre bem e o mal, mas na oportunidade de sobrepujar o outro. Enquanto se vê uma pessoa que autoflagela com sentimentos escusos, há o contraponto do vira-vira de copos cheios de boas intenções. Estou dia a dia sendo perseguido por meus demônios que me empurram com suas asas escondidas em maneiras indigestas de um correto comportamento. E o sabor de fel desce garganta à dentro. Mas consigo enfrentá-los. Bebo o antídoto como quem sorve pastilhas. O problema maior não está no demônio fora de si, mas no inferno que se cria. Observe que há uma tatuagem: saída.

Saturday, September 05, 2009

Melodia Com Quatro Ases na Mão


Uma estratégia para um lance de sorte. A sorte e o azar são amantes que confabulam secretamente sobre o seu destino. Vamos juntá-las.
Com as cartas na mesa sua mão pesa num jogo pronto que você permanece blefando com seus oponentes. E eu tenho nas mãos quatro ases e uma carta que não vou abri-la. Só quando for necessário. Pronto para sacrificar os oponentes. Tenho uma meta. Um objetivo traçado como nunca sequer poderia imaginar. Tenho a dupla de assessores, a sorte e o azar, ao pé do meu ouvido me servindo petiscos. Dou um sorriso discreto e corro os olhos para ver se alguém notou. Todos estão afundados em suas estratégias. Suas vidas rumando cada uma com suas conquistas. E derrotas. Ah, as derrotas têm o porque de perecerem.
A oportunidade se fez presente. Estou a um passo de uma longa jornada. Apareceu, assim, de repente e refiz os planos tendo o meu projeto ali adiante mais perto. Tenho o jogo certo nas mãos. Falta abrir mais uma carta.
Mas o que adianta ter o jogo encaminhado se o objetivo, o seu prêmio, a sua meta não ter o devido fim. Não é nem uma pergunta capciosa, mas uma afirmação duvidosa. Quando a sua escolha de permanecer no jogo, esperar a hora certa de quebrar a banca e recolher os lucros não tem a mínima finalidade maior, porque o seu meio não justifica o fim. E o fim, com o nome próprio, me deixou na mesa sozinho sem saber o que fazer, pois considerava que minha atitude seria a maior amostra de tudo que estava acontecendo e o que aconteceria. O fim riscou de ponta a ponta do quadro com um giz arranhando a lousa essas pretensões.
A sorte e o azar agora se abraçam rindo. De um lado a risada sai aguda, fina; de outro se ouve balbucios. E eu ali sentado ouvindo essa melodia com quatro ases na mão vendo todos os sonhos se desmanchando. Como se jogasse água fervendo em cima de cubos de gelo. A água em forma diferente se mistura e inunda o chão. Os sonhos idem. Os compromissos e promessas foram colocados à prova de fogo e quem acabou sendo queimado fui eu. Engraçado tudo isso é que eu não ia quebrar a banca, nem sair dali com toda a fortuna do mundo, mas sairia pronto para novos jogos e cada vez com mais chances de conseguir atingir minhas metas o quanto antes e finalmente, o objetivo com nome próprio. Ninguém me impôs nada, mas eu necessito mais do que o tempo me proporciona. Tenho as cartas nas mãos.
Minhas chances sumiram. Num estalo de dedos. Numa jogada mal ensaiada. E ninguém concorda comigo. Devia ter saído antes de pensar em abrir a última carta e ficar com meus quatro ases. A sorte e o azar começam a brindar e cada um aponta para mim me fazendo crer que a próxima jogada será melhor. Vejo que é um truque. Já cai nele. Cai feio. Torci o destino. Não há nada que eu possa dizer ou fazer (eu insisto em pensar o contrário), mesmo que eu corra, porque era isso que eu estava fazendo, correndo contra o tempo para chegar mais próximo. Não sabia que isso me afastaria, me empurrando para trás.
É curto. Breve. Sem porém. E estou sentado à mesa sozinho, segurando as cartas por ser a única coisa que me restou. O tempo, a sorte, o azar, o objetivo e o fim assinam seu único nome talhando sobre a madeira a minha frente como uma penitência que vou lendo todo o momento. Coloco as cartas na mesa, uma no lado da outra, abro os quatro ases e a carta que antes não tinha visto, deixo-a com o naipe para baixo, já não me importa mais.

Thursday, August 27, 2009

O Silêncio Como Opção


Minha aposta maior. A confiança é a moeda de troca, sem ela nada temos para casar a jogada. A paciência para esperar a roleta parar de rodar e finalmente a bola branca cair no número é uma dádiva. Com o coração saltando pela boca, esperamos que vingue a aposta. É alta. Difícil de ser coberta, mas sempre há alguém que a sobrepõe. Não importa se você mudar a estratégia do jogo, tentar enrolar o crupiê. A casa pode usar artifícios nada escusos para afrontar o que você acredita ser sorte. Nesse jogo, não há sorte, há oportunidade.
A cada rodada a aposta aumenta e você não consegue deixar a mesa. Está na beira da bancarrota total e mesmo assim acredita que a maré vai mudar. Nesse entremeio pode até se afogar e nada o faz parar de aumentar as chances. Numa lógica inexplicável raciocina sobre centenas de combinações em segundos que obviamente, elas sucumbem a razão. Nada o faz desistir. Um erro é apenas um infortúnio momento, um repentino lapso no tempo que se torna relativo. É só aguardar mais uma rodada entre as outras dez que já se passaram. Otimismo. Fantasia. Ilusão. Tudo está em cima de mais uma ficha. Já pensa em penhorar o relógio.
Dá uma longa suspirada quando mais uma chance é rasurada diante dos seus olhos. Vagamente conjectura o que pode fazer. O que mais poderia fazer, qual esquema poderia criar. Levanta questões em conjunto com o movimento das sobrancelhas. Faz de tudo sem mexer um músculo além do frenético correr dos olhos. Ouve vozes. Assiste através da sua visão periférica as pessoas ao seu redor. O ambiente. A decoração. E de repente pára de respirar. Aperta a ficha com força que jazia inerte sobre a mesa e a arremessa na direção do espaço reservado às apostas. Tira o relógio do pulso e o indica para acompanhar a ficha. O crupiê fala alto que as apostas estão encerradas e inicia o movimento da roleta girando-a com uma quase ou nenhuma força. Ela gira por alguns minutos. Podem parecer horas. Todas as esperanças tornaram-se nomes próprios e são chamadas como orações as suas raízes de santidade.
O mundo gira sem parar. Pensa no que fará quando sua aposta que já extrapolou os limites. A roda gira fazendo todos seguirem mais rápido. Imagina a vitória como uma filha a muito esperada. A cabeça gira para a direita; para a esquerda. Sonha com tudo que deu errado acabará sendo apagado do texto que algum escriba irônico colocou na sua vida. A roleta ainda gira levando ele, ela e quem mais de carona.
Você não consegue nem piscar. Engole a seco quando a roleta diminui sua velocidade até parar. Teima um pouco fazendo a bola branca picar de um número para outro e ela retorna até parar de vez. Ele arregala os olhos, quase os deixando saltar do rosto. Sua vida toda apostada naquele momento. Sua relação com a mesa chegou ao máximo permitido, todos os avisos foram excluídos e não há saída. Os prós e contras estavam na sua aposta, o que passara, o que disse, o que ouviu. Cada sorriso, beijo, suor. Todas as palavras nas vozes alteradas. Os gemidos sussurrados. A satisfação. Tudo estava naquela aposta. Não blefou nenhum momento e poderia tê-lo feito. Agiu com a certeza que seu coração o incentivava como conselheiro. Seu amor estava ali. Quem ele amava. Seus planos breves e os de longo prazo. A bola parou. O número sorteado é anunciado. Ele cruzou os dedos.
Poderia ter sido mais fácil se a confiança fosse a ponte entre o que ele sentia e por quem sentia o amor por ele. Mas ele apostou. Como um jogo. O resultado? Cabe a ele dizer a quem merece já que as fichas acabaram. Ou quem o ama entregar mais fichas. Agora ele só tem o silêncio como opção.

