Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Thursday, August 27, 2009

O Silêncio Como Opção


Minha aposta maior. A confiança é a moeda de troca, sem ela nada temos para casar a jogada. A paciência para esperar a roleta parar de rodar e finalmente a bola branca cair no número é uma dádiva. Com o coração saltando pela boca, esperamos que vingue a aposta. É alta. Difícil de ser coberta, mas sempre há alguém que a sobrepõe. Não importa se você mudar a estratégia do jogo, tentar enrolar o crupiê. A casa pode usar artifícios nada escusos para afrontar o que você acredita ser sorte. Nesse jogo, não há sorte, há oportunidade.
A cada rodada a aposta aumenta e você não consegue deixar a mesa. Está na beira da bancarrota total e mesmo assim acredita que a maré vai mudar. Nesse entremeio pode até se afogar e nada o faz parar de aumentar as chances. Numa lógica inexplicável raciocina sobre centenas de combinações em segundos que obviamente, elas sucumbem a razão. Nada o faz desistir. Um erro é apenas um infortúnio momento, um repentino lapso no tempo que se torna relativo. É só aguardar mais uma rodada entre as outras dez que já se passaram. Otimismo. Fantasia. Ilusão. Tudo está em cima de mais uma ficha. Já pensa em penhorar o relógio.
Dá uma longa suspirada quando mais uma chance é rasurada diante dos seus olhos. Vagamente conjectura o que pode fazer. O que mais poderia fazer, qual esquema poderia criar. Levanta questões em conjunto com o movimento das sobrancelhas. Faz de tudo sem mexer um músculo além do frenético correr dos olhos. Ouve vozes. Assiste através da sua visão periférica as pessoas ao seu redor. O ambiente. A decoração. E de repente pára de respirar. Aperta a ficha com força que jazia inerte sobre a mesa e a arremessa na direção do espaço reservado às apostas. Tira o relógio do pulso e o indica para acompanhar a ficha. O crupiê fala alto que as apostas estão encerradas e inicia o movimento da roleta girando-a com uma quase ou nenhuma força. Ela gira por alguns minutos. Podem parecer horas. Todas as esperanças tornaram-se nomes próprios e são chamadas como orações as suas raízes de santidade.
O mundo gira sem parar. Pensa no que fará quando sua aposta que já extrapolou os limites. A roda gira fazendo todos seguirem mais rápido. Imagina a vitória como uma filha a muito esperada. A cabeça gira para a direita; para a esquerda. Sonha com tudo que deu errado acabará sendo apagado do texto que algum escriba irônico colocou na sua vida. A roleta ainda gira levando ele, ela e quem mais de carona.
Você não consegue nem piscar. Engole a seco quando a roleta diminui sua velocidade até parar. Teima um pouco fazendo a bola branca picar de um número para outro e ela retorna até parar de vez. Ele arregala os olhos, quase os deixando saltar do rosto. Sua vida toda apostada naquele momento. Sua relação com a mesa chegou ao máximo permitido, todos os avisos foram excluídos e não há saída. Os prós e contras estavam na sua aposta, o que passara, o que disse, o que ouviu. Cada sorriso, beijo, suor. Todas as palavras nas vozes alteradas. Os gemidos sussurrados. A satisfação. Tudo estava naquela aposta. Não blefou nenhum momento e poderia tê-lo feito. Agiu com a certeza que seu coração o incentivava como conselheiro. Seu amor estava ali. Quem ele amava. Seus planos breves e os de longo prazo. A bola parou. O número sorteado é anunciado. Ele cruzou os dedos.
Poderia ter sido mais fácil se a confiança fosse a ponte entre o que ele sentia e por quem sentia o amor por ele. Mas ele apostou. Como um jogo. O resultado? Cabe a ele dizer a quem merece já que as fichas acabaram. Ou quem o ama entregar mais fichas. Agora ele só tem o silêncio como opção.

