Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Monday, December 16, 2013

Introdução em Queda Livre

Sempre esperamos algo mais, não é?!
Com o aproximar dos minutos do ano que finda, despedimo-nos do cansaço e das frustrações como por um passe de mágica. Apoiamos na esperança de que tudo será melhor e o que é ruim, complicado passará ou sumirá. Realmente nós ocultamos as partes não boas. As jogamos para debaixo do tapete esperando – palavra mágica – com ardor, que num golpe de sorte surja a solução dos céus. Sempre falamos sobre isso. Todo ano. E a “sujeira” aparece levada pelo movimento das coisas.
E quando ela vem à tona, vem com força. Soco na boca. Arrancando os dentes. Mesmo que você os ranja. Mesmo que solte o verbo e mande tudo ao inferno. Nesse caminho encontrará amigos, conhecidos e outros que ficaram por aí.
Uma passagem rápida de 365 dias. Um fast forward 4x. Acelerado. Passam com volúpia. Para tantos esse ano teve surpresas. Conheceram pessoas. Desvincularam a outras. Brigas de rua. Brigas de casais. Separações. Encontros. Desencontros de ideias, de palavras, de pessoas e de sentimentos. E passou rápido, não é?! Mas mesmo assim esperávamos mais!
O próximo ano tem a auréola santificada de boas novas e com isso uma pressão que causamos. Refletimos nossas vidas através do investimento de que tudo será bom. E como sempre, tudo tem dois lados. Quem paga também recebe.
Sentimos como se caíssemos em queda livre a 15 mil pés (faça o cálculo convertido, rápido!) para o que vier. Queremos sair de maneira furtiva e escapar pela culatra dos problemas. Vou confessar algo bem baixinho, quase sussurrando, não adianta! Os problemas estarão ali, nas prateleiras do seu quarto escuro, expostas nos rótulos, as datas de quando começaram e dentro de seus recipientes, como jarras com tampo onde prendemos insetos, como moscas que ficam se debatendo desesperadas.
Não está gostando do que está lendo, não é?! Pena. Absurdo. Não agradar a todos. Sim, isso é ironia com todas as boas intenções que o deboche pode causar. Aqui não é um texto que vai elevar seu espírito e nem destruir sua vida promovendo a dor. Ninguém quer que você vá agora diante da janela, abra-a e jogue-se do 10º andar. Se o fizer isso só provará o quanto imbecil e covarde você é! E caríssimo, eu admito, mesmo que passe na sua cabeça, você sabe eu sei, que é bem melhor que tudo isso! Que pode e deve enfrentar esse próximo ano com o sangue fervendo pronto para a briga. Você agüentará mais alguns “rounds”. Eu agüentarei, porque você não?!
    Muita coisa dependerá de mim nesse ano. E com certeza farei de tudo para colocar todos os pinos nas juntas.  A vida continua. As vidas continuarão. Principalmente as que dependem de mim.
Boas festas. Feliz Natal. Próspero ano novo. Ora, não achava que eu não iria parabenizar a todos. Com sorriso amarelo e com gosto de sangue no canto da boca.



Tuesday, November 05, 2013

Sempre aos Detalhes


Abrir os olhos, ainda embaçados e procurar no espaço vazio, o calor de quem você quer que ali esteja. O sorriso surge no seu rosto com o despertar da saudade e do desejo tanto emocional quanto físico. Você pensa, lembra de detalhes, se preocupa com detalhes e a saudade acompanha sem desgrudar os olhos. Sensação além do que é simplesmente sentir.

Sair da cama num pulo só e ressoar o impacto com o chão desequilibrando-se. O sorriso ainda no rosto. Ainda com a lembrança fresca mesmo que faça mais tempo que o ontem, mas parece ser tão pouco tempo e assim mesmo uma eternidade. Não há como dizer que não. É mais que paixão, é mais do que dizer eu te amo, é mais que um sentimento. Vai além. E o dia apenas começou.