Sunday, August 16, 2009

A Língua com Gosto de Tequila

Gosto acre na boca. Olhos ainda teimando em abrir. Choque com a luminosidade do Sol que penetra no ambiente como uma horda de invasores armados com facas afiadas e lanças pontiagudas. O dorso nu, a cintura envolta com os lençóis, enquanto as pernas contorcem-se quase fora da cama de casal. Cheiro de suor. Levanto a cabeça passando com força as mãos nos cabelos completamente desconfigurados da possibilidade de um penteado. Espreguiço ainda com as costas afundadas no colchão. Abro o olho direito fazendo uma careta amassando ainda mais o rosto. A janela escancarada com os spots de luz colocadas em cima de mim. O inverno deu trégua e a noite antecessora trouxe o conforto de uns vinte graus. O Sol de hoje já beira pelos vinte e oito. Agosto. Vinte e oito graus. Meu nariz me mostra o quanto essa mudança está sendo desleal. Sento na cama jogando os lençóis para o lado. Estou nu apenas vestido com minhas duas tatuagens. Uma nas costas; outra na parte interna do meu braço. Olho ao redor e me deparo com a realidade de que estou sozinho. Antes não estava.
Como ontem, anteontem e semana passada. Não estava sozinho. Estava no meio da multidão de mãos dadas com a boca que sorria sem parar do que eu falava. Estávamos nus no meio do mundo fazendo estudos sobre cada pedaço de nossos corpos. Um estudo que ia além. Nossa autópsia pelos sentimentos de cada um. Abrimos a carne, a garganta, entranhas, os lábios e penetramos um dentro do outro através de nossas línguas e desejos. Eu e ela. Ela e eu. Uma dupla dinâmica combatendo os diálogos num debate monitorado por milhares de aparelhos de televisão decidindo quem apoiaria na próxima eleição. Réu e acusadora se alternando por atitudes diversas. O equilíbrio das relações. O que sobe se perde. O que desce, despenca.
Me levanto da cama e dou de cara com a porta do meu quarto fechada. Torço a maçaneta e saio. Vou até o banheiro. Ergo a tampa do vaso e alivio o excesso do meu corpo. Ligo o chuveiro que demora alguns segundos até que eu consiga a temperatura do meu agrado no volume contínuo da pressão da água. Entro no Box e permaneço parado de cabeça baixa com a água caindo sem parar. O calor da água faz criar uma nuvem de vapor que embaça o espelho e deixa o ar mais pesado. O contato com a pele a deixa avermelhada. Me ensabôo. Termino o banho em quinze minutos, dentre os quais desses 8, fiquei apenas parado. Me seco. Caminho enrolado na toalha pela sala de estar indo até a cozinha. Acendo o piloto chama do fogão e coloco uma chaleira com água para ferver. Não tenho nada em casa, eu sei. Vou até a área de serviço e vejo que o Sol já me espera com um sorriso sarcástico. Ele, melhor que ninguém, sabe que estou sozinho.
Sento na cozinha e o set de filmagens é mudado com todos os profissionais desmontando e remontando o cenário para a próxima cena. Os gritos dos produtores só são abafados pelos achaques do diretor principal que resmunga, ofende, gesticula munido de seus fones e a cara enfiada no monitor ao lado da câmera. Seguindo o roteiro que está em minhas mãos, o folheio e vejo a pagina 3 como é decupada. Ela discutira sobre horários. Em pé na sala com sua calça jeans e com os pés no chão tirando a blusa, fala sem parar que eu tenho que crescer. Só ela está em cena, fala direto para a câmera. Ela parece como Tila Tequila, a latina bissexual que aterroriza em seu reality show de sexo, fidelidade e sedução. Ela modifica-se a cada frase completada. É uma outra pessoa, outra atriz. Há drama, há comédia, há todas as palavras voltadas para minha cabeça. O diretor grita corta! EU penso, atire!
Eu pisco uma vez devagar e a cozinha está do mesmo jeito. A chaleira está apitando. O vapor sobe até o teto. Só lembro ao levantar que estou sozinho. Mais uma vez depois de tanto tempo. Na língua com gosto de tequila, pronuncio o seu nome. O cenário está pronto para mudar. Aguardo o novo roteiro ou a refilmagem de alguma cena. Não quero mais outra atriz; quero você.

Sunday, August 02, 2009

Samba & Rock (entre riffs e baticunduns)


O dia que você marcou na agenda não existe realmente....Já se deu conta disso.
É um número criado. Uma lógica aritmética combinada com os astros. Mas na verdade ele não existe. Para o resto do mundo é uma lacuna enorme. Um corretor de texto lambuzando o dia, o mês e o ano.
Eu sapateio nos paralelepípedos com toda indiferença globalizada. Meu nome é Washington, sim, igual a Capital estadunidense. Homenagem a um jogador de futebol, não o que está nos campos correndo atrás da tecnologia do capitalismo esportivo da atualidade, mas naquele que trazia no passado às glórias que minha família achou melhor guardar em cima de mim como um arquivo pessoal portátil que respira. Na rua em frente ao meu prédio nas manhãs de todos os domingos desse inverno, homens de meia idade, bem sucedidos, empresários, pais de famílias, avôs descem a rua em cima dos seus possantes carrinhos de lomba super desenhados, com ergodinâmica de primeira linha, brincam quase seriamente. Competem radicalmente com sua alegria. Dou uma guinada no corpo sobre passos rápidos indo para frente e outros para o lado ajeitando o corpo no declive da rua.
Sobre a calçada rebuscada por pequenos víveres de musgos, plantas e gramíneas que crescem ao redor das calotas de concreto, eu, Cecília, Ciça para quem me conhece, rumo com o passo quase rápido, quase calmo, numa quase pressa só minha nos longos solos de guitarra do meu mp3 acoplado nos meus ouvidos. E hoje, num desses domingos mais gris que presenciei, descambo para chegar na padaria e comprar um refrigerante qualquer para amenizar a ressaca. Adoro beber socialmente, mas na noite passada fui abre-alas do estandarte. Sou uma sócia-degustadora de espumantes. Mesmo sem um brilho de sol, eu não descarto de forma alguma meus óculos escuros que emolduram quase todo meu rosto no seu imenso formato. O dos óculos não o do rosto, mesmo que eu esteja parecendo uma bolacha recheada. A moda é minha maior companheira. Entre meus lenços que enrolam no pescoço, com meu casaco de lã no modelo militar, saia, meia-calça preta, sapatos Melissa estilo boneca( ou Branca de Neve para ser bem mais clara!). Eu sou uma refém do meu armário. Toda noite abro as portas dele e me deparo com o mundo de opções que se apresentam. Faço as combinações de alhos com bugalhos, do que é dela com ou sem fivela, e no final das contas vejo que tenho que ter mais opções. Tenho vontade de gritar nas caras das pessoas que erram seu modelito e acham que estão abafando. Queria ter um travesseiro à mão e sufocá-las. Já que elas estão cometendo um crime visual, eu, em nome do bom gosto, ou do mínimo da noção do ridículo, acabaria com o sofrimento, das outras pessoas que têm que vê-las.
Eu estou a cem passos – eu conto meu caminho diário por passos – para ter a sensação que alcancei meus objetivos ou para ser bem mais sincero, fazer o calvário, a minha via crucis. Não é dia de trabalho, mas resolvi adiantar contra a minha vontade, compromissos da segunda-feira. Todo o santo dia, até os mais infernais, visto meu uniforme preto, minha camisa de tecido sintético e minha gravata que me sufocam. Hoje, domingo birrento, é um desses dias dos mais chatos que convida qualquer um em se enrolar nos endredons e permanecer afogado na cama praticamente entrincheirado no mundo de Morfeus, mas até nos jardins mais belos encontramos buracos, espinhos, alguns animais nada agradáveis vou para o batente. Chego na frente do prédio do escritório e como é notório e sabido – imaginável, não há uma viva alma, creio que nem morta por aqui. Cruzo pela portaria com o som de cada passo ecoando no interminável corredor até o elevador. Durante a semana útil ele é tão curto que quando me dou conta já estou no meu andar trabalhando. Estou parado bem na frente das portas do elevador e torço o nariz quando minha barriga ruge com fome ou preguiça ainda não sei bem. Resolvo sair do prédio, quinze minutos não vão me atrasar tanto.
Lá estou, enfim, na frente da redoma de vidro do balcão da padaria escolhendo um salgado e um doce, claro Ying e Yang equilibrando o dia. O balconista com aquele ar de domingo contrariado, me atende e me alcança todo o meu pedido. Peço para beber um refrigerante de 250ml e um expresso para acompanhar. Um UP de cafeína. Minha meia-calça embolou entre a parte baixa da minha nádega e a perna, quando sentei. Fico me repuxando toda para alinhar o corpo na roupa. Não consigo fazer isso sentada e me levanto. Nesse momento esbarro num homem que estava em pé, bem atrás de mim. Que maldito seja!
Foi como um empurrão com direito a um gancho de esquerda, ao mesmo tempo, que vinha uma cabeçada. Uma mulher levantou de uma cadeira sei lá da onde ou como, e saiu empurrando a humanidade escada abaixo. Eu cheguei a me desequilibrar, mas no final das contas a segurei porque vi que era um carro sem freio descendo uma lomba sendo guiado por uma mulher é claro!
Mesmo assim fui educada e pedi desculpas com um sorriso angelical no rosto que me doeu até a espinha. Eu fui educado com ela. A fiz ficar bem à vontade. Parecia ser uma mulher delicada e estabanada mas perdida. Ele pareceu ser um ogro que fora atropelado, mas com um certo afã. Nossos sorrisos ficaram um mandando mensagens visuais para o outro. Mulheres! Hum, homens! Já no primeiro momento se jogam nesse estratagema de conquista barata. Ele tem um perfume gostoso. Ela tem um perfume gostoso. Ficamos ali assim como dois curiosos. Domingo, gris. Nada para fazer de útil. Ele se ofereceu para pagar minha conta e eu o convidei para sentar. Começamos uma longa e desnecessária conversa. Ela fala demais. Sorriso lindo. Vi os olhos dela finalmente porque ela teimava em ficar com os óculos como protetor facial. Ele não é muito alto. Bonito, não lindo, bonito. Ela tem um corpo interessante, nada excepcional, nada grande demais. Nada de gordura desproporcional.
Saímos da padaria juntos e ainda conversando. Ele sabe falar sobre qualquer assunto, não se aprofunda muito, mas palpita de maneira leiga sobre moda que trás um certo charme infantil.
Saímos da padaria juntos e ainda conversando. Nossa ela fala sem parar. Falei sobre música e ela mexeu a boca apenas para dizer “blergh” sobre determinado estilo musical. Adorei ter que explicar para ela e ver uma total ignorância proposital.
Ele foi comigo até a esquina, o convidei para darmos uma volta no parque movimentado, perambular pelo Brique da cidade. Mas recebi um sorriso constrangedor. Ela me convidou para darmos um passeio. Droga! Eu tive que explicar que tinha trabalho para fazer, ela não acreditou muito e me chamou de “171” com um maneio da cabeça e uma risada. Disse que mais tarde, se ela quisesse poderiam se ver. Eu achei melhor dar um tempo. Se eu o convidei ele me deu esse “cachorro”, então vou dar mais ar para ele. Marquei com ele noutro dia. Na semana à noite. Eu concordei. Durante a semana poderíamos sair. Juntaria um dinheiro e a convidaria para ir ao cinema, um programa para lá de batido, mas certeiro. Eu disse que a escolha do filme seria minha. Ok, ok, para que contrariar, com certeza seria uma comédia romântica, mas fazer o quê?!
Nos despedimos. Beijo no rosto. Que amador! A peguei pela cintura, e passei meus lábios bem perto da boca dela. Não reagiu. Marcamos o dia. Terça.
Na agenda onde esse dia não existe para o resto do mundo, para eles seria apenas o primeiro, talvez, de outros tantos a serem marcados no calendário para comemorarem.

