Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Friday, April 30, 2010

Nas Paredes do Labirinto



O menino olha sua mãe colocar lençóis nos varais que se entrecruzam. Ele olha de baixo para cima e os vê tremulando sob a batuta do vento suave, uma brisa tímida. A mãe o olha e o deixa em suas divagações. Ele cria teorias e teses ao analisar os tecidos brancos esvoaçando. Mundos para serem descobertos. Impérios com suas fronteiras protegidas. Castelos medievais abandonados. Enormes torres onde não se via seu cume. São mais do que isso; são paredes de um enorme labirinto suspenso. Ele consegue enxergar por baixo deles, mas por cima se perde apenas no olhar. Ergue a cabeça e tenta em vão titubear um caminho estendendo os braços para frente com as palmas das mãos bem abertas. Ele percorre o seu itinerário. Um andar cego.Seu coração acelera com a angústia e adrenalina aumentando.

Continua a passos lentos nem tão firmes, tropeçando sem olhar para o chão, os olhos vidrados nas “paredes”, formada por lençóis, que se agitam cada vez mais com o vento que se manifesta já assobiando. O menino não percebe para onde vai, mas segue. Ultrapassa uma boa parte de sua trajetória chegando ao final do último varal. Ele agora estava no meio, sozinho, entre todos os varais esperando pela saída. Chegara no meio do caminho ou finalmente, alcançara seu objetivo. Olhava ao redor. 360º graus trazendo de volta ao mesmo ponto de observação. Uma verdadeira encruzilhada. Um enigma para ser resolvido. Onde ele poderia ir naquele labirinto de panos suspensos. Ao seu redor só tinha o vento como parceiro. Ele revirava a cabeça vendo os lençóis planando presos por prendedores de madeira. O menino ficou na ponta dos pés tentando alcançá-los, no mínimo com a intenção de agarrar os lençóis e puxá-los derrubando as paredes que o separavam do mundo desconhecido. Sua glória ao derrotar as tropas dos impérios ali escondidos. Mas apenas seu esforço não permitia, nem isso o fazia desistir. Quando ele, finalmente, deixara o cansaço e a resignação vencê-lo, duas mãos o agarraram pela cintura e o ergueram ao céu. Indo quase ao encontro do Sol a pino.

Sua mãe estava ali ao seu lado o tempo todo, o vendo a uma certa distância, com o ar de admiração e orgulho por ver seu esforço, sua imaginação fomentada e sua obstinação incansável em tentar se superar. Ela o colocou na altura suficiente para que ele pudesse arrancar com uma certa delicadeza, os lençóis de seus prendedores. Ele – com um sorriso arreganhado – olhando direto para a sua mãe e a abraça feliz. Seguro. Os dois sempre juntos. Ela ao seu lado sempre. Para o que ele precisar.

Lembre-se disso menino!


