Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Monday, August 15, 2011

ABERTA

Começo agradecendo. Difícil isso para se entender. Difícil ainda mais para se dizer. Obrigado. Palavra cara essa que eu aprendi dizê-la e compreendê-la. Agradeço a você pelo meu filho. Sei bem o que move isso. O amor. Sei o que me move a dizer isso, o amor.

Ainda acho que estou em guerra com o mundo, sendo o Capitão Ahab na caçada por Mob Dick, numa mistura de teimosia, insanidade e persistência. Essa imagem me persegue pelos cantos, na sujeira debaixo da geladeira, atrás do fogão, em cima do armário, no vão das janelas de correr. É a minha visão disso tudo. Passo o dia dos pais sozinho. Por escolha, mas não por vontade. Queria ter aos meus braços o meu pequeno gigante e eu com todas as armas, granadas e com muita fé estaria presente. Meu pensamento é todo em torno disso. Eu penso nisso o dia todo. E em mais alguns dias também de datas diferentes.

Aberta. Aberta como uma ferida que não cicatriza, como uma fresta de porta que o trinco deixado para fora não permite que a feche. Aberta como a possibilidade de um dia novo ainda incerto dos acontecimentos que saem da rotina; como uma boca que se surpreende, uma olhada rápida, uma risada histriônica, uma vontade sem fim ou uma saudade que aperta com mãos de ferro.

E continuo, depois de derramar algumas centenas de lágrimas que ninguém vê dentro do meu imaginário protetor, a distribuir saudações e mais agradecimentos. São mais que isso; são reconhecimentos. Valorizo. Talvez não por mim, mas pelo que foi feito. Isso tudo para meu filho. Ele nem sabe. Não precisa. E nem peço que me vejam com ardor, com admiração. Outrem sejam vocês com suas impressões. Aqui, sou eu, em carne, ossos, músculos, pêlos, flatos, arrotos, dejetos, poros, suores, saliva e se puder, com alma. Resta algo ainda no fundo disso tudo.

Já estive no ringue apanhando sem parar. Caindo de uma janela à beira de um penhasco. E estive em todos os lugares do mundo. Criei batalhas em guerras sem adversários e ao mesmo os enfrentei enfileirados apenas com as mãos nuas e a mente carregada por um arsenal de idéias. Eu já repeti essas frases e mesmo assim elas ecoam. Abracei o mundo nesse ínterim. O esmaguei. Fui abraçado para ser derrubado num golpe e esmagado com a fúria de Atlas me carregando em suas costas. O mundo tornou-se um mapa e eu um ponto de referência atrás da bússola sem ima. E vi no horizonte, a saída, no movimento da Mob Dick, sua barbatana esmurrando o mar, seu corpo saltando sobre a água num misto de deboche, afronta e desafio. Eu peguei o meu arpão e rezei para que a atingisse. É, nesse instante eu entro numa página aberta na obra literária que rasuro entre dentes. Clamo o nome do meu filho. Ele guia minha mão. Mas não minha mente. A baleia branca pára e observa. Abre sua boca e vem na minha direção. O arpão é pequeno, um graveto e ela uma tormenta. E o livro é folheado pela força do vento.

Ao meu filho devoto toda minha vida, mesmo longe, mas tão perto como fosse uma sombra embaixo de seu travesseiro. E só tenho a agradecer. Numa disputa aberta.

Monday, August 01, 2011

A Ostra em Pedaços


Eu ainda acho que posso agarrar o mar com as mãos. Acho que posso buscar as ostras no fundo do mar e abrir uma a uma tirando delas as pérolas que ficam ali guardadas calcificando. Eu ainda acho que posso dividir os mares e ver o fundo dos abismos. Eu ainda acho, mas não encontrei. E mesmo assim acho que possuo o dom de congelar as ondas antes que elas me levem de volta para terra ou me afoguem de vez.

Descobri, com muito custo, que o Universo pode ser visto a olho nu por óticas diferentes. Obviedade, não sou o Senhor da Razão. Na minha conclusão existem “multiversos”. Cada um a sua identidade e semelhança. O que é engraçado, porque todos nós buscamos a nossa metade, algo ou alguém para completarmos, mesmo quem se ache uma ostra nesses universos.

Estar só é uma condição natural. Buscar alguém é a segunda etapa dessa condição de aprendizado, de crescimento, de ser adulto. Quando crianças, por mudanças dos destinos dos adultos, nossos pais, nós podemos ir de uma escola para outra começando toda uma relação nova. Essas relações são difíceis. Algumas vezes cruéis e traumáticas. Sofremos o “bullyng”. Nós o praticamos, também. E saímos com as cicatrizes mais profundas que as outras pessoas. Chegamos, ali só e também podemos sair dali do mesmo jeito. Ou pior ainda. Isso é só o começo.

Criamos a nossa própria concha. Nos tornamos uma ostra num oceano cheio de afrontamentos e desafios. Podemos ser algo selvagem ou apenas um pré-meditado abate para continuar a cadeia alimentar da seleção natural. E entra aí nossa condição. Aquela, tal de condição natural: solidão.

Não precisa você pintar de preto as paredes brancas do seu quarto ou você ficar olhando a lua até o clarear do dia, não precisa disso para sentir-se só. É normal, cedo ou mais tarde você vai abrir sua concha e estará a sua disposição uma pérola com o brilho mais forte que seus olhos já puseram a lupa. A solidão é uma fase que surge num horizonte onde você está acelerando com seu carro cheio de sentimentos esperando reduzir, mas perde o controle logo na próxima esquina capotando e revirando sua vida. Quando o carro parar de girar seus olhos fixarão uma imagem qualquer que representará sua solidão. Isso, vai lá, xingue ou agradeça; reaja de alguma forma.

Mas cedo ou bem mais tarde, você, a ostra, será quebrada. Estará em pedaços. Fique assim. Estufe o peito e sinta que ainda tem ar ali dentro. Você pode respirar. Ninguém vai fazer essa dor passar. E não a alimente, porque ela só precisa disso para apertar o seu peito com a força de uma pisada de um elefante. Veja seus pedaços, organize esse mosaico de sentimentos e tente chegar à superfície. Mais uma vez, assim como eu, tente abraçar as ondas, derrubá-las numa luta sem fim e sem vitórias.

Hoje, assim como amanhã, eu vou correr em direção ao mar com o pé no acelerador.