Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Wednesday, September 16, 2009

O demônio está esperando do lado de fora


O demônio está esperando do lado de fora, atrás da porta e batendo com os nós dos dedos na madeira. Do outro lado eu estou com as costas grudadas na porta.
Eu me escondo no canto da madeira. Sinto a respiração pressionando a porta. Mas de algum jeito fica menos pesada e some. O silêncio quebrado pelos passos que se afastam.
O demônio saiu. Ele caminha pela noite levado pelo vento que aumenta revirando seus cabelos; veste uma calça social preta, uma camisa lilás suave e um fino blusão de malha preta, suas mãos entrelaçadas colocadas as suas costas, segurando displicentemente o guarda chuva de cabo pequeno, seus sapatos pretos quadrados na ponta, olha para frente e aos poucos ergue a cabeça vendo a noite, respira fundo, enquanto se aproxima, assim como a chuva que começa a se fazer presente com pequenas gotículas gélidas.
Eu estou na rua olhando pra cima vendo que se aproxima a chuva, no chão a minha sombra é bem maior do eu propriamente e meu ego já foi tão faminto que nos devoraria nesse momento.
Ando por um mundo cheio de tatuagens pelo corpo onde estão todos os traços das pessoas. Onde as palavras se perderam pelas imagens e símbolos suprimindo a verborragia por onomatopéias, sinais gráficos quase de trânsito livre e irrestrito de comunicação.
No meio fio esbarro com o demônio que sorri. Um sorriso de canto de boca. Ele dá um passo para trás e encosta-se no muro branco e alisa a textura áspera do cimento. Eu fico com um pé suspenso no ar pronto para dar um passo à frente, mas congelo. Estagnado. Ficamos nos observando como dois lutadores dentro de um vale tudo. Ele nem se mexe. Eu desço o pé bem devagar. Quando tenho o contato no chão, ele dá uma risada mais alta. Sinto a chuva que se torna implacável. O próximo movimento é um golpe. Óbvio, que eu caio no chão esparramando o corpo pelo asfalto. A chuva apenas faz o terreno ser mais sujo, escorregadio dificultando toda reação. Mas eu faço de tudo para me erguer e de uma maneira atabalhoada avanço contra o meu agressor. Consigo uma certa vantagem pela surpresa. Contudo se perde com a falta de qualquer habilidade. Sinto mais um golpe, ao mesmo tempo, que tento contrapor.
No final quem foi alvejado? Quem acertou o adversário derrotando-o? Não estou falando sobre bem e o mal, mas na oportunidade de sobrepujar o outro. Enquanto se vê uma pessoa que autoflagela com sentimentos escusos, há o contraponto do vira-vira de copos cheios de boas intenções. Estou dia a dia sendo perseguido por meus demônios que me empurram com suas asas escondidas em maneiras indigestas de um correto comportamento. E o sabor de fel desce garganta à dentro. Mas consigo enfrentá-los. Bebo o antídoto como quem sorve pastilhas. O problema maior não está no demônio fora de si, mas no inferno que se cria. Observe que há uma tatuagem: saída.

Saturday, September 05, 2009

Melodia Com Quatro Ases na Mão


Uma estratégia para um lance de sorte. A sorte e o azar são amantes que confabulam secretamente sobre o seu destino. Vamos juntá-las.
Com as cartas na mesa sua mão pesa num jogo pronto que você permanece blefando com seus oponentes. E eu tenho nas mãos quatro ases e uma carta que não vou abri-la. Só quando for necessário. Pronto para sacrificar os oponentes. Tenho uma meta. Um objetivo traçado como nunca sequer poderia imaginar. Tenho a dupla de assessores, a sorte e o azar, ao pé do meu ouvido me servindo petiscos. Dou um sorriso discreto e corro os olhos para ver se alguém notou. Todos estão afundados em suas estratégias. Suas vidas rumando cada uma com suas conquistas. E derrotas. Ah, as derrotas têm o porque de perecerem.
A oportunidade se fez presente. Estou a um passo de uma longa jornada. Apareceu, assim, de repente e refiz os planos tendo o meu projeto ali adiante mais perto. Tenho o jogo certo nas mãos. Falta abrir mais uma carta.
Mas o que adianta ter o jogo encaminhado se o objetivo, o seu prêmio, a sua meta não ter o devido fim. Não é nem uma pergunta capciosa, mas uma afirmação duvidosa. Quando a sua escolha de permanecer no jogo, esperar a hora certa de quebrar a banca e recolher os lucros não tem a mínima finalidade maior, porque o seu meio não justifica o fim. E o fim, com o nome próprio, me deixou na mesa sozinho sem saber o que fazer, pois considerava que minha atitude seria a maior amostra de tudo que estava acontecendo e o que aconteceria. O fim riscou de ponta a ponta do quadro com um giz arranhando a lousa essas pretensões.
A sorte e o azar agora se abraçam rindo. De um lado a risada sai aguda, fina; de outro se ouve balbucios. E eu ali sentado ouvindo essa melodia com quatro ases na mão vendo todos os sonhos se desmanchando. Como se jogasse água fervendo em cima de cubos de gelo. A água em forma diferente se mistura e inunda o chão. Os sonhos idem. Os compromissos e promessas foram colocados à prova de fogo e quem acabou sendo queimado fui eu. Engraçado tudo isso é que eu não ia quebrar a banca, nem sair dali com toda a fortuna do mundo, mas sairia pronto para novos jogos e cada vez com mais chances de conseguir atingir minhas metas o quanto antes e finalmente, o objetivo com nome próprio. Ninguém me impôs nada, mas eu necessito mais do que o tempo me proporciona. Tenho as cartas nas mãos.
Minhas chances sumiram. Num estalo de dedos. Numa jogada mal ensaiada. E ninguém concorda comigo. Devia ter saído antes de pensar em abrir a última carta e ficar com meus quatro ases. A sorte e o azar começam a brindar e cada um aponta para mim me fazendo crer que a próxima jogada será melhor. Vejo que é um truque. Já cai nele. Cai feio. Torci o destino. Não há nada que eu possa dizer ou fazer (eu insisto em pensar o contrário), mesmo que eu corra, porque era isso que eu estava fazendo, correndo contra o tempo para chegar mais próximo. Não sabia que isso me afastaria, me empurrando para trás.
É curto. Breve. Sem porém. E estou sentado à mesa sozinho, segurando as cartas por ser a única coisa que me restou. O tempo, a sorte, o azar, o objetivo e o fim assinam seu único nome talhando sobre a madeira a minha frente como uma penitência que vou lendo todo o momento. Coloco as cartas na mesa, uma no lado da outra, abro os quatro ases e a carta que antes não tinha visto, deixo-a com o naipe para baixo, já não me importa mais.