Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Monday, August 23, 2010

AIRBAG


Final do dia, Sol de inverno aquecendo ao longe. Primavera teima e não chegar mesmo com os apelos. Brilho intenso nos olhos. O céu azulado avermelha-se. O movimento da cidade é um contínuo formigueiro de intenções. Ele faz parte disso tudo postado do alto da sua janela. Nu à mercê da cidade. Com as mãos espalmadas no vidro da janela fria sua aos poucos. Às costas, o ar condicionado alimenta seu calor externo. Ele cola o rosto no vidro. Junta seus lábios, beija-o deixando uma marca tatuando a superfície lisa que separa a cidade dele. Ele dá um passo para trás como se despedisse. Mais um e outro. Vira-se e pega suas roupas que estão jogadas no território alheio. Com uma preguiça maior que a verdadeira, ele se veste, no chão um corpo também nu, desfalece.
Ele anda pelo lugar, um apartamento enorme, com corredores pequeninos que afunilam cada vez mais que se projeta por entre eles. Sente ainda calor. Suas roupas pesadas de inverno alimentam-se disso. Ele sua. Sua pele exala cheiro de suas entranhas e de sexo. Vai ao banheiro e abre a torneira, mergulha as duas mãos na água fria e depois as junta ao rosto que se contrai. Ele se vê no espelho, analisa a barba por fazer. Sai.
Volta para o recinto onde encarava a cidade, quase como um provocador, instigador pronto para a briga. No chão, o corpo ainda nu com o dorso para baixo. Se move. Ele acha. É a respiração macia, cadenciada. Observa com cautela. Um voyer. Analisa. Ele está excitado, mas imóvel. Deita-se, por cima do corpo no chão, vestido e acaricia as costas nuas até o cóccix. O corpo tem forma e conteúdo. RG e CPF. É uma mulher escondendo seu rosto entre o tapete, cabelos e suas roupas. Não abre os olhos, mas ouve-se o estalar do maxilar ao sorrir com satisfação. Ele a beija no pescoço e ela se arrepia. Sussurra ao seu ouvido, palavras tão íntimas quanto verdadeiras. Ela vira a cabeça um pouco para que sua boca seja alcançada e o beija. Volúpia. Tesão. Sentimento. O que for. Ele ergue-se apoiando as mãos e flexionando os joelhos para dar impulso e ficar em pé. Ela retorna a posição abrigando-se na almofada caída bem ao lado.
É final de mais um dia. Desses que se amontoam. Ele sai pela porta deixando o calor do ambiente e o dela. Desce as escadas, um, dois, três andares a passos largos, como se saltasse. Chega à rua. Enfrenta os transeuntes com ar de desdém. Olha para cima tentando ver se no céu ainda reinava o Sol. A noite já predominava sua escuridão. Trazia o vento e os corpos nas ruas se abrigavam dentro de seus casacos. Ele ficou no meio de tudo isso abrindo os braços esperando a colisão do impacto do final do dia. Mas protegido entre todos os estilhaços e arranhões do seu Universo.

Saturday, August 07, 2010

Uma Estória.


Num dia cinzento daqueles que o inverno se orgulha, permaneço no meio da rua sentindo o movimento dos carros e o ruidoso trânsito de pessoas. Olho para cima e tenho a nítida sensação que todos fazem um círculo a minha volta. Não olho para os lados e nem abro os olhos. Estou com a cabeça erguida, tronco ereto e aos poucos vou estendendo os braços pra cima. Uma garoa fria cai como que ensaiada. A platéia a minha volta vê tudo sem dar muita atenção. O círculo se movimenta com a mudança de pessoas.
É um longo processo de amadurecimento cada dia. Hoje nesse dia onde sou uma atração apagada no meio do centro da cidade, me faz perceber que já não sou o Peter Pan que sempre carreguei nas costas esses anos todos. Eu consegui finalmente derrubá-lo, contra a vontade. No chão o personagem tenta voar ajudado pela sua sombra, mas em minhas mãos retorna o meu taco de beisebol que zuni com força e acerta em cheio suas pernas. Ossos estilhaçados e juntas danificadas de um imaginário mundo. A sombra foge deixando para trás a patética imagem do passado de estórias criadas em histórias que nem vale muito a pena lembrar, só quando a solidão se fizer presente teimosamente. Está diante de mim um eu que está sendo apagado a duras penas com uma borracha. A sombra do personagem se esconde atrás de uma árvore ali perto, pronta para se achar segura e retornar, mas Peter Pan está cansado, envelhecendo, amadurecendo traçando em sua cabeça os novos caminhos. Não precisa voar para a Terra do Nunca. Ele tem agora a idade certa para acelerar em chão firme para o que está logo ali. Pode correr, tem força e velocidade para isso. Pode ir mais rápido, de carro, de motocicleta, de ônibus, de trem não importa. Ele agora só tem que ir em frente. E eu vou segui-lo até passar por ele.
Ele já tinha arrancado as asas da Sininho deixando-a presa a ele, enquanto eu bebia vinho com o Capitão Gancho ouvindo o tique-taque do relógio aumentando todo o dia. Ríamos disso tudo. A submissão dela e o medo do arrogante malfeitor. Saímos empurrando os Garotos Perdidos ensinando os caminhos errados para cada um deles. É, e o crocodilo acabou aparecendo me fazendo encarar muita coisa num espelho sem reflexo; porém Peter Pan voava por aí.
E o dia já não parece tão gris. Um resquício de um Sol tímido vem surgindo no meio de tantas pessoas que falam sobre o contumaz modo de vida. Sinto o calor no rosto e esboço um sorriso de canto de boca. Peter Pan manca ao meu lado com cara de poucos amigos e no seu coração palpita um tremor do que virá. De soslaio, arremedo um ar de confiança. Ele é meu adversário, me ajudou a viver um lúdico mundo, mas agora sou eu que vou levá-lo para um outro.
O personagem segura no meu ombro e quase suplica que eu o carregue. Eu me desvencilho de sua mão trêmula e aponto sem dizer uma única palavra para frente. Deixo ele seguir a poucos metros sozinho. Ele para, hesita, abaixa a cabeça. Eu debocho com uma risada mastigada. E em seguida o empurro com força que o faz cambalear, pois suas pernas ainda estão machucadas. Ele se vira e eu apenas o abraço.
Não sei o que será daqui para frente; só sei que nada mais será o mesmo. Que venha o futuro. Ambos rimos como dois velhos conhecidos.