Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Friday, December 31, 2010

NOVO


Cada ano é uma onda de energia positiva para o próximo ano. Ninguém sabe bem o que vai acontecer, mas planejamos, cada um de nós, de maneira utópica, momentos felizes. Novo. Tudo novo. Como se o que se passou, apenas passou. Novo ano. Novo. Repetindo-se. E todos acreditamos que passaremos uma borracha gigantesca nas linhas escritas de maneira errada desse ano que está indo. Acreditamos que o ano acabou. Acreditamos. Cremos. Como se na amanhã do dia 1º o mundo começasse. Mas não vai começar, ele vai ser mais um dia e todos teremos que conviver com essa expectativa que temos todos os dias, na semana normal do ano que passou, do anterior e no próximo, mas o faremos da melhor maneira que pudermos. Se para melhorar precisamos de 101%, então tentaremos fazer o melhor disso em 10%. Aos poucos. E para alguns, nem o total será suficiente para ser melhor. O melhor estará em todos os dias, sempre sendo buscado a cada mês, ano e superado hora a hora.Essa onda dentro de um mar revolto que foi o seu ano, que falece em seus braços vai levá-lo mar adentro. E com toda a necessidade que o aprendizado exige, você, eu, nós teremos que sobreviver a ele. Flutuaremos, nadaremos até uma ilha, até a margem em terra firme. Senão, até uma embarcação lhe estender a mão. Não será uma muleta e nem um bote salva-vidas, mas apenas uma meta, um objetivo a ser alcançado. Chegar até lá, onde for. Nós vamos traçar nossos planos fazendo pedidos, orando, aceitando crendices, evitando falar no que passou, mas nada vai mudar. Existe a saída mais próxima que deve estar no outro lado do continente. Mesmo que não tenhamos um barco à vela para nos levar, vamos indo, quase nos afogando. Sim, faremos escolhas. Sim, tentaremos contorná-las. Sim, diremos muitos “sins” e aceitaremos vários “nãos”. Seremos alvos. Seremos vítimas. Seremos algozes. Faremos vítimas. Não nessa ordem e muito menos com esse desejo. As felicitações estão no ar, nas ondas do mar, nas oferendas, nas mensagens, na mídia, em seus olhos, em nossos corações escondendo mágoas. Os dois lados dessa moeda que deixamos embaixo do prato de lentilha para obtermos prosperidade. Novo. Novo. Novo. Só queremos que tudo seja novo. Mesmo que para sua felicidade tenha que reconhecer os erros e se deparar com eles, de novo. Comece agradecendo. Comece pedindo desculpas. Obrigado! Desculpas!

Friday, December 24, 2010

Abrindo As Portas De Uma Casa Vazia


O mundo é lindo. Mas que mundo é esse além das paredes da sua casa? É um mundo com um novo dia num amanhecer às vezes rabugento, gostoso ou nostálgico. Ás vezes só é mais um amanhecer que inicia com um jeito simples, quase robotizado, rotineiro, e começamos abrir as portas dos armários, do banheiro, do quarto, da casa. E se descobre nisso algo muito mais além do que você possa ver todos os dias. Percebe-se que a casa está vazia, as prateleiras, as gavetas, os porta-retratos, os móveis, a sala, o banheiro, tudo vazio. Mesmo que você procure com maior afinco não encontrará nada, nem lixo. Todos os dias. No mesmo um amanhecer novo.
Os fantasmas e as teias de aranha saindo pelos cantos. Jogo de sombras. Não há nada ali. Se olhar bem, colocar a cara no chão verá a poeira se acumulando, uns insetos sobrevoando, algumas formigas. Mais nada. A palma da mão aberta no piso impulsiona o corpo que se ergue com os olhos abertos vê a janela aberta com as cortinas balançando pela força de um vento um pouco mais forte, porém abafado. Vem a chuva certamente. E é uma chuva forte o horizonte fechou e o movimento das nuvens é forte. O vento que entra pela janela faz a poeira subir. Tenho a sensação, que sou cercado pela poeira, que ela faz um circulo que sobe. Mas não é isso. Podem ser os fantasmas. Pode ser algo mais.
Pode ser a fé que algo melhor vai acontecer. Quando a chuva passar e ela nem veio ainda. Só a sua presença, sua menção já causa uma expectativa. Espero por algo mais. Por proteção. Orações. A casa está vazia. E eu estou no meio da sala com a nuvem de poeira ao meu redor.
Estou sozinho. Mesmo. Não sei o meu nome. Perdi, ele no meio dos cantos. Perdi muito mais. A poeira baixou. O vento se acalmou. Ouço os trovões. Primeiros pingos chegam forte. Barulhentos. A janela está aberta e eu fico ali debruçado. A chuva fria na pele quente escorre. Parece engordurada. Suada. Parecem com lágrimas. De tantas pessoas. Misturadas na chuva e passando pelo meu rosto junto com as minhas. Entrelaço os dedos das mãos, curvo a cabeça. Não digo uma palavra, mas elas são ouvidas. Só que nessa casa não há ninguém para ouvi-las. A chuva aperta. Sinto um peso no meu ombro. O peso da chuva. O peso de uma mão. O peso.
A chuva vai passar. Porém ainda não vejo no horizonte um raio do Sol. Ouço as palavras no meu ouvido dizendo “vai passar!”. Até uma rocha pode ter marcas que não vão sumir, mas a rocha sim irá se modificar com o tempo, pela sua ação, do tempo.