Thursday, July 16, 2009

Talvez Amanhã


Queria ouvir uma frase simples. Mas eu queria nesse momento ouvi-la. Eu te amo. Assim desse jeito simples. Comum para alguns, não para mim. Nunca baixei a guarda com tanta displicência deixando o queixo à mostra esperando que viesse no rosto, com toda a força, qualquer golpe, e ele veio no momento que eu sorri ao acordar do teu lado. Fiz gato e sapato para estar contigo e também muitas bobagens que ainda não sei bem explicar, mas que no momento achei que as justificativas eram suficientes para provar para nós dois.
Errei em tantos momentos com a mesma intensidade que quis acertar. Não posso ser julgado, condenado e sentenciado porque a sua dedução foi apenas que eu sou o grande monstro. Já fiz muitas pessoas sofrerem e paguei caro com notas, uma sobre a outra, o preço certo e ajustado para com os meus pecados, por assim dizer. Me senti caindo num buraco interminável. Eu tento me apoiar na parede, enquanto o meu corpo cai vertiginosamente. Faz tempo que já aprendi com as frustrações. E isso me fez, por muito tempo, estar pronto para que o desse errado. Pronto para o inevitável. A surpresa! Eu não fazia questão e nem aguardava nenhum golpe. Só que eu resolvi burlar minhas próprias leis criadas como escudo descobrindo um sentimento em você maior que esse céu estrelado que serve como toldo. Olho para cima e uma chuva fina e gelada cai.E me vejo sozinho.
Quero ouvir essa frase. Mendigaria por ela. Corri para cima e para baixo tentando “invadir” seu mundo. Criando como um todo poderoso, um castelo, se possível, para te abrigar. Engraçado, logo eu dizendo tudo isso. Queria ouvir essa frase. Na voz mais desafinada doendo os ouvidos, com o sotaque todo particular. Todos os erros teriam o poder de sumir um por um. Seu efeito seria devastador. Passaria uma borracha gigantesca nas rasuras da nossa história. Eu seria menos imperfeito e adoraria encontrar na escuridão a clareza de vê-la sorrindo de braços abertos.Vou errar, mas pode ter certeza que, também, posso acertar. Com a mesma força e ímpeto comemorando um gol socando o ar num salto.
Mas estou na chuva fria que está aumentando. Eu digito uma mensagem no celular e lhe envio. Aguardo resposta sem ter feito nenhuma pergunta.Minutos se passam, começo a caminhar. Estou numa esquina que já passei outras vezes, mas me vejo perdido. Eu abaixo a cabeça, um sorrisinho irônico aparece na minha boca e eu caçôo de mim mesmo.
Uma das poucas vezes na minha vida, não sei o que fazer. Não sei mesmo. Desaprendi a ser eu mesmo. Ou aquele que eu fui apresentado quando nasci, cresci. Eu prefiro continuar subindo as escadas do castelo para te encontrar. E com sorte, ouvirei minha frase. Talvez amanhã.

Saturday, July 11, 2009

Estranho Conhecido


Cansado. Muito cansado. Assumidamente. Suspirando fundo de forma pesada. Fazendo um ruído alto com o assopro do ar entre os lábios. Cansado de tudo que passamos. Que gruda em nossos sapatos como uma goma de mascar. Ou pense em algo “pior” para ilustrar. E ficamos nas contínuas discussões diárias, brigas que parecem não ter fim, silêncios estendidos em perguntas que estão cheias de amargura, crueza e frustração.
Já rodei em todas as estradas que você possa imaginar. Algumas você já conheceu. Outras eu contei com detalhes. E percorri alguns trechos por atalhos que nem existiam. Os criei. Os forcei. Os fiz em cima dos problemas que deles advieram. Os contornei quando tive tempo e mesmo quando já tinha percorrido o trecho mais que devia, pude acelerar o passo entre os arbustos, arranhei nos espinhos, os braços afastando os galhos, indo para o outro lado.
Eu estou cansado de ser o réu sempre. E ter que entrar nessa gincana vencendo cada prova para me mostrar apto em continuar. Preciso fazer isso sempre?! Você vai se apegar no que passou. É mais importante para você. Tudo bem, eu entendo. Estou sendo irônico. Não posso devolver os fins de semana de Sol que tu perdeste ou foste para outros lados. Você também vai por caminhos diversos, rumando a esmo. Só posso dividir os próximos se você achar que deve fazê-lo comigo. Não há obrigação aqui. Há vontade de acertar. Erros existirão sempre desde ao fazer uma compra mal feita até fazer a cama esticando devidamente os lençóis. A cobrança é o fruto que apodrece no relacionamento, seja ele numa amizade ou num amor propriamente dito. Eu cansei, já disse; você também, eu sei.
Desconfiança se tornou o nome de uma vizinha de porta que vem todo momento apertar a campainha. Volta e meia, ela está lá de pantufas, com um sorriso amarelo cochichando ao pé do ouvido de um ou de outro. Devíamos ter um manual como cada um é e quando surgisse alguma coisa diferente acessar a tecla de “ajuda”. Quero consertar as coisas. Quero que consertem as coisas para mim também. Viu só, quero fazer as coisas darem certo, nem que seja sacudindo você até deslocar seu orgulho de coluna ereta e nariz empinado. Mas você não vê assim. Não quer um príncipe encantado, mas já me transformou num duende grotesco. E aos poucos você está se afastando, indo embora como um letreiro de caracteres ao final de um longo filme.
Você prefere ficar sozinha que se reaproximar. Sua opção sempre é isolar-se. Eu fico lá no outro hemisfério. Lidero a sua lista de dispensas. Você fica no marasmo de sua penitência e me coloca na geladeira, de castigo. Às vezes, me passa pela cabeça, que você não tem coragem suficiente de abrir a porta e me fazer sair. Já fez isso. Achou que seria uma solução, mas só agravou um problema e o cobra até hoje e amanhã e depois. Está fazendo tudo de novo e eu juntando os cacos logo atrás. Pois é. Sei que deixo a desejar. E não hesito em tentar repor as peças que faltam nesse mosaico de vidro colorido. A cada fragmento e cada resquício de esperança eu me agarro. Pateticamente, há de convir.
Eu fico aqui num discurso de um estranho conhecido “assustador”, narrando um texto em voz alta para uma platéia inexistente, dentro de um enorme salão vazio com as paredes brancas, janelas fechadas com cortinas cinzas, às escuras, outra vez. Mas ainda há um candelabro no chão com duas velas. Nós só precisamos acendê-las juntos para iluminar o ambiente.

Tuesday, July 07, 2009

No Canto Da Mesa


Tamborilando os dedos na mesa com o olhar nervoso para todos os lados esperando uma bala perdida jogada da outra extremidade, atrás da fronteira de garrafas e pratos com suas especiarias, aguardando o momento propício para ajeitar sua mira,vendo bem onde marcar o sinal vermelho e disparar no alvo. Sendo o algoz sem piscar. Você está seguindo a luz.
Você vai envelhecendo, todo o predador chega a um ponto em que suas garras e presas já não estão tão afiadas. Sua pele traz alguns traços que outros dias lá não se encontravam. Cabelos brancos. Fios isolados que vão se acumulando se tornando ilhas na imensidão de ondas nos seus cachos. Ouviu muitas coisas nesses dias. Mais que outros. E antes nem imaginava como seriam os próximos anos, mais cruéis, áridos e engraçados, naqueles anos onde ficava encarando a televisão, sua amiga, a babá eletrônica, apresentando uma loira saltitante de fio dental falando com um chiado impertinente forçado mexendo com as suas fantasias. Passou por isso. Em alguma fase. Você ergue a cabeça no meio da multidão.
Os sorrisos coroam a diversidade de pessoas que o rodeiam cada um com um futuro diferente. Se sente não como um peixe fora do aquário, mas como o peixe que está dentro de um aquário cheio de óleo. Não sabe onde está, o bar fruto desse entojado cenário gira como um carrossel. Ele levanta-se quase sem ser notado e se dirige até o fundo indo direto aos banheiros, passando pelo balcão com as pessoas que ali se esbarravam tentando conseguir algo para beber, comer e afins. Nas paredes quadros que retratavam cenas cronologicamente expostas os anos passados. Sentiu olhares grudados a sua nuca. E percebeu o movimento de outras pessoas que iam atrás, na mesma direção. Viu pessoas com capuzes, roupas escuras e disformes rostos, imagens dissolvendo-se. Apressou o passo nem sabendo bem o porque. Entrou no banheiro e antes de fechar a porta, um braço interveio e forçou sua entrada. O pânico e a surpresa o fizeram segurar a porta evitando que o resto do corpo entrasse. O braço agitava-se esmurrando o ar e, de repente, segurou seu pescoço, forçando-o junto à porta. Conseguiu se desvencilhar do agressor e colocou suas costas na parede em frente à porta e com as pernas empurrou com toda a força possível até o braço desistir.
Dentro daquele recinto, esbaforido, de joelhos e cabeça baixa pensou dizendo em voz baixa. “O que é isso, meu Deus?!” Colocou as mãos no rosto. E ouviu que atrás dele, num dos boxes do sanitário, uma voz cantarolava uma música popular e logo depois o longo ruído da descarga sendo acionada. Surgiu um homem de cabelos grisalhos, barba aparada, de terno cinza, ajeitando a fivela do cinto e indo devagar até a pia diante de um enorme espelho. Ele o encarou no chão. “Levante-se.” O homem ajoelhado ergueu-se e se deparou com o outro que era circundado pela luz acima da sua cabeça. “Deus?!” O homem de terno, secou as mãos, passou uma delas pelos cabelos arrumando o penteado sem dar maior atenção. Sorriu, “Deus?!” Caminhou até a porta de saída e antes de trespassá-la, olhou novamente para o homem ajoelhado. “É o seu inferno. Não envolva ninguém nisso.” E saiu. As imagens, ruídos e luzes correram ao seu redor até, que finalmente, tudo parou. Ele estava descendo do carrossel.
Alguns minutos depois o homem que outrora se encontrava curvado no chão do banheiro, saiu sorridente, com o rosto molhado. Chegou na mesa dos convivas e foi descobrindo os rostos de todos que ali estavam. E no meio de tantos viu o olhar fixo da sua paz, do seu lugar numa única pessoa, uma mulher de olhos brilhantes que o fazia sonhar. O deixando seguro. Ele respirou fundo e disse para ela, entre sorrisos: SEJA BEM VINDA

