Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Friday, December 31, 2010

NOVO


Cada ano é uma onda de energia positiva para o próximo ano. Ninguém sabe bem o que vai acontecer, mas planejamos, cada um de nós, de maneira utópica, momentos felizes. Novo. Tudo novo. Como se o que se passou, apenas passou. Novo ano. Novo. Repetindo-se. E todos acreditamos que passaremos uma borracha gigantesca nas linhas escritas de maneira errada desse ano que está indo. Acreditamos que o ano acabou. Acreditamos. Cremos. Como se na amanhã do dia 1º o mundo começasse. Mas não vai começar, ele vai ser mais um dia e todos teremos que conviver com essa expectativa que temos todos os dias, na semana normal do ano que passou, do anterior e no próximo, mas o faremos da melhor maneira que pudermos. Se para melhorar precisamos de 101%, então tentaremos fazer o melhor disso em 10%. Aos poucos. E para alguns, nem o total será suficiente para ser melhor. O melhor estará em todos os dias, sempre sendo buscado a cada mês, ano e superado hora a hora.Essa onda dentro de um mar revolto que foi o seu ano, que falece em seus braços vai levá-lo mar adentro. E com toda a necessidade que o aprendizado exige, você, eu, nós teremos que sobreviver a ele. Flutuaremos, nadaremos até uma ilha, até a margem em terra firme. Senão, até uma embarcação lhe estender a mão. Não será uma muleta e nem um bote salva-vidas, mas apenas uma meta, um objetivo a ser alcançado. Chegar até lá, onde for. Nós vamos traçar nossos planos fazendo pedidos, orando, aceitando crendices, evitando falar no que passou, mas nada vai mudar. Existe a saída mais próxima que deve estar no outro lado do continente. Mesmo que não tenhamos um barco à vela para nos levar, vamos indo, quase nos afogando. Sim, faremos escolhas. Sim, tentaremos contorná-las. Sim, diremos muitos “sins” e aceitaremos vários “nãos”. Seremos alvos. Seremos vítimas. Seremos algozes. Faremos vítimas. Não nessa ordem e muito menos com esse desejo. As felicitações estão no ar, nas ondas do mar, nas oferendas, nas mensagens, na mídia, em seus olhos, em nossos corações escondendo mágoas. Os dois lados dessa moeda que deixamos embaixo do prato de lentilha para obtermos prosperidade. Novo. Novo. Novo. Só queremos que tudo seja novo. Mesmo que para sua felicidade tenha que reconhecer os erros e se deparar com eles, de novo. Comece agradecendo. Comece pedindo desculpas. Obrigado! Desculpas!

Friday, December 24, 2010

Abrindo As Portas De Uma Casa Vazia


O mundo é lindo. Mas que mundo é esse além das paredes da sua casa? É um mundo com um novo dia num amanhecer às vezes rabugento, gostoso ou nostálgico. Ás vezes só é mais um amanhecer que inicia com um jeito simples, quase robotizado, rotineiro, e começamos abrir as portas dos armários, do banheiro, do quarto, da casa. E se descobre nisso algo muito mais além do que você possa ver todos os dias. Percebe-se que a casa está vazia, as prateleiras, as gavetas, os porta-retratos, os móveis, a sala, o banheiro, tudo vazio. Mesmo que você procure com maior afinco não encontrará nada, nem lixo. Todos os dias. No mesmo um amanhecer novo.
Os fantasmas e as teias de aranha saindo pelos cantos. Jogo de sombras. Não há nada ali. Se olhar bem, colocar a cara no chão verá a poeira se acumulando, uns insetos sobrevoando, algumas formigas. Mais nada. A palma da mão aberta no piso impulsiona o corpo que se ergue com os olhos abertos vê a janela aberta com as cortinas balançando pela força de um vento um pouco mais forte, porém abafado. Vem a chuva certamente. E é uma chuva forte o horizonte fechou e o movimento das nuvens é forte. O vento que entra pela janela faz a poeira subir. Tenho a sensação, que sou cercado pela poeira, que ela faz um circulo que sobe. Mas não é isso. Podem ser os fantasmas. Pode ser algo mais.
Pode ser a fé que algo melhor vai acontecer. Quando a chuva passar e ela nem veio ainda. Só a sua presença, sua menção já causa uma expectativa. Espero por algo mais. Por proteção. Orações. A casa está vazia. E eu estou no meio da sala com a nuvem de poeira ao meu redor.
Estou sozinho. Mesmo. Não sei o meu nome. Perdi, ele no meio dos cantos. Perdi muito mais. A poeira baixou. O vento se acalmou. Ouço os trovões. Primeiros pingos chegam forte. Barulhentos. A janela está aberta e eu fico ali debruçado. A chuva fria na pele quente escorre. Parece engordurada. Suada. Parecem com lágrimas. De tantas pessoas. Misturadas na chuva e passando pelo meu rosto junto com as minhas. Entrelaço os dedos das mãos, curvo a cabeça. Não digo uma palavra, mas elas são ouvidas. Só que nessa casa não há ninguém para ouvi-las. A chuva aperta. Sinto um peso no meu ombro. O peso da chuva. O peso de uma mão. O peso.
A chuva vai passar. Porém ainda não vejo no horizonte um raio do Sol. Ouço as palavras no meu ouvido dizendo “vai passar!”. Até uma rocha pode ter marcas que não vão sumir, mas a rocha sim irá se modificar com o tempo, pela sua ação, do tempo.

Friday, December 10, 2010

AINDA NO RINGUE


Mais um golpe, seguido de outro, inesperado. O ar é puxado, quase roubado. Grudado nas cordas, no canto do ringue, protegendo o rosto, as costelas, desviando o corpo, balançando, mas os golpes não param, continuam às vezes com força; outros com precisão. Tente respirar.
O suor força fechar os olhos. O sangue misturado com suor, queima. Feridas abertas. Gosto do sangue na boca, dentes moles, dor abaixo do abdômen e justamente onde os golpes se repetem. A guarda continua pontual. Um escudo que é trespassado com rapidez. A cabeça baixa protege o rosto. Concentração. As pernas se curvam e o apoio nas cordas do ringue seguram o corpo. Os golpes não param. A respiração fica cada vez mais difícil.
Mas ainda em pé. Não há espaço para reagir, o adversário é rápido, mais forte, quer “dar uma lição”. Repete o tema de casa todo o tempo. A proteção é rompida. O golpe vem de frente e com o impulso o corpo atingido é jogado para trás. As cordas o empurram de volta. A visão fica nebulosa, tontura, braços caídos, pernas moles, segundos até o chão. Mas os braços impedem que caia de vez. Apóia-se nos joelhos. Olha para lona. O tatame. Suor e sangue a sua frente dão um desenho espelhado. Ouve-se a contagem que nunca para. Já foi ouvida mais de uma dezenas de vezes. Ergue-se. Olha para o ponto vazio. E o arbitro segura suas mãos pede para seguir com o os olhos o movimento do seu dedo indicador direito. Balança a cabeça afirmando estar bem. Sempre vai dizer que está bem. Supercílio aberto, nariz quebrado talvez, maxilar inchado, maçã do rosto aberta, costelas doendo, braços moles, pernas trêmulas, gosto de sangue na boca e a cuspida é o sinal para o reinício da luta.
O adversário vem de novo, concentrado, com a vontade de encerrar o que começou. Recomeça com os mesmos golpes. Mas o atingido, sabendo o que virá, ainda é pego desprevenido. É a força, a intensidade, a falta de uma pausa maior. De novo jogado às cordas. O ringue parece que só tem um lugar. E ali ele fica. O “agressor” não entende como ele ainda está de pé. Ninguém entende. Ele reprova a lição aprendida e se mostra à prova que lhe é apresentada. Não se orgulha disso, mas tem muito em jogo. Percebe que os juízes fazem as pontuações.
Todos notam seu cansaço, mas ele sente também o cansaço do seu algoz. O atingido pensa em todas as teorias, teses, livros, estratégias, soluções para agüentar em pé. Os golpes continuam, mas com um espaço maior entre os golpes.
Ainda nas cordas ele sorri, os dentes avermelhados, ri dizendo a todos “é só isso?! Não pode bater mais forte? Vem eu agüento! Use toda a sua força! Eu ainda vou ficar em pé. E no momento que você cansar, eu vou reagir, sem regras, sem luvas, sem juízes, vou arrancar seu pescoço com as mãos nuas. Você não vai me vencer. Pode tentar, me derrube, eu volto! Isso não é uma promessa que não cumprirei, nem ameaça para lhe aterrorizar; é um aviso, esteja pronto!”.
A luta não acabou. Ele não sabe em qual “round” está. Mas vai continuar até que o gongo soe ou que ele vença. Não é só conversa.