Já no banho com a água escorrendo pelo corpo, onde queria ser tocado por quem se quer. Que sua boca percorresse a pele com caminhos que só o seu desejo permite. O desejo mais desperto. Com mais ímpeto, com furor, buscando o êxtase de quem você quer ali. Pensa em detalhes. Sempre nos detalhes. Na beleza. No jeito. No toque. Na entrega.

Ao vestir-se pensa em como gostaria de despir o corpo que o chama. De quem vai longe. De quem quer cuidar, de quem quer ao seu lado num simples beijo que se torna tudo ao beijar. O começo do desenho da saliva pelo corpo como se ali fosse um mural para ser pincelado. Aos beijos se descobrindo detalhes, novamente, traçando rotas ao colidir nossos sexos. Despir não só as roupas, mas os medos, os receios, os sentimentos, as palavras. Pode soar repetido, mas não do mesmo jeito.

Como se ressoasse uma trilha sonora toda particular através de nossas respirações ofegantes, na percussão de nossos toques, no ritmo acelerado, moderado, acertado de nossas cinturas, tornamos um só.

E o dia só começou como tantos outros. A lembrança, a saudade e o desejo sempre me acompanhando. O melhor de tudo que será assim, enamorado. Até quando ela estiver deitada ao meu lado quando acordar. Namorando todos os dias como se fosse mais um novo primeiro dia. Sempre aos detalhes.



Wednesday, September 04, 2013

99%

         

As pessoas vivem rapidamente; como um frame. Frame é cada um dos quadros de uma imagem numa unidade de tempo. Cada movimento numa tela de televisão, por exemplo. Cada quadro é composto por frames. E como se estivéssemos numa enorme tela, a nossa vida é recheada desses momentos fragmentados. E 99% delas nem sabe o seu por que.
Hoje a maior obscenidade é exatamente reduzirmos nossas ansiedades. E sem sombra de dúvidas, a exposição não é sexual. Expor é a palavra de ordem. Mas há a vergonha plena que não se resume ao sexual e sim ao sentimental. Falar de amor, demonstrar, se tornou um tabu. Abrir-se ao amor. A rapidez de tirar a roupa é inversamente proporcional despir-se ao amor.
A velocidade das relações com as redes sociais fomentam o distanciamento e a frivolidade de aproximação com as relações fora delas. Aceleram o conhecimento e a informação. No resto, físico além do virtual, não há como ser veloz. E muito menos como chegar mais perto.
            Nesse preâmbulo o simples fato de ser você já se torna uma coisa difícil. Ter o coração aberto com vontade de amar. Além do sexo, porque sexo por sexo é apenas passageiro, rápido, substituível, muitas vezes. Não falamos em arte de ser você mesmo, não nada disso. É simplesmente complicado ser você. Temos nossas fobias, nossas vontades, que evitamos ao máximo, os inevitáveis compromissos e o ônus dos deveres. A regra, que sem pudor nenhum é quebrada, existe, e na supressão dela, surgirá outra. Nessa mesma porcentagem. Quase 100, mas faltando os “malditos” 1. E ficamos aos nossos caprichos resumidos em 99% querendo acelerar tudo.
            Acabamos rasurando nosso caderno de afetos com frases curtas e ações precisas. Não vemos adiante, a não ser o que está alcance de nossas mãos. Satisfação é a palavra mais usufruída. Homens e mulheres entram no embate da falta de aprofundamento. Um mergulho raso de relações frívolas ou pouco aquecidas com o passar do tempo. Tentando usar todo o tempo possível. Mas é muito pouco. Pouco demais.
            No final queremos nos relacionar de maneira mais rápida. Que a paixão seja um barril de pólvora. E faremos um rastilho bem longe dele, temendo maior impacto. O máximo possível. Seremos nós mesmos. Distantes querendo diminuir espaços. Mas quando menos estivermos prontos, alguém aparecerá e acenderá o rastilho iniciando a queima. Em breve, muito em breve sentiremos a explosão do nosso amor. Este estranho ser que estará escondido embaixo dos nossos escombros sobrevivendo 99%.

Monday, June 03, 2013

Sorrisos em Covas Rasas.