Tuesday, June 23, 2009

O Triângulo do Sol


Com o triângulo da marca do Sol ilustrando sua pele, ela reinou soberana sobre a cama. A sua nudez aumentava o teatro de situações que ele, em pé, sem camisa, observava como um diretor de cena perfeccionista. Vendo cada detalhe daquela cena com maestria e volúpia.
Ela com a pele morena, bronzeada ainda pelos últimos dias do verão passado, se mexia achando a melhor posição para relaxar. Contraiu a sua perna esquerda como se estivesse escalando uma parede, suas mãos agarraram o colchão, de olhos fechados e a boca entreaberta, esboçou um leve som, um sussurro balbuciado. Seus cabelos jogados no seu rosto, espalhados ao redor do travesseiro, seus pés se movimentavam lentamente num acompanhamento musical, passos de dança junto com a sua pélvis insinuante.
Ainda em pé, ele, de braços cruzados, caminhava de um lado para outro como um felino que encurrala sua presa esperando o momento propício para seu ataque. E maneia a cabeça, curvando-se ao dobrar os joelhos, aproximando-se da cama e as suas mãos, nesse momento, correm pelas costas nuas da mulher que reage com um leve sorriso e ajeita-se com o toque dele. Mexe a cabeça para trás, contorcendo-se, girando o corpo e sem abrir os olhos, estende os braços prestes a recebê-lo. Assim o faz.
Ele abre os olhos com o calor ainda corando seu rosto e o suor passando por sua pele. Os caminhos do suor vão para todos os lugares do seu corpo nu. Seu corpo exala o cheiro forte que seu desejo ainda não realizado, promove. Ele afasta as cobertas, jogando para longe os lençóis, esticando as pernas e os braços acompanhado um longo bocejo. Está sozinho. Percebe a solidão do quarto e o vazio de tantas saudades. Vontade e o desejo são lembranças das muitas noites sobre o mesmo sonho. Sonho que é cada vez mais real. Passa as mãos na cabeça esfregando com força no cabelo alto pelo sono agitado. O coração ainda não perdeu o pique. Ele senta-se na cama e o seu corpo acorda junto. Levanta-se firmando os pés no chão frio, caminha até a porta, pega na passada a toalha sobre a cadeira da escrivaninha dirigindo-se para o banheiro. Transita pelo passadiço até o banheiro. Liga o chuveiro no máximo do quente imaginário. Antes de ingressar no box se vê no espelho. E pergunta para a imagem: “Onde está você?” Com o desejo a pino indo devagar ao seu estado normal, ele entra na cachoeira artificializada do chuveiro e banha-se. Sacode a cabeça tentando tirar não só dos pensamentos, mas sossegar seu desejo do sonho.
Saiu do banho, com o corpo molhado, de cabeça baixa e o desejo de novo em alto e bom tom. Não tinha nada para fazer e ficou nu enrolado na toalha molhada olhando para a janela aberta e com o Sol invadindo o ambiente, esquentando-o. Fechou os olhos. Sentiu o toque de uma mão passando pelo seu rosto. Sabia quem era, o perfume, a maciez da pele, a sensação que causava, a respiração perto do rosto, a língua lambendo suavemente os lóbulos da orelha, pequenas mordidas no pescoço fazendo-o ceder mais espaço para ela abocanhar cada vez mais, sentiu a mão pousando no seu peito e o peso do cabelo dela; ele sabia que era dela, caindo sobre o seu corpo; ele apenas a olhou e a seu caminho de carinhos e carícias. Aos poucos, devagar, ela o desenrolou da toalha... E admirava os traços do corpo daquela mulher, as costas mexendo sua musculatura, os braços, as mãos, as pernas, seu cóccix, o triângulo, seu sexo apresentando-se. Ele fechou os olhos com um sorriso largo.
Mais uma vez ele acordou em sua cama. A toalha na escrivaninha, as cobertas por cima dele, o suor intenso. Ele não acreditou em mais um sonho. Repetindo-se. Porém não estava com o desejo exposto. Permanecia relaxado. Ouviu um ruído vindo do banheiro, levantou-se num salto, correndo até a porta do banheiro, abrindo com cautela. O chuveiro ligado, o vapor da água quente como uma muralha a sua frente, ele, abriu a porta do Box, receoso. Ao se deparar com um sorriso que o chamava para um mergulho na cachoeira dos seus sonhos seguindo o triângulo criado pelo Sol.

Sunday, June 14, 2009

Grito no Vácuo


Grite! Grite! Apenas grite...Até perder as forças.

Faça as pazes consigo mesmo. Ou compre a maior das guerras. Peça perdão pelo mal feito a si. Rogue entre os dentes e vocifere. Arranhe as paredes que pressionam você. Sufocam o ambiente. Vamos! Grite! Mais uma vez. Desarrume os cabelos. Rasgue suas roupas. Puxe as suas pálpebras mostrando os olhos com suas veias avermelhadas. Lacrimeje. Resmungue.

Estique as pernas provocando estalos e coloque força para dar um pontapé nas paredes que lhe cercam. Sinta a dor correr por seus músculos tesos. Seus braços agitam-se a ponto dos ossos começarem a se deslocar como geleiras descongelando. Pense em algo para dizer.

Pare de se lamentar; não desista. Diga, então. Grite. Tente.

Grite para alguém que pode lhe ouvir.

Procure as chaves das portas de entrada e de saída. Esteja pronto para usar as máscaras de oxigênio enquanto essa turbulência não passar. Grite de pavor. Grite de tesão. Grite com raiva. Grite! Você não entende as intenções do seu interlocutor. Você é uma pessoa ignorante.

Não sabe como começou essa conversa e nem tem a idéia de como finalizá-la. Você só tem a vontade de gritar até as veias da sua garganta dilatar. Sentir o ar sumir de seus pulmões e a escuridão se apossar diante de você num desmaio longo. E de repente, caído no chão, com as mãos no peito e as pernas cruzadas, você acorda. Ofegante. E o embolo de ar sai da sua garganta como um grito. Sua válvula de escapatória. E você grita mais uma vez.

O coração em todas as rotações. Descompassado.
Você vai continuar gritando. Mesmo sem esperança, pois seu interlocutor não o ouve.

Parece que não há uma abertura de ar aqui.
No vácuo o som não se propaga.

Monday, June 08, 2009

Somos um só...Duas partes de um só


Temos o lado bom e o lado ruim enlaçados; com as pernas trançadas. Salivamos na mesma boca que beijamos. A mordemos. A queremos. A evitamos.
Corremos como baratas assustadas pela luz, frágeis, asquerosas, sobreviventes. Cada metade procurando preencher os espaços da outra parte com seus defeitos, acentuando erros, grifando omissões, salientando falhas, num blecaute total.
Vivemos com a intenção de encontrar o par perfeito que não existe. Que a sua metade não precise ser lembrada do que você quer. Todos os dias em todos os momentos. Queremos mais e mais dos relacionamentos que criamos, recriando o espécime ao seu lado que tem halitose, flatulência, raciocínio mais lento, que não é tão polido, que não percebe quando se torna desagradável, que faz piadas jocosas, que observa coisas e detalhes de mais, que alimenta neuroses. E você se vê o oposto de tudo isso! Não entende como pormenores podem ser geradores de cataclismos. E nem por maiores em agentes camicases, unabombers prontos para detonar o seu esconderijo secreto. O seu modus vivendis é alterado sem que você perceba e quando lhe é cobrado uma postura diferente se rebela aos quatro ventos vindos do mesmo lugar onde reinava uma ilha paradisíaca. É mais que uma lenda urbana.
Vários fatores levam a tormenta que se manifesta no horizonte. A cada relâmpago você percebe que a convivência com sua dupla de criação é uma arte que oscila entre tendências e estilos: um art noveau rebuscado, um bauhaus funcional, um expressionismo impactante, um cubismo performático, um dadaísmo sem sentido direto, um De Stijl simétrico, um surrealismo enigmático, um art pop consumista, um kitsch exagerado, que aos poucos vai se deixando, na exposição dessa galeria construída às pressas com suas telas e designs, de lado para chegarmos na outra ponta da ilha que já sente os primeiros pingos da chuva forte acompanhados de um vento que uiva como um lobo, arrastando casas, derrubando gigantescas árvores e que resultam na arte da guerra, no combate, no ultimate fight, na sobrevivência dos dois nessa ilha.
Chegamos ao manual nada prático de sobrevivência pulando capítulos importantes. Mas nos apegamos em alguns pontos cruciais onde sublinhamos a caneta. E num deles temos um espelho que nos divide em imagens para que possamos nos ver com os olhos bem arregalados todos as nossas duplicidades que se multiplicam sempre em dois. Quando estamos juntos da outra metade, temos quatro vezes mais imagens sendo postas no espelho. Fazemos tudo isso para juntarmos todas as imagens num só. Que as duas metades sejam o corpo único que queremos num relacionamento. Perdemos a noção dos pronomes “meu, teu” para ficarmos apenas com “nosso”. E no último capítulo desse manual ilustramos que nessa arte podemos perder grandes batalhas, derrotas homéricas, mas também podemos chegar ao topo do pódio e erguer o troféu com todos os louros que a felicidade teima em esconder.
E no momento mais propício fadado ao fracasso, você percebe, numa manhã gelada de inverno caminhando na rua ao som do trânsito intenso, com o Sol esquentando seu rosto, esboçando um sorriso tolo concluindo que vale a pena passar por isso todos os dias mais tempo que puder. Encontrando cada vez mais a sua metade.

