Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Friday, September 28, 2012

Fósforos Apagados


Fazia tempo, mas muito tempo mesmo que eu não ficava observando. Cheguei hoje entre a madrugada fria escura e o dia que amanhece lento como o levantar das pessoas de cara inchada. Estou eu já a postos. Num escritório em forma de “L” sigo o caminho do chão frio num dia que promete ser quente. No fundo com uma tela enorme tapando seu rosto, ele se encontra com os dedos nas teclas acelerados, martelando palavras com erros crassos de digitação. Caminho desviando das pessoas que andam ao contrário sem função definida.
                Paro ao lado da mesa dele, agora, largando a digitação e pegando um bloco de papel todo rabiscado com algumas linhas feitas, forçosamente, com uma régua e uma esferográfica. Ele morde o lábio com tamanha força e tensão com o canino que perfura a pele, da mesma forma que aperta a ponta da caneta no papel, escorrendo as palavras entre frases pontuadas e caligrafia quase ilegível.
                Sento numa cadeira a sua frente sobre as pernas cruzadas. Coloco a mão no queixo, olho ao redor, algumas pessoas ao longe dele, falam asneiras e reclamando. Dou uma suspirada que faz tanto barulho que eu, imediatamente, viro a cabeça de um lado para outro para ver se alguém percebeu. Dou um sorriso de cabeça baixa. E ele ali com a caneta fazendo cortes cirúrgicos a cada palavra escrita.
                "É melhor queimar do que se apagar aos poucos", ele repetia quase como um sussurro inaudível num mesmo tom “mântrico”. Essa frase estava na carta suicída de Kurt Cobain, e parafraseada da canção My My, Hey Hey (Out Of The Blue) de Neil Young. Ele me preocupa há dias. Há mais tempo até. Por isso vim ver mais de perto o que faz. Ele me assusta.
                Fico em pé e me aproximo mais dele. Quero ver o que ele escreve. Inclino o corpo um pouco, olho sobre os ombros. Quero ver o que ele tanto rabisca impiedosamente. Eu sorrio. Abro um largo sorriso, coloco a mão nas costas dele e dou três tapas, seguidos de apoio e afeto. Eu tento me aproximar do ouvido dele e digo como já disse tantas outras vezes: Vai melhorar. Já foi pior. E você sabe meu amigo. Calma, coisas do trabalho certo virão com a maré e eu não estou dizendo coisas para deixá-lo animado. Você me conhece. Sabe que eu sou o primeiro a derrubar castelos de areia e derrubar cristais das mesas de falsas esperanças imaturas. Como um amigo eu não preciso passar a minha mão na sua cabeça. Eu tenho até a obrigação de dar um tabefe eventual. Sou cruel; sou eu, desse jeito com pedras, paus e arames farpados dando as mãos para você. E depois do que você escreveu com toda a força que você  ainda se permite, eu só posso dizer que estarei mais ao seu lado.
                Ele realça o que escreveu. Grifa várias vezes. Abaixa a cabeça encostando o rosto de lado na mesa arranhada pelo atrito da caneta com o papel fino, trespassando-o. O que está escrito, alguém deve se perguntar. A resposta virá de onde se menos se espera. De onde você menos espera.
                Olho para a janela e o dia já deixa de ter o Sol trazendo a lua como anfitriã. Ela nos guiará com a sutileza do vento que aumenta aos poucos. Ele se levanta e se despede de todos dali deixando cair no chão a folha que tanto rasurava. Eram muito mais que simples grifos. Era tudo que ele sentia. E sente com todas as letras.