A morte sempre teve uma conotação poética para ilustrá-la. Às vezes apresenta-se assim para disfarçar o mal-estar que ela causa (entenda isso como uma ironia). Nós a personificamos. A chamamos como uma temerária invasora do nosso destino. Ela existe. Seja do jeito que for, está em algum canto agora mesmo. Mas ela não precisa definir o fim da vida; ela pode ser o fim de algo.

E do meu jeito a persigo. Como assim?! Vou atrás dela, caçando-a. A observo por aí ao olhar para o tempo dos ponteiros que não param; dos dias que se seguem. Não sei o momento exato do nosso encontro, mas vou ao seu encontro armado e colocando armadilhas pelos caminhos da vida.

Ela surge para cada ser de uma forma particular. Não causa alvoroço. Ou causa estardalhaço. Pode ser masculina ou feminina. Velha ou jovial. Carnal ou espiritual. Aos meus olhos, ela é feminina, sexy e extremamente manipuladora. E eu não a busco para que acelere o meu relógio e leve a minha vida como uma ladra barata. Não! Eu a quero para terminar com os momentos que sobrevivem em mim.

A quero como minha refém. Vou forçá-la a terminar as coisas, como já citei. Cansei de apagar, manualmente, as minhas lembranças que pesam como uma pedra enorme enlaçada, por uma corda, ao redor do meu pescoço. Preciso dela para auxiliar nisso. E vou conseguir, nem que tenha que domá-la.

Ao encontrá-la já montei um plano bem simples de como colocá-la no cativeiro e alimentá-la com minhas frustrações e tristezas. Com base nas minhas falhas e erros, vou sem muita pressa, esboçar cada momento que não quero mais trazer comigo. Não vou levar essa bagagem extra quando morrer e (aí sim!) a morte terá a sua finalidade real, com total controle da situação. Só que agora, eu tenho o meu objetivo.

Eu me sento na rua. Em cima do cordão da calçada e a aguardo, acompanhado da esperança que está de ressaca e da ansiedade que injeta nas suas veias muito mais coisas que pode suportar. Não somos um trio e isso não me importa. Elas estão aqui por opção delas, assim como eu.

Ao cruzar a rua, a morte surge. Ruidosa, exuberante e um tanto vulgar. Seduz e já mais leve por ter cumprido o seu dia de trabalho. É noite, ela não me vê e meus companheiros se omitem de qualquer ação. Dou um salto e corro em direção a ela. Pego-a pelo pescoço, enquanto seu vestido de fenda desenha no ar as pernas torneadas, com impulso, seus sapatos voam pelo ar. Ela arregala os olhos e com a minha mão na sua boca, há uma mescla de reações de pânico e surpresa. Eu sussurro bem perto do seu ouvido com seus cabelos junto a minha boca. Digo o que preciso e o que quero. Ela tenta recuperar o fôlego. Ficamos assim com o tempo a nosso favor.

O medo passa com os segundos, deixando para trás a surpresa. Ela respira mais tranqüila agora e concorda com a cabeça. Eu a solto e nos encaramos. Ajeita seu cabelo, arruma seu vestido e procura por seus sapatos vociferando por não encontrá-los. Pede que repita o que quero. Eu digo, novamente. Vejo a esperança acenando do outro lado da rua, mas a ansiedade, não está junto. Tudo muito calmo. Ela sorri ao ver seus sapatos, vai até eles, os calça e me olha. Sorri com toda canalhice que conheço. Vem para mais perto, beija meu rosto, minha boca, colando seus lábios e pisca várias vezes. Olho de novo para o outro lado da rua. A esperança saltitante, se despede com toda a alegria em seus sorrisos. A ansiedade surge apressada para gritar que vai embora. Volto para olhar para frente e só vejo a morte caminhar no sentido contrário.

Eu fico em pé no meio da rua. Olho para o meu relógio e o tempo passou mais do que eu senti. Tenho um compromisso e estou atrasado. A vida me espera.

