Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Tuesday, March 30, 2010

Ao Desencontro Para Encontrar o Caminho


Errar o tempo da bola mostra que você está fora do ritmo. Ela pica na sua frente, salta sobre sua perna e você a vê passar, desajeitadamente, ao seu lado. Ao desencontro do que você queria fazer.
Nem sempre o que você planeja se concretiza. Parece que a sua idéia original foi construída uma arena dentro do mar que vai afundando e você não percebe. Às vezes você tenta evitar maiores transtornos cometendo pequenos delitos para que tudo dê certo. Na sua óptica não tão particular assim, mas daí falta compreensão geral. Como num estádio onde a torcida espera que seu time vença a partida nem que seja por um placar magro de 1x0. E daí vem o empate com o gosto de derrota e as críticas avassaladoras. Alguém no meio da multidão vai para outro lado. Sai do seu caminho que estava sendo traçado e canta o hino ao inverso. De novo, ao desencontro.
Você tem que abrir mão de alguma coisa em algum momento da sua vida. Deixar de lado as farras, fanfarras e outras fugas que se consegue a granel no cardápio que a vida traz com os números para os pedidos e o preço que se paga por isso. Tem que passar do estágio de aprendiz da vida para doutor, especialista em situações diversas do mundo adulto. E não é fácil. A idade nada mais é do que uma máscara que o tempo maquia no espelho enganando a todos. E já temos como mudar isso. Nada que uma cirurgia plástica não remova essa ideia. Você pode listar rápido uma dezena de coisas que você faz de errado. E mesmo assim continuará fazendo porque se considera livre, que é seu jeito de ser. Vou contar algo que talvez muitos não saibam ou estejam pouco se lixando: Você não é livre! Quando opta por escolhas deixa muita coisa para ser posta para fora com o lixo matinal. Um namoro, um casamento, um filho, um novo trabalho, um jogo, uma briga, tudo vai lhe proporcionar um emaranhado de opções que cairão nas teias de uma aranha que vai enrolar seus braços prendendo você no ar esperando a hora de devorá-lo. Um boneco, uma marionete com seus cordões suspensos. Será o Pinóquio com suas histórias de intermináveis mentiras.
E o jogo continua. Mesmo que não seja um jogo para você. Segue o caminho e sabe que volta e meia tem que alterar a forma de caminhar. Vai correr; outras vezes andar bem devagar. Mas vai prosseguir. Usar a força. Também sabe que tem momentos que será delicado. E no meio dessas idas e vindas, se perde na linguagem. Não é compreendido, não o entendem. E você também não. Cabeça dura demais. Batem em você duro demais. Só que você sabe o que quer, alguns instantes hesita, mas sabe. E vai ao desencontro para encontrar o caminho. Mudando de direção, mas nunca perdendo o rumo que é estar com quem você quer. Hoje, amanhã e depois.

Thursday, March 04, 2010

PAUSE!