Wednesday, May 06, 2009

Crônicas de Bate-Papo – Mais Uma História Por Aí


Em tantas histórias que todos os dias temos diante de nós, que as vivenciamos, mais uma que podemos nos identificar. Sem código de barras nem tradutores simultâneos. Descobrimos com o tempo, na sua relatividade preguiçosa ou na nossa ansiedade histérica, que dividimos espaços com outros convivas. Surpresa! Você não é uma ilha e se fosse estaria cheia de turistas e nativos usufruindo suas riquezas naturais. Encare os fatos, somos seres fraternos. Mesmo em nossas rusgas, encontramos algo tão raro e precioso: amizade. Entre tantos particulares de cada um – veja isso numa redundância proposital – desdobram dos mais estranhos aos mais simplórios, temos como uma pequena tropa armada resguardando nossas fronteiras pessoais. E nessa troca mútua, estamos presentes para sermos o primeiro atacante do time ou o último defensor da meta final. E somam-se personagens. Alguém os colocam nas nossas histórias.
Como exemplos totalmente atípicos, apresentam-se os amigos diversos. No arquivo pessoal surge o Dj Samurai, rei dos pratos, ensinando o que é minimal, vinis, acetato, plásticos, mp3 a rodo vindo dos confins do Oriente, hoje cidadão do (sub)mundo caminhando do alto das coberturas até o subsolo sem perder o corrosivo humor, diplomaticamente, irônico atrás de crescimento pessoal, profissional e uma boa dose do que vier. A espontaneidade é o segredo que ele faz questão de dar como uma benção aos que ele aceita no seu círculo nada restrito.
A lista continua, puxa-se pela memória O gigante com coração enorme que pesa pela sua sensibilidade. Musicista amador e estudioso, mas pouco praticante; engenheiro profissional responsável pela segurança no trabalho alheio, tendo um alvo no peito por causa dos erros de um qualquer. Todo mundo erra. Tem um “bunker” com todos os discos do mundo, onde nem a sua banda preferida, escolha uma qualquer, ele terá, independente do formato, e os integrantes dela nem saberão que existe. Já foi alvejado pela vida, apedrejado, mas teve a consciência de mirar o horizonte, sacudir a poeira e ainda sorrir como um bandoleiro. Daqueles que povoavam os nostálgicos filmes de “cowboy” que John Wayne protagonizava. Isso! Ele lembra o próprio.
Vamos seguir a busca. Há O professor ensinando o novo mundo para os seus pequenos. Sua herança maior. Seu orgulho. E também aos seus alunos, bacharéis, com seriedade e nas mesas dos jantares menos formais, numa mistura entre adultos-crianças, ele é o abre-alas das piadas em cima do primeiro a despertar atenção. O futuro dirigente do clube do povo.
Há o quase jogador cômico de mãos pequenas como um dinossauro( ouça T-REX, Marc Bolan se puder) e seu companheiro o mais pop britânico brazuca enfrentando os crimes de sexo numa caça ininterrupta atrás de todas as mulheres do mundo, se possível numa conquista barata sem perder o bom humor mesmo diante de uma catástrofe.
Passemos para uma nova pasta de arquivos, os irmãos, The Blues Brothers, ogros, obesos, beberrões, como se Asterix e Obelix, com sua aldeia de gauleses irredutíveis, os levassem para enfrentar o exército romano de César e com a mesa farta cheia de Javalis recheados e tonéis de cerveja, ouvem os bardos desafinados que os cercam nos banquetes dos finais de semana num pagode na contramão. Irmãos que a vida arranjou.
E de tantas amizades também encontrei o amor como união entre duas pessoas. Com nome, identidade, foto, vestido, corpo e uma coleção de sapatos surpreendente assim como seu gênio. Foram anos para que se visse a luz no meio de uma multidão indo e vindo. De colegas de faculdade para a faculdade de cada um na vida. Numa corrida maluca. De um lado, Penélope Charmosa, de outro um Peter (nada) Perfeito. E como uma fotonovela, os protagonistas se tornaram amigos e de amigos passados formaram um casal, descobrindo que eram não dois, mas uma dupla de criação de casos, amores e de novas histórias que fazem juntos. Amigos, irmãos, namorados, amantes, como homem, como mulher, como um amor. E para tantas outras histórias que vier.

Sunday, May 03, 2009

Na Incerteza da Certeza


(segunda parte de A certeza na Incerteza)


E continuo sabendo menos que eu poderia fazer. Que por tudo que se passou, você ainda é o meu assunto preferido se renovando dia a dia, minuto a minuto mesmo com a distância que você faz questão de frisar ou dos problemas que eu consiga, incrivelmente, criar.
Mesmo assim vou apostando cada ficha minha, uma sobre a outra, com apostas cada vez maiores para ganhar a próxima rodada. Você é meu grande prêmio. Sei que a única certeza que tenho é que nada é certo. E que os meus erros serão menos bizarros com o passar dos tempos. Permaneço sim com a certeza do que sinto, que a levo comigo ao fundo do oceano como um peso amarrado numa corda envolta do meu pescoço. Ainda tenho no meu vocabulário todos os apelidos que dei para você escolhidos em momentos onde estávamos nus além do físico. As cores que jogo nas paredes, nos muros, nas persianas das casas, nas telas vazias ainda não conseguiram preencher todos os desenhos em que você aparece como uma musa. Pode parecer engraçado, cômico. Patético. Tudo que eu faço. Mas tenho nas mãos essa paleta de cores prontas. E os dias passam sem que eu permita, transformando o futuro que nos aguarda num marionete rebolando em cada esquina. Mas o certo é que se o presente que nos uniu está deixando-nos para trás, passemos com uma velocidade absurda a sua frente e cruzaremos a linha final desta competição. Descobriremos muito mais sobre nós do que já sabemos. Nesta incerteza da certeza que te amo. Mais uma declaração a mais...

Sunday, April 19, 2009

DELUXE


Na cama com o rosto enfiado no travesseiro ela pergunta suavemente com a voz quase saindo como um sussurro: - Qual é a sua maior fantasia? Ele, sentado nu, sobre as pernas, pensa com os olhos voltados para cima e com as duas mãos apertando ao mesmo tempo o corpo a sua frente. Ela, enrolada nos lençóis úmidos, de olhos fechados, respirando dentro do travesseiro, aguarda com atenção, esperando por tudo, querendo conhecer seu companheiro, desvendando suas camadas de intenções atrás do seu rosto. O silêncio dele a faz abrir os olhos como que se pressentisse alguma notícia ruim e a fez virar-se devagar.
Ambos se olharam. O silêncio, agora, presente intermediando o embate. Ela desnudou seus seios e sentou-se bem na frente dele, enquanto os olhos que pairavam no teto chegaram a piscar uma dezena de vezes. – Ei, qual sua resposta?! Trazendo-o de novo para o cenário. O sorriso dele aumentou de proporção e sua fisionomia tornou-se uma mistura de ironia maléfica. Maquiavel. Passou a mão no queixo e a olhou bem nos olhos. – Todas as que eu puder realizar com você. Ela o abraçou e colocou sua cabeça no seu peito. Quis acreditar. Ele continuava com seu sorriso e o pensamento longe. Ele a beijou. E a sua retribuição pairou sobre vários beijos recíprocos que saíram da união dos seus lábios para as carícias pelo pescoço, dorso, barriga, ventre, coxas, braços, costas, nádegas, sexo. E ali ficou até ele a penetrar num mix de fúria, tesão e carinho.
Depois do gozo quase ao mesmo tempo, ela olhou para ele. Dessa vez o pensamento disperso tinha invertido os papéis. Ela estava léguas dali. Pensava em linhas de raciocínio confusas. Nós somos feitos por frases completas mas em linhas distintas e separados por parágrafos. Somos a própria sombra no mesmo ângulo, mas com o ponto de Luz refletido no lado contrário.Estamos no mesmo caminho só que em ritmos diferentes, uns mais lentos outros parados por completo. Indagava a si mesmo numa ridícula e descabida análise. Enquanto seu sexo ainda sentia o gozo do parceiro sair suavemente do seu corpo. Ela tinha outra pessoa na cabeça quando fechava seus olhos. Uma pessoa que estava em outro lugar, em outra parte da sua vida. Alguém que ela nem sabe bem o porque que estava poluindo aquele momento. Não era pelo sexo, nem pela atração. Era um sentimento, mas diferente de amor ou qualquer outro que pudesse tirá-la dali e correr para seus braços.Talvez pelo que ela pensou. Em caras metades. Em segundas partes. Em algo mais. Outras oportunidades.
Ele a admirava como um observador astuto. Um estudioso. No seu pulso esquerdo o relógio regrava. Ela com o ar etéreo de olhos fechados. Ele a abraçou, enquanto ela se aninhava no seu colo. Pensava. No sorriso se esconde a armadilha mais cínica que se teme em acreditar. São palavras ditas com a facilidade de quem quer ouvir o contrário. A falsa intenção de estar junto por uma obrigação ininterrupta. Uma idiotice criada no labirinto do seu cérebro masculino temeroso. Seu pênis já diminuto pendia perto do rosto da mulher como um candelabro ou uma fruta ressecada. Ele fazia carinhos nos cabelos dela e seu peito acelerava um coração intranqüilo. Ao abrir os olhos ela o abocanhou com ternura. Hipnotizando-o. Medusa.
Dormiram abraçados, encaixados, respirando no mesmo ritmo. Eles estavam cada vez mais próximos. Juntos. Seus pensamentos se perderam com suas roupas jogadas pelo quarto. A cama jazia os lençóis retorcidos ao redor deles. Ela sorriu quando sentiu o beijo na sua nuca. Ele abriu lentamente os olhos e sentiu um arrepio pelo corpo que também o fez sorrir. Ela não precisava sentir falta de mais nada, descobrira quem procurava e ele estava seguro no que queria.