Wednesday, December 08, 2010

39 – O Filme


Nem todo o filme tem um começo igual, mesmo que se pareça, mesmo que tenha uma referência. Esse filme tem 39 cenas. Filmados como se fossem 39 dias, meses, anos e cada ano uma cena. Assim prossegue através de um roteiro muito amplo que aproveita do improviso e do imprevisto para ilustrar. Silêncio e de repente na tela aparece um espelho que se espatifa com o choque de um objeto jogado nele e a imagem fica lenta, em “slow-motion”, com os estilhaços mexidos no ar se transformam no número “39”.
Abertura do filme só da o nome do protagonista, produtor e diretor. Os outros personagens não são citados, vão aparecer no final, como todo filme padrão montado, assim que tem que ser, os créditos, ficha técnica, no fim daquele jeito corrido pela tela que ninguém consegue ler ou presta atenção.
As cenas porém são jogadas na tela. Não tem cronologia. Enfocam só a presença do protagonista em suas 39 cenas. A vida passada diante dos olhos dos outros. Sua vida desnuda. Mesmo que seja a mais escondida, secreta parte, ela é descerrada diante dos espectadores que mastigam sem parar balas, pipoca, petiscos e banham-se com refrigerantes.
Numa breve sinopse, o protagonista está diante de um espelho. Ele vê sua imagem, se aproxima, toca e sua mão ultrapassa o espelho. Ele se assusta, mas tenta chegar mais dentro do espelho. De repente, sente um puxão, o próprio espelho o puxa, na sua frente sua imagem ri fazendo força para puxá-lo. O pânico é total. Uma trilha sonora explode nas caixas de som das salas de cinema, Kashmir, do grupo Led Zeppelin ( disco Physical Graffiti - http://www.youtube.com/watch?v=eKtfjsonPFE&feature=related, acompanhe...), ouça, vibre com a força, uma batalha. Ele é puxado para dentro do espelho e vê o mundo do lado de fora. Ao seu lado está seu reflexo rindo, debochado, sentando sobre as pernas e pegando pedras no chão para brincar com elas logo em seguida num jogo de malabarismo. O protagonista fala, grita e nada. Ninguém o ouve. Ele vê as cenas da sua vida. Cena 1. Cena 2...Cena 20...Cena 25...Cena por cena. A vida passando diante dos seus olhos nos olhos dos outros.
Ele escuta as frases dos diálogos longos com as pessoas que dividem o set de filmagem com ele. As tramas, os dramas, as comédias, as tragédias. Tudo ali. Até ficção. Um colega de cena esmurra o espelho e ele dá um passo para trás o que faz seu reflexo dar atenção para sua atitude e de imediato rir até cair de costas, contorcendo-se. As cenas vão aumentando. Partes que ele não tinha lido no roteiro. Este roteiro, como já dito, modificado a cada virar de páginas, a cada amanhecer. A música tema continua ali atrás, bem fraca, quase um sussurro. Ele força sua saída do espelho de todas as formas. Onde ele está é ermo, sem cor, sem ar fresco, um odor de mofo, não há paredes, mas também não há como adivinhar pela pouca luz. Ele quer sair dali. É um sonho ruim, murmura para si mas querendo que os espectadores o ouçam.
Ele vê as cenas se completando, amores, sexo, frustrações, perdas, amizades, ganhos, desespero, tédio, raiva, pena, saudade, pais, mulher, filho, irmãos...Cenas ainda incompletas. Cenas ainda que serão refilmadas pelo diretor na hora de editar. Tudo bem, o filme já está sendo visto por todos, mas o diretor tem outras idéias. Ele vai tirar cenas; colocar outras. É sua obra mais pessoal. Ele prefere que o protagonista lute mais. Faz uma inserção de “flashbacks” dele caminhando na rua, descendo um morro e sobre sua cabeça pássaros sobrevoam em círculos. Mostra o seu ponto de vista, mostra ele fazendo parte do todo. A música tema prevalece ininterruptamente como se assombrasse, fosse um fantasma.
Corte de edição e o protagonista ainda está dentro do espelho. Ele sente a proximidade de uma pessoa conhecida do lado de fora. Bate na superfície com força gritando suplicando por ajuda. Mas é deixado. Ele se vê bem onde está. Sozinho. Não vai para nenhum lugar. O espelho trinca. Ele observa. A música cresce, aumenta, ensurdece. Ele pega uma das pedras das mãos do seu reflexo brincalhão e arremessa contra o espelho. Estilhaços. Uma saída. Ele corre na direção dela. Uma visão trêmula como se o público fizesse parte desse esforço. A música pára. Não o vemos. Tudo escuro. Só podemos ouvir a respiração ofegante do protagonista e ele diz: “consegui!”

Tuesday, November 16, 2010

As Estrelas No Seu Jardim



O meu menino, sozinho à noite, olha as estrelas em seu sonho e em cada uma ele coloca um nome que lhe vem à cabeça, pessoas, cores, coisas que ele mal conhece. É um pequeno descobridor de mundos. Desbravador. Estudioso. Curioso. Em aprendizado contínuo.
Uma vez, vou lhe dizer, eu disse, no horizonte de um outro jardim, que aqui não seria o espaço certo para descrever ou mostrar ou falar de você. Repito o que disse aquela vez. Não sei se aqui é esse lugar para eu lhe trazer, mas é o único lugar que só meu com as portas sempre abertas. E você tem tantos lugares para ir. No coração de tantos. O meu está sempre escancarado com os dizeres em neon que amo você, meu pequeno imperador. Meu reino imaginário é o seu real. Fico de joelhos, em reverência, mas com a mão firme para segurá-lo no seu ímpeto. Serei um orientador de qualquer forma, de algum jeito, estarei ao seu lado mesmo quando você se sentir sozinho diante dos problemas que vierem. Você irá encará-los olho no olho e eu surgirei com todas as armas e escudos para protegê-lo, ao mesmo tempo, que um exército será erguido ao seu redor entre avós com dor nas costas, osteoporose, velhice avançada (também que não está presente mas de olho aberto em cima de você!), padrinhos displicentes ou residindo em outras fronteiras, emprestados, os que assumiram, os tios que serão amigos, uns naturais outros a vida mostrando a amizade ao natural, primos e primas aumentando a retaguarda, sua mãe como uma felina lambendo a cria pronta para cravar as unhas em quem for, e, eu abanando aos ares minha espada. Seremos um enorme time. Numa torcida incansável a cada sucesso seu e um apoio forte a cada deslize. Eu sou seu fiel escudeiro. Com todos os erros que a humanidade alimenta. Mas sou seu amigo. Um amigo que vai chorar com e por você. Mesmo na distância que espero acabar eu lhe tenho perto e perto porque você está dentro de mim. E daqui, filho, você não sairá. Não uma prisão, mas um abrigo.
Sou seu pai. Não perfeito. Você me ensinou a não ser egoísta. E eu por teimosia ou todas as fraquezas – e uma boa dose de burrice – tive que enfrentar os medos e frustrações dia após dia como um gladiador ferido dentro de uma arena romana e principalmente querendo sobreviver para procurar minha redenção e que você veja o que fiz também de bom. Tenho as cicatrizes que não preciso lhe mostrar, só saiba disso.
Meu menino vai crescer tirando dos céus as estrelas na noite, como fossem parte de um móbile e as colocará ao seu lado iluminando seu quarto, sua cama como um jardim de luzes, dando calor quando sentir frio, refrescando quando estiver muito quente. Brincará com elas jogando-as para cima, deixando-as flutuar. Colocará no seu peito, iluminando seu coração, ele apenas dará um longo sorriso de felicidade com as estrelas em seus olhos. Estrelas essas em que seus pais serão chamados por ele. E para eles, você é o Sol maior. Ele as colocará de novo no céu negro, sorrindo para as estrelas como se desse: boa noite! “Boa noite mãe; boa noite pai” . Durma bem pequeno. Estaremos aqui. Sonhe, pense, lembre, eu vou estar lá até o dia que meu sorriso esteja espelhando no seu bem perto. Vou cantarolar ao seu ouvido para você dormir a música que eu cantava quando você nasceu e choramingava, Stir it Up ( Bob Marley ), e nas estrelas dos seus olhos você se acalmará.

Monday, November 15, 2010

Suor Rasgando a Pele


No vidro embaçado pelo calor apenas observa-se o caminho das gotículas escorrendo. Tento me aproximar. Fixando o olhar, sem piscar, percebe-se atrás dele, corpos em movimento. Vou me arrastando, o corpo contorcendo-se, puxando, grudado no teto como se meus membros pudessem ter aderência. Uma coreografia lenta, quase somente na ponta dos dedos, um e depois o outro com muita força para fazer, quase nenhum ruído um ballet de um palco invertido. Continuo a me aproximar, escorado no teto.
Invado o recinto. Sombras e silhuetas se dividem com a pouca luminosidade. Observo. Observo. Observo. Duas pessoas. Pares de pernas, braços e vozes sussurrando, gemendo, acelerando, diminuindo. Cabelos misturados. Mãos. Unhas arranhando a pele. Estou quase em cima, a poucos metros de cabeça para baixo. Giro o corpo, me apoio com uma mão chegando a quase tocar nas sombras. E vejo.
Mesmo corpo. Corpos diferentes. Mesmo sexo. O mesmo desejo. E eu observo. Diferente em sexo e desejo.
Não precisam de mais nada. Aguardo no silêncio sendo rompido pelo gozo das silhuetas. Fetiche meu. Desejo delas. As sombras. Eu observo. Estou longe de tudo isso. Mente ao longe. Estou no teto numa distância curta e muito mais longe do que poderia me aproximar. E as silhuetas dançam ao embalo do meu ballet por mim, idilicamente, pensado que orquestro como maestro em uma grande sinfonia. Ouço a música na cabeça. O suor escorre pelos vidros embaçados pela vontade alheia. Um mistério além do imaginado. O imaginário criado como mistério.
Acordo ofegante. No teto, o vazio. O meu suor rasgando minha pele.

Saturday, November 06, 2010

A Tempestade de Braços Abertos


Você vê a calmaria e espera pela tempestade, talvez ela nem venha, mas pode ter certeza ela virá. E com força! Preste atenção ao movimento das nuvens no horizonte, incline a cabeça e sinta o vento, as rajadas empurrando seu corpo como se intimasse você para uma briga, um confronto. Você espera que seja passageiro, mas não sabe dizer o que restará depois. Só pede por proteção.
E ao seu redor você se cerca de tudo e todos. Mas quando está com a solidão trancando você dentro de um quarto vazio, nada pode ser feito, só espera que a tempestade passe e as janelas parem de tremer, que o uivo do vento não continue. Quer sossegar, mas ouve a solidão rir baixinho. Reza, ora, suplica, incita.
Quando mais se espera por uma solução mágica, por uma porta na parede para sair em outro lugar, você se depara com o sorriso de um anjo, com o afago de uma fada, com as peripécias da vida. Enquanto a tempestade xinga aos quatro ventos do seu mundo, os anjos que aparecem para você sejam na forma que deseja, que almeja, que se lembre faz companhia aquecendo o ambiente. Eles não têm suas asas angelicais ao seu redor, mas a sua proteção fortalece. Sente as asas, que não estão presentes, abrigar contra as intempéries. Um abrigo contra projéteis, que maculam a saudade, disparados pela solidão. São nesses momentos que você respira nessa luta dentro de um tatame e o seu adversário tem vários rostos, muitos braços e nem sempre é identificado. A tempestade ainda cresce lá fora. E no instante que os anjos cansarem, tiverem suas forças exauridas, as fadas que você fantasiou chegarão com tamanha virulência, quanto à paciência para ajudar. Ou lhe darão um empurrão que você poderá até cambalear deslizando no chão branco frio até impulsionar passadas além do lugar onde está dando razão para romper a porta que separa a sua vida. Com suas asas agitadas, em vôos rápidos como pirilampos, as fadas buscam de todas as formas auxiliar.
Mas não creia que serão apenas os momentos felizes, alegres, dispostos a facilitar as coisas. Existe uma tempestade lá fora e você precisa enfrentá-la. Se conseguiu sair do seu quarto arrombando a porta, vá com todos os medos que possa carregar na mochila dentro de você para frente da tempestade. Fique no meio dela. Abra os olhos mesmo que o vento bata neles como se os vendasse com as próprias mãos. Espere que ela se aproxime mais. Quando estiver no seu ápice, abra os braços, deixe o peito ereto, sinta que em cada mão há o seu anjo e sua fada. Nada vai conseguir vencer você. Não importa o tamanho da tempestade. Quem lhe ama está ali, mesmo na distância de seus pensamentos segurando suas mãos.

