Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Saturday, July 17, 2010

À Sombra da Exceção


Aquele tapa que ele levou dela com sua mão aberta e com o giro do seu corpo desferindo não só um golpe com força, mas toda a mágoa que o passado poderia trazer. E o rosto dele se contorceu pela dor, pelo impacto e por essa mágoa. Veio carregada, com excesso de bagagem. O movimento fez seu rosto virar com seus olhos abertos e ele se viu folheando um livro com todas as páginas escritas das histórias detalhadas repletas de diálogos, silêncios e muitas cenas. Umas belas; outras ( se pudesse ) as rasgaria da mente.
Aquele grito que desferiu diante do rosto dela, apertou muito mais seu pescoço do que se ele agarrasse com suas mãos ásperas. Ele falava sem parar. Ele chorava conjugando mais verbos. Misturava seu nome aos nomes que vinham não da sua cabeça, mas da dor que ele expressava tão apertado quanto as palavras que a estrangulavam, de seu peito. Ela quieta, séria olhando para os lados de braços cruzados. Ele, acintosamente, gesticulava tentando segurar a si mesmo. Desmoronava. Ruía. Mas estava buscando o olhar dela para que ela entrasse em seu peito e visse a casa violada.
Depois do golpe, ela tremia. Não falava, segurava as lágrimas cerrando os punhos nos braços estendidos junto ao corpo. Ele se via diminuto diante dela. Uma gigante. Uma mulher nas alturas, no cume do mundo com o Sol atrás dela falseado pelas luzes da sala. Ele estava a dois passos para trás da frente dela. O receio de levar mais um tapa o estremecia de ponta a ponta de seu corpo maior e mais forte que o dela. Porém, nunca sentira tão fraco, com as pernas bambas. Não era medo. Vergonha. Arrependimento. Culpa. Tudo ao mesmo tempo sacudido dentro de um recipiente e despejado no piso frio. Ela esperava que ele dissesse algo. Que fizesse algo. E qualquer que fosse a atitude a ser tomada ela embargaria de ímpeto da melhor maneira ruim que viesse a sua cabeça.
Ele estava rouco e as lágrimas já lavavam seu rosto enrugado de olhos inchados. Ele dizia que não entendia. Que queria paz dentro dele. Que não agüentava mais. Estava enlouquecendo, segundo suas palavras. Ela continua olhando para o lado. E esboçava algumas palavras contra-argumentando as opiniões dele. Ele balançava a cabeça, incrédulo. Ela não entendia uma só palavra que ouvia. Dizia, ela, que não tinha segurança e agia da forma que bem entendesse. E quando ela, finalmente, tivesse uma amostra real de tudo, mudaria. Ele sentou numa cadeira ali perto. Abaixou a cabeça, trespassou os dedos entre os fios de seu cabelo. Disse que mudara, fizera tudo por ela. Ouviu-se um suspiro dela que o feriu como se o cortasse com pedaço de vidro grosso sem ponta que é pressionado na pele até conseguir fazê-lo sangrar. E cada qual ficou em suas histórias remoendo feridas e escrevendo mais páginas. Incluindo partes, rasurando outras, colocando entrelinhas, sujeitos indeterminados e ocultos, pausas longas. As páginas não ficam em branco, isso é certo. Uma novela de acasos por um destino criado. Em momentos ímpares para se tornarem um par. E sempre atrás não de um final, mas de um recomeço feliz.