Friday, April 10, 2009

O Rei Por Um Dia

Eu estou sentado diante do meu prédio, um prédio de seis andares, antigo construído no final dos anos 60 com os seus degraus de mármore da sua entrada e com os meus pés em cima da calçada desenhada a giz sobre o jogo de amarelinha que as crianças passaram toda tarde de ontem pulando de um lado para outro. Há o caminho do Céu até o inferno. Sinto um calor intenso se pronunciando.
Na minha frente a balburdia e correria da avenida interrompida por carros enviesados e caminhões de bombeiros atravessando os canteiros chamam minha atenção fazendo que eu gire devagar a cabeça. O calor aumenta as minhas costas. Esfrego as mãos e me viro com a nítida sensação de que uma mão pousara no meu ombro direito dando um forte puxão. Deparo agora com o prédio em chamas, labaredas altas que se intensificam estourando os vidros e correndo pela fiação elétrica dos lustres da portaria. Levanto as sobrancelhas, adrenalina correndo pelas veias e me acompanham no trepidar do fogo. A fumaça criou uma coroa ao redor do edifício. De imediato, levanto de onde estou e caminho de costas sem tirar os olhos das chamas que tentam me alcançar. Como se tivessem braços. Mas hoje eu sou um Rei. O rei por um dia. É uma reverência.
Com meio-sorriso no rosto, fico admirando extasiado diante de toda aquela magnitude. Uma expressão de poder. O prédio cedendo a favor do fogo. Os gritos vieram como sirenes abertas que são abafadas a cada estalada. Os vidros continuam rompendo o ar. Não há ninguém no prédio. Assim penso, desejo. Mas uma curiosidade se apossa. Volto alguns passos. Começo a respirar fundo, seguidas vezes. Seguro a respiração com o peito estufado. Curvo um pouco o corpo e entro correndo na portaria em chamas. Salto sobre a amarelinha. Do céu passo ao inferno e no segundo passo impulsiono outro por cima dos degraus. Os gritos de todos atrás de mim formam o coro uníssono, quando finalmente caio de joelhos no meio das labaredas; o ar preso nos pulmões absorve toda a fumaça. Começo a tossir.
Meu reino desabando. Desmoronando logo ao meu lado. Diante dos olhos. O fogo lambendo as paredes com tamanha volúpia. No teto a fiação elétrica continua frenética como uma serpente se contorcendo pronta para o bote. Eu coloquei as mãos na cabeça tentando me proteger. Com as mãos protegendo o rosto corri para frente, onde há umas escadas em forma de caracol, direto ao corrimão que já estava totalmente destruído, porém me sentia obrigado em subir até os andares de cima. Aos pulos consegui enfrentar o fogo que se intensificara. Quando cheguei no topo da escadaria olhei para baixo e vi uma cena cinematográfica. Tudo foi consumido pelas chamas como se uma enorme boca engolisse o que pudesse.
Eu, em pé, parado não tendo mais como prosseguir. Nos últimos degraus da escada, me sento. Aguardo pelo inevitável ou um milagre. A horda em pânico do lado de fora, esbraveja, suplica por minha saída. Cercado pelo ardor. Abraçado. A respiração torna-se mais difícil. Não tenho saliva na boca. Procuro puxar do fundo dos pulmões oxigênio e quase desfaleço com a repetição desse ato. O rei está nu. Impotente. Continuo sentado esperando pelo que vier. E espero que não demore muito. Meu reinado é só por um dia.
É o começo de mais um dia a espreita.

Saturday, March 14, 2009

Sorria! É Apenas Uma Piada


Hahahahahahahaha!
A vida é uma piada. Uma piada que levamos a sério. Uma piada mortal para alguns, outras um punhado de dias envolvidos nos meses subseqüentes resumindo os anos que comemoramos aniversário. Uma longa e nefasta rotina. Mas bem humorada.
Todo o dia há algo que acaba acontecendo para interromper momentaneamente com os seus planos de “conquistar” o mundo. O seu mundo que toma forma toda noite naquele quarto cheio de livros, desenhos, rascunhos que planeja meticulosamente de maneira mirabolante o seu futuro no incerto presente. Daquele jeito que você construiu como um terrorista extremista, um ditador facínora ou por seu cérebro privilegiado, com toda a falsa modéstia que você tem por si. Pelo menos assim o considera num auto-retrato otimista. O golpe fatal no que chamam de destino. Mas como toda seriedade convive com a sua metade de insanidade e acabamos nos vendo diante dos deslizes. Ir à contramão dos fatos sofrendo com as inabilidades do acaso.
Nas manhãs ofegantes que ao abrir os olhos você coloca um café preto fervendo na boca, mostra na loucura dessa rotina a nossa opacidade de não nos comprometermos. No que tantos nos fazem crer em surpresas. Espontaneidade. Aquela sensação boa.
De tardes inglórias de pura inércia. O sedentarismo sendo o mais cobiçado parceiro do jogo de cartas que nos colocam na mesa verde com o pano rasgado. A comodidade como um alimento congelado que você engole sem vontade, mas por instinto de estar vivo diante da nova tela de LCD, assiste com ávido sabor, o desenlace da novela. E não percebe que ele próprio faz parte de mais um capítulo desse folhetim que a vida foi escrita. Aliás (bem) mal redigida, rasurada, borrada sempre com frases com reticências, três pontinhos e uma letra ilegível.
Em noites de completa falta do que fazer, aonde ir e o que esperar de diferente. Mas sempre surge algo no fundo do túnel, nem que seja o trem vindo na direção contrária. A situação se complica quando saímos dos trilhos ou ficamos presos entre eles com aquela pressão do que virá. Aguardando o final da piada.
E temos os momentos em que todos tropeçamos no meio fio e ficamos com as pontas dos pés nos equilibrando fazendo os passos de “moonwalker” de Michael Jackson com a sua fisionomia. Damos pequenos risinhos dos outros achando eles mais engraçados e eles dão e darão risadas histéricas olhando para você. A vida lhe proporciona isso rir de si mesmo, levar em conta as decisões mais difíceis com as atitudes mais infantis.
A cada dia rimos, rimos mesmo e vamos continuar rindo descontroladamente, chorando de tanto rir, ter dor no maxilar, dores abdominais, contraindo o corpo, curvando-se em meio à turbulência. Estaremos lá atrás da cerca de arame farpado dos problemas para aplicar uma piada com o primeiro que resvalar no piso acidentado. A vida remonta cada parte dessa tragicomédia em que vivemos, só nos cabe criarmos os diálogos. Mas para quê? Vamos fundo nessa história. Um filme mudo. Uma comédia pastelão. É apenas a vida.

Sunday, March 08, 2009

Respirando


Quando as lágrimas têm um motivo trazem no seu gosto, o sabor de uma boca.
Se ela cair na sua, você dirá um nome.
Será como uma assinatura. E ela sumirá na sua saliva, enquanto seu nome se repetirá diante dos seus olhos tantas vezes essas lágrimas persistirem.
Essas lágrimas têm uma razão.
Você queria que elas sumissem, mas elas só se escondem dentro de você. Lágrimas essas que você briga por elas e mesmo assim faz de tudo para elas secarem no seu rosto. Dissiparem no ar.
Lágrimas que respiram. Que afogam os seus poros. Que inundam o seu sentimento. Sejam de tristeza mais profunda, densa, obscura e sem saída. Sejam complexas e divinas de alegrias. As primeiras sempre marcarão mais como se talhadas à mão no seu rosto.
Quando o dia acaba você respira fundo. Entra num certo transe, uma catarse do mundo ao seu redor com os fatos que ocorreram no dia todo. Valores perdem-se com o seu enfado. Saudade e esperança tornam-se constantes palavras do seu vocabulário. Você afrouxa o nó da garganta e abre muito mais que o botão que o sufocara. Uma sensação se apossa do seu corpo. Você pensa em todas as soluções, mas os problemas mais difíceis têm em sua mente caminhos longínquos.
Queria que fossem artificiais, programadas; que pudesse alterar seu sabor, adocicar sua boca. Mas não é. O gosto é único. O gosto é sabido. A saudade do infortúnio. A lembrança do desagravo. O conto mágico de fadas encerrando um final infeliz de príncipes moribundos e princesas perdidas; de reis sem tronos e rainhas sem coroas. Os duendes saltitantes ao seu lado cantam. As lágrimas tornam-se poções de longevidade. Nunca terminam. Nunca encerram seu ciclo.
E o sonho ainda perpetua criando mais chances para lhe mostrar que ainda há lágrimas. Respirando mais e mais a cada minuto...