Wednesday, October 27, 2010

Reverso em 180º


A sensação de ser um Deus, só por alguns instantes, ver sobre as nuvens além delas. Um momento de êxtase. De ser um gigante. De ser. Mas apenas humano. Sem arrogância ou prepotência. Pernas, braços, peito, cabeça, boca, bunda, sexo. Admira o quadro das intocadas nuvens. Seus formatos mudam de acordo com o olhar. Parecem enormes geleiras se deslocando, santos em luta, anjos cantando, cães furiosos, lagartos com suas línguas, navios cruzando os ares, corpos boiando no místico mar dos céus. Eram nuvens, apenas isso. Assim como ser. Ser humano.
E os medos que esse “ser” carrega nas costas esconde em suas atitudes ou falta delas. Vamos lá, relembre seus erros, das coisas mais sórdidas e estapafúrdias que seus atos foram cometendo como se fossem fotocópias. Se repetindo e ao mesmo tempo enganando você mesmo. Não adianta ficar preso dentro de uma ostra. Saiba que pode ser uma e dentro criar uma pérola valiosa. Um valor que não tem preço. Sair do ponto 0 e seguir adiante passando por todos os números até chegar do outro lado da rua. Desafios. Os desafios dos heróis gregos. Sinta-se um semideus. Mas para que ser algo além do que você é. O sentimento estará dentro de você sendo Deus ou um deus. É o seu ponto de partida e de segurança. A fé maior está dentro de você.
Mude o lado que você dorme. Não faça o mesmo caminho. Desarrume os livros empilhados. Depois os coloque em ordem, de ano, escritor, edição. Mude. Difícil, não é?! Não se preocupe ficará pior. Sobre as nuvens você vê um jogo de damas. Jogue. Coma o maior número de peças. Vença. Vá até a porta, abra-a e grite, “eu vi, vim e vencerei.” Nesse novo jogo num tabuleiro antigo, você está de cara com desafios (eles estão ai) de novo, mais um e de novo, de novo, novo.
Nada é igual. Nada ficará igual. Nada nunca é igual. Faça a diferença em si. Mesmo que seja você mesmo no espelho todos os dias.

Sunday, October 03, 2010

Impessoal e Transferível


Não, nem sempre o Eu sou Eu. Pode ser você em muitos casos. Pode ser a transcrição de fatos alheios. Pode ser a simples menção da existência de fatos. Pode ser a complexidade do alheio. Pode ser apenas Eu, em alguns casos.
Em muitos momentos você pode se deparar com situações que lhe obrigam a agir. Errado. Certo. Ser levado a fazer algo. E nesse instante, deixar de fazer outra coisa. Ato de covardia. Ato de bravura. Ser homem. Ser um inseto. Ser apenas você. Um inseto pode carregar 100 vezes seu peso. Uma formiga sem uma das “pernas” se arrasta por metros tentando seguir em frente, voltar para seu abrigo, reagir. Uma mosca dura alguns dias, em algumas espécies, dias, só precisa procriar e morrer, mas voa, “zanza” por vários lugares e defeca onde passa. Sete dias limitam algumas borboletas. A imagem de sair do casulo, surgir bela, embelezar a paisagem e morrer. Os aracnídeos, a aranha devora o macho logo após a fecundação, o escorpião ataca pelo simples toque em seu corpo mexendo suas presas para defender-se. A máxima da melhor conhecida “a melhor defesa é o ataque” se faz jus. E você muitas vezes se pergunta, sou um homem ou uma barata? O popularesco ironiza, debocha disso. Apresenta a barata como um ser inferior, covarde porque foge da luz, corre para todos os lados pelo simples ruído. A barata usa seu exoesqueleto para espremer-se sob superfícies. É veloz. Voa. Alimenta-se de tudo que está ao seu alcance. Suas antenas percebem atividade externa a uma distância que a permita observar saídas rápidas. Seu instinto é de sobrevivência. Filósofos e estudiosos garantem que somente as baratas resistirão a enormes catástrofes naturais. Podem viver na água, no ar, na terra. Sobreviver. Frágeis a ponto de que com uma simples pressão serem mortas, mas não dizimadas. Mas como diz o ditado, a cada barata morta dez surgem. E você? Homem? Mulher? Inseto? Muitas vezes seus atos o transformam de herói em vilão. De homem em inseto. De valorizado em um ser que causa asco. E em algo mais virando o copo. Meio cheio; meio vazio.
Nem sempre o errado é você. Pode ser eu. Deite-se na cama. Barriga para cima. Coce o umbigo. Estique os braços e as pernas. Olhe para cima. Observe a teia de aranha no canto. Acompanhe com a cabeça e a vire. Arraste-se até os pés da cama. Vire seu corpo. De cabeça para fora do colchão. Cabeça suspensa. O sangue pressiona. Observe. Não estará na posição certa, mas não quer dizer que está errado. Tenha isso como exemplo. Não há barreira maior para decifrar isso que não seja a própria vida. Sim, e os fatos que dela vão brotando. Ovos do inseto que você criou. Sua metamorfose benéfica. Seu “eu” sobrevivente.
Você se identifica com isso. Não?! È, você não sou eu. E nem eu sou você não posso colocar palavras na sua boca e nem você colocar idéias soltas na minha cabeça vazia. Só que irei contar uma coisa. Eu estou com os arquivos abertos dessa biblioteca que chamam por aí de cérebro. E daí me questiono o desenvolvimento dos cérebros dos insetos. Eles agem por instinto para viverem; eu tenho que pensar para isso. Há uma certa ironia nisso. Enquanto falo tudo isso, a vida continua lá fora, os carros acelerando pelas avenidas e as pessoas sorrindo; embaixo de seus pés os insetos alimentam-se. Nada pessoal. E pare de transferir responsabilidades.


Thursday, September 23, 2010

O Toque Próximo Demais


Ela estava ali na jaula à distância. Uma gaiola. Virtual. Remexendo em teclas construindo frases falando em voz alta em alguns momentos. Ela estava ali por horas. Ria do que lia. Lia mais e ria. Colocava mão no queixo, balançava a cabeça, apoiava os cotovelos na mesa. Estava à vontade. Pés desnudos, o resto se baseava no imaginário do outro lado de bytes e bits. Respostas curtas. Declarações rápidas. Pedras sendo arremessadas com tamanha força que colidiam com a tela. Sua gaiola. Sua jaula. Queria saber mais. Ouvir mais. Ler já não preenchia todas as lacunas. Mas o que viria dali para frente.
Ela permanecia ali, guarnecida de expectativa curiosa e um voyerismo cálido. Cenários moviam-se ao seu redor sem mudar de lugar. Cromaquis. Céus, paisagens, fotografias, pinturas, retratos. Palavras. A curiosidade matou o gato, diz o ditado, mas como também diz o ditado, o gato tem sete vidas. Então correr o risco não é opção; é a certeza.
As paredes diante dela conversavam dando conselhos. Não respondiam de imediato assim como as teclas do lado de lá. Problemas da virtualidade. Conectados com o mundo e o mundo às vezes surdo, cego e lento. E na frieza das paredes com suas vozes baixas, quase inaudíveis, se acalmava para esperar entre cantadas e cantaroladas o tempo trazer respostas às perguntas feitas ou frases de efeito retardado. Suspiros como confidentes. Afagos no ego. Desconsertos de postura na polaridade de intenções. Vacinas contra-indicadas sendo ministradas aos excessos. Um magnetismo a atrai para dentro dessa jaula. Ria das piadas. Ria dos avanços. Ria. Apenas sorri. Gargalha até. De si mesma também. Cria um trinômio ao interlocutor. E mesmo pejorativo é divertido a ponto de manter-se ali suspensa no cabo de fibra ótica num jogo de cabo de guerra. Não é uma batalha para ver quem é o vencedor, não há medalhas, troféus, mas há o algo mais por trás de muita coisa. Coisas essas que não se sabe como explicar se sintonizam, se amalgamam. Qual será o próximo capítulo, qual próximo passo? Nem são perguntas para serem respondidas, deixando à química dos carbonos perfeitos julgarem isso.
As palavras correm a tela. Brincam nas grades de sua jaula. Ela espera a chance de abrir a porta e sair em disparada, correndo, correndo. Não quer se abatida, não quer ser pega. Mas o alvo é ajeitado bem na mira. Um passo em falso, e ela poderá ser atingida. Entretanto espera se vale a pena. Tudo vale a pena, lembre de parafrasear o poeta. Pés desnudos contraem-se no chão sobre o pequeno tapete. Ela olha para a rua, erma, quieta, aguardando ouvi-la. Um sinal a chama de volta para a jaula. Dessa vez a porta se abriu lentamente....
Estão esperando por ela. Solte-se!