Sunday, August 16, 2009

A Língua com Gosto de Tequila

Gosto acre na boca. Olhos ainda teimando em abrir. Choque com a luminosidade do Sol que penetra no ambiente como uma horda de invasores armados com facas afiadas e lanças pontiagudas. O dorso nu, a cintura envolta com os lençóis, enquanto as pernas contorcem-se quase fora da cama de casal. Cheiro de suor. Levanto a cabeça passando com força as mãos nos cabelos completamente desconfigurados da possibilidade de um penteado. Espreguiço ainda com as costas afundadas no colchão. Abro o olho direito fazendo uma careta amassando ainda mais o rosto. A janela escancarada com os spots de luz colocadas em cima de mim. O inverno deu trégua e a noite antecessora trouxe o conforto de uns vinte graus. O Sol de hoje já beira pelos vinte e oito. Agosto. Vinte e oito graus. Meu nariz me mostra o quanto essa mudança está sendo desleal. Sento na cama jogando os lençóis para o lado. Estou nu apenas vestido com minhas duas tatuagens. Uma nas costas; outra na parte interna do meu braço. Olho ao redor e me deparo com a realidade de que estou sozinho. Antes não estava.
Como ontem, anteontem e semana passada. Não estava sozinho. Estava no meio da multidão de mãos dadas com a boca que sorria sem parar do que eu falava. Estávamos nus no meio do mundo fazendo estudos sobre cada pedaço de nossos corpos. Um estudo que ia além. Nossa autópsia pelos sentimentos de cada um. Abrimos a carne, a garganta, entranhas, os lábios e penetramos um dentro do outro através de nossas línguas e desejos. Eu e ela. Ela e eu. Uma dupla dinâmica combatendo os diálogos num debate monitorado por milhares de aparelhos de televisão decidindo quem apoiaria na próxima eleição. Réu e acusadora se alternando por atitudes diversas. O equilíbrio das relações. O que sobe se perde. O que desce, despenca.
Me levanto da cama e dou de cara com a porta do meu quarto fechada. Torço a maçaneta e saio. Vou até o banheiro. Ergo a tampa do vaso e alivio o excesso do meu corpo. Ligo o chuveiro que demora alguns segundos até que eu consiga a temperatura do meu agrado no volume contínuo da pressão da água. Entro no Box e permaneço parado de cabeça baixa com a água caindo sem parar. O calor da água faz criar uma nuvem de vapor que embaça o espelho e deixa o ar mais pesado. O contato com a pele a deixa avermelhada. Me ensabôo. Termino o banho em quinze minutos, dentre os quais desses 8, fiquei apenas parado. Me seco. Caminho enrolado na toalha pela sala de estar indo até a cozinha. Acendo o piloto chama do fogão e coloco uma chaleira com água para ferver. Não tenho nada em casa, eu sei. Vou até a área de serviço e vejo que o Sol já me espera com um sorriso sarcástico. Ele, melhor que ninguém, sabe que estou sozinho.
Sento na cozinha e o set de filmagens é mudado com todos os profissionais desmontando e remontando o cenário para a próxima cena. Os gritos dos produtores só são abafados pelos achaques do diretor principal que resmunga, ofende, gesticula munido de seus fones e a cara enfiada no monitor ao lado da câmera. Seguindo o roteiro que está em minhas mãos, o folheio e vejo a pagina 3 como é decupada. Ela discutira sobre horários. Em pé na sala com sua calça jeans e com os pés no chão tirando a blusa, fala sem parar que eu tenho que crescer. Só ela está em cena, fala direto para a câmera. Ela parece como Tila Tequila, a latina bissexual que aterroriza em seu reality show de sexo, fidelidade e sedução. Ela modifica-se a cada frase completada. É uma outra pessoa, outra atriz. Há drama, há comédia, há todas as palavras voltadas para minha cabeça. O diretor grita corta! EU penso, atire!
Eu pisco uma vez devagar e a cozinha está do mesmo jeito. A chaleira está apitando. O vapor sobe até o teto. Só lembro ao levantar que estou sozinho. Mais uma vez depois de tanto tempo. Na língua com gosto de tequila, pronuncio o seu nome. O cenário está pronto para mudar. Aguardo o novo roteiro ou a refilmagem de alguma cena. Não quero mais outra atriz; quero você.