Monday, February 23, 2009

A Cidade das Argolas Suspensas


Quando cheguei aqui parei diante do pórtico da cidade. Uma cidade arborizada já vista do lado de fora mostrando aos convivas uma oportunidade. Passado o pórtico logo acima podia observar argolas suspensas no ar, presas apenas no vazio. Eu dei meus primeiros passos temerosos fiquei bem embaixo das argolas e desci meus olhos começando ver o que estava ao meu redor. Um horizonte sendo preenchido por uma cidade em ebulição. Um imenso gramado desenhava ruas espiraladas com canteiros generosos, crianças corriam de um lado para outro obedecendo às sinalizações de “cuidado” a cada esquina. Os automóveis multicoloridos transitavam de maneira ordeira. Pessoas caminhavam de um lado para outro obedecendo o espaço físico entre os próximos. Cidade cheia de nomes comuns e seus homônimos assim como outros nomes que se completavam. Todos se tratando como conhecidos, uma cidade em polvorosa com ares de vilarejo. Organizada.
Não dei mais nenhum passo olhando tudo como uma enorme tela de cinema. Fiquei olhando tudo ao mesmo tempo causando um certo enjôo. Analisei as construções, os prédios pequenos não passando de quatro andares. Casas de madeira com infindáveis jardins que se fundiam com os dos vizinhos. Aquilo tudo dava uma impressão de tranqüilidade assustadora.
Pensei no que fazer e dei mais um passo; uma coisa mais estranha aconteceu. Tudo parou até o avião que sobrevoava a cidade. Não se ouvia nada. Percebi que havia pequenos animais, roedores nas árvores que circundavam a cidade. Todos os rostos me encaravam. Negros, brancos, orientais, índios, todas as partes do mundo diante de mim. Nesse silêncio foi se quebrando com o som do meu coração forte e acelerando cada vez mais. Um homem gordo calvo com um imenso bigode grisalho, de terno cinza, com sua protuberante barriga se aproximou. Ele não abriu a boca apenas apontou para cima sem levantar a cabeça. Eu ergui os olhos e revi as argolas. Não entendi. Abaixei os olhos e percebi que ele calçava um par de meias de cor branca sem sapatos. Corri o olhar para o resto das pessoas e cada uma tinha uma característica sui generis, por assim dizer. Algumas mulheres estavam com vestidos longos, saltos altos, outras com micro vestidos, mesmo envelhecidas e com a silhueta bem avantajada beirando a obesidade ficavam bem em suas roupas, outras preferiram a nudez total. Homens sem sapatos, de tênis, sem camisa, de camisetas cavadas, e também assumindo a sua natureza. Entre vidros embaçados tinha a visão de corpos suados fazendo amor. Lindas mulheres de seios à mostra enlaçadas por gravatas que tapavam seus púbis, sorrindo diretamente pra mim. Fetiches por todos os lados sem maiores pudores. Carros esportivos, importados, motos, jet skis, todas as pessoas com o mesmo sorriso paralisados. Parecia que eu estava diante de uma enorme vitrine de uma megastore recheada de manequins estáticas. Olhando aquelas mulheres lindas como quem folheia uma revista fotogenicamente sexy. Um sonho diante dos olhos. O homem gordo insistiu apontando para o alto, em direção às argolas suspensas no nada. Eu, novamente, as olhei. Deram a sensação que elas estavam mais próximas de mim como se tivessem descido. Estiquei meus braços, me segurei numa delas e depois em outra. Estava suspenso do chão forçando os braços. Tirei os pés do chão. O homem fechou o rosto. Enrugou a testa. Fez um sinal de negativo e os sorrisos de todos atrás dele foram sumindo. Eu continuei suspenso. Várias pessoas começaram a se mover embaixo de mim e eu me sentia mais alto, inalcançável. As pessoas pulavam tentando agarrar meus pés. Eu já não entendia nada. Porque querem me segurar?
Continuei no ar segurando as argolas. Elas tinham um motivo para estar ali. Cada um com o seu livre arbítrio, com seus desejos, mantendo a organização. Eu estava fora daquilo. Para se ter os sonhos realizados, cada um deixava o que não queria nas argolas vazias. Suspensas. Deixando medos e receios na entrada da cidade. Eu só quero ir além. Fazer parte dos sonhos e criar novas realidades com meus medos podendo assim ir bem mais longe do que a passividade permite. Não tenha importância para onde eu for. É meu objetivo. Minha lascívia. Minha realização. Sem negar esse medo.

Tuesday, February 10, 2009

BRUTAL


A colisão de um carro a sessenta quilômetros por hora num poste consegue partir no meio o veículo, arremessando o carona à cerca de cinqüenta metros esfacelando-se no ar. O motorista, mesmo ferido com uma dezenas de ossos quebrados, semi-consciente, observa tudo antes de desmaiar. Brutal. Uma cena brutal.
Pode o amor estar numa colisão com zero sobreviventes? Amor brutal, por assim dizer. Agressivo. Aguerrido. Fulminante. Dramático. Traumático. Soberbo. E nada modesto. Brutal: O Amor em Colisão.
O exemplo chocante nada mais é do que uma forma de expressar o sentimento. Uma força maior emanada com toda a gana. Consideremos que alguém ama o outro com tanta vontade e mesmo assim deixa muitas falhas, erros primários interferirem no bem-estar das coisas. Pode ter certeza que o problema será eu, você, ela, ele qualquer um dos personagens que dividem conosco esse sentimento. Amor. Palavra que a poesia endeusou e que fez mundos serem destruídos; outros construídos. Lares desfeitos e muros erguidos. E nós continuamos acelerando o nosso porsche.
Quando errei, o fiz sem pensar. Boa desculpa, diria qualquer um, mas o erro acontece pelo vacilo da insegurança. Sua própria. Se pudesse voltaria no tempo e deixaria frases de efeito de lado, guardadas no criado-mudo. Faria dos meus atos corretos redes de proteção para que eu não saltasse dos prédios dando o primeiro passo pra frente. E você erra também. Não há como negar. Esconder-se atrás da cortina. Uma palavra mal construída pode destroçar a armadura de uma ocasião onde o silêncio seria melhor chance para tudo ficar bem. A réplica numa discussão pode só completar o desastre. E as verdades saem pelas suas dobraduras, causando toda a dor aos dois num embate desafortunado, restando daí apenas cinzas de uma relação.
Espero a cada dia, noites em claro, que os meus acertos sejam mais fortes, mais marcantes e que fiquem para a posteridade. Cartazes colados nos lugares que passei. Sejam meus créditos nessa mesa de dados rolando. Não quer dizer que o amor é um jogo, mas ele faz as regras como sendo. E a relação dois a dois acaba sempre se tornando uma ameaça iminente. Você vai errar. Eu devo estar cego pois não vejo que erro cada vez mais. E você deve já estar surda de ouvir tantas desculpas, mesmo que a verdade se apresente com os olhos brilhantes na sua frente.
A brutalidade do amor não se baseia no simples ato dos erros, mas do choque entre mundos que os envolvidos estão. Gladiadores com armas erguidas protegidos apenas por esse sentimento. Nossa única proteção. Danem-se as redes lá fora.
Enquanto isso tudo acontece trancaremos nossos monstros insinuantes. E motivados pelo cheiro da gasolina, entraremos em nossos veículos procurando um muro para sobrevivermos à mais um amor. Faça a sua tentativa.

Saturday, January 24, 2009

Até um Pé na Bunda Faz Você Ir para Frente!


“Até um pé na bunda faz você ir para frente!” Isso foi dito por um amigo num dos momentos mais infelizes que lhe foi apresentado pela vida. E o mais incrível disso foi o primeiro passo para ele ser feliz. O sujeito mostrou o que é ser homem de verdade e se ergueu no mesmo golpe, quando recebeu o soco e encolheu o corpo, nem tomou fôlego, não teve esse capricho, ficou ereto e em vez de devolver o golpe, trouxe para si não a resignação, mas o crescimento pessoal ficando maior do que é, um gigante, com os braços abertos aguardando um novo amor; o que a vida tinha lhe guardado. Certo que tinha suas muletas incrustadas nos pileques melancólicos que embaçavam sua visão do mundo, mas nem na raiva mais plena, ele se subjugou além do que seu limite permitiu. Não ficou contando garrafas para refazer o jogo de dominó que ele se encontrava. Não caiu. Balançou sua peça. Sentiu. Mas com todas as cicatrizes ainda sangrando, ele foi ao encalço de mais um passo para frente.
Todos nós temos medo de dar nossos passos. Isso já foi repetido e ecoado por ai. Eu mesmo já escrevi isso. Medo de que esse simples movimento possa alterar o ciclo normal das coisas e tudo escorrer pela encosta do mundo. Vivemos com uma faca no pescoço a cada dia que fizemos algo errado; sempre haverá algo que vamos fazer errado. E mesmo se o errado tornar-se certo, não temos como evitar? Claro que sim, óbvio. Tudo depende do que a vida vai lhe proporcionar. A oportunidade faz a ocasião. Lá você se depara com a letra A, B ou C e só tem direito naquele momento, de escolher uma delas. E você não pode sair dessa prova com ela em branco. Não existe a alternativa nenhuma das acima. Mesmo que você premedite o ato, o fato pode mudar. E ficamos no impasse do que é errado ou do que é certo. Errado para você pode ser certo para o outro e vice e versa. Mas cerne da questão é como você vai conseguir superar tudo isso. Passar por cima das ruínas que surgiram. No meio de prédios abandonados e casas destruídas, ainda pode se encontrar flores crescendo, insetos proliferando, pequenos animais se alimentando, vida em estado bruto. Viver mesmo que seu peito arda com a respiração, que não consiga dormir. Você pode clamar que preveria morrer por sentir-se oco. Mas daí chega alguém bem ao seu lado, e com um perfume perpetuando ao seu redor, diz que você ainda está vivo. Isso serve como um tapa que o acorda, faz recolocar-se nos eixos. Sejam homens, mulheres, todos nós estamos sendo testados nessa prova cotidiana. Relacionarmos com a nossa própria vida e a de outros. É só esticar as pernas, flexionar os joelhos, pressionar os pés, andar.
Não podemos ficar parados, chorando por nossa falta de sorte, se assim considera os revezes da vida. Você pode pensar que a sua vida está sendo conspirada contra por agentes encapuzados de uma nova ordem mundial que tem como objetivo supremo arrasar você. Isso seria mais aceitável do que ver que estamos cercados por pessoas diferentes que pensam, agem, que têm metas e desejos além dos seus. Que podem ser iguais aos seus também. Tudo dependerá do passo seguinte a ser tomado. Quando os seus dois pés irem de encontro com o alheio. Onde todas as suas mudanças irão acompanhar você por assim dizer.
Dar um passo, o menor que seja, cai na segunda parte da prova que você está fazendo. É uma página inteira sobre a questão. O cabeçalho já assusta pelo conteúdo e você fica lendo, relendo, tentando raciocinar a melhor resposta. Dessa vez não há escolhas múltiplas, mas linhas livres para você discernir sobre o que irá fazer. Você conta as linhas, imaginando por onde começar. Usa a folha de rascunhos e escreve sem parar. E depois de alguns minutos, revisa alterando as partes em excesso. Pronto, você é avisado que não tem mais tempo, tem que colocar tudo aquilo definitivamente. E se põe a escrever com todas as tintas. Acaba por transcrevê-la. A sua vida. Levanta-se da mesa e caminha. Sai da sala onde prestara a prova, ainda inseguro, ainda pensativo, mas a cada centímetro abaixo de seus pés, mesmo que você tenha que parar em algum momento, você continuará dando um passo à frente, não permanecendo mais no mesmo lugar. Ainda de mãos dadas com a vida seja com quem for. E para qualquer lugar. Ansioso pelo segundo passo.

