Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Tuesday, May 22, 2012

Última


                 Eu estendi o braço; o pus em cima da mesa. A palma da mão aberta com o dorso em contato com a mesa. Fechei e abri a mão. As veias saltaram dando relevo a pele no desenho do braço. Com a outra mão peguei uma ampola e no atrito do polegar com o indicador quebrei a parte fina do vidro com uma leve força. Com a outra mão que jazia em movimento num abrir e fechar, eu peguei uma seringa e com a agulha pronta sorveu o líquido na ampola.
                Eu injeto na veia que quase sai do braço e queima minha corrente sanguínea.  É assim que lhe sinto. Queimando meu corpo, machucando sem aparecer. Faz a minha razão se perder em longas viagens de tristeza cega.  Para mim é bom, mas me faz mal. Sou consumido por isso.  Por muito tempo me tornei dependente dessa sensação.
                Sinto saudades. De dar bom dia. Do rosto inchado da manhã. Dos cabelos desalinhados brigando com o resto do corpo e este se debatendo com os lençóis. Continua queimando arrastando tudo pela frente como uma avalanche. O sorriso aberto, o carinho, o desejo, as brigas, as palavras fortes, as imagens entram em choque, conflitos, discussões e as juras. Foi à pessoa certa quando eu agi errado. Foi o momento errado para pessoas certas. Foi o sentimento certo de maneira errada. O líquido vai abrindo as portas da percepção de idéias e fantasias, enquanto as lembranças dão o baque que derruba.
                Mas é uma dose forte, cada vez mais forte. Faz mal. Destrói. Tornei-me um dependente, um lixo humano pelas atitudes e um verme pelo erro delas. Mas, sim, mas deveria também ser o grande ”pulo do gato”. Só que do lado de lá. Da contrapartida. Não foi. O mais fácil é eliminar o que não é certo, não valoriza r algo mais. E dessa vez eu dei a última dose. Eu vou jogar todas as outras ampolas fora e o mais engraçado que como um passe de mágica ou uma provocação de uma bruxa, elas retornarão.  Partindo desse ponto terei que esconder em algum lugar. Fechar os olhos e jogar longe. Se eu guardar saberei onde estarão. Se eu jogar longe sem ver pra onde, talvez, eu demore em reencontrar ou nunca mais encontre.  Tentar esquecer usando esse dois verbos no infinitivo parece um ciclo infinito. Sai para dançar, pular, espernear e nada mudou ao fim das contas pagas. Continua queimando devagar por dentro do meu corpo.
                Meus dedos não se contraem. O braço está inerte e eu caído sobre a cadeira. Sinto ainda tristeza. Sorrio com fugazes momentos de alegrias. Com o que está ao meu redor. Espero por uma resposta que me mostre que tudo teve sentido que não é só uma fissura minha. O mundo gira ao contrário ao meu movimento. De olhos abertos vejo tudo que se passou e as coisas boas se amontoam uma sobre as outras. Acelerando, girando ao contrário. O mundo ao contrário. Eu parado fico enjoado. Imagens contínuas de 360 graus. Dormência. Queimação. Dependência.
                Mas é a última vez. Como todo o dependente não terá respaldo para credibilidade. Mas dessa vez tem que ser. Mesmo que não queira, mesmo que suporte terá que ser. Minha última dose. O efeito vai aos poucos passando. Entretanto as seqüelas se manterão.
                Minha respiração já voltou ao normal e estou no caminho do mundo girando ao seu favor. Não, eu não esqueci onde você está. Mesmo que você já tenha me perdido por aí.
                Começando a última vez do novo dia.

Wednesday, May 16, 2012

Pra Ti; Pra Mim

Hoje é um dia  importante. 
A sua importância não apresenta feitos 
heróicos, históricos, desastres, hecatombes, tsunamis, 
ou o que for. 
Hoje é um dia importante pra mim. Importante pra ti. 
Você não vai ler isso, mas vai entender com todas as letras o que estou dizendo. 
Verá o carinho de todos. Sentirá o amor de muitos. 
Será o centro das atenções e mesmo assim o mundo não irá parar; não irá deter uma colisão de carros ou desafogar o trânsito na hora do rush. 
Não, nada mudará. Mas tudo mudou para nós. Para os seus. Sua família. Nossas vidas.
Hoje é um dia muito importante. 
E em curtas e breves linhas só quero dizer que te amo. 
Cochicho deitado no chão de cimento com o Sol esquentando nossos rostos e nos fazendo brincar de esconder entre as sombras. 
Com o ar frio arrepiando nossa pele e sorrimos nas nossas longas conversas.
Hoje é um dia tão importante pra ti; pra mim.

Feliz Aniversário...

Wednesday, May 02, 2012

CATARSE


Eu escolhi a dedo o livro na estante buscando novas idéias e outras histórias que pudessem fazer eu me esquecer das minhas. Depois de uns longos minutos e muitas coisas passando pela cabeça como lugares, fatos e nomes, achei o que poderia ser um analgésico para o saudosismo ou qualquer outra sensação. Não satisfeito abri a mente ao me deparar com os meus discos de vinil, cds e dvds. Colocados em ordem alfabética fui olhando um por um lembrando de cada canção, de cada ritmo, da época de cada um. Histórias que só avolumavam diante de mim.
            Somando consegui em vinte minutos pausados, chegar na letra “d”. Já contabilizava oitenta e nove gravações de vários artistas. Uma variedade de dar inveja a qualquer discoteca. Não falo tanto pela qualidade, mas pela quantidade. Isso me trouxe lembranças das quais eu fujo diariamente como um dependente que reluta dia a dia na sua recuperação.
            Atos falhos! Ao acabar algumas frases e expressões ditas por outras pessoas. Chamar as pessoas por nomes de quem deveria estar no mínimo esquecido lá nos confins da memória. Não consigo lembrar de datas e nem do que almocei ontem, mas esses nomes sim. Por isso busco nesse exercício dos discos, paliativos momentos para enganar as lembranças. É diário. É um círculo vicioso.
            O esforço é mais que físico. È psíquico. Sinto o cheiro.Sinto o toque. Ouço a voz. Vejo o rosto. Um filme que já sei as partes. Quero pular as cenas. Quero apagar algumas, mas como uma sina só vai se repetindo. Eu sacudo a cabeça removendo diante mim tudo isso, escondendo por algum tempo esses personagens. Mas a história não se repete; ela é a mesma.
           Cansei dessa história. De achar que passaria numa sessão de piscar de olhos. Resoluto depois de algum tempo. Sabido desse tempo. Não quero mais. Foram difíceis pequenos atos. Apagar frases, deletar imagens, rasgar fotografias, evitar lembranças. Causou dor. Mas não acabou. Dentro, no fundo, não acabou. Está apenas escondido. Jogado para trás no canto sujo do roupeiro cheio de roupas velhas e das camisas novas. Entre a saudade e os cupins que corrói a madeira e muito mais. Essa história vai ficar por ali até quando o tempo a resgatar ou ser vencida pelo próprio passar dele.
            Eu vou remontar pedaço por pedaço desse pequeno mundo. Com a música certa, com as frases corretas e delas, mesmo que já escritas, ouvidas, realizadas serão revistas a quem merece. Temos esse direito. E até porque as histórias não acabam. Elas podem ser as mesmas sendo repetidas de outras formas. Cada um conta um conto aumentando um ponto. Desvie no próximo cruzamento. Pare diante das placas de sinalização. Observe a direção das nuvens. Siga a seu favor, contra ou pró a força do vento.
            Num movimento rápido das batidas do coração. Estou ouvindo uma nova música a todo volume e (re) escrevendo minha história.