Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Tuesday, June 23, 2009

O Triângulo do Sol


Com o triângulo da marca do Sol ilustrando sua pele, ela reinou soberana sobre a cama. A sua nudez aumentava o teatro de situações que ele, em pé, sem camisa, observava como um diretor de cena perfeccionista. Vendo cada detalhe daquela cena com maestria e volúpia.
Ela com a pele morena, bronzeada ainda pelos últimos dias do verão passado, se mexia achando a melhor posição para relaxar. Contraiu a sua perna esquerda como se estivesse escalando uma parede, suas mãos agarraram o colchão, de olhos fechados e a boca entreaberta, esboçou um leve som, um sussurro balbuciado. Seus cabelos jogados no seu rosto, espalhados ao redor do travesseiro, seus pés se movimentavam lentamente num acompanhamento musical, passos de dança junto com a sua pélvis insinuante.
Ainda em pé, ele, de braços cruzados, caminhava de um lado para outro como um felino que encurrala sua presa esperando o momento propício para seu ataque. E maneia a cabeça, curvando-se ao dobrar os joelhos, aproximando-se da cama e as suas mãos, nesse momento, correm pelas costas nuas da mulher que reage com um leve sorriso e ajeita-se com o toque dele. Mexe a cabeça para trás, contorcendo-se, girando o corpo e sem abrir os olhos, estende os braços prestes a recebê-lo. Assim o faz.
Ele abre os olhos com o calor ainda corando seu rosto e o suor passando por sua pele. Os caminhos do suor vão para todos os lugares do seu corpo nu. Seu corpo exala o cheiro forte que seu desejo ainda não realizado, promove. Ele afasta as cobertas, jogando para longe os lençóis, esticando as pernas e os braços acompanhado um longo bocejo. Está sozinho. Percebe a solidão do quarto e o vazio de tantas saudades. Vontade e o desejo são lembranças das muitas noites sobre o mesmo sonho. Sonho que é cada vez mais real. Passa as mãos na cabeça esfregando com força no cabelo alto pelo sono agitado. O coração ainda não perdeu o pique. Ele senta-se na cama e o seu corpo acorda junto. Levanta-se firmando os pés no chão frio, caminha até a porta, pega na passada a toalha sobre a cadeira da escrivaninha dirigindo-se para o banheiro. Transita pelo passadiço até o banheiro. Liga o chuveiro no máximo do quente imaginário. Antes de ingressar no box se vê no espelho. E pergunta para a imagem: “Onde está você?” Com o desejo a pino indo devagar ao seu estado normal, ele entra na cachoeira artificializada do chuveiro e banha-se. Sacode a cabeça tentando tirar não só dos pensamentos, mas sossegar seu desejo do sonho.
Saiu do banho, com o corpo molhado, de cabeça baixa e o desejo de novo em alto e bom tom. Não tinha nada para fazer e ficou nu enrolado na toalha molhada olhando para a janela aberta e com o Sol invadindo o ambiente, esquentando-o. Fechou os olhos. Sentiu o toque de uma mão passando pelo seu rosto. Sabia quem era, o perfume, a maciez da pele, a sensação que causava, a respiração perto do rosto, a língua lambendo suavemente os lóbulos da orelha, pequenas mordidas no pescoço fazendo-o ceder mais espaço para ela abocanhar cada vez mais, sentiu a mão pousando no seu peito e o peso do cabelo dela; ele sabia que era dela, caindo sobre o seu corpo; ele apenas a olhou e a seu caminho de carinhos e carícias. Aos poucos, devagar, ela o desenrolou da toalha... E admirava os traços do corpo daquela mulher, as costas mexendo sua musculatura, os braços, as mãos, as pernas, seu cóccix, o triângulo, seu sexo apresentando-se. Ele fechou os olhos com um sorriso largo.
Mais uma vez ele acordou em sua cama. A toalha na escrivaninha, as cobertas por cima dele, o suor intenso. Ele não acreditou em mais um sonho. Repetindo-se. Porém não estava com o desejo exposto. Permanecia relaxado. Ouviu um ruído vindo do banheiro, levantou-se num salto, correndo até a porta do banheiro, abrindo com cautela. O chuveiro ligado, o vapor da água quente como uma muralha a sua frente, ele, abriu a porta do Box, receoso. Ao se deparar com um sorriso que o chamava para um mergulho na cachoeira dos seus sonhos seguindo o triângulo criado pelo Sol.

Sunday, June 14, 2009

Grito no Vácuo


Grite! Grite! Apenas grite...Até perder as forças.

Faça as pazes consigo mesmo. Ou compre a maior das guerras. Peça perdão pelo mal feito a si. Rogue entre os dentes e vocifere. Arranhe as paredes que pressionam você. Sufocam o ambiente. Vamos! Grite! Mais uma vez. Desarrume os cabelos. Rasgue suas roupas. Puxe as suas pálpebras mostrando os olhos com suas veias avermelhadas. Lacrimeje. Resmungue.

