Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Friday, December 14, 2012

O Baixista – Notas, Acordes e Desafinação

Ele sai às compras. Calçando sandálias de borracha trajando bermuda e camisa do seu time de futebol. Caminha com o desleixo com a vida. Com a cabeça erguida, olhos teimando em estarem abertos por causa da luminosidade do Sol, que vem com uma voracidade atroz. Possui o acessório nos ouvidos de fones, aos quais explodem uma seqüência de músicas. Ele as dubla e faz uma espécie de “bass air”( imitação de como tocasse contrabaixo ). A rua se torna um enorme palco e os transeuntes, sua platéia.

Ao chegar ao supermercado, ele continua ouvindo suas músicas. Os fones parecem uma extensão do seu corpo, ligados ao mp3 player. E estes estão conectados com a sua vida. Mas a vida gira ao seu redor de uma maneira menos idílica. Talvez bélica.

Nesse dia em questão ao sair do supermercado, ele empunhava uma lata de refrigerante, pensara que não ia beber (álcool), pois em poucas horas encontraria seu filho. Este é seu maior trunfo, sua melhor composição. Ele compõe. Ele escreve. Ele é um baixista. E porque um baixista? Longa explicação. Porém num remoto futuro de ruídos, há uma breve passagem, logo à frente e pela lógica do desenrolar da interpretação que não serão nas linhas para serem lidas, mas notas para se ouvir, cantar e por ai afora.

No supermercado, aliás, ele caminha com aquele seu jeito de domador de leões ou apenas de um cara que se “lixa” para o mundo já divagando no estacionamento. Porém, sempre há o porém do acaso. Ele passa ao lado de um carro, onde havia um rapaz por volta de seus vinte e alguns anos, levemente acima do peso, vestido com a camisa do time rival do dele. Ele bebia cerveja. Cantarolava gritos da sua torcida. Quando o baixista passou com seus ouvidos longe disso, o rival saltou do capô do carro que estava escorado e desferiu na sua nuca um soco mal dado daqueles que chamam de “mata cobra”. O baixista tropeça, cambaleia para frente assustado até. Para, se vira, retira os fones e olha para seu agressor que o intima com o seu corpanzil indo ao seu encontro. Um detalhe. Sempre há um detalhe em tudo, nem que seja nos pormenores como nas letras miúdas dos contratos. Preste atenção.

Então, o baixista afinou suas notas, se recompôs. Colocou em prática duas das suas virtudes. A lei de sobrevivência e as aulas de Muay Thai. Com a proximidade do seu agressor o timbre do baixo subiu com todo o groove que a sonoridade dos anos 70 traziam. Bons tempos do soul, do funk. Agressor veio e mesmo com os pés descalços, o baixista acertou a parte interna da canela dele. O rapaz cai aos gritos segurando com as duas mãos a perna. E daí como uma invasão que surge no palco da sua rua, uma menina, não, uma mulher com uns vinte anos e poucos, dessa vez. Fardada também. Loira. Com um shortinho branco, deveras pequeno onde as cavidades da sua bunda e o desenho de sua virilha quase apresentavam seu sexo ao mundo. Ela saiu do carro onde o agressor estava encostado. E veio chamando o nome de “Junior” ou algo assim ao mesmo tempo, que obviamente, ia cravar as unhas que estavam armadas como garras na direção do baixista e sem pensar sequer na feminilidade ou do cavalheirismo, o baixista a agarrou pela camisa e a fez girar para bater com toda a força que o momento exigia. Ela bateu com seus enormes seios, fartos e exuberantes embaixo da camisa na porta do carro. Assim ela se acalmava. Não, ela escorreu até o chão quase sem poder respirar. E não parou por ai. O domador de leões estava tão relaxado e agora nada o faria sair dali. Mas além dos dois alvejados tinham mais dois amigos. Um sujeito alto sem camisa, loiro avança tentando pegar as pernas do baixista. Ele tem o que? Um metro e setenta e três, quatro, talvez e o sujeito um e noventa. E mesmo assim tentou pegar as pernas dele. O baixista pôs em prática, mais um dos ensinamentos das aulas. Deu um passe para trás, fez a base com as pernas e com ação do descamisado sobre ele, desferiu como defesa, dois socos, esquerdo, direito cruzados com sucesso ao rosto dele que caiu de barriga no piso de concreto do estacionamento. Nocaute! A melodia swingada de um samba rock bem marcado com os acordes absortos numa cozinha de ritmos, o fizeram dançar. E mais um saído do carro ficou apenas na ameaça com o celular na mão numa bravata de chamar a polícia. O baixista parado, com a guarda erguida, concorda e incentiva. Do nada, mas do nada mesmo vem um “xis” laranja do lado direito do baixista que não hesitou. Girou o corpo e derrubou quem vinha. Era o segurança do estacionamento, enquanto mais dois de terno apareciam ameaçando com rádios. O resto? São detalhes.