Friday, December 10, 2010

AINDA NO RINGUE


Mais um golpe, seguido de outro, inesperado. O ar é puxado, quase roubado. Grudado nas cordas, no canto do ringue, protegendo o rosto, as costelas, desviando o corpo, balançando, mas os golpes não param, continuam às vezes com força; outros com precisão. Tente respirar.
O suor força fechar os olhos. O sangue misturado com suor, queima. Feridas abertas. Gosto do sangue na boca, dentes moles, dor abaixo do abdômen e justamente onde os golpes se repetem. A guarda continua pontual. Um escudo que é trespassado com rapidez. A cabeça baixa protege o rosto. Concentração. As pernas se curvam e o apoio nas cordas do ringue seguram o corpo. Os golpes não param. A respiração fica cada vez mais difícil.
Mas ainda em pé. Não há espaço para reagir, o adversário é rápido, mais forte, quer “dar uma lição”. Repete o tema de casa todo o tempo. A proteção é rompida. O golpe vem de frente e com o impulso o corpo atingido é jogado para trás. As cordas o empurram de volta. A visão fica nebulosa, tontura, braços caídos, pernas moles, segundos até o chão. Mas os braços impedem que caia de vez. Apóia-se nos joelhos. Olha para lona. O tatame. Suor e sangue a sua frente dão um desenho espelhado. Ouve-se a contagem que nunca para. Já foi ouvida mais de uma dezenas de vezes. Ergue-se. Olha para o ponto vazio. E o arbitro segura suas mãos pede para seguir com o os olhos o movimento do seu dedo indicador direito. Balança a cabeça afirmando estar bem. Sempre vai dizer que está bem. Supercílio aberto, nariz quebrado talvez, maxilar inchado, maçã do rosto aberta, costelas doendo, braços moles, pernas trêmulas, gosto de sangue na boca e a cuspida é o sinal para o reinício da luta.
O adversário vem de novo, concentrado, com a vontade de encerrar o que começou. Recomeça com os mesmos golpes. Mas o atingido, sabendo o que virá, ainda é pego desprevenido. É a força, a intensidade, a falta de uma pausa maior. De novo jogado às cordas. O ringue parece que só tem um lugar. E ali ele fica. O “agressor” não entende como ele ainda está de pé. Ninguém entende. Ele reprova a lição aprendida e se mostra à prova que lhe é apresentada. Não se orgulha disso, mas tem muito em jogo. Percebe que os juízes fazem as pontuações.
Todos notam seu cansaço, mas ele sente também o cansaço do seu algoz. O atingido pensa em todas as teorias, teses, livros, estratégias, soluções para agüentar em pé. Os golpes continuam, mas com um espaço maior entre os golpes.
Ainda nas cordas ele sorri, os dentes avermelhados, ri dizendo a todos “é só isso?! Não pode bater mais forte? Vem eu agüento! Use toda a sua força! Eu ainda vou ficar em pé. E no momento que você cansar, eu vou reagir, sem regras, sem luvas, sem juízes, vou arrancar seu pescoço com as mãos nuas. Você não vai me vencer. Pode tentar, me derrube, eu volto! Isso não é uma promessa que não cumprirei, nem ameaça para lhe aterrorizar; é um aviso, esteja pronto!”.
A luta não acabou. Ele não sabe em qual “round” está. Mas vai continuar até que o gongo soe ou que ele vença. Não é só conversa.


