Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Thursday, September 23, 2010

O Toque Próximo Demais


Ela estava ali na jaula à distância. Uma gaiola. Virtual. Remexendo em teclas construindo frases falando em voz alta em alguns momentos. Ela estava ali por horas. Ria do que lia. Lia mais e ria. Colocava mão no queixo, balançava a cabeça, apoiava os cotovelos na mesa. Estava à vontade. Pés desnudos, o resto se baseava no imaginário do outro lado de bytes e bits. Respostas curtas. Declarações rápidas. Pedras sendo arremessadas com tamanha força que colidiam com a tela. Sua gaiola. Sua jaula. Queria saber mais. Ouvir mais. Ler já não preenchia todas as lacunas. Mas o que viria dali para frente.
Ela permanecia ali, guarnecida de expectativa curiosa e um voyerismo cálido. Cenários moviam-se ao seu redor sem mudar de lugar. Cromaquis. Céus, paisagens, fotografias, pinturas, retratos. Palavras. A curiosidade matou o gato, diz o ditado, mas como também diz o ditado, o gato tem sete vidas. Então correr o risco não é opção; é a certeza.
As paredes diante dela conversavam dando conselhos. Não respondiam de imediato assim como as teclas do lado de lá. Problemas da virtualidade. Conectados com o mundo e o mundo às vezes surdo, cego e lento. E na frieza das paredes com suas vozes baixas, quase inaudíveis, se acalmava para esperar entre cantadas e cantaroladas o tempo trazer respostas às perguntas feitas ou frases de efeito retardado. Suspiros como confidentes. Afagos no ego. Desconsertos de postura na polaridade de intenções. Vacinas contra-indicadas sendo ministradas aos excessos. Um magnetismo a atrai para dentro dessa jaula. Ria das piadas. Ria dos avanços. Ria. Apenas sorri. Gargalha até. De si mesma também. Cria um trinômio ao interlocutor. E mesmo pejorativo é divertido a ponto de manter-se ali suspensa no cabo de fibra ótica num jogo de cabo de guerra. Não é uma batalha para ver quem é o vencedor, não há medalhas, troféus, mas há o algo mais por trás de muita coisa. Coisas essas que não se sabe como explicar se sintonizam, se amalgamam. Qual será o próximo capítulo, qual próximo passo? Nem são perguntas para serem respondidas, deixando à química dos carbonos perfeitos julgarem isso.
As palavras correm a tela. Brincam nas grades de sua jaula. Ela espera a chance de abrir a porta e sair em disparada, correndo, correndo. Não quer se abatida, não quer ser pega. Mas o alvo é ajeitado bem na mira. Um passo em falso, e ela poderá ser atingida. Entretanto espera se vale a pena. Tudo vale a pena, lembre de parafrasear o poeta. Pés desnudos contraem-se no chão sobre o pequeno tapete. Ela olha para a rua, erma, quieta, aguardando ouvi-la. Um sinal a chama de volta para a jaula. Dessa vez a porta se abriu lentamente....
Estão esperando por ela. Solte-se!

Wednesday, September 15, 2010

O Ceifador de Girassóis


No céu uma mistura do acinzentado com azul escuro. Abaixo dele o reflexo do meu rosto na poça d´gua. A frente um horizonte sem cor. Acoberto o pescoço erguendo a lapela da camisa. Um frio que não existe me cerca. Estar sozinho não é uma opção no momento. Mas estou. Só pela distância e não pela sensação. Ainda parado brinco como uma criança de colo se descobrindo entre movimentos descoordenados nos detalhes ao meu redor. Firmo os pés quando um vento surge num rompante. Me cega. Momentaneamente. Tudo breve. Passando. Sempre passa. Abreviando.
Abrindo os braços e abaixando a cabeça como reverência, me vejo bem onde estou. Com o Sol, que aparece de surpresa, ardendo na pele branca aquecendo a esperança, desmistificando os temores. Abraço-o. Com carinho. Me alinho na camisa. A distância existe. Mas só preciso diminuir cada espaço entre dois pontos. Independente de mim. Entretanto vou adiante empurrando as pedras, tirando os arbustos com uma foice nas mãos e um desejo no coração. Não estou mais cego. Vendo tanto quanto o pouco que tenho. E mesmo assim enxergando muito mais entre os jardins, os prédios, as árvores, os campos.
E o Sol ali me rege abrindo as janelas das nuvens acendendo as luzes no dia gris. As nuvens aceleram remodelando suas formas empurrando umas as outras. Percebo que tudo parece tão longe mas tudo o que quero está tão perto. Se mistura. Se confunde. Se troca. A luz do Sol aumenta exacerbando a claridade. Essa solidão que não existe já não é boa companhia. Uma sensação, já disse, que está passando, enquanto eu pulo as cercas de arame farpado para correr entre os girassóis rodopiando como moinhos de vento. Vem a cabeça Dom Quixote na busca de aventuras e da amada Dulcinéia. Sonhos de um sonhador. Desaprendi a sonhar. Reaprendi a encarar a realidade dentro do olho do furacão e encará-lo. Ao mesmo tempo, que faço piadas sobre todos.
Já tiveram dias que não sentia nada, absolutamente nada. Hoje não é mais um desses dias. Hoje, precisamente, é um novo dia. Se há confusão no ar, ela se dissipa pelas certezas que estão atrás das portas que nem bato mais com delicadeza e educação, mas as arrombo com o assombro da ansiedade. Quero chegar logo ali, do outro lado. E mais perto. Deixar a distância bem menor. Quase inexistente. Continuo colhendo os frutos de ações regressas, mas também cultivo novos rumos com paciência e cuidados. Nada e nem ninguém poderá impedir isso. Já não era sem tempo. Ao meu lado um punhado de girassóis ensacados para trincheiras de proteção sob um Sol supremo. Incrível parece um sonho.

Wednesday, September 01, 2010

Crônicas de Bate-Papo: ESTREMAR O EXTREMO


Para tudo há uma regra. Até para quebrá-las qualquer uma delas existe uma regra, uma exceção. Um a ver.
Nas relações elas se manifestam no modus operandi da humanidade, diria um abestalhado soldado do saber, com suas teorias filosóficas tiradas dos comentários de fóruns na Internet e livretos de bolso.
As regras nos limitam até quando estamos à beira do abismo prontos para dar um longo passo. Relacionarmos uns com os outros é uma missão herculínea. Lutamos para manter a serenidade nos momentos mais impróprios da nossa existência. Agüentarmos o outro tão perto é estar próximo demais. Nos romances, namoros, casamentos, casos e acasos, nós fazemos força descomunal nessas relações traçando com o lápis colorido as frases para serem seguidas. E nas amizades de trabalho, de festas, de verdade, agimos com a impulsividade complacente da convivência mantendo uma distância segura entre as partes, até que se prove que não há nenhuma barreira que impeça o outro de entrar em sua fronteira pessoal.
Uma visão depressiva? Desoladora? Amarga? Porque achar uma regra que se encaixe? É mensurar o limite. Estremar o extremo. Quem disse que o piadista não é um sujeito triste? Ou o sorridente um sociopata amargurado? Aquele que sempre tem algo a dizer é um sujeito completo e resolvido. Quem disse isso? Quem colocou essas regras pré-definidas que possamos nos ajustar? Fui eu. Foi você. Fomos nós!
Não se trata de uma oferenda de ofensas contra o mundo e a humanidade é apenas uma constatação de que todos nos socializamos e nos separamos criando barreiras, fórmulas e regras para seguirmos em frente. Calma, relaxe, fique frio é só uma crônica. Vamos beber algo dividimos a conta até. Não é essa a regra?!