Sunday, August 02, 2009

Samba & Rock (entre riffs e baticunduns)


O dia que você marcou na agenda não existe realmente....Já se deu conta disso.
É um número criado. Uma lógica aritmética combinada com os astros. Mas na verdade ele não existe. Para o resto do mundo é uma lacuna enorme. Um corretor de texto lambuzando o dia, o mês e o ano.
Eu sapateio nos paralelepípedos com toda indiferença globalizada. Meu nome é Washington, sim, igual a Capital estadunidense. Homenagem a um jogador de futebol, não o que está nos campos correndo atrás da tecnologia do capitalismo esportivo da atualidade, mas naquele que trazia no passado às glórias que minha família achou melhor guardar em cima de mim como um arquivo pessoal portátil que respira. Na rua em frente ao meu prédio nas manhãs de todos os domingos desse inverno, homens de meia idade, bem sucedidos, empresários, pais de famílias, avôs descem a rua em cima dos seus possantes carrinhos de lomba super desenhados, com ergodinâmica de primeira linha, brincam quase seriamente. Competem radicalmente com sua alegria. Dou uma guinada no corpo sobre passos rápidos indo para frente e outros para o lado ajeitando o corpo no declive da rua.
Sobre a calçada rebuscada por pequenos víveres de musgos, plantas e gramíneas que crescem ao redor das calotas de concreto, eu, Cecília, Ciça para quem me conhece, rumo com o passo quase rápido, quase calmo, numa quase pressa só minha nos longos solos de guitarra do meu mp3 acoplado nos meus ouvidos. E hoje, num desses domingos mais gris que presenciei, descambo para chegar na padaria e comprar um refrigerante qualquer para amenizar a ressaca. Adoro beber socialmente, mas na noite passada fui abre-alas do estandarte. Sou uma sócia-degustadora de espumantes. Mesmo sem um brilho de sol, eu não descarto de forma alguma meus óculos escuros que emolduram quase todo meu rosto no seu imenso formato. O dos óculos não o do rosto, mesmo que eu esteja parecendo uma bolacha recheada. A moda é minha maior companheira. Entre meus lenços que enrolam no pescoço, com meu casaco de lã no modelo militar, saia, meia-calça preta, sapatos Melissa estilo boneca( ou Branca de Neve para ser bem mais clara!). Eu sou uma refém do meu armário. Toda noite abro as portas dele e me deparo com o mundo de opções que se apresentam. Faço as combinações de alhos com bugalhos, do que é dela com ou sem fivela, e no final das contas vejo que tenho que ter mais opções. Tenho vontade de gritar nas caras das pessoas que erram seu modelito e acham que estão abafando. Queria ter um travesseiro à mão e sufocá-las. Já que elas estão cometendo um crime visual, eu, em nome do bom gosto, ou do mínimo da noção do ridículo, acabaria com o sofrimento, das outras pessoas que têm que vê-las.
Eu estou a cem passos – eu conto meu caminho diário por passos – para ter a sensação que alcancei meus objetivos ou para ser bem mais sincero, fazer o calvário, a minha via crucis. Não é dia de trabalho, mas resolvi adiantar contra a minha vontade, compromissos da segunda-feira. Todo o santo dia, até os mais infernais, visto meu uniforme preto, minha camisa de tecido sintético e minha gravata que me sufocam. Hoje, domingo birrento, é um desses dias dos mais chatos que convida qualquer um em se enrolar nos endredons e permanecer afogado na cama praticamente entrincheirado no mundo de Morfeus, mas até nos jardins mais belos encontramos buracos, espinhos, alguns animais nada agradáveis vou para o batente. Chego na frente do prédio do escritório e como é notório e sabido – imaginável, não há uma viva alma, creio que nem morta por aqui. Cruzo pela portaria com o som de cada passo ecoando no interminável corredor até o elevador. Durante a semana útil ele é tão curto que quando me dou conta já estou no meu andar trabalhando. Estou parado bem na frente das portas do elevador e torço o nariz quando minha barriga ruge com fome ou preguiça ainda não sei bem. Resolvo sair do prédio, quinze minutos não vão me atrasar tanto.