Estique as pernas provocando estalos e coloque força para dar um pontapé nas paredes que lhe cercam. Sinta a dor correr por seus músculos tesos. Seus braços agitam-se a ponto dos ossos começarem a se deslocar como geleiras descongelando. Pense em algo para dizer.

Pare de se lamentar; não desista. Diga, então. Grite. Tente.

Grite para alguém que pode lhe ouvir.

Procure as chaves das portas de entrada e de saída. Esteja pronto para usar as máscaras de oxigênio enquanto essa turbulência não passar. Grite de pavor. Grite de tesão. Grite com raiva. Grite! Você não entende as intenções do seu interlocutor. Você é uma pessoa ignorante.

Não sabe como começou essa conversa e nem tem a idéia de como finalizá-la. Você só tem a vontade de gritar até as veias da sua garganta dilatar. Sentir o ar sumir de seus pulmões e a escuridão se apossar diante de você num desmaio longo. E de repente, caído no chão, com as mãos no peito e as pernas cruzadas, você acorda. Ofegante. E o embolo de ar sai da sua garganta como um grito. Sua válvula de escapatória. E você grita mais uma vez.

O coração em todas as rotações. Descompassado.
Você vai continuar gritando. Mesmo sem esperança, pois seu interlocutor não o ouve.

Parece que não há uma abertura de ar aqui.
No vácuo o som não se propaga.

Monday, June 08, 2009

Somos um só...Duas partes de um só


Temos o lado bom e o lado ruim enlaçados; com as pernas trançadas. Salivamos na mesma boca que beijamos. A mordemos. A queremos. A evitamos.
Corremos como baratas assustadas pela luz, frágeis, asquerosas, sobreviventes. Cada metade procurando preencher os espaços da outra parte com seus defeitos, acentuando erros, grifando omissões, salientando falhas, num blecaute total.
Vivemos com a intenção de encontrar o par perfeito que não existe. Que a sua metade não precise ser lembrada do que você quer. Todos os dias em todos os momentos. Queremos mais e mais dos relacionamentos que criamos, recriando o espécime ao seu lado que tem halitose, flatulência, raciocínio mais lento, que não é tão polido, que não percebe quando se torna desagradável, que faz piadas jocosas, que observa coisas e detalhes de mais, que alimenta neuroses. E você se vê o oposto de tudo isso! Não entende como pormenores podem ser geradores de cataclismos. E nem por maiores em agentes camicases, unabombers prontos para detonar o seu esconderijo secreto. O seu modus vivendis é alterado sem que você perceba e quando lhe é cobrado uma postura diferente se rebela aos quatro ventos vindos do mesmo lugar onde reinava uma ilha paradisíaca. É mais que uma lenda urbana.
Vários fatores levam a tormenta que se manifesta no horizonte. A cada relâmpago você percebe que a convivência com sua dupla de criação é uma arte que oscila entre tendências e estilos: um art noveau rebuscado, um bauhaus funcional, um expressionismo impactante, um cubismo performático, um dadaísmo sem sentido direto, um De Stijl simétrico, um surrealismo enigmático, um art pop consumista, um kitsch exagerado, que aos poucos vai se deixando, na exposição dessa galeria construída às pressas com suas telas e designs, de lado para chegarmos na outra ponta da ilha que já sente os primeiros pingos da chuva forte acompanhados de um vento que uiva como um lobo, arrastando casas, derrubando gigantescas árvores e que resultam na arte da guerra, no combate, no ultimate fight, na sobrevivência dos dois nessa ilha.
Chegamos ao manual nada prático de sobrevivência pulando capítulos importantes. Mas nos apegamos em alguns pontos cruciais onde sublinhamos a caneta. E num deles temos um espelho que nos divide em imagens para que possamos nos ver com os olhos bem arregalados todos as nossas duplicidades que se multiplicam sempre em dois. Quando estamos juntos da outra metade, temos quatro vezes mais imagens sendo postas no espelho. Fazemos tudo isso para juntarmos todas as imagens num só. Que as duas metades sejam o corpo único que queremos num relacionamento. Perdemos a noção dos pronomes “meu, teu” para ficarmos apenas com “nosso”. E no último capítulo desse manual ilustramos que nessa arte podemos perder grandes batalhas, derrotas homéricas, mas também podemos chegar ao topo do pódio e erguer o troféu com todos os louros que a felicidade teima em esconder.
E no momento mais propício fadado ao fracasso, você percebe, numa manhã gelada de inverno caminhando na rua ao som do trânsito intenso, com o Sol esquentando seu rosto, esboçando um sorriso tolo concluindo que vale a pena passar por isso todos os dias mais tempo que puder. Encontrando cada vez mais a sua metade.