Porque ele quis ser baixista? Os baixistas têm uma figura estanha. OU eles são estranhos mesmo. No mundo do rock, Geezer Butler era o baixista que fazia as letras e a temática de filmes de terror, submundo e inferno nas músicas do Black Sabbath. Lemmy Kilminster, a lenda viva do rock no seu Motörhead como um ser mítico carregando os trejeitos do último cara malvado do Universo sem maquiagem e com uma verruga que se acredita ser o que o mantém vivo. Bill Wyman, o baixista original dos Rolling Stones, que no seu jeito imperceptível não demonstrava que era um caçador de groopies (as garotas fãs) da banda e acabou casando com uma de 14 anos. Adam Clayton, do U2, mesmo com seu jeitão cool, ele é o mais baderneiro, beberrão, descolado e arrebatador de amores com as beldades mais doidas que ele. Geddy Lee, do Rush o mago multiinstrumentista com sua voz esganiçada e visual nerd cabeludo. Um resumo breve que podem ser recheados com outros. Para instigar quem quiser a procurar sobre baixistas. Não há respostas aqui. Nada. Mas de algum jeito, responde.

No fundo, ele era tímido. Quando criança não se sentia talentoso para ser guitarrista, nem possuía a voz e carisma de ser vocalista. Considerou em ser baterista. Mas ser baixista o colocava num patamar de levar a música. E se esconder. Cresceu e o baixo para ele tinha o poder de colocá-lo num mundo à parte. Ficava na esquerda do palco. Quase escondido. Quando não, as luzes o procuravam e ele soube usar isso fazer caras e bocas, olhava para o lado, encarava alguém, pulava como se fosse outra banda tocando uma outra música, às vezes ficava de costas para a platéia. Sua discrição o expunha. Chamava atenção com o seu jeito de não ter jeito.

O baixista tem corpo. Rosto. Mente. Sentimento. Ele sabe que ainda não fez sua melhor canção. Ainda não fez o seu melhor show. Ele sabe disso. No meio de sua coleção de discos, acordes e notas com toda a desafinação, ele ainda vai tocar uma bela canção para ser ouvida embalando a dança de amores e dos amores que se resumirão disso. Ele ensaia. E se essa música não for tocada, será ouvida por quem reconhecer o ritmo. NO entanto ele tem sua melhor composição, já dita.

Agora pode perguntar como eu sei disso?! Porque eu o sigo quando a luz estiver sobre ele. Ou na sua frente com o crescer da sua silhueta. Ou mesmo numa pequena penumbra. Eu sou sua sombra. Como de um baixista ao fundo do palco.