Sunday, April 04, 2010

Anonimato


O homem com o terno de risca de giz para na frente da loja olhando, num prisma, para um par de tênis e ao mesmo tempo ajeitando os cabelos desalinhados por natureza e vontade. Ele é meu amigo. Um grande amigo. Abaixa a cabeça olhando seus sapatos pretos de bico fino, os esfrega com o olhar no primeiro momento, logo após os passa gentilmente na parte posterior da panturrilha. Ele é um homem com a sua história em movimento. Ele diria para mim numas de nossas longas conversas “idéias em movimento”; e eu concordaria com um sorriso muito além da satisfação do reconhecimento. O anonimato é seu melhor escudo, por isso seu nome mais nada é do que uma identidade sem foto no meio da multidão que passa ao seu redor em desdém.
Ele é um homem em transformação. Em mutação, brincaria. Um cavalheiro errante em busca do seu Santo Graal, seja lá o que ele procure, sua busca não termina. Quando achou e ainda tem certeza que o encontrara, se perdeu na sua teimosia ou nos obstáculos que a vida o colocou. Deu de cara com o dragão que surgiu para espantá-lo. Precisou de ajuda. Correu para o canto do mundo e ficou aguardando o auxílio, ficou correndo atrás de saídas desse labirinto, como respiraria embaixo da água, quando mergulhou fundo. Girou a cabeça, aprendeu a chorar e reconheceu os erros. Cometeu (e os repete) mais e mais, isso é notório, mas com a intenção de acertar. Ele próprio diz, “o inferno está cheio de intenções, sejam boas ou não e não é um lugar tão ruim assim...”; é ele tem razão. Nunca temeu nada. Mesmo quando teve medo. Ainda tem. Chutou para cima muitas coisas e acabou acertando sem querer algumas pessoas. Quer um afago. Se sente melindrado. Disse que está cansado, cansado por não ter ninguém que o apóie, que as pessoas que ele queria que mais lhe dessem força o deixaram de lado chamando-o de infantil. Não vê quantas pessoas o apoiaram. Ele sabe disso. Mesmo com seu terno alinhado, de risca de giz, acredita na sua explosão. Não vai oferecer um cachorrinho branco para seu agrado e nem vai conquistar você por gestos de grandeza, uma viagem, um passeio de barco, uma volta de jet ski, um salto de pára-quedas. Crê que deve conhecer e ser conhecido nessa busca. Ele só tem a ele para “vender” e não digo do corpo e nem da alma, esta última já tem quem a possua. Isso já é sabido e nunca será segredo. Não vai mudar com o passar dos tempos. Acreditar nele é a única coisa que o incentiva. Sozinho?! Os seus amigos estarão ao seu lado, nem sempre serão os melhores conselheiros, mas estarão ali. Quando a vida, com seus algozes, o derrubar mais de uma vez como está fazendo nesses dias, eles estarão lá. Um ao lado do outro num exército.
Ele espera que o telefone toque, que algo o surpreenda positivamente. Que fez a escolha certa de quem o apóie. Mas o aparelho está mudo. A conta cortada, ele colocará em dia, mas pode receber ligações. Sente-se que doou mais. Há amargura. É óbvio que sente pena de si. E eu entro em ação. Com palavras nada sutis, o esmurro com as frases mais obscuras que o sacudam. Ele chora, na minha frente, um homem de porte médio, forte fisicamente, de personalidade idem que pode entrar numa briga com dois homens dobro do seu tamanho e derrubá-los com seus golpes sem levar nenhum arranhão. O vi já correr direto para cima de cinco homens mais jovens que ele, sozinho, desmoronar com a parede que o quinteto formara. Ajudar os amigos para fazer uma mudança de um apartamento a outro carregando tanto peso que você não possa imaginar ao ver. Parece que quer carregar o mundo, mostrar que pode com ele.
Sua última ação tempestiva, ao ter uma discussão com o amor da sua vida, após se sentir humilhado pela conversa, pelo que foi dito, saiu em disparada pela rua como um animal sem coleira, um pitbull sedento de sangue e num dos rompantes nada engraçados da vida, sob as linhas dos cordões das calçadas da cidade, caminhava lento, olhando para frente sem ver nada com a cegueira da raiva e da tristeza como lanternas. Um trio caminhava do lado contrário ao seu, rindo alto, dois homens, um mais corpulento, outro mais esguio porém com porte e uma mulher também com ares nada pequenos. Um deles chutou algo, uma lata que bateu na sua perna, quando se aproximava. De imediato chutou de volta com força, acertando a mulher. Os dois homens vieram tomar satisfação. O primeiro, o mais gordo, gritava e tomou um soco na cara, sangue, e continuou a falar, recebendo outro soco que entrou em sua boca, característica que os dentes se foram. O outro homem veio e tentou agarrá-lo, ele girou o corpo do homem sobre o seu e segurou o braço do seu agressor até dobrá-lo quebrando-o. Saiu caminhando um pouco mais rápido, enquanto a mulher gritava com os dois ao chão. Ele me contou isso chorando. Passou a noite, sozinho e bêbado com dor na consciência e no coração. Hoje ele tem o vazio de estar sozinho, sem o coração. Me olha pedindo que eu fale algo pertinente, uma piada que ele possa rir. Algum incentivo. Sabe que eu não o faria beber a toa. Vamos por um basta nesses excessos. Chega de bengalas. Não quer que o vejam mais como um moleque. Ele precisa vencer todos os torneios que o colocarem, seja onde for ou com quem for. Vai continuar precisando da sua torcida mesmo que ela não esteja presente no local. Sabe que é um guerreiro, só está fraco e ele não é um fraco. Digo isso para ele todos os dias. Já não sorri com alegria. Sorri por reflexo. Os cabelos já tardam em apressar o grisalho. Continua forte, mas tem seu ponto fraco bem latente como uma cicatriz que se abre com qualquer movimento seu.
Eu quero que ele entenda que é só uma fase, mesmo que dentro dessa fase haja partes que ficarão abertas em compartimentos. Sua única e maior cicatriz. Ele sentirá. Todos os dias. E quando esquecer será prontamente lembrado quando ela doer ao deitar-se ou acordar. Seu Graal está perdido sabe-se lá por quanto tempo mais. Mas haverá uma dádiva divina, crê. Eu faço ele ter fé. Estarei ao seu lado, meu velho, quando você cansar de socar o desânimo, eu o farei por você. Porque estarei diante de você no seu espelho.