Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Friday, March 16, 2012

Um Tango em Fúria


A chuva veio finalmente. Essa semana não foi das melhores semanas que tive no somatório dos anos. Ficam naquela pasta de arquivos na memória que você não lembra bem. Ocorrera há dois anos, ou alguns meses.

Hoje foi um dia onde os pés ficaram encharcados indiferentes com a vida particular dos que se protegiam inutilmente com seus guarda-chuvas. Lagos, riachos e cachoeiras nas ruas e esquinas. No meu ombro um pequeno demônio sussurra palavras ofensivas de baixo calão. O suor escorre da testa pelo rosto misturado a chuva. O demônio escancara uma risada que o desequilibra e ele cai de costas nas poças da rua. Desliza pelo córrego dos cordões das calçadas, mas não consegue entrar na boca de lobo que explode entupida. O demônio se levanta devagar, enquanto eu o aguardo na esquina encostado na parede tentando me proteger da tormenta.

Fecho os olhos e ouço a chuva se afastando. Ouço a voz suave de uma mulher. Abro os olhos e o nevoeiro baixo da umidade ilustra a voz. Uma mulher canta sua melodia. Na rua, entre os dois lados, casais se entrelaçam num tango arrastado. Os odores das roupas molhadas, mal secas dão espaço aos perfumes adocicados e silvestres. Um quarteto que se refugia da chuva intensa, acompanha a cantora. Transeuntes assistem todos os movimentos bebericando bebidas diversas. Eu ali, em pé, olho uma mulher loira com seus sonhos maneados pelos cabelos e com seu sorriso aberto a escolhas. Penso que ali minha boca se perderia como um colegial chegando à escola no seu primeiro dia de aula. Mexo os quadris para entrelaçá-la e trazê-la perto de mim. O faço. Ela retribui com o arrepio de quem assente. Ficamos no embalo da melodia e deslizamos pelos cantos com o nosso tango pessoal. A fenda do seu vestido se revela a cada levantar de pernas, a cada passada de mão que orquestra nossos movimentos. As minhas mãos firmes e com delicadeza necessária acariciam as costas desnudas do decote avantajado dela. Ela mordisca os lábios e cerra os olhos. A cobiça do corpo vai além do desejo, mas do sentimento seja lá o que isso signifique.

A loira sorri. Debocha. Esbraveja. Conduz, muitas vezes. Eu me firmo. Pés não chegam a tocar o chão. De repente, o tempo muda. A chuva aumenta. As pessoas correm deixando para trás as bebidas que somem, os casais se separam acabando com seus pares de dança, o quarteto se dispersa, a cantora desaparece pela cortina que o volume de água provoca. Eu fico ali com os braços vazios durante a debandada da horda. A loira segue pelo passado ao futuro pulando sobre as poças indo contra a correnteza.

O demônio sorri ao meu lado sentado no meio fio. Bate nos joelhos como se a piada que ouvira fosse a mais hilária do mundo. Mundo às avessas. O pego pelo pescoço como quem pega um filhote recém nascido e o coloco de volta sobre meu ombro. Caminhamos mais um pouco já que a chuva enfraquece, quase acaba. Atravessamos a rua e um carro acelera muito mais que devia brecando um pouco antes da faixa de segurança, resvala no paralelepípedo indo desgovernado na minha direção.

Ouço o acordeon sustentar a nota. O violão dedilhando. As luzes enfraquecendo no meio da rua causando um breu e ressurge no seu ápice com o spot em cima de um casal. Os corpos suados e os cabelos desalinhados provocam a respiração ofegante na boca trêmula deles. Dessa vez eu sorrio. Sinto o perfume, a pele arrepiada, me sinto protegido. Não por anjos da guarda, pois faz tempo que não acredito em anjos.