Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Saturday, January 24, 2009

Até um Pé na Bunda Faz Você Ir para Frente!


“Até um pé na bunda faz você ir para frente!” Isso foi dito por um amigo num dos momentos mais infelizes que lhe foi apresentado pela vida. E o mais incrível disso foi o primeiro passo para ele ser feliz. O sujeito mostrou o que é ser homem de verdade e se ergueu no mesmo golpe, quando recebeu o soco e encolheu o corpo, nem tomou fôlego, não teve esse capricho, ficou ereto e em vez de devolver o golpe, trouxe para si não a resignação, mas o crescimento pessoal ficando maior do que é, um gigante, com os braços abertos aguardando um novo amor; o que a vida tinha lhe guardado. Certo que tinha suas muletas incrustadas nos pileques melancólicos que embaçavam sua visão do mundo, mas nem na raiva mais plena, ele se subjugou além do que seu limite permitiu. Não ficou contando garrafas para refazer o jogo de dominó que ele se encontrava. Não caiu. Balançou sua peça. Sentiu. Mas com todas as cicatrizes ainda sangrando, ele foi ao encalço de mais um passo para frente.
Todos nós temos medo de dar nossos passos. Isso já foi repetido e ecoado por ai. Eu mesmo já escrevi isso. Medo de que esse simples movimento possa alterar o ciclo normal das coisas e tudo escorrer pela encosta do mundo. Vivemos com uma faca no pescoço a cada dia que fizemos algo errado; sempre haverá algo que vamos fazer errado. E mesmo se o errado tornar-se certo, não temos como evitar? Claro que sim, óbvio. Tudo depende do que a vida vai lhe proporcionar. A oportunidade faz a ocasião. Lá você se depara com a letra A, B ou C e só tem direito naquele momento, de escolher uma delas. E você não pode sair dessa prova com ela em branco. Não existe a alternativa nenhuma das acima. Mesmo que você premedite o ato, o fato pode mudar. E ficamos no impasse do que é errado ou do que é certo. Errado para você pode ser certo para o outro e vice e versa. Mas cerne da questão é como você vai conseguir superar tudo isso. Passar por cima das ruínas que surgiram. No meio de prédios abandonados e casas destruídas, ainda pode se encontrar flores crescendo, insetos proliferando, pequenos animais se alimentando, vida em estado bruto. Viver mesmo que seu peito arda com a respiração, que não consiga dormir. Você pode clamar que preveria morrer por sentir-se oco. Mas daí chega alguém bem ao seu lado, e com um perfume perpetuando ao seu redor, diz que você ainda está vivo. Isso serve como um tapa que o acorda, faz recolocar-se nos eixos. Sejam homens, mulheres, todos nós estamos sendo testados nessa prova cotidiana. Relacionarmos com a nossa própria vida e a de outros. É só esticar as pernas, flexionar os joelhos, pressionar os pés, andar.
Não podemos ficar parados, chorando por nossa falta de sorte, se assim considera os revezes da vida. Você pode pensar que a sua vida está sendo conspirada contra por agentes encapuzados de uma nova ordem mundial que tem como objetivo supremo arrasar você. Isso seria mais aceitável do que ver que estamos cercados por pessoas diferentes que pensam, agem, que têm metas e desejos além dos seus. Que podem ser iguais aos seus também. Tudo dependerá do passo seguinte a ser tomado. Quando os seus dois pés irem de encontro com o alheio. Onde todas as suas mudanças irão acompanhar você por assim dizer.
Dar um passo, o menor que seja, cai na segunda parte da prova que você está fazendo. É uma página inteira sobre a questão. O cabeçalho já assusta pelo conteúdo e você fica lendo, relendo, tentando raciocinar a melhor resposta. Dessa vez não há escolhas múltiplas, mas linhas livres para você discernir sobre o que irá fazer. Você conta as linhas, imaginando por onde começar. Usa a folha de rascunhos e escreve sem parar. E depois de alguns minutos, revisa alterando as partes em excesso. Pronto, você é avisado que não tem mais tempo, tem que colocar tudo aquilo definitivamente. E se põe a escrever com todas as tintas. Acaba por transcrevê-la. A sua vida. Levanta-se da mesa e caminha. Sai da sala onde prestara a prova, ainda inseguro, ainda pensativo, mas a cada centímetro abaixo de seus pés, mesmo que você tenha que parar em algum momento, você continuará dando um passo à frente, não permanecendo mais no mesmo lugar. Ainda de mãos dadas com a vida seja com quem for. E para qualquer lugar. Ansioso pelo segundo passo.

