Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Tuesday, February 16, 2010

Os Leões Estão Famintos Dentro da Jaula


Ele estava com o corpo voltado para o chão. Com a cara enfiada no tapete felpudo, com pequenas manchas nos cantos. Antes fora mais claro, hoje é um gelo quase bege. Ela estava em cima da cama sobre o endredon verde olhando para cima com os olhos arregalados correndo de um lado para outro lendo o teto pintado. As paredes exalavam as cores do mundo ao redor.
Ele sentia a chuva que encharcava a rua; ela suava com o calor do Sol na janela esquentando a parede.
Ambos sozinhos. Ambos antes não. Ele se sentia perdido buscando um caminho a esmo. Ela encontrara porto seguro e não pensava no que o passado podia proporcionar. Por ele correria porta afora atrás mais que suas esperanças, mas de sua vontade. Ela calara-se com o que ocorrera.
No rosto dele se escondia o disfarce de um sorriso. O dela, o sorriso saía ao natural. O olhar um pedido. Ao entreolharem-se uma hecatombe de sensações brincava. Os amigos estavam presos na teia de aranha que o destino com uma risada debochada os enrolava. Aos poucos se desvencilhavam e caíam de um lado para outro, indo para mais perto dela e mais longe dele. Os maus-entendidos começaram a derrubar as pedras do dominó sem querer saber onde começava e onde terminava cada fato. A verdade ficou do lado de fora do jantar de convidados por não ter mais crédito junto aos mesmos. A mentira ficou ao seu lado como uma parceira fazendo piadas.
A chuva aperta. O Sol torna-se cruel. Troca de mensagens via telefone celular se tornou o meio mais direto para declara-se, pensou ele. Ela em contrapartida, respondia, mas viu que não precisava mais disso. E calou-se. Ele afogou-se em suas lágrimas. Empinou o pescoço, não queria mais ficar no chão. Forçou os braços e a tensão sobre os músculos o ergueu. Seu suor e saliva tinham criado pequeníssimas poças no tapete. Do outro lado, entre paredes, prédios, ruas e casas, ela dobrava as pernas e trocava de canal através de seu controle remoto.
O passado é dividido entre o prazer de sorrisos ao amanhecer assim como cicatrizes ao fim da história. Não foi um conto de fadas e nem cantigas folclóricas de passagens ruins. Foi mais do que isso. É mais do que isso. Um lado está mais forte do que o outro. Um lado espera mais do que o outro. E quem sabe, ambos não esperam mais. A chuva que o atormenta leva o lixo rua abaixo e ele vê a esperança lavando sua vida, seus caminhos com a benção dos Santos, de Deus, pedindo proteção. Ela fica desconfortável com o calor intenso à procura de novos ares. Não precisa de alguém para ser feliz e se precisar estará pronta.
A dor é inevitável; o sofrimento opcional, diria em seus poemas, Carlos Drummond.
Isso não é um diário de bordo, mas se sentir a vontade embarque no convés ou naufrague por ai. E ser for ao meu lado com certeza estarei com um bote salva-vidas ancorado logo ali a frente.
O começo, meio, recomeço, enfim...Os leões estão famintos dentro da jaula. Querendo ou não vamos acabar abrindo suas portas.