Wednesday, September 15, 2010

O Ceifador de Girassóis


No céu uma mistura do acinzentado com azul escuro. Abaixo dele o reflexo do meu rosto na poça d´gua. A frente um horizonte sem cor. Acoberto o pescoço erguendo a lapela da camisa. Um frio que não existe me cerca. Estar sozinho não é uma opção no momento. Mas estou. Só pela distância e não pela sensação. Ainda parado brinco como uma criança de colo se descobrindo entre movimentos descoordenados nos detalhes ao meu redor. Firmo os pés quando um vento surge num rompante. Me cega. Momentaneamente. Tudo breve. Passando. Sempre passa. Abreviando.
Abrindo os braços e abaixando a cabeça como reverência, me vejo bem onde estou. Com o Sol, que aparece de surpresa, ardendo na pele branca aquecendo a esperança, desmistificando os temores. Abraço-o. Com carinho. Me alinho na camisa. A distância existe. Mas só preciso diminuir cada espaço entre dois pontos. Independente de mim. Entretanto vou adiante empurrando as pedras, tirando os arbustos com uma foice nas mãos e um desejo no coração. Não estou mais cego. Vendo tanto quanto o pouco que tenho. E mesmo assim enxergando muito mais entre os jardins, os prédios, as árvores, os campos.
E o Sol ali me rege abrindo as janelas das nuvens acendendo as luzes no dia gris. As nuvens aceleram remodelando suas formas empurrando umas as outras. Percebo que tudo parece tão longe mas tudo o que quero está tão perto. Se mistura. Se confunde. Se troca. A luz do Sol aumenta exacerbando a claridade. Essa solidão que não existe já não é boa companhia. Uma sensação, já disse, que está passando, enquanto eu pulo as cercas de arame farpado para correr entre os girassóis rodopiando como moinhos de vento. Vem a cabeça Dom Quixote na busca de aventuras e da amada Dulcinéia. Sonhos de um sonhador. Desaprendi a sonhar. Reaprendi a encarar a realidade dentro do olho do furacão e encará-lo. Ao mesmo tempo, que faço piadas sobre todos.
Já tiveram dias que não sentia nada, absolutamente nada. Hoje não é mais um desses dias. Hoje, precisamente, é um novo dia. Se há confusão no ar, ela se dissipa pelas certezas que estão atrás das portas que nem bato mais com delicadeza e educação, mas as arrombo com o assombro da ansiedade. Quero chegar logo ali, do outro lado. E mais perto. Deixar a distância bem menor. Quase inexistente. Continuo colhendo os frutos de ações regressas, mas também cultivo novos rumos com paciência e cuidados. Nada e nem ninguém poderá impedir isso. Já não era sem tempo. Ao meu lado um punhado de girassóis ensacados para trincheiras de proteção sob um Sol supremo. Incrível parece um sonho.

Wednesday, September 01, 2010

Crônicas de Bate-Papo: ESTREMAR O EXTREMO


Para tudo há uma regra. Até para quebrá-las qualquer uma delas existe uma regra, uma exceção. Um a ver.
Nas relações elas se manifestam no modus operandi da humanidade, diria um abestalhado soldado do saber, com suas teorias filosóficas tiradas dos comentários de fóruns na Internet e livretos de bolso.
As regras nos limitam até quando estamos à beira do abismo prontos para dar um longo passo. Relacionarmos uns com os outros é uma missão herculínea. Lutamos para manter a serenidade nos momentos mais impróprios da nossa existência. Agüentarmos o outro tão perto é estar próximo demais. Nos romances, namoros, casamentos, casos e acasos, nós fazemos força descomunal nessas relações traçando com o lápis colorido as frases para serem seguidas. E nas amizades de trabalho, de festas, de verdade, agimos com a impulsividade complacente da convivência mantendo uma distância segura entre as partes, até que se prove que não há nenhuma barreira que impeça o outro de entrar em sua fronteira pessoal.
Uma visão depressiva? Desoladora? Amarga? Porque achar uma regra que se encaixe? É mensurar o limite. Estremar o extremo. Quem disse que o piadista não é um sujeito triste? Ou o sorridente um sociopata amargurado? Aquele que sempre tem algo a dizer é um sujeito completo e resolvido. Quem disse isso? Quem colocou essas regras pré-definidas que possamos nos ajustar? Fui eu. Foi você. Fomos nós!
Não se trata de uma oferenda de ofensas contra o mundo e a humanidade é apenas uma constatação de que todos nos socializamos e nos separamos criando barreiras, fórmulas e regras para seguirmos em frente. Calma, relaxe, fique frio é só uma crônica. Vamos beber algo dividimos a conta até. Não é essa a regra?!

Monday, August 23, 2010

AIRBAG


Final do dia, Sol de inverno aquecendo ao longe. Primavera teima e não chegar mesmo com os apelos. Brilho intenso nos olhos. O céu azulado avermelha-se. O movimento da cidade é um contínuo formigueiro de intenções. Ele faz parte disso tudo postado do alto da sua janela. Nu à mercê da cidade. Com as mãos espalmadas no vidro da janela fria sua aos poucos. Às costas, o ar condicionado alimenta seu calor externo. Ele cola o rosto no vidro. Junta seus lábios, beija-o deixando uma marca tatuando a superfície lisa que separa a cidade dele. Ele dá um passo para trás como se despedisse. Mais um e outro. Vira-se e pega suas roupas que estão jogadas no território alheio. Com uma preguiça maior que a verdadeira, ele se veste, no chão um corpo também nu, desfalece.
Ele anda pelo lugar, um apartamento enorme, com corredores pequeninos que afunilam cada vez mais que se projeta por entre eles. Sente ainda calor. Suas roupas pesadas de inverno alimentam-se disso. Ele sua. Sua pele exala cheiro de suas entranhas e de sexo. Vai ao banheiro e abre a torneira, mergulha as duas mãos na água fria e depois as junta ao rosto que se contrai. Ele se vê no espelho, analisa a barba por fazer. Sai.
Volta para o recinto onde encarava a cidade, quase como um provocador, instigador pronto para a briga. No chão, o corpo ainda nu com o dorso para baixo. Se move. Ele acha. É a respiração macia, cadenciada. Observa com cautela. Um voyer. Analisa. Ele está excitado, mas imóvel. Deita-se, por cima do corpo no chão, vestido e acaricia as costas nuas até o cóccix. O corpo tem forma e conteúdo. RG e CPF. É uma mulher escondendo seu rosto entre o tapete, cabelos e suas roupas. Não abre os olhos, mas ouve-se o estalar do maxilar ao sorrir com satisfação. Ele a beija no pescoço e ela se arrepia. Sussurra ao seu ouvido, palavras tão íntimas quanto verdadeiras. Ela vira a cabeça um pouco para que sua boca seja alcançada e o beija. Volúpia. Tesão. Sentimento. O que for. Ele ergue-se apoiando as mãos e flexionando os joelhos para dar impulso e ficar em pé. Ela retorna a posição abrigando-se na almofada caída bem ao lado.
É final de mais um dia. Desses que se amontoam. Ele sai pela porta deixando o calor do ambiente e o dela. Desce as escadas, um, dois, três andares a passos largos, como se saltasse. Chega à rua. Enfrenta os transeuntes com ar de desdém. Olha para cima tentando ver se no céu ainda reinava o Sol. A noite já predominava sua escuridão. Trazia o vento e os corpos nas ruas se abrigavam dentro de seus casacos. Ele ficou no meio de tudo isso abrindo os braços esperando a colisão do impacto do final do dia. Mas protegido entre todos os estilhaços e arranhões do seu Universo.

Saturday, August 07, 2010

Uma Estória.


Num dia cinzento daqueles que o inverno se orgulha, permaneço no meio da rua sentindo o movimento dos carros e o ruidoso trânsito de pessoas. Olho para cima e tenho a nítida sensação que todos fazem um círculo a minha volta. Não olho para os lados e nem abro os olhos. Estou com a cabeça erguida, tronco ereto e aos poucos vou estendendo os braços pra cima. Uma garoa fria cai como que ensaiada. A platéia a minha volta vê tudo sem dar muita atenção. O círculo se movimenta com a mudança de pessoas.
É um longo processo de amadurecimento cada dia. Hoje nesse dia onde sou uma atração apagada no meio do centro da cidade, me faz perceber que já não sou o Peter Pan que sempre carreguei nas costas esses anos todos. Eu consegui finalmente derrubá-lo, contra a vontade. No chão o personagem tenta voar ajudado pela sua sombra, mas em minhas mãos retorna o meu taco de beisebol que zuni com força e acerta em cheio suas pernas. Ossos estilhaçados e juntas danificadas de um imaginário mundo. A sombra foge deixando para trás a patética imagem do passado de estórias criadas em histórias que nem vale muito a pena lembrar, só quando a solidão se fizer presente teimosamente. Está diante de mim um eu que está sendo apagado a duras penas com uma borracha. A sombra do personagem se esconde atrás de uma árvore ali perto, pronta para se achar segura e retornar, mas Peter Pan está cansado, envelhecendo, amadurecendo traçando em sua cabeça os novos caminhos. Não precisa voar para a Terra do Nunca. Ele tem agora a idade certa para acelerar em chão firme para o que está logo ali. Pode correr, tem força e velocidade para isso. Pode ir mais rápido, de carro, de motocicleta, de ônibus, de trem não importa. Ele agora só tem que ir em frente. E eu vou segui-lo até passar por ele.
Ele já tinha arrancado as asas da Sininho deixando-a presa a ele, enquanto eu bebia vinho com o Capitão Gancho ouvindo o tique-taque do relógio aumentando todo o dia. Ríamos disso tudo. A submissão dela e o medo do arrogante malfeitor. Saímos empurrando os Garotos Perdidos ensinando os caminhos errados para cada um deles. É, e o crocodilo acabou aparecendo me fazendo encarar muita coisa num espelho sem reflexo; porém Peter Pan voava por aí.
E o dia já não parece tão gris. Um resquício de um Sol tímido vem surgindo no meio de tantas pessoas que falam sobre o contumaz modo de vida. Sinto o calor no rosto e esboço um sorriso de canto de boca. Peter Pan manca ao meu lado com cara de poucos amigos e no seu coração palpita um tremor do que virá. De soslaio, arremedo um ar de confiança. Ele é meu adversário, me ajudou a viver um lúdico mundo, mas agora sou eu que vou levá-lo para um outro.
O personagem segura no meu ombro e quase suplica que eu o carregue. Eu me desvencilho de sua mão trêmula e aponto sem dizer uma única palavra para frente. Deixo ele seguir a poucos metros sozinho. Ele para, hesita, abaixa a cabeça. Eu debocho com uma risada mastigada. E em seguida o empurro com força que o faz cambalear, pois suas pernas ainda estão machucadas. Ele se vira e eu apenas o abraço.
Não sei o que será daqui para frente; só sei que nada mais será o mesmo. Que venha o futuro. Ambos rimos como dois velhos conhecidos.