Sunday, January 11, 2009

Desatando NÓS


Mais uma vez fiquei lembrando. Lembrando do que passou, do que poderia passar, como se revisse uma coleção de fotos, cada uma expondo um momento, expondo a mim, expondo você. Já fiz uma declaração simples justificando a certeza na incerteza e revivendo todos os instantes. Você sabe bem, sente bem.
Quando coloca uma música que mesmo de olhos bem abertos ouvindo-a, você recria cenas que vão surgindo diante de uma tela invisível. Acabam sendo cenas de um filme que passou ou que ainda espera uma estréia oficial. E você gostou e quer ver de novo. Se torna seu maior crítico. Mas mesmo assim teme. A música, as cenas, a lembrança. Tem medo de que possa dar errado. De que passou mesmo e tudo não passa de uma saudade. De uma falta só para preencher o ego. A razão diz isso. E a emoção catapulta você para longe já dentro da tela. A música aumenta e você respira o cenário.
Está com o coração acelerado e sem nenhum roteiro. Pode achar que sabe todas as falas, mas as marcas do texto foram sendo apagadas. Você lembra como começou e ainda assim nem sabe bem como. E nem tem idéia como tudo aconteceu. Revive. Amargura alguns pontos. Sorri em outros tantos. Se arrepende; não o faz com freqüência. Acha que tudo foi montado sobre um terreno arenoso, sem base, e aconteceu tudo isso, tudo. Ouve a música mais alta, mais intensa, mais forte. Mas o que poderíamos fazer a não ser seguir em frente. Desatando nós nas situações mais obscuras. O roteiro é novo. Talvez os personagens sejam os mesmos. Talvez ainda retorne com a produção cinematográfica escondida num estúdio dentro de você. Podemos fazer aulas de sapateado. Melhorar o condicionamento físico. Viajar. E ainda teremos na cabeça o nosso filme. Dividiríamos os créditos cada um dirigindo a sua parte e atuando sobre o improviso do que vier. Uma surpresa ainda a ser esperada. A ser superada. Tudo pode ser diferente, mas no tom da música certa que só nós conhecemos. Ou um de nós. Nesse momento estou assobiando a melodia tema. Espero que você escute. Se apenas você me ouvisse...Como refrão.

