Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Thursday, June 24, 2010

Quebrando a Espinha do Dragão


São Jorge de vez em quando perde seu dragão por ai. E ele acaba entrando na vida de qualquer um. Todos temos um dragão pelo caminho. Seja um problema, um motivo, uma pessoa. Não é uma questão estética, mas uma forma de encarar a vida. E na vida encontra-se o ninho de todos os dragões.
E assim como ele, nós estamos em constante e eterna luta contra o dragão. Mas sem defesa. Sem saber como agir. Os Santos estão na arena, enfileirados, ao redor nos vendo como se fôssemos São Jorge. E lá no fundo está ele, o próprio, só nos olhando de soslaio e com uma mistura de confiança e decepção.
Você reage. Ataca. Se defende. Se esconde. O dragão se manifesta, suspira, aspira e dispara o fogo de suas entranhas. Nos chamuscamos. Nos ferimos. Nós ferimos. E continuamos na ostensiva defesa à mercê da imensidão do oponente. Cada minuto cresce, aumenta sua força, intensidade e virulência, enquanto buscamos o ar, o otimismo e a esperança que o atingiremos em cheio. Buscamos a espada, um escudo, uma pedra. Nada. Deixamos de lado a razão e a emoção. Queremos ficar calmos mesmo com a pressão da sombra dele bem perto alongando seu espectro em torno. E o dragão se aproxima caçando, farejando, marcando o caminho e retirando tudo que possa impedi-lo. Ele só tem um obstáculo: você! E isso o irrita. O deixa mais furioso e faminto.
Não adianta fugir. Você pode passar a vida fugindo, mas o dragão o seguirá com suas enormes passadas estremecendo o chão logo atrás. Quando você cansar, ele dará apenas uma baforada às suas costas. O calor o fará correr usando os resquícios de energia que lhe restam e verá que ainda terá mais força. Mesmo no seu limite, você conseguirá correr mais um pouco. E um pouco mais se precisar. Nunca parando tempo demais. Nunca desistindo. E o dragão sabe disso, tem paciência.
E o dragão é um símbolo masculino oriental. De sucesso. De império. Ocidental ele se torna mal, cruel. Feminino. Ele pode ser benevolente assim como o mais impiedoso. Sua forma se deforma de acordo com os receios e vontades que se apoderam da vida, o grande ninho dos dragões. Você tem que parar de correr deles. Está na hora de ir ao encontro deles, os caçá-los. Daí São Jorge não terá mais esperança, acreditará; e, não haverá decepção, mas redenção à glória.
Quebre a espinha do dragão. Mais um dia. Não desista.

Thursday, June 03, 2010

PORTA-RETRATO


Ele chegou em casa hesitante como todas as noites. Ele perdura na rua fazendo ou arranjando coisas para demorar até a hora de ir para casa. Abre a porta e a primeira coisa que faz é soltar um longo e ruidoso suspiro. Caminha pelo hall de entrada já deixando o casaco e a mochila perto do sofá da sala de estar. Vai até a estante recém comprada e liga o aparelho de som. Leva alguns minutos para achar entre seus cds, dvds e discos de vinil algo que lhe agrade. Acha e coloca no cd player. Ouve os primeiros acordes fechando os olhos e regendo com a mão direita a melodia. Vai até a cozinha. Abre a geladeira e pega uma maçã que abocanha quase que de uma vez só e uma cerveja. Gira a tampa de rosca e a bebe com uma certa volúpia e rispidez num longo gole. Sorvendo.
Continua caminhando pelos ambientes e não abre nenhuma janela sequer e nem acende todas as luzes. Vai tateando no breu. Chega até seu quarto e deita-se no sofá-cama emprestado. Ainda não foi ver a cama. Se joga como um saco de batatas causando um barulho e ao mesmo tempo empurrando o móvel um pouco. Olha para cima e estica os braços como se quisesse pegar alguma coisa no ar. Sorri. Senta-se. E de imediato se levanta. Vai até a sala novamente, a única peça que tem luz no momento. Fica em pé e olha para uma pequena mesa. Vê ali, um porta-retrato com uma fotografia que ele lapidou os defeitos de impressão num programa de edição de imagem como o photoshop. Ele não retirou nada da imagem, apenas deu mais cor, retirou uma sombra aqui ou falha acolá. Mas a fotografia é crua e nua. É ela com todos os defeitos de quem ali está. Todos temos defeitos. Ele conversa algumas coisas inaudíveis. E não ouve as respostas às perguntas que faz. Fala do seu dia. De estar cansado. A campanhia da porta toca aguda.
Eu chego. Quando ele abre a porta, uma mescla de desânimo e alegria, se fazem presentes. Me sinto tão bem quanto indesejado. Um penetra numa festa privê. Tento dissimular e já entro falando alto. Perguntando porque toda aquela escuridão. Ele abaixa a cabeça e diz que chegara à pouco. Tudo bem, respondo, convido para sair e beber uma dúzia de cerveja. Ele diz que parou de beber muito. Eu concordo e insisto no convite. Ele arfa. Mas concorda. Diz que tem que colocar umas roupas de molho no balde. Apenas encolho os braços. Nesse meio tempo dou uma checada na nova moradia. Vejo que está impecável. A sala com os poucos móveis mas todos sem poeira. Tudo em ordem. Na cozinha parece que nunca foi usada. O fogão sem nenhum respingo de gordura. Na pequena mesa um porta-retrato. Não sei o que dizer. Não sei se devo dar um safanão nele ou deixar o amigo ver as coisas com mais clareza com o passar dos tempos. Agora eu é que dou um suspiro longo e doloroso. Resolvo chamá-lo para que se apresse. Ele me xinga dizendo que já vem. Enfim, surge.
Já estou na porta. Olho para trás e o vejo de frente para a sala. Parece que ele fala algo. Parece que ele espera por algo. Imagino. Vejo que horas são no meu relógio. Percebo que também estou esperando.