Saturday, July 17, 2010

À Sombra da Exceção


Aquele tapa que ele levou dela com sua mão aberta e com o giro do seu corpo desferindo não só um golpe com força, mas toda a mágoa que o passado poderia trazer. E o rosto dele se contorceu pela dor, pelo impacto e por essa mágoa. Veio carregada, com excesso de bagagem. O movimento fez seu rosto virar com seus olhos abertos e ele se viu folheando um livro com todas as páginas escritas das histórias detalhadas repletas de diálogos, silêncios e muitas cenas. Umas belas; outras ( se pudesse ) as rasgaria da mente.
Aquele grito que desferiu diante do rosto dela, apertou muito mais seu pescoço do que se ele agarrasse com suas mãos ásperas. Ele falava sem parar. Ele chorava conjugando mais verbos. Misturava seu nome aos nomes que vinham não da sua cabeça, mas da dor que ele expressava tão apertado quanto as palavras que a estrangulavam, de seu peito. Ela quieta, séria olhando para os lados de braços cruzados. Ele, acintosamente, gesticulava tentando segurar a si mesmo. Desmoronava. Ruía. Mas estava buscando o olhar dela para que ela entrasse em seu peito e visse a casa violada.
Depois do golpe, ela tremia. Não falava, segurava as lágrimas cerrando os punhos nos braços estendidos junto ao corpo. Ele se via diminuto diante dela. Uma gigante. Uma mulher nas alturas, no cume do mundo com o Sol atrás dela falseado pelas luzes da sala. Ele estava a dois passos para trás da frente dela. O receio de levar mais um tapa o estremecia de ponta a ponta de seu corpo maior e mais forte que o dela. Porém, nunca sentira tão fraco, com as pernas bambas. Não era medo. Vergonha. Arrependimento. Culpa. Tudo ao mesmo tempo sacudido dentro de um recipiente e despejado no piso frio. Ela esperava que ele dissesse algo. Que fizesse algo. E qualquer que fosse a atitude a ser tomada ela embargaria de ímpeto da melhor maneira ruim que viesse a sua cabeça.
Ele estava rouco e as lágrimas já lavavam seu rosto enrugado de olhos inchados. Ele dizia que não entendia. Que queria paz dentro dele. Que não agüentava mais. Estava enlouquecendo, segundo suas palavras. Ela continua olhando para o lado. E esboçava algumas palavras contra-argumentando as opiniões dele. Ele balançava a cabeça, incrédulo. Ela não entendia uma só palavra que ouvia. Dizia, ela, que não tinha segurança e agia da forma que bem entendesse. E quando ela, finalmente, tivesse uma amostra real de tudo, mudaria. Ele sentou numa cadeira ali perto. Abaixou a cabeça, trespassou os dedos entre os fios de seu cabelo. Disse que mudara, fizera tudo por ela. Ouviu-se um suspiro dela que o feriu como se o cortasse com pedaço de vidro grosso sem ponta que é pressionado na pele até conseguir fazê-lo sangrar. E cada qual ficou em suas histórias remoendo feridas e escrevendo mais páginas. Incluindo partes, rasurando outras, colocando entrelinhas, sujeitos indeterminados e ocultos, pausas longas. As páginas não ficam em branco, isso é certo. Uma novela de acasos por um destino criado. Em momentos ímpares para se tornarem um par. E sempre atrás não de um final, mas de um recomeço feliz.

Thursday, June 24, 2010

Quebrando a Espinha do Dragão


São Jorge de vez em quando perde seu dragão por ai. E ele acaba entrando na vida de qualquer um. Todos temos um dragão pelo caminho. Seja um problema, um motivo, uma pessoa. Não é uma questão estética, mas uma forma de encarar a vida. E na vida encontra-se o ninho de todos os dragões.
E assim como ele, nós estamos em constante e eterna luta contra o dragão. Mas sem defesa. Sem saber como agir. Os Santos estão na arena, enfileirados, ao redor nos vendo como se fôssemos São Jorge. E lá no fundo está ele, o próprio, só nos olhando de soslaio e com uma mistura de confiança e decepção.
Você reage. Ataca. Se defende. Se esconde. O dragão se manifesta, suspira, aspira e dispara o fogo de suas entranhas. Nos chamuscamos. Nos ferimos. Nós ferimos. E continuamos na ostensiva defesa à mercê da imensidão do oponente. Cada minuto cresce, aumenta sua força, intensidade e virulência, enquanto buscamos o ar, o otimismo e a esperança que o atingiremos em cheio. Buscamos a espada, um escudo, uma pedra. Nada. Deixamos de lado a razão e a emoção. Queremos ficar calmos mesmo com a pressão da sombra dele bem perto alongando seu espectro em torno. E o dragão se aproxima caçando, farejando, marcando o caminho e retirando tudo que possa impedi-lo. Ele só tem um obstáculo: você! E isso o irrita. O deixa mais furioso e faminto.
Não adianta fugir. Você pode passar a vida fugindo, mas o dragão o seguirá com suas enormes passadas estremecendo o chão logo atrás. Quando você cansar, ele dará apenas uma baforada às suas costas. O calor o fará correr usando os resquícios de energia que lhe restam e verá que ainda terá mais força. Mesmo no seu limite, você conseguirá correr mais um pouco. E um pouco mais se precisar. Nunca parando tempo demais. Nunca desistindo. E o dragão sabe disso, tem paciência.
E o dragão é um símbolo masculino oriental. De sucesso. De império. Ocidental ele se torna mal, cruel. Feminino. Ele pode ser benevolente assim como o mais impiedoso. Sua forma se deforma de acordo com os receios e vontades que se apoderam da vida, o grande ninho dos dragões. Você tem que parar de correr deles. Está na hora de ir ao encontro deles, os caçá-los. Daí São Jorge não terá mais esperança, acreditará; e, não haverá decepção, mas redenção à glória.
Quebre a espinha do dragão. Mais um dia. Não desista.

Thursday, June 03, 2010

PORTA-RETRATO


Ele chegou em casa hesitante como todas as noites. Ele perdura na rua fazendo ou arranjando coisas para demorar até a hora de ir para casa. Abre a porta e a primeira coisa que faz é soltar um longo e ruidoso suspiro. Caminha pelo hall de entrada já deixando o casaco e a mochila perto do sofá da sala de estar. Vai até a estante recém comprada e liga o aparelho de som. Leva alguns minutos para achar entre seus cds, dvds e discos de vinil algo que lhe agrade. Acha e coloca no cd player. Ouve os primeiros acordes fechando os olhos e regendo com a mão direita a melodia. Vai até a cozinha. Abre a geladeira e pega uma maçã que abocanha quase que de uma vez só e uma cerveja. Gira a tampa de rosca e a bebe com uma certa volúpia e rispidez num longo gole. Sorvendo.
Continua caminhando pelos ambientes e não abre nenhuma janela sequer e nem acende todas as luzes. Vai tateando no breu. Chega até seu quarto e deita-se no sofá-cama emprestado. Ainda não foi ver a cama. Se joga como um saco de batatas causando um barulho e ao mesmo tempo empurrando o móvel um pouco. Olha para cima e estica os braços como se quisesse pegar alguma coisa no ar. Sorri. Senta-se. E de imediato se levanta. Vai até a sala novamente, a única peça que tem luz no momento. Fica em pé e olha para uma pequena mesa. Vê ali, um porta-retrato com uma fotografia que ele lapidou os defeitos de impressão num programa de edição de imagem como o photoshop. Ele não retirou nada da imagem, apenas deu mais cor, retirou uma sombra aqui ou falha acolá. Mas a fotografia é crua e nua. É ela com todos os defeitos de quem ali está. Todos temos defeitos. Ele conversa algumas coisas inaudíveis. E não ouve as respostas às perguntas que faz. Fala do seu dia. De estar cansado. A campanhia da porta toca aguda.
Eu chego. Quando ele abre a porta, uma mescla de desânimo e alegria, se fazem presentes. Me sinto tão bem quanto indesejado. Um penetra numa festa privê. Tento dissimular e já entro falando alto. Perguntando porque toda aquela escuridão. Ele abaixa a cabeça e diz que chegara à pouco. Tudo bem, respondo, convido para sair e beber uma dúzia de cerveja. Ele diz que parou de beber muito. Eu concordo e insisto no convite. Ele arfa. Mas concorda. Diz que tem que colocar umas roupas de molho no balde. Apenas encolho os braços. Nesse meio tempo dou uma checada na nova moradia. Vejo que está impecável. A sala com os poucos móveis mas todos sem poeira. Tudo em ordem. Na cozinha parece que nunca foi usada. O fogão sem nenhum respingo de gordura. Na pequena mesa um porta-retrato. Não sei o que dizer. Não sei se devo dar um safanão nele ou deixar o amigo ver as coisas com mais clareza com o passar dos tempos. Agora eu é que dou um suspiro longo e doloroso. Resolvo chamá-lo para que se apresse. Ele me xinga dizendo que já vem. Enfim, surge.
Já estou na porta. Olho para trás e o vejo de frente para a sala. Parece que ele fala algo. Parece que ele espera por algo. Imagino. Vejo que horas são no meu relógio. Percebo que também estou esperando.