Sunday, January 11, 2009

Desatando NÓS


Mais uma vez fiquei lembrando. Lembrando do que passou, do que poderia passar, como se revisse uma coleção de fotos, cada uma expondo um momento, expondo a mim, expondo você. Já fiz uma declaração simples justificando a certeza na incerteza e revivendo todos os instantes. Você sabe bem, sente bem.
Quando coloca uma música que mesmo de olhos bem abertos ouvindo-a, você recria cenas que vão surgindo diante de uma tela invisível. Acabam sendo cenas de um filme que passou ou que ainda espera uma estréia oficial. E você gostou e quer ver de novo. Se torna seu maior crítico. Mas mesmo assim teme. A música, as cenas, a lembrança. Tem medo de que possa dar errado. De que passou mesmo e tudo não passa de uma saudade. De uma falta só para preencher o ego. A razão diz isso. E a emoção catapulta você para longe já dentro da tela. A música aumenta e você respira o cenário.
Está com o coração acelerado e sem nenhum roteiro. Pode achar que sabe todas as falas, mas as marcas do texto foram sendo apagadas. Você lembra como começou e ainda assim nem sabe bem como. E nem tem idéia como tudo aconteceu. Revive. Amargura alguns pontos. Sorri em outros tantos. Se arrepende; não o faz com freqüência. Acha que tudo foi montado sobre um terreno arenoso, sem base, e aconteceu tudo isso, tudo. Ouve a música mais alta, mais intensa, mais forte. Mas o que poderíamos fazer a não ser seguir em frente. Desatando nós nas situações mais obscuras. O roteiro é novo. Talvez os personagens sejam os mesmos. Talvez ainda retorne com a produção cinematográfica escondida num estúdio dentro de você. Podemos fazer aulas de sapateado. Melhorar o condicionamento físico. Viajar. E ainda teremos na cabeça o nosso filme. Dividiríamos os créditos cada um dirigindo a sua parte e atuando sobre o improviso do que vier. Uma surpresa ainda a ser esperada. A ser superada. Tudo pode ser diferente, mas no tom da música certa que só nós conhecemos. Ou um de nós. Nesse momento estou assobiando a melodia tema. Espero que você escute. Se apenas você me ouvisse...Como refrão.

Sunday, January 04, 2009

O Sonhador com Pés de Concreto


A cidade está cheia de cicatrizes avenidas, ruas, becos, vielas e varizes. Alguém já se aventurou em perambular por aí?! Eu sou um abutre. O abutre de novo batendo suas asas de olho na cidade. Mas realmente sou apenas um contador de histórias que quer ser mais “outsider” do que gosta de descrever. E daí?! Ninguém vai querer saber o universo em torno do umbigo do redator. Tenho meu poder. Sou poderoso. Übber. Super. Ultra. Mega. Já fiz meu ritual de acordar, dormir, dormir, acordar. É hora de acordar e alçar vôo. As asas surgem na minha cabeça e aceleram. Mas elas estão fora da minha mente. As sinto nas minhas costas e também não as vejo. Invisíveis aos olhos de todos. Tiro a camisa. Empurro os móveis da sala. Dou dois passos diante da janela aberta e me jogo no parapeito indo direto em queda livre. Respiro fundo com a adrenalina se agarrando a minha pele. Conto um, dois, três, quatro e cinco, ainda não estou voando. Sim, pânico! O chão é o destino mais certo. A velocidade faz soar uma nota arrastada no ar como um longo riff de guitarra. Pessoas continuam em suas mesas jantando, vendo televisão, aguardando o novo capítulo da novela, bebendo cerveja, fazendo amor, fazendo sexo. A noite apresenta a escuridão reprimida timidamente por uma lua distante, sem nenhuma nuvem como testemunha. Na calçada as pessoas andam em seus ritmos particulares. Estou sobre as cabeças das pessoas mau-humoradas por estarem indo para seus trabalhos e compromissos, colégios, cursos, o que for. Eu sou aquele abutre desengonçado ou do coiote todo atrapalhado dos desenhos animados que vai cair de cara no piso. Nesse momento assim me sinto. Perdi minha pose, minha compostura, queria estar afogado na minha cama e num copo de Tequila, Absinto desvairando sobre a capacidade dos meus poderes. Lembro da cara do coiote sofrendo quando perde o rumo e apenas acena ao espectador. O que fazer, o que fazer? Vou fechar os olhos, contar de novo até cinco. Regra da queda livre nunca conte mais de uma vez. Mas faço mesmo assim. Uma lufada de vento quebra a melodia da queda. A barriga congela. O frame do vídeo. O ar. O tempo.
Abro os olhos e estou parado no ar. Ouço um som estranho, mas repetitivo, como fossem palmas. Tento me ambientar, ver onde estou, o que está acontecendo. E me vejo suspenso no ar. Pairando sobre aquelas cabeças outrora preocupadas. Estou descalço e sem camisa, com os braços se agitando e não estou caindo. Não sou mais o coiote, ele já passou por mim acenando abraçado ao pára-quedas.
Eu voltei a ser o abutre, não mais o tolo que cai nas ciladas e peripécias do adversário. Sinto a força do meu corpo planando e olho para cima querendo a noite, mas deparo-me com asas ao meu redor se movimentando. Eu estou voando. Tenho asas! Tenho poderes! Sou acima de todos os homens, grandíloquo.
Dou um rasante sobre os carros no trânsito intenso. Passo ao lado de casais que se beijam nas esquinas e puxo os cabelos das mulheres. Passa pela minha cabeça boliná-las, mas sou maior que isso. O máximo que faço é sussurrar com minha velocidade em seus ouvidos que são desejáveis. Pouso no chão com pés firmes. Olho todos e eles não me percebem ainda. Porque sou mais veloz, estou um segundo a frente do tempo deles. Resolvi voar de novo. Para cima, sem parar, ultrapassando o limite do prédio de 20 andares. E dou um looping. Brinco com o ar. A noite agora está mais clara com a lua já risonha. Minha única aliada, minha confidente que me divide com tantos outros rostos. Faço a mesma manobra uma, duas, três, quatro, cinco vezes. Não canso. Meu coração está duzentos batimentos cardíacos por segundo, o infarto é quase iminente. Endorfina, adrenalina fazem parte desse coquetel que me embebo. Asas. Tenho asas. Você acredita no meu poder agora?!
De repente, fico de novo planando. Parado. E uma tristeza se apodera de mim. Minhas asas perdem forças. Começo a descer. Suavemente. Um vazio dolorido dentro de mim. Eu sei...
Quem poderia me fazer voar, me deixar acima de todos, ser o meu talismã, meu quartel general, e ao mesmo tempo ser minha Kriptonita, meu algoz. A única pessoa que amo.
Estou no chão de costas. Minhas asas sumiram, não as sinto, não as vejo. Meu coração ainda bate. Minha respiração é forte. As avenidas estão vazias. E a noite continua escura com algumas nuvens, agora, surgidas que apagam os dentes da lua. Ergo do chão fazendo força com as pernas, apoiando com a mão esquerda o piso de concreto; estou de camiseta, tênis, calça. Na mão o jornal do dia e uma sacola de compras.
Tenho que acordar cedo. Amanhã tenho que trabalhar. Meus pés estão pesados. E meu celular começou a agitar no meu bolso. O pego com a mão direita colocando tudo que carregava para o lado esquerdo. Atendo a chamada. Ouço uma voz. “Não demora muito”. Mal respondo. Sorrio. Alegro-me. Sinto que meus pés mesmo pesados me permitem que me movimente. Continuo com o sorriso no rosto. Levanto um pouco o rosto e o som da velocidade retorna com mais intensidade. Eu sei que posso voar.