Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Friday, May 28, 2010

Saltando do Trampolim


Eu cheguei até a ponta do trampolim. Ainda vestido, mas sentindo o arrepio do vento. Aqui é alto. Calculo uns dez metros até a água. E depois cinco metros de profundidade. Se eu me lembrasse como da fórmula da velocidade, distância, massa, tempo poderia saber o que pode acontecer. Vejo o horizonte pequeno. Distante. Olho para baixo e imagino que a água da piscina está fria.
Continuo a olhar ao redor. Esperando que toque o telefone como se eu estivesse numa cadeira elétrica com a contagem regressiva para acionar a chave de força. O algoz aguarda os segundos exatos. Na parede, o telefone não grita, com a absolvição do governador não vem. É um bom argumento para um filme já revisto por ai. Espero muito mais. Cheguei a esperar até o último minuto. Me atrapalhei em tantos momentos nesse tempo todo que se eu falasse gaguejaria. Me enganei até agora. Fiquei sentindo mais pena de mim do que estava em jogo.
Quando cheguei em casa, sozinho, coloquei a chave na fechadura, girei a maçaneta e fechei os olhos. Quando entrei, não havia ninguém. Mais um passo à frente. Agora bem na beira do trampolim. O ar fica mais frio. Agora ali dentro vou me localizando. Acendo as luzes que teimam um pouco para surgir nas lâmpadas já se entregando. Nas paredes quadros recém postos. Cores claras mesmo na escuridão. Porta-retrato com a fotografia do amor que mora dentro do lugar mais seguro que tenho. Meu abrigo. Já tinha aberto as portas desse abrigo. A chave está aqui. É só pegar e seguir junto. Continuo caminhando. Sinto o ar gelado do alto do trampolim. No corredor vou até o fim do apartamento. As janelas estão fechadas, mas vou abrindo uma a uma. Uma tristeza teimosa fica sussurrando ao meu ouvido. Mas dou passos mais largos, quase acelerando. Queria tantas coisas. E chego finalmente na última peça. Lá a luz está acesa e o quarto colorido.
Ouço um pequeno choramingo. Uma mulher sorri. Em seus braços um bebê recém nascido que mama em seu peito. Entre caretas de ambos me aproximo. Ela de dor e dele por fome. Estou já me equilibrando no trampolim. Abraço ambos como consigo. O vento já não é tão frio, mas bem mais forte. Salto. E vou caindo direto na água. Rápido, acelerado. O bebê me olha com os olhos arregalados. A mulher sorri. Eu caio em pé na piscina e vou para baixo. Vou me ajeitando para mergulhar e tocar o fundo da piscina. Bolhas de ar saem da minha boca e a pressão pressiona os ouvidos. Chego no fundo e inicio a volta. É difícil. A água está mais pesada. Mas vejo a luz logo acima. Meu coração está acelerado, sim não posso perder mais tempo, não permitindo que meus pulmões tenham calma para segurar o ar. Os braços se agitam. Uso toda a minha força. O tônus muscular se contrai a cada movimento. Estou próximo. Enfim, cheguei ao topo, sinto o ar e abro a boca com todo afã, meio me engasgando, chego a vomitar com o excesso de água. Estou boiando na água. Abro um sorriso. Pego meu filho nos braços e ele segura minha mão. Transformação. Meu apoio. Meu processo de nascimento. Batizado.