Friday, May 28, 2010

Saltando do Trampolim


Eu cheguei até a ponta do trampolim. Ainda vestido, mas sentindo o arrepio do vento. Aqui é alto. Calculo uns dez metros até a água. E depois cinco metros de profundidade. Se eu me lembrasse como da fórmula da velocidade, distância, massa, tempo poderia saber o que pode acontecer. Vejo o horizonte pequeno. Distante. Olho para baixo e imagino que a água da piscina está fria.
Continuo a olhar ao redor. Esperando que toque o telefone como se eu estivesse numa cadeira elétrica com a contagem regressiva para acionar a chave de força. O algoz aguarda os segundos exatos. Na parede, o telefone não grita, com a absolvição do governador não vem. É um bom argumento para um filme já revisto por ai. Espero muito mais. Cheguei a esperar até o último minuto. Me atrapalhei em tantos momentos nesse tempo todo que se eu falasse gaguejaria. Me enganei até agora. Fiquei sentindo mais pena de mim do que estava em jogo.
Quando cheguei em casa, sozinho, coloquei a chave na fechadura, girei a maçaneta e fechei os olhos. Quando entrei, não havia ninguém. Mais um passo à frente. Agora bem na beira do trampolim. O ar fica mais frio. Agora ali dentro vou me localizando. Acendo as luzes que teimam um pouco para surgir nas lâmpadas já se entregando. Nas paredes quadros recém postos. Cores claras mesmo na escuridão. Porta-retrato com a fotografia do amor que mora dentro do lugar mais seguro que tenho. Meu abrigo. Já tinha aberto as portas desse abrigo. A chave está aqui. É só pegar e seguir junto. Continuo caminhando. Sinto o ar gelado do alto do trampolim. No corredor vou até o fim do apartamento. As janelas estão fechadas, mas vou abrindo uma a uma. Uma tristeza teimosa fica sussurrando ao meu ouvido. Mas dou passos mais largos, quase acelerando. Queria tantas coisas. E chego finalmente na última peça. Lá a luz está acesa e o quarto colorido.
Ouço um pequeno choramingo. Uma mulher sorri. Em seus braços um bebê recém nascido que mama em seu peito. Entre caretas de ambos me aproximo. Ela de dor e dele por fome. Estou já me equilibrando no trampolim. Abraço ambos como consigo. O vento já não é tão frio, mas bem mais forte. Salto. E vou caindo direto na água. Rápido, acelerado. O bebê me olha com os olhos arregalados. A mulher sorri. Eu caio em pé na piscina e vou para baixo. Vou me ajeitando para mergulhar e tocar o fundo da piscina. Bolhas de ar saem da minha boca e a pressão pressiona os ouvidos. Chego no fundo e inicio a volta. É difícil. A água está mais pesada. Mas vejo a luz logo acima. Meu coração está acelerado, sim não posso perder mais tempo, não permitindo que meus pulmões tenham calma para segurar o ar. Os braços se agitam. Uso toda a minha força. O tônus muscular se contrai a cada movimento. Estou próximo. Enfim, cheguei ao topo, sinto o ar e abro a boca com todo afã, meio me engasgando, chego a vomitar com o excesso de água. Estou boiando na água. Abro um sorriso. Pego meu filho nos braços e ele segura minha mão. Transformação. Meu apoio. Meu processo de nascimento. Batizado.

Friday, April 30, 2010

Nas Paredes do Labirinto



O menino olha sua mãe colocar lençóis nos varais que se entrecruzam. Ele olha de baixo para cima e os vê tremulando sob a batuta do vento suave, uma brisa tímida. A mãe o olha e o deixa em suas divagações. Ele cria teorias e teses ao analisar os tecidos brancos esvoaçando. Mundos para serem descobertos. Impérios com suas fronteiras protegidas. Castelos medievais abandonados. Enormes torres onde não se via seu cume. São mais do que isso; são paredes de um enorme labirinto suspenso. Ele consegue enxergar por baixo deles, mas por cima se perde apenas no olhar. Ergue a cabeça e tenta em vão titubear um caminho estendendo os braços para frente com as palmas das mãos bem abertas. Ele percorre o seu itinerário. Um andar cego.Seu coração acelera com a angústia e adrenalina aumentando.

Continua a passos lentos nem tão firmes, tropeçando sem olhar para o chão, os olhos vidrados nas “paredes”, formada por lençóis, que se agitam cada vez mais com o vento que se manifesta já assobiando. O menino não percebe para onde vai, mas segue. Ultrapassa uma boa parte de sua trajetória chegando ao final do último varal. Ele agora estava no meio, sozinho, entre todos os varais esperando pela saída. Chegara no meio do caminho ou finalmente, alcançara seu objetivo. Olhava ao redor. 360º graus trazendo de volta ao mesmo ponto de observação. Uma verdadeira encruzilhada. Um enigma para ser resolvido. Onde ele poderia ir naquele labirinto de panos suspensos. Ao seu redor só tinha o vento como parceiro. Ele revirava a cabeça vendo os lençóis planando presos por prendedores de madeira. O menino ficou na ponta dos pés tentando alcançá-los, no mínimo com a intenção de agarrar os lençóis e puxá-los derrubando as paredes que o separavam do mundo desconhecido. Sua glória ao derrotar as tropas dos impérios ali escondidos. Mas apenas seu esforço não permitia, nem isso o fazia desistir. Quando ele, finalmente, deixara o cansaço e a resignação vencê-lo, duas mãos o agarraram pela cintura e o ergueram ao céu. Indo quase ao encontro do Sol a pino.

Sua mãe estava ali ao seu lado o tempo todo, o vendo a uma certa distância, com o ar de admiração e orgulho por ver seu esforço, sua imaginação fomentada e sua obstinação incansável em tentar se superar. Ela o colocou na altura suficiente para que ele pudesse arrancar com uma certa delicadeza, os lençóis de seus prendedores. Ele – com um sorriso arreganhado – olhando direto para a sua mãe e a abraça feliz. Seguro. Os dois sempre juntos. Ela ao seu lado sempre. Para o que ele precisar.

Lembre-se disso menino!


Sunday, April 04, 2010

Anonimato


O homem com o terno de risca de giz para na frente da loja olhando, num prisma, para um par de tênis e ao mesmo tempo ajeitando os cabelos desalinhados por natureza e vontade. Ele é meu amigo. Um grande amigo. Abaixa a cabeça olhando seus sapatos pretos de bico fino, os esfrega com o olhar no primeiro momento, logo após os passa gentilmente na parte posterior da panturrilha. Ele é um homem com a sua história em movimento. Ele diria para mim numas de nossas longas conversas “idéias em movimento”; e eu concordaria com um sorriso muito além da satisfação do reconhecimento. O anonimato é seu melhor escudo, por isso seu nome mais nada é do que uma identidade sem foto no meio da multidão que passa ao seu redor em desdém.
Ele é um homem em transformação. Em mutação, brincaria. Um cavalheiro errante em busca do seu Santo Graal, seja lá o que ele procure, sua busca não termina. Quando achou e ainda tem certeza que o encontrara, se perdeu na sua teimosia ou nos obstáculos que a vida o colocou. Deu de cara com o dragão que surgiu para espantá-lo. Precisou de ajuda. Correu para o canto do mundo e ficou aguardando o auxílio, ficou correndo atrás de saídas desse labirinto, como respiraria embaixo da água, quando mergulhou fundo. Girou a cabeça, aprendeu a chorar e reconheceu os erros. Cometeu (e os repete) mais e mais, isso é notório, mas com a intenção de acertar. Ele próprio diz, “o inferno está cheio de intenções, sejam boas ou não e não é um lugar tão ruim assim...”; é ele tem razão. Nunca temeu nada. Mesmo quando teve medo. Ainda tem. Chutou para cima muitas coisas e acabou acertando sem querer algumas pessoas. Quer um afago. Se sente melindrado. Disse que está cansado, cansado por não ter ninguém que o apóie, que as pessoas que ele queria que mais lhe dessem força o deixaram de lado chamando-o de infantil. Não vê quantas pessoas o apoiaram. Ele sabe disso. Mesmo com seu terno alinhado, de risca de giz, acredita na sua explosão. Não vai oferecer um cachorrinho branco para seu agrado e nem vai conquistar você por gestos de grandeza, uma viagem, um passeio de barco, uma volta de jet ski, um salto de pára-quedas. Crê que deve conhecer e ser conhecido nessa busca. Ele só tem a ele para “vender” e não digo do corpo e nem da alma, esta última já tem quem a possua. Isso já é sabido e nunca será segredo. Não vai mudar com o passar dos tempos. Acreditar nele é a única coisa que o incentiva. Sozinho?! Os seus amigos estarão ao seu lado, nem sempre serão os melhores conselheiros, mas estarão ali. Quando a vida, com seus algozes, o derrubar mais de uma vez como está fazendo nesses dias, eles estarão lá. Um ao lado do outro num exército.
Ele espera que o telefone toque, que algo o surpreenda positivamente. Que fez a escolha certa de quem o apóie. Mas o aparelho está mudo. A conta cortada, ele colocará em dia, mas pode receber ligações. Sente-se que doou mais. Há amargura. É óbvio que sente pena de si. E eu entro em ação. Com palavras nada sutis, o esmurro com as frases mais obscuras que o sacudam. Ele chora, na minha frente, um homem de porte médio, forte fisicamente, de personalidade idem que pode entrar numa briga com dois homens dobro do seu tamanho e derrubá-los com seus golpes sem levar nenhum arranhão. O vi já correr direto para cima de cinco homens mais jovens que ele, sozinho, desmoronar com a parede que o quinteto formara. Ajudar os amigos para fazer uma mudança de um apartamento a outro carregando tanto peso que você não possa imaginar ao ver. Parece que quer carregar o mundo, mostrar que pode com ele.
Sua última ação tempestiva, ao ter uma discussão com o amor da sua vida, após se sentir humilhado pela conversa, pelo que foi dito, saiu em disparada pela rua como um animal sem coleira, um pitbull sedento de sangue e num dos rompantes nada engraçados da vida, sob as linhas dos cordões das calçadas da cidade, caminhava lento, olhando para frente sem ver nada com a cegueira da raiva e da tristeza como lanternas. Um trio caminhava do lado contrário ao seu, rindo alto, dois homens, um mais corpulento, outro mais esguio porém com porte e uma mulher também com ares nada pequenos. Um deles chutou algo, uma lata que bateu na sua perna, quando se aproximava. De imediato chutou de volta com força, acertando a mulher. Os dois homens vieram tomar satisfação. O primeiro, o mais gordo, gritava e tomou um soco na cara, sangue, e continuou a falar, recebendo outro soco que entrou em sua boca, característica que os dentes se foram. O outro homem veio e tentou agarrá-lo, ele girou o corpo do homem sobre o seu e segurou o braço do seu agressor até dobrá-lo quebrando-o. Saiu caminhando um pouco mais rápido, enquanto a mulher gritava com os dois ao chão. Ele me contou isso chorando. Passou a noite, sozinho e bêbado com dor na consciência e no coração. Hoje ele tem o vazio de estar sozinho, sem o coração. Me olha pedindo que eu fale algo pertinente, uma piada que ele possa rir. Algum incentivo. Sabe que eu não o faria beber a toa. Vamos por um basta nesses excessos. Chega de bengalas. Não quer que o vejam mais como um moleque. Ele precisa vencer todos os torneios que o colocarem, seja onde for ou com quem for. Vai continuar precisando da sua torcida mesmo que ela não esteja presente no local. Sabe que é um guerreiro, só está fraco e ele não é um fraco. Digo isso para ele todos os dias. Já não sorri com alegria. Sorri por reflexo. Os cabelos já tardam em apressar o grisalho. Continua forte, mas tem seu ponto fraco bem latente como uma cicatriz que se abre com qualquer movimento seu.
Eu quero que ele entenda que é só uma fase, mesmo que dentro dessa fase haja partes que ficarão abertas em compartimentos. Sua única e maior cicatriz. Ele sentirá. Todos os dias. E quando esquecer será prontamente lembrado quando ela doer ao deitar-se ou acordar. Seu Graal está perdido sabe-se lá por quanto tempo mais. Mas haverá uma dádiva divina, crê. Eu faço ele ter fé. Estarei ao seu lado, meu velho, quando você cansar de socar o desânimo, eu o farei por você. Porque estarei diante de você no seu espelho.