Tuesday, May 07, 2013

Circum-navegação

     
     Sempre é bom retornar para casa. De algum modo, chegamos no dilema do momento em que temos que parar, respirar e ver que precisamos voltar. Para o ponto de partida, seja numa ação passada, numa decisão futura ou num rompante do presente. O seu ponto.

     Não há por que ter medo de tomar essa decisão. Você já chegou até aqui e viu bem mais do que deveria. Viveu coisas e situações que poderia lhe render histórias de lembranças sem fim. Você as viveu. Não deixou passar batido. E não se abateu por elas.
    Como precisar, de modo exato, se tudo já foi visto? Necessário? E o que já foi “batido”? Você saberá. Entre seus dias, num amanhecer conhecido ao olhar no espelho, lá estará toda a história diante de você. Implacavelmente narrada de acordo como você faz, a sua crônica diária.
   O retorno, dar o giro no próprio eixo, rodopiar de braços abertos e cabeça virada para cima tentando ver o céu e seu infinito, as nuvens, o azul pleno, os aviões cruzando de lado a lado desse espaço sem fim, sua significância, sua importância egoísta de estar aqui, agora aguardando o decorrer do dia, da noite e de outro dia, assim por diante. Seu maior triunfo: retornar!
  Conhecer o mundo incauto dos deslizes, dos sonhos que se perderam com a realidade, dos problemas que existem, dos medos e receios que nunca antes tinha se deparado, do passado que pode ser o futuro e a sua contra indicação. De tudo mais que faz de você uma pessoa detentora de ter esse direito.
  Seguir a luz das lanternas no escuro. Correr nu das vergonhas e julgamentos. Desrespeitar a mediocridade da soberba e admitir os erros. Tudo à disposição de todos num cardápio de opções, sem o uso de senhas de espera e muito menos com a ansiedade como promotora desse evento chamado de vida. Experimente a sua dose.
   Ao retornar para casa, se torna uma expressão particular. Cada um em seu mundo prolixo e totalmente rancoroso que se vive, a experiência se refaz ao parecer íntimo. Dissolvida em línguas diversas. E os sintomas começam a aparecer. A oportunidade ao seu casamento; a mudança de carreira; redescobrir o amor; o investimento numa casa maior; a viagem cancelada por causa do nascimento do filho; repensar sobre os seus desagrados; deixar os sonhos um pouco de lado, dando a oportunidade de surgir novos sonhos, e assim circular por tantos mares que possa cruzar até chegar ao seu porto, já conhecido, e tão seguro. Mesmo que as bases estejam estremecidas, gastas, mas com força, dedicação, paciência e um ar de otimismo, tudo pode voltar ao lugar.
   Claro, sabemos, que toda a mudança causa mudanças. Na mais óbvia definição. E merecedora de atenção, pois nem um parafuso ao ser retirado consegue ser recolocado no mesmo lugar, ocupando o mesmo espaço. Surgirão diferenças. E outras mais. Basta saber o que fazer, como, quando e onde, de maneira afirmativa.
  E só devemos trazer em nossas bagagens muito mais do que espelhinhos para presentear. Precisamos voltar de braços abertos para nos entregar.