Wednesday, October 24, 2012

DISCOS RISCADOS Volume II


               Minha vida se resume a uma vasta trilha sonora. Assim como de muitas pessoas. Eu passo dias enviando por email, músicas que eu gosto ou que podem dizer alguma coisa a alguém. Músicas certas para momentos apropriados. Gosto de ser o DJ sem programador, sem roteiro, que sabe o instante certo para colocar a faixa exata. Mas posso também  ser inconviniente, arrogante, chato com todas as intenções.
                A emoção que a música causa colocando com esmero e cuidado em cima da faixa de um vinil, por exemplo. Não farei “scratches” sobre os sulcos. Não precisarei dar um “delay” ou diminuir a rotação para que ela dure mais. Eu sei o tempo certo de cada entrada e com oportunismo, a saída dando o “fade out”.
                Existe a música que você ouve quando está triste trazendo o saudosismo doloroso. Realmente você ouve a letra que parece corroe-lo caindo aos pedaços no encarte do disco. Com todas as frases e mensagens para atingir você. A empatia é imediata. E avassaladora. Devasta o coração muitos dessas vezes levando aos extremos.
                Há também as músicas que o faz dançar, saltar, gritar, saracotear como um boneco de mola. Você pouco se lixa para a letra com profundidade, você quer vibrar, a sentir balançar seu corpo de fora para dentro e vice versa. Alegria.
             Vamos, vamos aumentar o som. Deixemos a música subir. Mude de faixa. Sim, mude. No momento que isso acontece as lembranças se movem, as sensações se corrompem, as emoções iniciam seu processo de ebulição.
            Quando você troca um disco, outra faixa ali se encontra. Mesmo um disco de regravações, covers, uma coletânea de sucessos, a versão que ali está é diferente que está no outro disco. Ou seja, muda.
        Mexa na gaveta. Sacuda os braços. Dance. Vivencie a música. Faça como o protagonista do filme/livro Alta Fidelidade, crie uma lista das 10 músicas que marcaram sua vida. E a refaça daqui uma semana, dez dias, um mês, dois meses, um ano e sempre haverá mais uma, outra e outra assim por diante.relacione-as ao seu mundo.
           Perceba com cuidado quando colocar a agulha bem no ponto da faixa. Solte esperando aquele pequeno rasgo, aquele atrito, o ruído. Veja que a música não marca tanto quanto antes. A faixa salta com os pequenos riscos, com as ondulações. E testará a faixa tentando de todas as maneiras que dê certo.  Não fique só no vinil. Corra com o cd e procure a faixa. Ele pode travar. O leitor com apenas um grão de poeira não permitirá que o cd corra. No máximo pule. Salte. Você será obrigado a mudar de faixa. Mas antes, você retirará do aparelho e observará com atenção onde está o estrago. Passará um pano, uma flanela. Tentará restaurar. Consertar as coisas. Dará uma segunda chance.
                Mas mesmo com todos os cuidados, o simples fato de ter pequenos riscos não fará seu disco ser perfeito. Porém, ele ainda será seu. Ainda haverá a oportunidade de ter outros discos. E quem sabe até reaver o seu original. Ou o jogue fora. O coloque na estante de recordações. Basta você saber o momento certo, o seu momento para que isso aconteça. Permita-se a essa chance.   
               