Wednesday, December 08, 2010

39 – O Filme


Nem todo o filme tem um começo igual, mesmo que se pareça, mesmo que tenha uma referência. Esse filme tem 39 cenas. Filmados como se fossem 39 dias, meses, anos e cada ano uma cena. Assim prossegue através de um roteiro muito amplo que aproveita do improviso e do imprevisto para ilustrar. Silêncio e de repente na tela aparece um espelho que se espatifa com o choque de um objeto jogado nele e a imagem fica lenta, em “slow-motion”, com os estilhaços mexidos no ar se transformam no número “39”.
Abertura do filme só da o nome do protagonista, produtor e diretor. Os outros personagens não são citados, vão aparecer no final, como todo filme padrão montado, assim que tem que ser, os créditos, ficha técnica, no fim daquele jeito corrido pela tela que ninguém consegue ler ou presta atenção.
As cenas porém são jogadas na tela. Não tem cronologia. Enfocam só a presença do protagonista em suas 39 cenas. A vida passada diante dos olhos dos outros. Sua vida desnuda. Mesmo que seja a mais escondida, secreta parte, ela é descerrada diante dos espectadores que mastigam sem parar balas, pipoca, petiscos e banham-se com refrigerantes.
Numa breve sinopse, o protagonista está diante de um espelho. Ele vê sua imagem, se aproxima, toca e sua mão ultrapassa o espelho. Ele se assusta, mas tenta chegar mais dentro do espelho. De repente, sente um puxão, o próprio espelho o puxa, na sua frente sua imagem ri fazendo força para puxá-lo. O pânico é total. Uma trilha sonora explode nas caixas de som das salas de cinema, Kashmir, do grupo Led Zeppelin ( disco Physical Graffiti - http://www.youtube.com/watch?v=eKtfjsonPFE&feature=related, acompanhe...), ouça, vibre com a força, uma batalha. Ele é puxado para dentro do espelho e vê o mundo do lado de fora. Ao seu lado está seu reflexo rindo, debochado, sentando sobre as pernas e pegando pedras no chão para brincar com elas logo em seguida num jogo de malabarismo. O protagonista fala, grita e nada. Ninguém o ouve. Ele vê as cenas da sua vida. Cena 1. Cena 2...Cena 20...Cena 25...Cena por cena. A vida passando diante dos seus olhos nos olhos dos outros.
Ele escuta as frases dos diálogos longos com as pessoas que dividem o set de filmagem com ele. As tramas, os dramas, as comédias, as tragédias. Tudo ali. Até ficção. Um colega de cena esmurra o espelho e ele dá um passo para trás o que faz seu reflexo dar atenção para sua atitude e de imediato rir até cair de costas, contorcendo-se. As cenas vão aumentando. Partes que ele não tinha lido no roteiro. Este roteiro, como já dito, modificado a cada virar de páginas, a cada amanhecer. A música tema continua ali atrás, bem fraca, quase um sussurro. Ele força sua saída do espelho de todas as formas. Onde ele está é ermo, sem cor, sem ar fresco, um odor de mofo, não há paredes, mas também não há como adivinhar pela pouca luz. Ele quer sair dali. É um sonho ruim, murmura para si mas querendo que os espectadores o ouçam.
Ele vê as cenas se completando, amores, sexo, frustrações, perdas, amizades, ganhos, desespero, tédio, raiva, pena, saudade, pais, mulher, filho, irmãos...Cenas ainda incompletas. Cenas ainda que serão refilmadas pelo diretor na hora de editar. Tudo bem, o filme já está sendo visto por todos, mas o diretor tem outras idéias. Ele vai tirar cenas; colocar outras. É sua obra mais pessoal. Ele prefere que o protagonista lute mais. Faz uma inserção de “flashbacks” dele caminhando na rua, descendo um morro e sobre sua cabeça pássaros sobrevoam em círculos. Mostra o seu ponto de vista, mostra ele fazendo parte do todo. A música tema prevalece ininterruptamente como se assombrasse, fosse um fantasma.
Corte de edição e o protagonista ainda está dentro do espelho. Ele sente a proximidade de uma pessoa conhecida do lado de fora. Bate na superfície com força gritando suplicando por ajuda. Mas é deixado. Ele se vê bem onde está. Sozinho. Não vai para nenhum lugar. O espelho trinca. Ele observa. A música cresce, aumenta, ensurdece. Ele pega uma das pedras das mãos do seu reflexo brincalhão e arremessa contra o espelho. Estilhaços. Uma saída. Ele corre na direção dela. Uma visão trêmula como se o público fizesse parte desse esforço. A música pára. Não o vemos. Tudo escuro. Só podemos ouvir a respiração ofegante do protagonista e ele diz: “consegui!”