Tuesday, March 26, 2013

De Perfil


             O seu nome é Dimitri. Um sujeito que muitos sabem quem é, mas poucos o conhecem. Todos sabem alguma coisa sobre ele. Algo como uma personagem da lenda urbana que povoa o coletivo da cidade.
            Uns já o viram por aí em aventuras afloradas. Numa dela ocorreu que o viram derrubar cinco sujeitos numa briga de bar. Tudo começou com um deles  que se enfezou, porque dissera que sua namorada tinha sido alvo de olhares contínuos de Dimitri. Temos que enfatizaram a técnica pouco usual de agregar confusão ao seu currículo. Quando o incomodado veio tomar satisfação com ele, no meio da balburdia do bar, a sua atitude foi dividida em algumas partes. A primeira: Dimitri olha para a garota, sorri e depois olha para sua mão onde segurava uma garrafa de cerveja long neck entre os dedos, presa entre o indicador, o anular e o polegar. A segunda: num giro magistral, após perceber que a garrafa estava vazia, ele inverteu a posição dela, deixando o gargalo para baixo e a segurando com força, desferiu no rosto do sujeito que não parava de afrontá-lo, que se aproximava cada vez mais perto do seu rosto. No resto, veio uma horda de amigos do atingido como apoio e somando-se cotoveladas e “jabs”, cruzados e ganchos acabaram nocauteados um a um, não necessariamente nessa ordem.
            E Dimitri tem um metro e oitenta. Mas há quem diga que ele é menor que isso. Corpanzil. Forte. Cabeça raspada. Já disseram que ele tem longas madeixas. Dimitri é o nome pelo qual todos o chamam. Até por quem nem conversa com ele. Enquanto isso, histórias se proliferam semeando toda e qualquer interpretação.
            Disseram que ele estava completamente bêbado num bar, sozinho, de cabeça baixa e uma parede de vasilhames vazios sobre a mesa. Há quem afirme que ele entrara num domingo cedo, numa Igreja. Outros que era num templo. E ainda aqueles que mencionam de suas longas horas meditando à beira do rio. Ou afiando facas no quintal de sua casa.
            Disseram que ele era violento. Em todas as situações. Adorava facas, navalhas, estiletes. Só não amava mais do que usá-los na pele dos outros. Seja machucando, mutilando ou apenas assinalando pequenos cortes quase cirúrgicos. Ocorrera numa tarde, onde numa discussão sobre futebol, religião, política ou algo assim, que romperam os gritos de uma mulher em pé aterrorizada com o corpo caído ao seu lado. Na sua jugular um corte abissal formando um sorriso largo na garganta que golfava sangue. Em pé, diante de todos estava Dimitri de braços ao longo do corpo e numa das mãos uma faca. Diziam ser um pincel e a cena fora uma pintura num painel; outros, que era uma faca de cozinha.             
            Afirmavam sem dó que ele era um maníaco. Mas também há os que confirmavam o que muitos comentavam: ele era sensível. Chorava ao ver uma cena tocante. Auxiliava pessoas doentes. Era voluntário em ações sociais. Voluntarioso que nunca dizia “não”. Era um romântico. Lia sobre poesia, redigia algumas linhas, as musicava eventualmente. Seduzia as mulheres com todo o seu sentimento. Dedicava-se a amar sem preocupações. E para tanto, sofria pelo desfecho como de costume, não retribuído.
            São todas histórias. Todas verdadeiras. Todas falsas. Todas fantasiadas. Perfis criados em suas redes sociais, atualmente. Como sei disso?! Porque também as conto a cada frase mudando tons, lugares, pessoas e situações igual a todos.
            Tenha cuidado ao falar sobre os outros. Apontando seu dedo na direção deles. Qualquer um, a qualquer momento, pode pegar sua mão e virá-lo na direção oposta quebrando-o.

