Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Thursday, July 16, 2009

Talvez Amanhã


Queria ouvir uma frase simples. Mas eu queria nesse momento ouvi-la. Eu te amo. Assim desse jeito simples. Comum para alguns, não para mim. Nunca baixei a guarda com tanta displicência deixando o queixo à mostra esperando que viesse no rosto, com toda a força, qualquer golpe, e ele veio no momento que eu sorri ao acordar do teu lado. Fiz gato e sapato para estar contigo e também muitas bobagens que ainda não sei bem explicar, mas que no momento achei que as justificativas eram suficientes para provar para nós dois.
Errei em tantos momentos com a mesma intensidade que quis acertar. Não posso ser julgado, condenado e sentenciado porque a sua dedução foi apenas que eu sou o grande monstro. Já fiz muitas pessoas sofrerem e paguei caro com notas, uma sobre a outra, o preço certo e ajustado para com os meus pecados, por assim dizer. Me senti caindo num buraco interminável. Eu tento me apoiar na parede, enquanto o meu corpo cai vertiginosamente. Faz tempo que já aprendi com as frustrações. E isso me fez, por muito tempo, estar pronto para que o desse errado. Pronto para o inevitável. A surpresa! Eu não fazia questão e nem aguardava nenhum golpe. Só que eu resolvi burlar minhas próprias leis criadas como escudo descobrindo um sentimento em você maior que esse céu estrelado que serve como toldo. Olho para cima e uma chuva fina e gelada cai.E me vejo sozinho.
Quero ouvir essa frase. Mendigaria por ela. Corri para cima e para baixo tentando “invadir” seu mundo. Criando como um todo poderoso, um castelo, se possível, para te abrigar. Engraçado, logo eu dizendo tudo isso. Queria ouvir essa frase. Na voz mais desafinada doendo os ouvidos, com o sotaque todo particular. Todos os erros teriam o poder de sumir um por um. Seu efeito seria devastador. Passaria uma borracha gigantesca nas rasuras da nossa história. Eu seria menos imperfeito e adoraria encontrar na escuridão a clareza de vê-la sorrindo de braços abertos.Vou errar, mas pode ter certeza que, também, posso acertar. Com a mesma força e ímpeto comemorando um gol socando o ar num salto.
Mas estou na chuva fria que está aumentando. Eu digito uma mensagem no celular e lhe envio. Aguardo resposta sem ter feito nenhuma pergunta.Minutos se passam, começo a caminhar. Estou numa esquina que já passei outras vezes, mas me vejo perdido. Eu abaixo a cabeça, um sorrisinho irônico aparece na minha boca e eu caçôo de mim mesmo.
Uma das poucas vezes na minha vida, não sei o que fazer. Não sei mesmo. Desaprendi a ser eu mesmo. Ou aquele que eu fui apresentado quando nasci, cresci. Eu prefiro continuar subindo as escadas do castelo para te encontrar. E com sorte, ouvirei minha frase. Talvez amanhã.

Saturday, July 11, 2009

Estranho Conhecido


Cansado. Muito cansado. Assumidamente. Suspirando fundo de forma pesada. Fazendo um ruído alto com o assopro do ar entre os lábios. Cansado de tudo que passamos. Que gruda em nossos sapatos como uma goma de mascar. Ou pense em algo “pior” para ilustrar. E ficamos nas contínuas discussões diárias, brigas que parecem não ter fim, silêncios estendidos em perguntas que estão cheias de amargura, crueza e frustração.
Já rodei em todas as estradas que você possa imaginar. Algumas você já conheceu. Outras eu contei com detalhes. E percorri alguns trechos por atalhos que nem existiam. Os criei. Os forcei. Os fiz em cima dos problemas que deles advieram. Os contornei quando tive tempo e mesmo quando já tinha percorrido o trecho mais que devia, pude acelerar o passo entre os arbustos, arranhei nos espinhos, os braços afastando os galhos, indo para o outro lado.
Eu estou cansado de ser o réu sempre. E ter que entrar nessa gincana vencendo cada prova para me mostrar apto em continuar. Preciso fazer isso sempre?! Você vai se apegar no que passou. É mais importante para você. Tudo bem, eu entendo. Estou sendo irônico. Não posso devolver os fins de semana de Sol que tu perdeste ou foste para outros lados. Você também vai por caminhos diversos, rumando a esmo. Só posso dividir os próximos se você achar que deve fazê-lo comigo. Não há obrigação aqui. Há vontade de acertar. Erros existirão sempre desde ao fazer uma compra mal feita até fazer a cama esticando devidamente os lençóis. A cobrança é o fruto que apodrece no relacionamento, seja ele numa amizade ou num amor propriamente dito. Eu cansei, já disse; você também, eu sei.
Desconfiança se tornou o nome de uma vizinha de porta que vem todo momento apertar a campainha. Volta e meia, ela está lá de pantufas, com um sorriso amarelo cochichando ao pé do ouvido de um ou de outro. Devíamos ter um manual como cada um é e quando surgisse alguma coisa diferente acessar a tecla de “ajuda”. Quero consertar as coisas. Quero que consertem as coisas para mim também. Viu só, quero fazer as coisas darem certo, nem que seja sacudindo você até deslocar seu orgulho de coluna ereta e nariz empinado. Mas você não vê assim. Não quer um príncipe encantado, mas já me transformou num duende grotesco. E aos poucos você está se afastando, indo embora como um letreiro de caracteres ao final de um longo filme.
Você prefere ficar sozinha que se reaproximar. Sua opção sempre é isolar-se. Eu fico lá no outro hemisfério. Lidero a sua lista de dispensas. Você fica no marasmo de sua penitência e me coloca na geladeira, de castigo. Às vezes, me passa pela cabeça, que você não tem coragem suficiente de abrir a porta e me fazer sair. Já fez isso. Achou que seria uma solução, mas só agravou um problema e o cobra até hoje e amanhã e depois. Está fazendo tudo de novo e eu juntando os cacos logo atrás. Pois é. Sei que deixo a desejar. E não hesito em tentar repor as peças que faltam nesse mosaico de vidro colorido. A cada fragmento e cada resquício de esperança eu me agarro. Pateticamente, há de convir.
Eu fico aqui num discurso de um estranho conhecido “assustador”, narrando um texto em voz alta para uma platéia inexistente, dentro de um enorme salão vazio com as paredes brancas, janelas fechadas com cortinas cinzas, às escuras, outra vez. Mas ainda há um candelabro no chão com duas velas. Nós só precisamos acendê-las juntos para iluminar o ambiente.

