Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Sunday, April 19, 2009

DELUXE


Na cama com o rosto enfiado no travesseiro ela pergunta suavemente com a voz quase saindo como um sussurro: - Qual é a sua maior fantasia? Ele, sentado nu, sobre as pernas, pensa com os olhos voltados para cima e com as duas mãos apertando ao mesmo tempo o corpo a sua frente. Ela, enrolada nos lençóis úmidos, de olhos fechados, respirando dentro do travesseiro, aguarda com atenção, esperando por tudo, querendo conhecer seu companheiro, desvendando suas camadas de intenções atrás do seu rosto. O silêncio dele a faz abrir os olhos como que se pressentisse alguma notícia ruim e a fez virar-se devagar.
Ambos se olharam. O silêncio, agora, presente intermediando o embate. Ela desnudou seus seios e sentou-se bem na frente dele, enquanto os olhos que pairavam no teto chegaram a piscar uma dezena de vezes. – Ei, qual sua resposta?! Trazendo-o de novo para o cenário. O sorriso dele aumentou de proporção e sua fisionomia tornou-se uma mistura de ironia maléfica. Maquiavel. Passou a mão no queixo e a olhou bem nos olhos. – Todas as que eu puder realizar com você. Ela o abraçou e colocou sua cabeça no seu peito. Quis acreditar. Ele continuava com seu sorriso e o pensamento longe. Ele a beijou. E a sua retribuição pairou sobre vários beijos recíprocos que saíram da união dos seus lábios para as carícias pelo pescoço, dorso, barriga, ventre, coxas, braços, costas, nádegas, sexo. E ali ficou até ele a penetrar num mix de fúria, tesão e carinho.
Depois do gozo quase ao mesmo tempo, ela olhou para ele. Dessa vez o pensamento disperso tinha invertido os papéis. Ela estava léguas dali. Pensava em linhas de raciocínio confusas. Nós somos feitos por frases completas mas em linhas distintas e separados por parágrafos. Somos a própria sombra no mesmo ângulo, mas com o ponto de Luz refletido no lado contrário.Estamos no mesmo caminho só que em ritmos diferentes, uns mais lentos outros parados por completo. Indagava a si mesmo numa ridícula e descabida análise. Enquanto seu sexo ainda sentia o gozo do parceiro sair suavemente do seu corpo. Ela tinha outra pessoa na cabeça quando fechava seus olhos. Uma pessoa que estava em outro lugar, em outra parte da sua vida. Alguém que ela nem sabe bem o porque que estava poluindo aquele momento. Não era pelo sexo, nem pela atração. Era um sentimento, mas diferente de amor ou qualquer outro que pudesse tirá-la dali e correr para seus braços.Talvez pelo que ela pensou. Em caras metades. Em segundas partes. Em algo mais. Outras oportunidades.
Ele a admirava como um observador astuto. Um estudioso. No seu pulso esquerdo o relógio regrava. Ela com o ar etéreo de olhos fechados. Ele a abraçou, enquanto ela se aninhava no seu colo. Pensava. No sorriso se esconde a armadilha mais cínica que se teme em acreditar. São palavras ditas com a facilidade de quem quer ouvir o contrário. A falsa intenção de estar junto por uma obrigação ininterrupta. Uma idiotice criada no labirinto do seu cérebro masculino temeroso. Seu pênis já diminuto pendia perto do rosto da mulher como um candelabro ou uma fruta ressecada. Ele fazia carinhos nos cabelos dela e seu peito acelerava um coração intranqüilo. Ao abrir os olhos ela o abocanhou com ternura. Hipnotizando-o. Medusa.
Dormiram abraçados, encaixados, respirando no mesmo ritmo. Eles estavam cada vez mais próximos. Juntos. Seus pensamentos se perderam com suas roupas jogadas pelo quarto. A cama jazia os lençóis retorcidos ao redor deles. Ela sorriu quando sentiu o beijo na sua nuca. Ele abriu lentamente os olhos e sentiu um arrepio pelo corpo que também o fez sorrir. Ela não precisava sentir falta de mais nada, descobrira quem procurava e ele estava seguro no que queria.

Friday, April 10, 2009

O Rei Por Um Dia

Eu estou sentado diante do meu prédio, um prédio de seis andares, antigo construído no final dos anos 60 com os seus degraus de mármore da sua entrada e com os meus pés em cima da calçada desenhada a giz sobre o jogo de amarelinha que as crianças passaram toda tarde de ontem pulando de um lado para outro. Há o caminho do Céu até o inferno. Sinto um calor intenso se pronunciando.
Na minha frente a balburdia e correria da avenida interrompida por carros enviesados e caminhões de bombeiros atravessando os canteiros chamam minha atenção fazendo que eu gire devagar a cabeça. O calor aumenta as minhas costas. Esfrego as mãos e me viro com a nítida sensação de que uma mão pousara no meu ombro direito dando um forte puxão. Deparo agora com o prédio em chamas, labaredas altas que se intensificam estourando os vidros e correndo pela fiação elétrica dos lustres da portaria. Levanto as sobrancelhas, adrenalina correndo pelas veias e me acompanham no trepidar do fogo. A fumaça criou uma coroa ao redor do edifício. De imediato, levanto de onde estou e caminho de costas sem tirar os olhos das chamas que tentam me alcançar. Como se tivessem braços. Mas hoje eu sou um Rei. O rei por um dia. É uma reverência.
Com meio-sorriso no rosto, fico admirando extasiado diante de toda aquela magnitude. Uma expressão de poder. O prédio cedendo a favor do fogo. Os gritos vieram como sirenes abertas que são abafadas a cada estalada. Os vidros continuam rompendo o ar. Não há ninguém no prédio. Assim penso, desejo. Mas uma curiosidade se apossa. Volto alguns passos. Começo a respirar fundo, seguidas vezes. Seguro a respiração com o peito estufado. Curvo um pouco o corpo e entro correndo na portaria em chamas. Salto sobre a amarelinha. Do céu passo ao inferno e no segundo passo impulsiono outro por cima dos degraus. Os gritos de todos atrás de mim formam o coro uníssono, quando finalmente caio de joelhos no meio das labaredas; o ar preso nos pulmões absorve toda a fumaça. Começo a tossir.
Meu reino desabando. Desmoronando logo ao meu lado. Diante dos olhos. O fogo lambendo as paredes com tamanha volúpia. No teto a fiação elétrica continua frenética como uma serpente se contorcendo pronta para o bote. Eu coloquei as mãos na cabeça tentando me proteger. Com as mãos protegendo o rosto corri para frente, onde há umas escadas em forma de caracol, direto ao corrimão que já estava totalmente destruído, porém me sentia obrigado em subir até os andares de cima. Aos pulos consegui enfrentar o fogo que se intensificara. Quando cheguei no topo da escadaria olhei para baixo e vi uma cena cinematográfica. Tudo foi consumido pelas chamas como se uma enorme boca engolisse o que pudesse.
Eu, em pé, parado não tendo mais como prosseguir. Nos últimos degraus da escada, me sento. Aguardo pelo inevitável ou um milagre. A horda em pânico do lado de fora, esbraveja, suplica por minha saída. Cercado pelo ardor. Abraçado. A respiração torna-se mais difícil. Não tenho saliva na boca. Procuro puxar do fundo dos pulmões oxigênio e quase desfaleço com a repetição desse ato. O rei está nu. Impotente. Continuo sentado esperando pelo que vier. E espero que não demore muito. Meu reinado é só por um dia.
É o começo de mais um dia a espreita.