Tuesday, March 30, 2010

Ao Desencontro Para Encontrar o Caminho


Errar o tempo da bola mostra que você está fora do ritmo. Ela pica na sua frente, salta sobre sua perna e você a vê passar, desajeitadamente, ao seu lado. Ao desencontro do que você queria fazer.
Nem sempre o que você planeja se concretiza. Parece que a sua idéia original foi construída uma arena dentro do mar que vai afundando e você não percebe. Às vezes você tenta evitar maiores transtornos cometendo pequenos delitos para que tudo dê certo. Na sua óptica não tão particular assim, mas daí falta compreensão geral. Como num estádio onde a torcida espera que seu time vença a partida nem que seja por um placar magro de 1x0. E daí vem o empate com o gosto de derrota e as críticas avassaladoras. Alguém no meio da multidão vai para outro lado. Sai do seu caminho que estava sendo traçado e canta o hino ao inverso. De novo, ao desencontro.
Você tem que abrir mão de alguma coisa em algum momento da sua vida. Deixar de lado as farras, fanfarras e outras fugas que se consegue a granel no cardápio que a vida traz com os números para os pedidos e o preço que se paga por isso. Tem que passar do estágio de aprendiz da vida para doutor, especialista em situações diversas do mundo adulto. E não é fácil. A idade nada mais é do que uma máscara que o tempo maquia no espelho enganando a todos. E já temos como mudar isso. Nada que uma cirurgia plástica não remova essa ideia. Você pode listar rápido uma dezena de coisas que você faz de errado. E mesmo assim continuará fazendo porque se considera livre, que é seu jeito de ser. Vou contar algo que talvez muitos não saibam ou estejam pouco se lixando: Você não é livre! Quando opta por escolhas deixa muita coisa para ser posta para fora com o lixo matinal. Um namoro, um casamento, um filho, um novo trabalho, um jogo, uma briga, tudo vai lhe proporcionar um emaranhado de opções que cairão nas teias de uma aranha que vai enrolar seus braços prendendo você no ar esperando a hora de devorá-lo. Um boneco, uma marionete com seus cordões suspensos. Será o Pinóquio com suas histórias de intermináveis mentiras.
E o jogo continua. Mesmo que não seja um jogo para você. Segue o caminho e sabe que volta e meia tem que alterar a forma de caminhar. Vai correr; outras vezes andar bem devagar. Mas vai prosseguir. Usar a força. Também sabe que tem momentos que será delicado. E no meio dessas idas e vindas, se perde na linguagem. Não é compreendido, não o entendem. E você também não. Cabeça dura demais. Batem em você duro demais. Só que você sabe o que quer, alguns instantes hesita, mas sabe. E vai ao desencontro para encontrar o caminho. Mudando de direção, mas nunca perdendo o rumo que é estar com quem você quer. Hoje, amanhã e depois.

Thursday, March 04, 2010

PAUSE!


Ele acordou tarde. Abriu as janelas ao mesmo que abria os olhos. Sem camisa coçava a barriga saliente. Sacudiu a cabeça como que tenta tirar todos os pensamentos ruins ou ajeitar as coisas em seus respectivos lugares. Hoje ele tinha seus planos. Tinha combinado a sua festa que tanto estava planejando. Olhou a mesa da sala e começou a arrumar o ambiente. Tinha ido ao mercado na noite anterior e abasteceu a geladeira de todos os tipos de bebida. Álcool não seria problema. Alguns refrigerantes sem açúcar. Sempre alguém pede isso mesmo que coma além da conta todo o tipo de fritura que for colocada a sua frente. Queria agradar a todos e que ninguém ficasse sem o que merece.
Planos. Passou boa parte da semana pensando como fazer ou quem convidar. Convidou os amigos diversos. Ele só enxergava, com os olhos fechados, o rosto de cada um e seus nomes iam borbulhando. Eles foram chegando mais rápido do que o por Sol programara-se. E assim tocavam a campanhia e povoavam a sala de estar. Ele não se lembrava dos nomes completos e chamavam apenas pela letra inicial. Criara seu código de reconhecimento. De cabelos ralos à base da máquina dois e com uma calvície quase franciscana, de cara redonda, sorriso de ponta a ponta, mãos pequenas, piadas na ponta da língua e olhos arregalados como se eles quisessem sair do seu corpo, L, se ambientava ensinando como sambar, explicando como o fizera na sua temporada de final de ano em Punta Del Este, “mira, mira, muchacha, um passito la derecha, um passito la esquierda, acelera...” O riso foi geral. Ao seu lado o paulista japonês, S, com sua barba por fazer e sua incansável verborragia desenvolvia todo um discurso, procurava ao seu redor um cinzeiro para deixar cair cinzas do cigarro, tatuagem na mão direita, braços finos quase sem músculos, cabeça grande, parecia um pirulito com pernas, ou aqueles desenhos de palitinhos que são feitos em teste psicotécnicos, misturava o carioquês construindo com a convivência com outros, na paulicéia de suas frases, usava a todo momento o seu bordão “ eu boto!” referindo-se a qualquer saia que cruzasse seu caminho; ao seu lado, F, o mais contido com o sorriso que não saía do rosto, franja puxada para frente dando um ar de Nero, ria dos dois amigos( ou pelo cigarro que não é aceito por aí ), com a barriga levemente avantajada pela total falta de exercícios, cara limpa, brincando com o isqueiro num abre-fecha irritante segurando uma lata de cerveja que pingava no parque. K, era loira com o namorado segurando um copo de frisante que contornava frases no ar assim como a bebida que caia no piso, conversava com a mais nova grávida do grupo, LS, sobre como a humanidade poderia ser dizimada e o mundo ser povoado por animais de estimação, as duas aos risos altos, diziam em coro “Morra verme!”. O namorado, G, olhava atônito pedindo aos deuses que o tempo passasse e ele fosse para casa deitar-se na sua cama numa sinfonia de flatos e roncos, descansar. Ao seu lado, com o olhar parado pelo excesso de trabalho e do mesmo cigarro que F se encarregara de carregar no bolso esquerdo da sua calça, J, ao lado da esposa que ria das amigas em pé à sua frente, imagina um novo set para as novas fotografias que deveria realizar num trabalho pendente. Suava aos cântaros pelo peso fora dos padrões ou pelo rápido lanche que fizera antes da festa. Mais um sintoma do seu estado de desânimo quase catatônico. Havia R, o marido de LS, bebia como um bárbaro, sem controle, abraçou-se numa garrafa de tequila e a bebericava num canto com doses homeopáticas junto com goles e goles de cerveja, dizia para quem quisesse ouvir: “ Dar um tapa na orelha do Diabo..” referindo-se ao que poderia acontecer. S, volta e meia o chamava de “caixa d´gua” devido a sua cabeça grande. E tinha como retribuição um olhar quase destruidor. O dono da festa olhava tudo sem se meter, ouvia cada conversa com parcimônia.
De repente, outras pessoas foram surgindo. Uma mulher de vestido colado ao corpo rebolava segurando o pilar, como se ali realizasse um “pole dance”; no outro canto um homem mais velho, beirando uns 50 anos, de terno branco olhava os pôsteres de filmes noir, duas mulheres de roupas de ginástica, daquelas de academia bebiam energéticos ao lado de dois brutamontes fardados, um casal de cabelos longos pretos assim como suas roupas olhavam a todos, sem dizer nenhuma mísera palavra. Uma senhora de meia idade segurava um pequeno cachorro. Eles transitavam entre as letras dos convidados que não davam importância de suas presenças.
O aparelho de som era molestado por cada que procurava uma música que agradasse o ouvinte. Ao perceber que o movimento aumentara e que sua sala de estar ficara diminuta, os convidados foram entrando por outras peças. Ele seguira o senhor que antes observa os pôsteres. Não o conhecia, não se lembrava, e quando chegou ao final do corredor onde o homem se dirigiu, encontrou apenas a parede. Ficou desnorteado. Ouviu um grito seguido de vozes mais altas. Aquilo estava saindo do controle, o que diriam os vizinhos?! Chegou na sala e não viu mais os brutamontes e nem as esportistas. Os amigos de letras soltas continuavam nos seus lugares. Ele coçou a cabeça. Confuso. Olhou de relance e viu a mulher que dançava ajeitando o vestido e saindo caminhando pelo mesmo corredor que o homem estava e ele não o via mais. Ela passou por ele, deu-lhe um olhar lânguido e saiu caminhando. Jogou nele sua calcinha. Deu-lhe às costas. Ele olhou para a peça íntima, demorou alguns segundos e a seguiu. Mal a via ao final do corredor. Chegou finalmente. E para sua surpresa, ela sumira. A calcinha estava na sua mão, então como explicar?! Estava bêbado. Só poderia. Voltou para a sala de estar pensando que ela ali estaria também. Não havia mais ninguém, nem os amigos de letras soltas e nem os outros. Havia no sofá, sentada, a senhora com o cachorro. Ele assustou-se. Não sabia o que dizer. Fechou os olhos. Sentiu girar toda a sala. Abriu os olhos e a senhora sumira. A sala estava toda desarrumada. Não como ele organizara para a festa. Estava escura. A televisão ligada, não havia petiscos e nem bebidas. Ele estava em pé na sala. Em sua mão esquerda segurava uma revista de mulheres sensuais. Passava na televisão um programa de vendas de aparelhos de ginástica. No canto do sofá porta retratos de pessoas mais velhas, um homem e de uma senhora. No chão o jornal trazia na manchete dois homens fardados olhando fixo. O telefone tocou. Ele olhou para o lado e o viu. Sentou no chão sem saber muito bem o que estava acontecendo e observou que havia uma agenda aberta com as letras para orientar onde estão os nomes dos contatos, haviam algumas marcadas. O telefone parou de tocar.
O aparelho de som estava ligado tocando uma música antiga. Ele levantou-se do chão e apertou a tecla “pause”.