Tuesday, July 07, 2009

No Canto Da Mesa


Tamborilando os dedos na mesa com o olhar nervoso para todos os lados esperando uma bala perdida jogada da outra extremidade, atrás da fronteira de garrafas e pratos com suas especiarias, aguardando o momento propício para ajeitar sua mira,vendo bem onde marcar o sinal vermelho e disparar no alvo. Sendo o algoz sem piscar. Você está seguindo a luz.
Você vai envelhecendo, todo o predador chega a um ponto em que suas garras e presas já não estão tão afiadas. Sua pele traz alguns traços que outros dias lá não se encontravam. Cabelos brancos. Fios isolados que vão se acumulando se tornando ilhas na imensidão de ondas nos seus cachos. Ouviu muitas coisas nesses dias. Mais que outros. E antes nem imaginava como seriam os próximos anos, mais cruéis, áridos e engraçados, naqueles anos onde ficava encarando a televisão, sua amiga, a babá eletrônica, apresentando uma loira saltitante de fio dental falando com um chiado impertinente forçado mexendo com as suas fantasias. Passou por isso. Em alguma fase. Você ergue a cabeça no meio da multidão.
Os sorrisos coroam a diversidade de pessoas que o rodeiam cada um com um futuro diferente. Se sente não como um peixe fora do aquário, mas como o peixe que está dentro de um aquário cheio de óleo. Não sabe onde está, o bar fruto desse entojado cenário gira como um carrossel. Ele levanta-se quase sem ser notado e se dirige até o fundo indo direto aos banheiros, passando pelo balcão com as pessoas que ali se esbarravam tentando conseguir algo para beber, comer e afins. Nas paredes quadros que retratavam cenas cronologicamente expostas os anos passados. Sentiu olhares grudados a sua nuca. E percebeu o movimento de outras pessoas que iam atrás, na mesma direção. Viu pessoas com capuzes, roupas escuras e disformes rostos, imagens dissolvendo-se. Apressou o passo nem sabendo bem o porque. Entrou no banheiro e antes de fechar a porta, um braço interveio e forçou sua entrada. O pânico e a surpresa o fizeram segurar a porta evitando que o resto do corpo entrasse. O braço agitava-se esmurrando o ar e, de repente, segurou seu pescoço, forçando-o junto à porta. Conseguiu se desvencilhar do agressor e colocou suas costas na parede em frente à porta e com as pernas empurrou com toda a força possível até o braço desistir.
Dentro daquele recinto, esbaforido, de joelhos e cabeça baixa pensou dizendo em voz baixa. “O que é isso, meu Deus?!” Colocou as mãos no rosto. E ouviu que atrás dele, num dos boxes do sanitário, uma voz cantarolava uma música popular e logo depois o longo ruído da descarga sendo acionada. Surgiu um homem de cabelos grisalhos, barba aparada, de terno cinza, ajeitando a fivela do cinto e indo devagar até a pia diante de um enorme espelho. Ele o encarou no chão. “Levante-se.” O homem ajoelhado ergueu-se e se deparou com o outro que era circundado pela luz acima da sua cabeça. “Deus?!” O homem de terno, secou as mãos, passou uma delas pelos cabelos arrumando o penteado sem dar maior atenção. Sorriu, “Deus?!” Caminhou até a porta de saída e antes de trespassá-la, olhou novamente para o homem ajoelhado. “É o seu inferno. Não envolva ninguém nisso.” E saiu. As imagens, ruídos e luzes correram ao seu redor até, que finalmente, tudo parou. Ele estava descendo do carrossel.
Alguns minutos depois o homem que outrora se encontrava curvado no chão do banheiro, saiu sorridente, com o rosto molhado. Chegou na mesa dos convivas e foi descobrindo os rostos de todos que ali estavam. E no meio de tantos viu o olhar fixo da sua paz, do seu lugar numa única pessoa, uma mulher de olhos brilhantes que o fazia sonhar. O deixando seguro. Ele respirou fundo e disse para ela, entre sorrisos: SEJA BEM VINDA