Sunday, January 04, 2009

O Sonhador com Pés de Concreto


A cidade está cheia de cicatrizes avenidas, ruas, becos, vielas e varizes. Alguém já se aventurou em perambular por aí?! Eu sou um abutre. O abutre de novo batendo suas asas de olho na cidade. Mas realmente sou apenas um contador de histórias que quer ser mais “outsider” do que gosta de descrever. E daí?! Ninguém vai querer saber o universo em torno do umbigo do redator. Tenho meu poder. Sou poderoso. Übber. Super. Ultra. Mega. Já fiz meu ritual de acordar, dormir, dormir, acordar. É hora de acordar e alçar vôo. As asas surgem na minha cabeça e aceleram. Mas elas estão fora da minha mente. As sinto nas minhas costas e também não as vejo. Invisíveis aos olhos de todos. Tiro a camisa. Empurro os móveis da sala. Dou dois passos diante da janela aberta e me jogo no parapeito indo direto em queda livre. Respiro fundo com a adrenalina se agarrando a minha pele. Conto um, dois, três, quatro e cinco, ainda não estou voando. Sim, pânico! O chão é o destino mais certo. A velocidade faz soar uma nota arrastada no ar como um longo riff de guitarra. Pessoas continuam em suas mesas jantando, vendo televisão, aguardando o novo capítulo da novela, bebendo cerveja, fazendo amor, fazendo sexo. A noite apresenta a escuridão reprimida timidamente por uma lua distante, sem nenhuma nuvem como testemunha. Na calçada as pessoas andam em seus ritmos particulares. Estou sobre as cabeças das pessoas mau-humoradas por estarem indo para seus trabalhos e compromissos, colégios, cursos, o que for. Eu sou aquele abutre desengonçado ou do coiote todo atrapalhado dos desenhos animados que vai cair de cara no piso. Nesse momento assim me sinto. Perdi minha pose, minha compostura, queria estar afogado na minha cama e num copo de Tequila, Absinto desvairando sobre a capacidade dos meus poderes. Lembro da cara do coiote sofrendo quando perde o rumo e apenas acena ao espectador. O que fazer, o que fazer? Vou fechar os olhos, contar de novo até cinco. Regra da queda livre nunca conte mais de uma vez. Mas faço mesmo assim. Uma lufada de vento quebra a melodia da queda. A barriga congela. O frame do vídeo. O ar. O tempo.
Abro os olhos e estou parado no ar. Ouço um som estranho, mas repetitivo, como fossem palmas. Tento me ambientar, ver onde estou, o que está acontecendo. E me vejo suspenso no ar. Pairando sobre aquelas cabeças outrora preocupadas. Estou descalço e sem camisa, com os braços se agitando e não estou caindo. Não sou mais o coiote, ele já passou por mim acenando abraçado ao pára-quedas.
Eu voltei a ser o abutre, não mais o tolo que cai nas ciladas e peripécias do adversário. Sinto a força do meu corpo planando e olho para cima querendo a noite, mas deparo-me com asas ao meu redor se movimentando. Eu estou voando. Tenho asas! Tenho poderes! Sou acima de todos os homens, grandíloquo.
Dou um rasante sobre os carros no trânsito intenso. Passo ao lado de casais que se beijam nas esquinas e puxo os cabelos das mulheres. Passa pela minha cabeça boliná-las, mas sou maior que isso. O máximo que faço é sussurrar com minha velocidade em seus ouvidos que são desejáveis. Pouso no chão com pés firmes. Olho todos e eles não me percebem ainda. Porque sou mais veloz, estou um segundo a frente do tempo deles. Resolvi voar de novo. Para cima, sem parar, ultrapassando o limite do prédio de 20 andares. E dou um looping. Brinco com o ar. A noite agora está mais clara com a lua já risonha. Minha única aliada, minha confidente que me divide com tantos outros rostos. Faço a mesma manobra uma, duas, três, quatro, cinco vezes. Não canso. Meu coração está duzentos batimentos cardíacos por segundo, o infarto é quase iminente. Endorfina, adrenalina fazem parte desse coquetel que me embebo. Asas. Tenho asas. Você acredita no meu poder agora?!
De repente, fico de novo planando. Parado. E uma tristeza se apodera de mim. Minhas asas perdem forças. Começo a descer. Suavemente. Um vazio dolorido dentro de mim. Eu sei...
Quem poderia me fazer voar, me deixar acima de todos, ser o meu talismã, meu quartel general, e ao mesmo tempo ser minha Kriptonita, meu algoz. A única pessoa que amo.
Estou no chão de costas. Minhas asas sumiram, não as sinto, não as vejo. Meu coração ainda bate. Minha respiração é forte. As avenidas estão vazias. E a noite continua escura com algumas nuvens, agora, surgidas que apagam os dentes da lua. Ergo do chão fazendo força com as pernas, apoiando com a mão esquerda o piso de concreto; estou de camiseta, tênis, calça. Na mão o jornal do dia e uma sacola de compras.
Tenho que acordar cedo. Amanhã tenho que trabalhar. Meus pés estão pesados. E meu celular começou a agitar no meu bolso. O pego com a mão direita colocando tudo que carregava para o lado esquerdo. Atendo a chamada. Ouço uma voz. “Não demora muito”. Mal respondo. Sorrio. Alegro-me. Sinto que meus pés mesmo pesados me permitem que me movimente. Continuo com o sorriso no rosto. Levanto um pouco o rosto e o som da velocidade retorna com mais intensidade. Eu sei que posso voar.