Ele acordou tarde. Abriu as janelas ao mesmo que abria os olhos. Sem camisa coçava a barriga saliente. Sacudiu a cabeça como que tenta tirar todos os pensamentos ruins ou ajeitar as coisas em seus respectivos lugares. Hoje ele tinha seus planos. Tinha combinado a sua festa que tanto estava planejando. Olhou a mesa da sala e começou a arrumar o ambiente. Tinha ido ao mercado na noite anterior e abasteceu a geladeira de todos os tipos de bebida. Álcool não seria problema. Alguns refrigerantes sem açúcar. Sempre alguém pede isso mesmo que coma além da conta todo o tipo de fritura que for colocada a sua frente. Queria agradar a todos e que ninguém ficasse sem o que merece.
Planos. Passou boa parte da semana pensando como fazer ou quem convidar. Convidou os amigos diversos. Ele só enxergava, com os olhos fechados, o rosto de cada um e seus nomes iam borbulhando. Eles foram chegando mais rápido do que o por Sol programara-se. E assim tocavam a campanhia e povoavam a sala de estar. Ele não se lembrava dos nomes completos e chamavam apenas pela letra inicial. Criara seu código de reconhecimento. De cabelos ralos à base da máquina dois e com uma calvície quase franciscana, de cara redonda, sorriso de ponta a ponta, mãos pequenas, piadas na ponta da língua e olhos arregalados como se eles quisessem sair do seu corpo, L, se ambientava ensinando como sambar, explicando como o fizera na sua temporada de final de ano em Punta Del Este, “mira, mira, muchacha, um passito la derecha, um passito la esquierda, acelera...” O riso foi geral. Ao seu lado o paulista japonês, S, com sua barba por fazer e sua incansável verborragia desenvolvia todo um discurso, procurava ao seu redor um cinzeiro para deixar cair cinzas do cigarro, tatuagem na mão direita, braços finos quase sem músculos, cabeça grande, parecia um pirulito com pernas, ou aqueles desenhos de palitinhos que são feitos em teste psicotécnicos, misturava o carioquês construindo com a convivência com outros, na paulicéia de suas frases, usava a todo momento o seu bordão “ eu boto!” referindo-se a qualquer saia que cruzasse seu caminho; ao seu lado, F, o mais contido com o sorriso que não saía do rosto, franja puxada para frente dando um ar de Nero, ria dos dois amigos( ou pelo cigarro que não é aceito por aí ), com a barriga levemente avantajada pela total falta de exercícios, cara limpa, brincando com o isqueiro num abre-fecha irritante segurando uma lata de cerveja que pingava no parque. K, era loira com o namorado segurando um copo de frisante que contornava frases no ar assim como a bebida que caia no piso, conversava com a mais nova grávida do grupo, LS, sobre como a humanidade poderia ser dizimada e o mundo ser povoado por animais de estimação, as duas aos risos altos, diziam em coro “Morra verme!”. O namorado, G, olhava atônito pedindo aos deuses que o tempo passasse e ele fosse para casa deitar-se na sua cama numa sinfonia de flatos e roncos, descansar. Ao seu lado, com o olhar parado pelo excesso de trabalho e do mesmo cigarro que F se encarregara de carregar no bolso esquerdo da sua calça, J, ao lado da esposa que ria das amigas em pé à sua frente, imagina um novo set para as novas fotografias que deveria realizar num trabalho pendente. Suava aos cântaros pelo peso fora dos padrões ou pelo rápido lanche que fizera antes da festa. Mais um sintoma do seu estado de desânimo quase catatônico. Havia R, o marido de LS, bebia como um bárbaro, sem controle, abraçou-se numa garrafa de tequila e a bebericava num canto com doses homeopáticas junto com goles e goles de cerveja, dizia para quem quisesse ouvir: “ Dar um tapa na orelha do Diabo..” referindo-se ao que poderia acontecer. S, volta e meia o chamava de “caixa d´gua” devido a sua cabeça grande. E tinha como retribuição um olhar quase destruidor. O dono da festa olhava tudo sem se meter, ouvia cada conversa com parcimônia.
De repente, outras pessoas foram surgindo. Uma mulher de vestido colado ao corpo rebolava segurando o pilar, como se ali realizasse um “pole dance”; no outro canto um homem mais velho, beirando uns 50 anos, de terno branco olhava os pôsteres de filmes noir, duas mulheres de roupas de ginástica, daquelas de academia bebiam energéticos ao lado de dois brutamontes fardados, um casal de cabelos longos pretos assim como suas roupas olhavam a todos, sem dizer nenhuma mísera palavra. Uma senhora de meia idade segurava um pequeno cachorro. Eles transitavam entre as letras dos convidados que não davam importância de suas presenças.
O aparelho de som era molestado por cada que procurava uma música que agradasse o ouvinte. Ao perceber que o movimento aumentara e que sua sala de estar ficara diminuta, os convidados foram entrando por outras peças. Ele seguira o senhor que antes observa os pôsteres. Não o conhecia, não se lembrava, e quando chegou ao final do corredor onde o homem se dirigiu, encontrou apenas a parede. Ficou desnorteado. Ouviu um grito seguido de vozes mais altas. Aquilo estava saindo do controle, o que diriam os vizinhos?! Chegou na sala e não viu mais os brutamontes e nem as esportistas. Os amigos de letras soltas continuavam nos seus lugares. Ele coçou a cabeça. Confuso. Olhou de relance e viu a mulher que dançava ajeitando o vestido e saindo caminhando pelo mesmo corredor que o homem estava e ele não o via mais. Ela passou por ele, deu-lhe um olhar lânguido e saiu caminhando. Jogou nele sua calcinha. Deu-lhe às costas. Ele olhou para a peça íntima, demorou alguns segundos e a seguiu. Mal a via ao final do corredor. Chegou finalmente. E para sua surpresa, ela sumira. A calcinha estava na sua mão, então como explicar?! Estava bêbado. Só poderia. Voltou para a sala de estar pensando que ela ali estaria também. Não havia mais ninguém, nem os amigos de letras soltas e nem os outros. Havia no sofá, sentada, a senhora com o cachorro. Ele assustou-se. Não sabia o que dizer. Fechou os olhos. Sentiu girar toda a sala. Abriu os olhos e a senhora sumira. A sala estava toda desarrumada. Não como ele organizara para a festa. Estava escura. A televisão ligada, não havia petiscos e nem bebidas. Ele estava em pé na sala. Em sua mão esquerda segurava uma revista de mulheres sensuais. Passava na televisão um programa de vendas de aparelhos de ginástica. No canto do sofá porta retratos de pessoas mais velhas, um homem e de uma senhora. No chão o jornal trazia na manchete dois homens fardados olhando fixo. O telefone tocou. Ele olhou para o lado e o viu. Sentou no chão sem saber muito bem o que estava acontecendo e observou que havia uma agenda aberta com as letras para orientar onde estão os nomes dos contatos, haviam algumas marcadas. O telefone parou de tocar.
O aparelho de som estava ligado tocando uma música antiga. Ele levantou-se do chão e apertou a tecla “pause”.