Monday, October 22, 2012

ORBE


            A primavera já apresenta o ar da sua graça. O céu num azul quase idílico mistura as cores em escuro e claro. O mundo todo nas ruas. E no meio de tudo isso, em seu microcosmo, ela olha para a janela já bem cedo bebericando o café recém feito. Em torno de oito horas da manhã do começo do horário de verão. Aquele tempo que enganamos o relógio adiantando-o uma hora, perdendo assim essa hora.
            Ela pensa segurando com as duas mãos a caneca de porcelana com os dizeres: “Felicidade é...” Olha os dizeres e ergue os olhos deparando com o lado de fora do mundo. Respira o ar da brisa delicada e fria. Ela está nua de pernas cruzadas sobre a cama de casal com os lençóis enrolados. Sozinha. Desse jeito que sente por quase uma década. Ou mais. Pensa, pensa, pensa como faz todos esses dias no passar dos anos.
            Tenta justificar tudo que já fez. Seu casamento moribundo. E das inevitáveis traições. Ela usou casos de longa data para sanar o marasmo do seu compromisso e tentou desse jeito colocar uma peneira para evitar a luz que mostrava todos os sinais. Tornou-se uma farsa. E buscou no sexo sem compromisso apagar a chance de se apaixonar por outra pessoa e deixar para trás tudo que criou. E mesmo assim manteve o laço com o descompromissado. Confundiu-se. Não, conformou-se. Não via mais futuro diverso do conhecido presente. A rotina tinha se tornado o sabor mais amargo do seu casamento e uma boa desculpa para não fazer nada por si diferente.
            Sempre foi assim. Ela sempre foi o pistão do motor. Ajudou a família, como a irmã mais velha. Ajudou a mãe, o pai. Ajuda aos Amigos. Resolve as questões dos outros. Sacrifica-se pelos outros. Usou a felicidade dos outros para justificar a sua existência. O marido é um ermitão nada ambicioso que se entregou aos caprichos da vida ordinária. Sem vícios, sem manias, sem saber que o pouco nada mais é do que quase nada. Ambos têm uma vida confortável. Com requintes de bons salários, mas se perderam na virada dos anos causando a sua dor silenciosa.
            Ela não abandonou sexualmente os desejos pelo seu cônjuge. Porém ela não deixou de fugir de sua pacata vida para a cama de outros. Ela apagou-se fora da promiscuidade. Solidificou uma imagem severa voltada ao trabalho, onde se afundou no castelo de papéis e documentos. Sua vida se resumiu a isto, ajudar os outros, trabalhar sem parar e aventuras limitadas, escondidas, abafadas.
            Não há porque julgá-la. Ela já faz isso. No acompanhamento da sua terapia, no choque de mundos e opiniões de um demônio que alerta com frases ácidas. Este se aproxima dela com o tridente sacudindo-a pela consciência. Para ele, o demônio, isso é fácil já que não a tem mais. O demônio tem muitas caras, como diz a máxima popular.
            Ela suspira pensando em tudo isso. Sabe que não adianta se esconder. Tem que encarar  o mundo que abre a boca na sua janela. O seu Kraken, o algoz dos humanos sob os cuidados dos deuses do Olimpio. Teme viver. O medo encoraja, sussurra o demônio antes de gritar com ela no vazio do seu quarto. Levanta-se chorando aos poucos. Nua. Ela pára na frente do espelho, abaixa a cabeça e amolece os braços deixando cair ao lado corpo, a caneca que espatifa no piso liso. Ela vê o líquido e os cacos no chão. Da um desajeitado sorriso. Vira-se e chega bem perto da janela. Nua. Assim desse jeito. Fecha os olhos, joga a cabeça para trás, curvando-se e retorna para frente abrindo os olhos. Sua pele arrepia. E grita com o sorriso nos lábios. Sem esconder mais nada. Jogando seu único orbe ao mundo.

Friday, September 28, 2012

Fósforos Apagados


Fazia tempo, mas muito tempo mesmo que eu não ficava observando. Cheguei hoje entre a madrugada fria escura e o dia que amanhece lento como o levantar das pessoas de cara inchada. Estou eu já a postos. Num escritório em forma de “L” sigo o caminho do chão frio num dia que promete ser quente. No fundo com uma tela enorme tapando seu rosto, ele se encontra com os dedos nas teclas acelerados, martelando palavras com erros crassos de digitação. Caminho desviando das pessoas que andam ao contrário sem função definida.
                Paro ao lado da mesa dele, agora, largando a digitação e pegando um bloco de papel todo rabiscado com algumas linhas feitas, forçosamente, com uma régua e uma esferográfica. Ele morde o lábio com tamanha força e tensão com o canino que perfura a pele, da mesma forma que aperta a ponta da caneta no papel, escorrendo as palavras entre frases pontuadas e caligrafia quase ilegível.
                Sento numa cadeira a sua frente sobre as pernas cruzadas. Coloco a mão no queixo, olho ao redor, algumas pessoas ao longe dele, falam asneiras e reclamando. Dou uma suspirada que faz tanto barulho que eu, imediatamente, viro a cabeça de um lado para outro para ver se alguém percebeu. Dou um sorriso de cabeça baixa. E ele ali com a caneta fazendo cortes cirúrgicos a cada palavra escrita.
                "É melhor queimar do que se apagar aos poucos", ele repetia quase como um sussurro inaudível num mesmo tom “mântrico”. Essa frase estava na carta suicída de Kurt Cobain, e parafraseada da canção My My, Hey Hey (Out Of The Blue) de Neil Young. Ele me preocupa há dias. Há mais tempo até. Por isso vim ver mais de perto o que faz. Ele me assusta.
                Fico em pé e me aproximo mais dele. Quero ver o que ele escreve. Inclino o corpo um pouco, olho sobre os ombros. Quero ver o que ele tanto rabisca impiedosamente. Eu sorrio. Abro um largo sorriso, coloco a mão nas costas dele e dou três tapas, seguidos de apoio e afeto. Eu tento me aproximar do ouvido dele e digo como já disse tantas outras vezes: Vai melhorar. Já foi pior. E você sabe meu amigo. Calma, coisas do trabalho certo virão com a maré e eu não estou dizendo coisas para deixá-lo animado. Você me conhece. Sabe que eu sou o primeiro a derrubar castelos de areia e derrubar cristais das mesas de falsas esperanças imaturas. Como um amigo eu não preciso passar a minha mão na sua cabeça. Eu tenho até a obrigação de dar um tabefe eventual. Sou cruel; sou eu, desse jeito com pedras, paus e arames farpados dando as mãos para você. E depois do que você escreveu com toda a força que você  ainda se permite, eu só posso dizer que estarei mais ao seu lado.
                Ele realça o que escreveu. Grifa várias vezes. Abaixa a cabeça encostando o rosto de lado na mesa arranhada pelo atrito da caneta com o papel fino, trespassando-o. O que está escrito, alguém deve se perguntar. A resposta virá de onde se menos se espera. De onde você menos espera.
                Olho para a janela e o dia já deixa de ter o Sol trazendo a lua como anfitriã. Ela nos guiará com a sutileza do vento que aumenta aos poucos. Ele se levanta e se despede de todos dali deixando cair no chão a folha que tanto rasurava. Eram muito mais que simples grifos. Era tudo que ele sentia. E sente com todas as letras.

