Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Friday, November 04, 2011

Sob o Domínio dos Caninos Expostos

Estou sentado numa praça arborizada com o sol na cara e vigiado ao lado pela saudade armada com uma 12 de cano cerrado.

Eu, com as mãos nos joelhos, olho para ela e vejo todo o seu sarcasmo. Tem um sorriso bonito cativante, até. Com um palito entre os dentes, um uniforme paramilitar, põe o coturno pesado de seus pés sobre o banco que me faz desequilibrar. Fico pensando depois de tudo isso, das coisas que se sucederam. Do que está distante.

A saudade é uma dominadora sádica e perversa com os caninos expostos. Ela é diferente para tantos. Pode ser sobre o tempo perdido das brincadeiras com o seu filho, com as outras que terá, com a criação da sua filha de cachos, dos amigos de tantas bebidas sorvidas como fossem hóstias, dos amigos novos que foram verdadeiros salva-vidas em momentos de mares turbulentos, da família desajustada e daquela que quer se ajustar ou que ajusta os ponteiros, dos lugares novos, dos velhos lugares, das estradas percorridas, das outras que nunca estive. Poderia ser no Japão tecnológico repleto de uma orientação lógica despreparado para a fúria da natureza, no interior da China com seu passado tão rústico quanto à dádiva de hoje de povos aldeões com seus filhos a tiracolo fazendo necessidades na rua com a naturalidade ímpar, dos templos imponentes seduzindo-nos, na Índia com sua pobreza financeira em contraste com a riqueza religiosa e cultural, em Praga culturalmente fria e extremamente quente aos convivas de outras terras beirando as bizarrices, no trânsito de pessoas e carros de maneira circular e sem fim de Roma, nas peripécias em touradas de Madrid, no verdadeiro sabor da Tequila no México aceitando a maldição de Montezuma pela poluição quase sólida no ar com toda a sua força, nas ruínas labirínticas de Machu Pichu deixando pelos corredores de pedra essas saudades. Seja nos lugares onde estive. Seja nos lugares que só sonhei. Seja nos seus lugares. Em todos esses lugares que misturam tantas conversas e idiomas quanto às pessoas que lá ficaram. E o domínio continua. Perpetua.

No mesmo momento que sorrio com o sol fazendo um mimo, ela engatilha sua 12 de cano cerrado e a mira no meu peito.

Cada um tem sua saudade seja assim ou assado. Faça dela um samba com uma melodia gostosa. Dance junto um forró quente. Deslize num sertanejo. Acabe-se numa rave sem hora para encerrar e chute muitas pessoas num rolete de roqueiros. Sacuda a cabeça. Respire profundamente. A viva!

Os caninos expostos com a saliva no canto da boca misturado ao seu sorriso, ela fecha um olho e mira no seu, no meu, no nosso peito e dispara. O cartucho explode. O baque derruba. A saudade vence, mas no chão você abre os olhos e sorri. Essa saudade que machuca, fere, também alimenta o sentimento. Com voracidade.

Marco Zero


Todos nós já passamos por algo bom ou ruim na vida. Essa conversinha para boi dormir mamando na teta que já ouvimos, lemos e digerimos por ai.

Encaremos isso como se fosse um ritual de passagem; uma nova etapa. Uma fronteira logo adiante. Um novo lugar que carregamos em vez de deixá-lo.

Territórios conquistados em batalhas nem sempre vencidas por nós. E de tantas fronteiras que qualquer um já teve, em algum momento da sua vida, ao atravessá-las, uma a uma cruzando cidades, estados, países e situações num crescimento de vários sentidos, nos vemos de cima como se observássemos uma maquete. Inclusive quando tratamos de nossos sentimentos.

Os anos, os meses, os dias passam acompanhados por rostos, sotaques e situações adversas. Soma-se a isso um punhado de emoções e overdoses de sentimentos. Um colapso eventual. Acrescente às suas descobertas, aos seus esquecimentos e às projeções colocando nos seus olhos as areias imaginárias do tempo e muitas vezes cegando-nos, não percebendo que elas se vão.

Nisso tudo, no aglomerado dessas emoções, de algumas presenças, de inúmeros vazios, de escaladas aos picos e quedas acidentadas vê-se o amadurecimento adquirido, as experiências malfadadas, a consistência da insolvência dos fatos e o que vale a pena em relação a tudo descrito numa incógnita chamada destino. O peso maior em torno disso, o valor na lição mais básica, mesmo na frieza tão comum entre as pessoas com escolhas racionais, vê-se do que somos feitos e para quem o fazemos.

Desvendar os segredos que guardamos dentro de cada um com a inapta falta de atitude em tantos momentos é a maneira menos salutar de estar vivo. É como quebrar uma parede com a cabeça. Seremos, então, obrigados a aceitar tantas mudanças para conseguir um ou outro “sim” na troca por um orgulho tolo e sem noção. Mas esqueça tudo isso e sinta. Isso, sinta. Aperte junto ao peito a saudade e a cesse personificando o sentimento.

O marco zero está no respirar de todo dia. Vestir-se, fazer um café vespertino, lavar a louça de dois dias, limpar a casa que aglomera teias de aranhas e punhados de poeira que parecem adquirir vida própria, passar roupas que teimam em ficar amassadas e chegar ao final do dia depois de ser rechaçado pelo mundo que o faz com o dedo em riste como um herói ou heroína. Não é uma ode contra a humanidade e nem rancor contra os lugares ou com as pessoas, mas admitir que uma outra pessoa melhor, mais forte, mais resistente e ainda não tão sábia, porém sabedora que há muita mais coisas por ai pode ser reconhecida à sua frente, diante do seu espelho.

Queremos algo em comum. Mesmo aparentando termos poderes não queremos perder o rumo. Ter o sentimento como timão do nosso barco. E você sabe, assim como eu, quem é a nossa bússola basta seguí-la evitando todos os desvios e deslizes. Esqueça dos monstros, dos maremotos, dos abalos naturais. Saiba que eles existem, mas não tire seus olhos do horizonte. Sua última fronteira é logo ali. Uns quilômetros, alguns metros, várias jornadas a mais e você estará lá. Objetivos e metas de passar ao lado de quem você quer pelo resto da vida. Comece do marco “zero”.