Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Monday, April 16, 2012

Baby BUM!

Uma mulher nua desliza a língua pelo abdômen de uma pessoa. Da sua saliva criam-se desenhos que tatuam a pele alheia. O corpo deitado é lentamente virado e as unhas da mulher arranham dando os contornos das tatuagens. E mais desenhos aparecem nas pernas da mulher tatuadora com os joelhos dobrados. Seu corpo é um painel de cores e nuances. Ela continua arranhando as costas nuas embaixo dela e um dragão se forma remexendo-se. Aperta a pele que sangra e um Sol surge. Olha para frente. Sorri e estapeia a cabeça da pessoa sob ela e puxa levemente, mas com autoridade, o cabelo ralo. Ela domina aquele corpo. Joga-se para trás rindo e uma silhueta se levanta caminhando nu passando por uma porta. Ela vê tudo isso com a face no chão e um só olho aberto.

Calça um par de botas pretas de salto agulha. Levemente ao calçar, passa as mãos por suas pernas sobre os traços das tatuagens que com o movimento adquirem vida sentir o seu toque. Os músculos das suas costas contrastam com o rugir das feras e as armas dos guerreiros que ali estão e seu cabelo escorrega por eles. Um coque é feito. Uma era se apresenta. Uma Pin Up. Suas mãos são luvas tatuadas. Os braços e as costas desnudas cheias de cores. A tatuagem nas costas grita a ser trancada pelo corsellet preto que a protege. Agilmente, ela desfere um sorriso aberto piscando para o espelho que a cerca pelo ambiente.

Sai de casa. Bate a porta deixando mais que barulho, o seu perfume que também acompanha. Sobe na sua moto “old style” vestindo um casaco de couro preto. Coloca seus óculos escuros. Acentua sua boca vermelha de batom. As mãos friccionam o guidão. Ela dispara pelas ruas num final de tarde azul escuro. A motocicleta para num semáforo. Olhares furtivos e curiosos a despem, a observam, a querem, a rejeitam. Olhos dançam. Ela os encara e trinca os dentes como uma felina. Dispara armada com os caninos do seu sorriso. Ecoa pela sua boca avermelhada uma gargalhada se mistura com o grunhido do motor. As pessoas do veículo ao lado fecham devagar os vidros, assim com os transeuntes que se protegem cruzando os braços e encolhendo os ombros dentro de si. Ela segue rumando pelas avenidas, pequenas ruas, vielas e para diante de um bar estalando o motor. Como um ensaio de um filme, cabeças viram e olhares se afrontam. A diversidade da fauna. Uns a admiram surpresos, outros a desafiam. Como se houvesse uma câmera lenta, ela abre o seu casaco deixando-o cair no chão. A cena é vista em quatro ângulos diferentes. Suas pernas torneadas, sua bota, seu corsellet, seu cabelo pin up esvoaçando. Ela coloca as mãos na cintura e com rapidez ajeita o seu coque prendendo-o.

Com passos lentos, um atrás do outro, ela os observa a sua frente por esse ângulo. Entra no bar pisando nos quadrados do chão frio. Suas mãos caem sobre o balcão e tamborilam. Sua boca entreabre-se. Close nos olhos e bocas das pessoas. Lábios tremem, mordiscadas e pernas descruzadas. Corpos se contraem. Murmúrios com a melodia da música que sai das caixas de som que ficam coroando o teto do lugar. Ela percebe e sorri. De costas para o balcão, seios fartos incitam a todos, joelho direito levemente dobrado, a perna esquerda estendida. Bebe lentamente. Tira seus óculos. Uma rufada de tambores. Ela ergue-se. Sacode a cabeça, balança os cabelos com voracidade.

Os seus olhos são como de uma predadora. Ela olha a todos. Coloca dois dedos nos lábios e lança beijo a platéia ao passar por todos a passos lentos. Alvoroço. Sai do lugar carregando seu copo e um punhado de pessoas com seus pensamentos.

De repente no meio da rua ela para, vira meio corpo, seu rosto se contrai, seus olhos fitam do outro lado da rua um homem desfocado ao longe parado apontando para ela sozinho. Ela se deixa levar Através dos seus olhos semicerrados e seus punhos fechados. Ela sai em disparada ao encontro dele.

Num salto, aos gritos e trespassa a imagem do homem com um golpe, um pontapé no ar. A imagem some, se esvai em fumaça fazendo um urro. Ela fica em pé, ereta, mãos na cintura. Mexe em seu cabelo. Respira e volta para onde sua moto está. Sobe, coloca o capacete e acelera. Uma canção começa ao volume extremo, enquanto alguns balões de onomatopéias de histórias em quadrinhos povoam a visão de todos e nos injetam adrenalina.


Wednesday, April 11, 2012

MATIZ


Sentei na beirada da cama diante da janela aberta que vai do chão até o teto com as persianas arreganhadas e fiquei olhando a lua. Parecia tão pequena, mas com o brilho intenso que iluminava a escuridão falsa do meu quarto. Estiquei o braço e com a ponta dos dedos coloquei a lua ali. Eu a segurei como uma pequena pérola, uma pedra, uma bola. Por alguns instantes eu a escondi colocando a palma da mão na frente dos meus olhos. A luz dela ainda invadia o quarto, mas havia agora, uma marca no meu rosto. Um véu. E de repente, sempre de repente...

Às vezes cultivar o desapego é um dos conselhos fundamentais dado pelo bom senso. A importância de deixar ir seja o que for, quem for e pelo que for. Existem momentos da vida em que o desafio compreende a instigante vontade de deixar paisagens para trás, rostos e corpos embalados numa canção antiga de frases cuspidas para cima. Uma ou outra vez o ego se estrutura a partir de apegos e identificações deixando pra trás vítimas estiradas num campo de batalha pedindo ajuda, mas pouco a pouco, passo a passo, você vai se renovando como perdesse sua pele de cobra.

Aprendendo a observar as coisas simples da vida, a mensagem aqui é clara: de pouco ou nada adianta dar valor às coisas exageradas e dramáticas dela própria. A felicidade pode e deve ser encontrada no simples, na humildade básica. Momentos de valorizar as conquistas e interiorizar isso. É uma arte cênica que dramatizamos e por muito menos descerramos a cortina para o próximo número. Dê valor ao que está ao seu redor, mesmo que seja quem lhe entrega as dicas para continuar a encenação.

Ter na ponta da língua os mais audaciosos elogios só fomenta a incoerente sensação de estar se portando com falsidade para alguns; será preciso estratégia e diplomacia para lidar com algumas circunstâncias árduas. Ande pelas beiradas dos abismos, dos penhascos, do fio da navalha, do momento de dizer “não” e evite os confrontos indiretos. Direcione o golpe. Viva muitas vezes as circunstâncias exigindo uma reação. Dessa vez são suas pernas quem enlaçam. Sua língua que dança. Seu corpo que faz tremer. Sua paciência será recompensada.

Esconder-se na fé com absoluta certeza que move seu espírito pode soar fantasiosa, fetichista até para quem não consegue isso. Ainda que eventualmente peque por ingenuidade e por essa crença exagerada. Não venda seus sonhos e ideais por nada. Mesmo que lhe ofereçam muito mais. Que lhe cubram os desejos. E será cobrado. De repente...

Fecho os olhos e dou-me conta que a brisa noturna desliza por mim com todos esses pensamentos e conselhos. E delicadamente, com o calor do tato de duas mãos, com a pele à mostra, os olhos se abrem e encaro o corpo da lua enorme sentada no encosto da minha janela e com o seu sorriso ilumina a minha cama. Enfim a harmonia entre razão e emoção repousa num beijo.