Tuesday, August 21, 2012

Na Busca do Alvo Móvel

              Manhã de terça, mas poderia ser qualquer outro dia. Eu sei bem que hoje será um dia incomum, mesmo com todos os aspectos ordinários. Há algo a fazer fora do cotidiano. Então vamos lá.
            Com passos acelerados subo as escadarias do terraço do prédio no centro da cidade. Não calço botas e nem estou de preto. Estou de tênis, calça jeans rasgada não pela moda, mas pelo tempo. A camisa de um anti-herói estampa o meu peito com os dizeres já gastos, dessa vez pela moda. A emoção e o esforço físico causam uma excitação. Com um sorriso carrego também uma mochila de nylon vermelha. Gosto de vermelho, gosto porque representa as cores do meu time de futebol. Ninguém percebe minha jornada entre os corredores até o topo do prédio. É ser invisível ao comum. Eu tento respirar tanto fora quanto dentro de mim. Chego, enfim, ao terraço. Abro a porta corta-fogo e dou de cara com a manhã da cidade cercada por outros prédios. Mas é só a primeira parte do dia. Até agora comum a todos.
            Vou até a beirada do terraço. A fronteira física entre o espaço e o ar. Olho para cima, para frente e sigo no mesmo movimento dos olhos, para baixo. Ainda tenho um sorriso na cara. Fico de joelhos, faço o sinal da cruz, aproveitando para ter fé e ao mesmo tempo o faço como uma ironia do destino. Abro a minha mochila que jaz inerte ao meu lado. O zíper soa, ao mesmo tempo, que algumas pombas dão um rasante sobre minha cabeça. As espano sem muito êxito. Retiro da mochila um fuzil. Ajeito-o sobre a beirada. Fico de joelhos mas não vou rezar. Olho pelo visor da mira alguns detalhes quando aponto para baixo. A cidade não respira, ela sufoca pelo trânsito de veículos e a debandada de pessoas. Que mira boa essa, penso. E começo analisar algumas pessoas.
            Fixo minha mira e vejo dois homens conversando. Tento regular a mira dando um zoom. Quero ver o que dizem. Parecem que falam amistosamente como amigos, deixa-me ver, eu posso interpretar, eles falam de futebol, das colegas, do final de semana, do churrasco. Nada de importante. Giro um pouco para o lado e dou de cara com uma mulher belíssima, um sonho de consumo fetichista. Como faço para dar mais zoom nisso? eu  pergunto. Queria ver melhor aquele decote, aquele rosto, a saia justa. De novo, excitado. Mas continuemos, ela acabou entrando porta adentro do banco. Observo agora uma senhora, uma vovó. Ela discute com um homem, ele gesticula, ela também, dá as costas. Um cachorro defeca perto deles. Entendi, eles discutiam por isso. Meu dedo fica perto do gatilho. Miro um por um. Dou uma risada. Mais uma nessa manhã tão comum.
            Fico algumas horas observando cada um dos passantes querendo achar algo, um diferencial, a razão que moveria a emoção ou o contrário. Minhas costas já doem e o sol já incomoda a pele com o suor escorrendo por todas as entranhas do meu corpo. E de repente como fosse um aviso, um sinal, uma peça de bibelô colocada na sala de estar, pois todos lá embaixo parecem pequenos bonecos, vislumbram um homem e uma mulher que falam sem parar. Ela está de braços cruzados, ele mexe nos cabelos dela, no seu rosto, a pega pela cintura. Pronto achei o alvo. Coloco meus fones e ouço uma música de um grupo novo que faz um som instrumental meio etéreo, meio rock, meio psicodélico, meio pesado. Ela tem emoções certas. Aumenta no momento certo. Reduzem. Aceleram. Todos os climas nos longos minutos da canção. As guitarras distorcidas, o baixo marcado fazendo as linhas melódicas. A bateria pesando o ápice da canção. Não ouço o mundo lá fora, miro bem neles. Demorou bastante hoje, um dia comum, para achar. E os encontrei. Meu alvo móvel. A mira está neles, a marca precisa. Só um lance e um tiro, o projétil os atingirá ao mesmo tempo. No meio da multidão e ninguém perceberá nada. Um, dois, três bons sonhos! Consegui! Alvos atingidos.
            Não tenho pressa em sair dali. Fiz o que deveria. Alguém dirá que sou parte do destino, que sou místico, que sou um anjo, mas sou apenas a força que os uniu nesse momento. Volto a olhar para o meu alvo. Os dois se beijam sem parar. Sim, atingi o alvo num dia comum. Uma cena comum que pode acontecer com qualquer um.  
 

