Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Tuesday, August 21, 2012

Na Busca do Alvo Móvel

              Manhã de terça, mas poderia ser qualquer outro dia. Eu sei bem que hoje será um dia incomum, mesmo com todos os aspectos ordinários. Há algo a fazer fora do cotidiano. Então vamos lá.
            Com passos acelerados subo as escadarias do terraço do prédio no centro da cidade. Não calço botas e nem estou de preto. Estou de tênis, calça jeans rasgada não pela moda, mas pelo tempo. A camisa de um anti-herói estampa o meu peito com os dizeres já gastos, dessa vez pela moda. A emoção e o esforço físico causam uma excitação. Com um sorriso carrego também uma mochila de nylon vermelha. Gosto de vermelho, gosto porque representa as cores do meu time de futebol. Ninguém percebe minha jornada entre os corredores até o topo do prédio. É ser invisível ao comum. Eu tento respirar tanto fora quanto dentro de mim. Chego, enfim, ao terraço. Abro a porta corta-fogo e dou de cara com a manhã da cidade cercada por outros prédios. Mas é só a primeira parte do dia. Até agora comum a todos.
            Vou até a beirada do terraço. A fronteira física entre o espaço e o ar. Olho para cima, para frente e sigo no mesmo movimento dos olhos, para baixo. Ainda tenho um sorriso na cara. Fico de joelhos, faço o sinal da cruz, aproveitando para ter fé e ao mesmo tempo o faço como uma ironia do destino. Abro a minha mochila que jaz inerte ao meu lado. O zíper soa, ao mesmo tempo, que algumas pombas dão um rasante sobre minha cabeça. As espano sem muito êxito. Retiro da mochila um fuzil. Ajeito-o sobre a beirada. Fico de joelhos mas não vou rezar. Olho pelo visor da mira alguns detalhes quando aponto para baixo. A cidade não respira, ela sufoca pelo trânsito de veículos e a debandada de pessoas. Que mira boa essa, penso. E começo analisar algumas pessoas.
            Fixo minha mira e vejo dois homens conversando. Tento regular a mira dando um zoom. Quero ver o que dizem. Parecem que falam amistosamente como amigos, deixa-me ver, eu posso interpretar, eles falam de futebol, das colegas, do final de semana, do churrasco. Nada de importante. Giro um pouco para o lado e dou de cara com uma mulher belíssima, um sonho de consumo fetichista. Como faço para dar mais zoom nisso? eu  pergunto. Queria ver melhor aquele decote, aquele rosto, a saia justa. De novo, excitado. Mas continuemos, ela acabou entrando porta adentro do banco. Observo agora uma senhora, uma vovó. Ela discute com um homem, ele gesticula, ela também, dá as costas. Um cachorro defeca perto deles. Entendi, eles discutiam por isso. Meu dedo fica perto do gatilho. Miro um por um. Dou uma risada. Mais uma nessa manhã tão comum.
            Fico algumas horas observando cada um dos passantes querendo achar algo, um diferencial, a razão que moveria a emoção ou o contrário. Minhas costas já doem e o sol já incomoda a pele com o suor escorrendo por todas as entranhas do meu corpo. E de repente como fosse um aviso, um sinal, uma peça de bibelô colocada na sala de estar, pois todos lá embaixo parecem pequenos bonecos, vislumbram um homem e uma mulher que falam sem parar. Ela está de braços cruzados, ele mexe nos cabelos dela, no seu rosto, a pega pela cintura. Pronto achei o alvo. Coloco meus fones e ouço uma música de um grupo novo que faz um som instrumental meio etéreo, meio rock, meio psicodélico, meio pesado. Ela tem emoções certas. Aumenta no momento certo. Reduzem. Aceleram. Todos os climas nos longos minutos da canção. As guitarras distorcidas, o baixo marcado fazendo as linhas melódicas. A bateria pesando o ápice da canção. Não ouço o mundo lá fora, miro bem neles. Demorou bastante hoje, um dia comum, para achar. E os encontrei. Meu alvo móvel. A mira está neles, a marca precisa. Só um lance e um tiro, o projétil os atingirá ao mesmo tempo. No meio da multidão e ninguém perceberá nada. Um, dois, três bons sonhos! Consegui! Alvos atingidos.
            Não tenho pressa em sair dali. Fiz o que deveria. Alguém dirá que sou parte do destino, que sou místico, que sou um anjo, mas sou apenas a força que os uniu nesse momento. Volto a olhar para o meu alvo. Os dois se beijam sem parar. Sim, atingi o alvo num dia comum. Uma cena comum que pode acontecer com qualquer um.