Lá estou, enfim, na frente da redoma de vidro do balcão da padaria escolhendo um salgado e um doce, claro Ying e Yang equilibrando o dia. O balconista com aquele ar de domingo contrariado, me atende e me alcança todo o meu pedido. Peço para beber um refrigerante de 250ml e um expresso para acompanhar. Um UP de cafeína. Minha meia-calça embolou entre a parte baixa da minha nádega e a perna, quando sentei. Fico me repuxando toda para alinhar o corpo na roupa. Não consigo fazer isso sentada e me levanto. Nesse momento esbarro num homem que estava em pé, bem atrás de mim. Que maldito seja!
Foi como um empurrão com direito a um gancho de esquerda, ao mesmo tempo, que vinha uma cabeçada. Uma mulher levantou de uma cadeira sei lá da onde ou como, e saiu empurrando a humanidade escada abaixo. Eu cheguei a me desequilibrar, mas no final das contas a segurei porque vi que era um carro sem freio descendo uma lomba sendo guiado por uma mulher é claro!
Mesmo assim fui educada e pedi desculpas com um sorriso angelical no rosto que me doeu até a espinha. Eu fui educado com ela. A fiz ficar bem à vontade. Parecia ser uma mulher delicada e estabanada mas perdida. Ele pareceu ser um ogro que fora atropelado, mas com um certo afã. Nossos sorrisos ficaram um mandando mensagens visuais para o outro. Mulheres! Hum, homens! Já no primeiro momento se jogam nesse estratagema de conquista barata. Ele tem um perfume gostoso. Ela tem um perfume gostoso. Ficamos ali assim como dois curiosos. Domingo, gris. Nada para fazer de útil. Ele se ofereceu para pagar minha conta e eu o convidei para sentar. Começamos uma longa e desnecessária conversa. Ela fala demais. Sorriso lindo. Vi os olhos dela finalmente porque ela teimava em ficar com os óculos como protetor facial. Ele não é muito alto. Bonito, não lindo, bonito. Ela tem um corpo interessante, nada excepcional, nada grande demais. Nada de gordura desproporcional.
Saímos da padaria juntos e ainda conversando. Ele sabe falar sobre qualquer assunto, não se aprofunda muito, mas palpita de maneira leiga sobre moda que trás um certo charme infantil.
Saímos da padaria juntos e ainda conversando. Nossa ela fala sem parar. Falei sobre música e ela mexeu a boca apenas para dizer “blergh” sobre determinado estilo musical. Adorei ter que explicar para ela e ver uma total ignorância proposital.
Ele foi comigo até a esquina, o convidei para darmos uma volta no parque movimentado, perambular pelo Brique da cidade. Mas recebi um sorriso constrangedor. Ela me convidou para darmos um passeio. Droga! Eu tive que explicar que tinha trabalho para fazer, ela não acreditou muito e me chamou de “171” com um maneio da cabeça e uma risada. Disse que mais tarde, se ela quisesse poderiam se ver. Eu achei melhor dar um tempo. Se eu o convidei ele me deu esse “cachorro”, então vou dar mais ar para ele. Marquei com ele noutro dia. Na semana à noite. Eu concordei. Durante a semana poderíamos sair. Juntaria um dinheiro e a convidaria para ir ao cinema, um programa para lá de batido, mas certeiro. Eu disse que a escolha do filme seria minha. Ok, ok, para que contrariar, com certeza seria uma comédia romântica, mas fazer o quê?!
Nos despedimos. Beijo no rosto. Que amador! A peguei pela cintura, e passei meus lábios bem perto da boca dela. Não reagiu. Marcamos o dia. Terça.
Na agenda onde esse dia não existe para o resto do mundo, para eles seria apenas o primeiro, talvez, de outros tantos a serem marcados no calendário para comemorarem.