Friday, July 27, 2012

Crônicas De Bate-Papo: Frases Entre Dentes


As frases devem ser curtas.  As frases longas, cheias de detalhes, quase sem respirar dizem menos e propagam uma idéia tecendo a colcha de retalhos para conseguir novas idéias. Diz-se que uma discussão deve ser breve, objetiva, incisiva e porque não, cruel. Depois de dez minutos de conversa o foco fica dentro de um prisma de cores e perde-se.  As pessoas passam a discutir milhões de coisas outras, liberando traumas e coisas que não têm nada a ver.
Os conflitos surgidos só aumentam. Quem começa a falar muito busca alternativas para convencer. Percebe-se a fisionomia de quem quer convencer. Sua, aperta as mãos, gesticula, arregala os olhos, entonação de voz mais alta e agressiva. Mas também pode ser de maneira suave, voz pausada, olhar fixo e movimento quase imperceptível. O que caracteriza mesmo são as frases. Nunca curtas. Nunca sem muitas explicações. Uma palestra, às vezes.
          É possível que, num determinado momento, você venha a questionar mais a sua vida seja no âmbito afetivo, profissional, social e perceba com os conflitos enfatizando suas discussões. É possível que seus erros tenham que ser reavaliados e por ali buscar as desculpas. E nesses dois momentos destacados poderíamos ter apenas frases como:  “ preciso de você” ou “me desculpa”. Não acontece isso. Um bom interlocutor, no diálogo que pode se tornar um monólogo de um ciclope debulha-se em frases e mais frases.  Que tal não complicar?
            O melhor conselheiro no momento sugere buscar um momento, particularmente, propício para que você tome consciência de suas decisões e corrobore suas opiniões.  
Seja sucinto. Direto. Verdadeiro. A verdade pode ser feia, mas ela é a única coisa que pode estar entre você e a melhor coisa da sua vida. Seja onde, o que ou quem for. 
             Cuide das frases entre dentes.