Tuesday, February 16, 2010

Os Leões Estão Famintos Dentro da Jaula


Ele estava com o corpo voltado para o chão. Com a cara enfiada no tapete felpudo, com pequenas manchas nos cantos. Antes fora mais claro, hoje é um gelo quase bege. Ela estava em cima da cama sobre o endredon verde olhando para cima com os olhos arregalados correndo de um lado para outro lendo o teto pintado. As paredes exalavam as cores do mundo ao redor.
Ele sentia a chuva que encharcava a rua; ela suava com o calor do Sol na janela esquentando a parede.
Ambos sozinhos. Ambos antes não. Ele se sentia perdido buscando um caminho a esmo. Ela encontrara porto seguro e não pensava no que o passado podia proporcionar. Por ele correria porta afora atrás mais que suas esperanças, mas de sua vontade. Ela calara-se com o que ocorrera.
No rosto dele se escondia o disfarce de um sorriso. O dela, o sorriso saía ao natural. O olhar um pedido. Ao entreolharem-se uma hecatombe de sensações brincava. Os amigos estavam presos na teia de aranha que o destino com uma risada debochada os enrolava. Aos poucos se desvencilhavam e caíam de um lado para outro, indo para mais perto dela e mais longe dele. Os maus-entendidos começaram a derrubar as pedras do dominó sem querer saber onde começava e onde terminava cada fato. A verdade ficou do lado de fora do jantar de convidados por não ter mais crédito junto aos mesmos. A mentira ficou ao seu lado como uma parceira fazendo piadas.
A chuva aperta. O Sol torna-se cruel. Troca de mensagens via telefone celular se tornou o meio mais direto para declara-se, pensou ele. Ela em contrapartida, respondia, mas viu que não precisava mais disso. E calou-se. Ele afogou-se em suas lágrimas. Empinou o pescoço, não queria mais ficar no chão. Forçou os braços e a tensão sobre os músculos o ergueu. Seu suor e saliva tinham criado pequeníssimas poças no tapete. Do outro lado, entre paredes, prédios, ruas e casas, ela dobrava as pernas e trocava de canal através de seu controle remoto.
O passado é dividido entre o prazer de sorrisos ao amanhecer assim como cicatrizes ao fim da história. Não foi um conto de fadas e nem cantigas folclóricas de passagens ruins. Foi mais do que isso. É mais do que isso. Um lado está mais forte do que o outro. Um lado espera mais do que o outro. E quem sabe, ambos não esperam mais. A chuva que o atormenta leva o lixo rua abaixo e ele vê a esperança lavando sua vida, seus caminhos com a benção dos Santos, de Deus, pedindo proteção. Ela fica desconfortável com o calor intenso à procura de novos ares. Não precisa de alguém para ser feliz e se precisar estará pronta.
A dor é inevitável; o sofrimento opcional, diria em seus poemas, Carlos Drummond.
Isso não é um diário de bordo, mas se sentir a vontade embarque no convés ou naufrague por ai. E ser for ao meu lado com certeza estarei com um bote salva-vidas ancorado logo ali a frente.
O começo, meio, recomeço, enfim...Os leões estão famintos dentro da jaula. Querendo ou não vamos acabar abrindo suas portas.

Saturday, January 30, 2010

Nada Mais Importa


Fui surpreendido e mesmo assim nem me empolguei quando soube, não era esperado, não estava aguardando, de repente em estado de choque, paralisado. Algo estava acontecendo. E eram coisas boas! Não são lamentações; são frutos de um outro estado, o de prontidão para tudo se encaixar. Nesse final de tarde, depois de passar mais um dia de overdose de um vazio profundo, me apareceu a oportunidade de ir ao encontro da adolescência. Fui a um show – Metallica – que queria ir, me trazia boas lembranças de como eu era tão tolo quanto agora, porém na época era bem mais ingênuo.
A noite veio, depois de ir e vir até conseguir chegar ao local que fora transferido dias atrás por motivos de segurança. Olhando de fora, não vi muita coisa que diferenciasse a primeira escolha, mas estava ali não para pensar. A noite quente soprava um vento tímido mas engrandecido. A fila circulava para fora da avenida onde era entrada do local. Carros e ambulantes se dividiam nos barrancos e calçadas. Vendedores de quinquilharias empurravam qualquer objeto que trazia a logomarca da banda. A estrutura de grande porte ao palco enorme e o terreno de lama que afundavam os pés num banhado eram o contraponto. A maioria das pessoas, de preto, corriam para os lugares mais propícios para enxergar o show. Não era necessário, havia três telões de alta definição que dava toda a visibilidade possível.
O show estava preste a iniciar. Com uma lata de cerveja na mão e adrenalina no corpo ainda teimava um vazio imenso dentro de mim. E como precisasse de um antídoto que acabaria com aquele flagelo, peguei o celular e digitei a cobrar um número. Não houve resposta. Deixei apenas “bipar”. Olhei com uma certa resignação e bebi num gole só a cerveja que me ofereceram junto com uma tristeza. Demoraram trinta e tantos minutos para que meu celular tocasse. Eu ouvia pouco pela intensidade do barulho das batidas da bateria, dos gritos da platéia e pelos riffs das guitarras. Eu queria dizer que estava feliz acima de tudo porque estava ouvindo quem eu queria. Que eu a amava, faria de tudo e poderia viver com ela. Que não seria um monstro desorientado infantil que me tornara. Que a certeza do que sentia ia além de todos os erros. Que ela era a minha única escolha mesmo que não parecesse. Que nenhuma discussão poderia nos afastar tanto. Que o destino, sendo o mais sádico, nos colocaria de novo e de novo cara a cara, mesmo que nos separássemos cada vez mais. Eu gritei que a amava e ela me respondeu que também. E nesse momento explosões ocorreram como se tudo estivesse sido ensaiado.
Eu olhava às chamas incrédulo, com um sorriso no rosto, agradecendo pela noite, pela ligação, pelo que foi dito. E principalmente por saber que nos amamos. A noite encerra-se. Caminhei a pé um longo trajeto e fui com o doce sabor de uma brisa suave. Você sabe meu objetivo. Nada mais importa.

Tuesday, January 12, 2010

Não Há Ar Aqui!

Não há ar aqui. É escuro, mas há uma certa claridade logo acima. Ter forças para subir é essencial. Usar toda a força possível. O ar preso nos pulmões já não suporta mais.E o tempo está se esgotando. Os músculos necessitam de toda a energia para que se consiga subir. Ir até a parte onde há luz. Está perto, quase conseguindo e as bolhas de ar saem da boca que é forçada em ficar fechada. É a necessidade de respirar. Não poderá desistir agora. Tudo está preste a dar errado. Já deu. Existiam obstáculos, agora terá que superar muito mais para sobreviver. O ar já está se esgotando. E só há chance de chegar na parte mais clara. A salvação. Perto da superfície. E respirar.
E o que passa diante dos olhos são todos os sentidos. Respira-se sua saliva. seu perfume encharca a pele alheia. O seu suor mistura-se com o outro. O ar some dentro do outro corpo. Uma mistura química e desejo. De vontades e esperanças. De início e fim de um para o outro.
De todas as fugas se criam as maiores desculpas que se consomem o ar. Sufocamos. Abrimos os braços. O ar não vem. Os pulmões contraem-se numa luta desesperada na busca de energia. A visão torna-se turva. Os movimentos atabalhoam-se. Nada está no seu lugar. O ar não existe. O ruído agonizante perpetua na garganta seca criando uma máscara. No rosto se percebe os sinais vitais sumindo. A boca, ainda aberta, permite apenas que o desmaio seja ecoado pelo vazio do espaço aberto.
Está dentro da água. Os olhos abrem-se de relance enquanto se cai cada vez mais para o fundo puxado por uma correnteza mais forte. A boca aberta ingere tanto líquido que os pulmões já não reagem. Está indo para fundo pesado, mas ainda com os olhos abertos. Não há ar aqui. Mas os olhos vêem a superfície luminosa se distanciar. Observa suas mãos e braços estendidos ao longo do corpo inertes. As pernas idem. Cai. E não para. Não tem reação e nem ação.
Na água também há oxigênio.
Vá aprendendo a respirar.