Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Monday, February 23, 2009

A Cidade das Argolas Suspensas


Quando cheguei aqui parei diante do pórtico da cidade. Uma cidade arborizada já vista do lado de fora mostrando aos convivas uma oportunidade. Passado o pórtico logo acima podia observar argolas suspensas no ar, presas apenas no vazio. Eu dei meus primeiros passos temerosos fiquei bem embaixo das argolas e desci meus olhos começando ver o que estava ao meu redor. Um horizonte sendo preenchido por uma cidade em ebulição. Um imenso gramado desenhava ruas espiraladas com canteiros generosos, crianças corriam de um lado para outro obedecendo às sinalizações de “cuidado” a cada esquina. Os automóveis multicoloridos transitavam de maneira ordeira. Pessoas caminhavam de um lado para outro obedecendo o espaço físico entre os próximos. Cidade cheia de nomes comuns e seus homônimos assim como outros nomes que se completavam. Todos se tratando como conhecidos, uma cidade em polvorosa com ares de vilarejo. Organizada.
Não dei mais nenhum passo olhando tudo como uma enorme tela de cinema. Fiquei olhando tudo ao mesmo tempo causando um certo enjôo. Analisei as construções, os prédios pequenos não passando de quatro andares. Casas de madeira com infindáveis jardins que se fundiam com os dos vizinhos. Aquilo tudo dava uma impressão de tranqüilidade assustadora.
Pensei no que fazer e dei mais um passo; uma coisa mais estranha aconteceu. Tudo parou até o avião que sobrevoava a cidade. Não se ouvia nada. Percebi que havia pequenos animais, roedores nas árvores que circundavam a cidade. Todos os rostos me encaravam. Negros, brancos, orientais, índios, todas as partes do mundo diante de mim. Nesse silêncio foi se quebrando com o som do meu coração forte e acelerando cada vez mais. Um homem gordo calvo com um imenso bigode grisalho, de terno cinza, com sua protuberante barriga se aproximou. Ele não abriu a boca apenas apontou para cima sem levantar a cabeça. Eu ergui os olhos e revi as argolas. Não entendi. Abaixei os olhos e percebi que ele calçava um par de meias de cor branca sem sapatos. Corri o olhar para o resto das pessoas e cada uma tinha uma característica sui generis, por assim dizer. Algumas mulheres estavam com vestidos longos, saltos altos, outras com micro vestidos, mesmo envelhecidas e com a silhueta bem avantajada beirando a obesidade ficavam bem em suas roupas, outras preferiram a nudez total. Homens sem sapatos, de tênis, sem camisa, de camisetas cavadas, e também assumindo a sua natureza. Entre vidros embaçados tinha a visão de corpos suados fazendo amor. Lindas mulheres de seios à mostra enlaçadas por gravatas que tapavam seus púbis, sorrindo diretamente pra mim. Fetiches por todos os lados sem maiores pudores. Carros esportivos, importados, motos, jet skis, todas as pessoas com o mesmo sorriso paralisados. Parecia que eu estava diante de uma enorme vitrine de uma megastore recheada de manequins estáticas. Olhando aquelas mulheres lindas como quem folheia uma revista fotogenicamente sexy. Um sonho diante dos olhos. O homem gordo insistiu apontando para o alto, em direção às argolas suspensas no nada. Eu, novamente, as olhei. Deram a sensação que elas estavam mais próximas de mim como se tivessem descido. Estiquei meus braços, me segurei numa delas e depois em outra. Estava suspenso do chão forçando os braços. Tirei os pés do chão. O homem fechou o rosto. Enrugou a testa. Fez um sinal de negativo e os sorrisos de todos atrás dele foram sumindo. Eu continuei suspenso. Várias pessoas começaram a se mover embaixo de mim e eu me sentia mais alto, inalcançável. As pessoas pulavam tentando agarrar meus pés. Eu já não entendia nada. Porque querem me segurar?
Continuei no ar segurando as argolas. Elas tinham um motivo para estar ali. Cada um com o seu livre arbítrio, com seus desejos, mantendo a organização. Eu estava fora daquilo. Para se ter os sonhos realizados, cada um deixava o que não queria nas argolas vazias. Suspensas. Deixando medos e receios na entrada da cidade. Eu só quero ir além. Fazer parte dos sonhos e criar novas realidades com meus medos podendo assim ir bem mais longe do que a passividade permite. Não tenha importância para onde eu for. É meu objetivo. Minha lascívia. Minha realização. Sem negar esse medo.

Tuesday, February 10, 2009

BRUTAL


A colisão de um carro a sessenta quilômetros por hora num poste consegue partir no meio o veículo, arremessando o carona à cerca de cinqüenta metros esfacelando-se no ar. O motorista, mesmo ferido com uma dezenas de ossos quebrados, semi-consciente, observa tudo antes de desmaiar. Brutal. Uma cena brutal.
Pode o amor estar numa colisão com zero sobreviventes? Amor brutal, por assim dizer. Agressivo. Aguerrido. Fulminante. Dramático. Traumático. Soberbo. E nada modesto. Brutal: O Amor em Colisão.
O exemplo chocante nada mais é do que uma forma de expressar o sentimento. Uma força maior emanada com toda a gana. Consideremos que alguém ama o outro com tanta vontade e mesmo assim deixa muitas falhas, erros primários interferirem no bem-estar das coisas. Pode ter certeza que o problema será eu, você, ela, ele qualquer um dos personagens que dividem conosco esse sentimento. Amor. Palavra que a poesia endeusou e que fez mundos serem destruídos; outros construídos. Lares desfeitos e muros erguidos. E nós continuamos acelerando o nosso porsche.
Quando errei, o fiz sem pensar. Boa desculpa, diria qualquer um, mas o erro acontece pelo vacilo da insegurança. Sua própria. Se pudesse voltaria no tempo e deixaria frases de efeito de lado, guardadas no criado-mudo. Faria dos meus atos corretos redes de proteção para que eu não saltasse dos prédios dando o primeiro passo pra frente. E você erra também. Não há como negar. Esconder-se atrás da cortina. Uma palavra mal construída pode destroçar a armadura de uma ocasião onde o silêncio seria melhor chance para tudo ficar bem. A réplica numa discussão pode só completar o desastre. E as verdades saem pelas suas dobraduras, causando toda a dor aos dois num embate desafortunado, restando daí apenas cinzas de uma relação.
Espero a cada dia, noites em claro, que os meus acertos sejam mais fortes, mais marcantes e que fiquem para a posteridade. Cartazes colados nos lugares que passei. Sejam meus créditos nessa mesa de dados rolando. Não quer dizer que o amor é um jogo, mas ele faz as regras como sendo. E a relação dois a dois acaba sempre se tornando uma ameaça iminente. Você vai errar. Eu devo estar cego pois não vejo que erro cada vez mais. E você deve já estar surda de ouvir tantas desculpas, mesmo que a verdade se apresente com os olhos brilhantes na sua frente.
A brutalidade do amor não se baseia no simples ato dos erros, mas do choque entre mundos que os envolvidos estão. Gladiadores com armas erguidas protegidos apenas por esse sentimento. Nossa única proteção. Danem-se as redes lá fora.
Enquanto isso tudo acontece trancaremos nossos monstros insinuantes. E motivados pelo cheiro da gasolina, entraremos em nossos veículos procurando um muro para sobrevivermos à mais um amor. Faça a sua tentativa.