Wednesday, February 13, 2013

FIGHT LIKE HELL


              Aos lampejos do verão, que se curva na tarde de sábado sob a cor acinzentada, prevendo a chuva. Ventos sopram com furor dando vida aos prédios. Ao olhar para cima, os vêem enfileirados protegidos pela guarda dos postes de luz unidos por fios. Uma muralha de contenção. Os prédios o cercam.
            As árvores parecem dragões agitando seus longos galhos como fosse parte de suas asas. Seu tronco, o corpo, cheio de escamas e sua cabeça que está na copa das árvores, não consegue ser avistada pela altura e o movimento incessantemente agressivo das asas. Mas no meio dos galhos, folhas e asas, a silhueta de sua cabeça surge e cospe não fogo, mas nuvens com formatos diversos correndo pelo céu como sua contínua perseguição.
            Ao locupletar esses dias que se encerram nesta tarde, se percebe os anseios para se proteger do dragão. Eles se reproduzem a cada esquina. Não deve correr. Nem chamar atenção. Passos leves com delicadeza, quase na ponta dos dedos como uma criança pequena que inicia sua caminhada. Paciência. Curioso é o medo de pisar em falso, de errar, de cometer um ato falho. Qualquer um desses motivos pode fazê-lo ser devorado pelo dragão ou preso pela guarnição dos postos eretos.
            As nossas fragilidades são expostas em momentos tão ínfimos quanto mordentes. E de repente no gume dos revezes da vida, nos deparamos com a insignificância própria. Um ser quase invisível; imperceptível que devora sua pele. Engole as suas tatuagens, decepando a mão de seus super-heróis. Com um nome interessante, carcinoma, mas mesmo com sua paciência zen budista fazendo sua refeição para desenvolver-se, ele acaba derrotado porque sua trajetória foi extirpada pela atitude de outrem. Desde seu nascimento e morte, os votos de agradecimento entram em metástase, seja pela benção de filha de Santo, ode a Princesa, títulos da Rainha ou apelo da bruxa. Com certeza sem boas intenções.
            Parece que os demônios se reuniram para um  happy hour e Lúcifer, que já fora exemplo de agitar o mundo, está um tanto cansado, bebendo mais do que devia e com problemas cardiovasculares. Transformou-se num benemérito e tedioso comparsa de histórias antigas. Um militar que veste sua farda com primor, mas sem a elegância que antes era romanceada.
            A idade cruza a faixa de segurança com o tempo curvando os ombros passando bem ao lado. Anda devagar, sem a velocidade mínima, para chegar ao cordão da calçada. Os algozes de lata, carros, ônibus, táxis, lotações com seus motores lascivos, não percebem o cidadão passando e o almejam arrastando metros à frente. Pra trás ficam apenas os sinais da sua vida. O passado lento que o Dragão, ainda sentado, observado sacudindo as asas. Enquanto do outro lado, a juventude o olha à distância e com desdém. E os demônios brindam sem dar importância.
            O piso do concreto das ruas, deformado pelo crescimento das raízes das árvores que explodem as placas de cimento, racham ao mostrar as cicatrizes do passar dos anos. Em cima dele, pessoas o pisoteiam sem dó numa correnteza rítmica.
            Esse tempo todo que passa deixando as nuvens levar as lembranças e dando as cartas nas chances que terá. Fazendo a diferença a quem e ao que vier. Nada impede de lutar como um louco. E da próxima vez não será tão bom assim.

Monday, January 07, 2013

Aguarrás


            Eu estou abrindo os olhos. Tenho 68 anos completos. E sinto um gosto estranho na boca. Deve ser porque estou entubada. Faz alguns dias, pelo que pouco me lembro, antes do final do ano. Ao que disseram que acabaria o mundo. Faz uma semana que iniciei o ano com os olhos fechados e bem aquém do acontece por aqui. Sou uma mulher, casada, com filhos e estou em coma.
            Ouvi bastante nesses dias e agora estou vendo tudo mesmo com os olhos fechados tremendo por baixo das pálpebras cerradas. Fiquei por muito tempo na mesma posição, creio que as enfermeiras não esqueceram, mas me deixaram um tempo a mais, quando deveria só ser mudada de lado e isso fez meu corpo ficar dolorido e o sangue se acomodar. Presumo que minhas trocas de fraldas constantes tenham incomodado. Estou na UTI. E as visitas são regradas com um limite de pessoas. E agora os vejo todos. Meus filhos se alternam e alguns conversam outros mastigam lágrimas. Amigos se fazem presentes com orações, com pequenos toques de afeto como acariciar meu rosto ou tocar minhas mãos. E eu me sinto bem. Hoje, principalmente, estou bem.
            Eu sou aquela menina de quinze anos que debuta com o galã da novela das oito e é presenteada pelo pai com uma valsa, a festa e uma aliança. Sorrio. E também com os vinte anos estou prestando exame à banca da faculdade para conquistar o meu diploma, onde há um misto de nervosismo, ansiedade e alegria que são contemplados no dia da formatura. Nesse dia eu beijo quatro colegas diferentes na boca e uma colega. Aos vinte e três resolvo assumir um relacionamento com outra mulher mas que não vai à frente por causa de muitos problemas sociais, obviamente, e uma porção de covardia. Sorrio. Há aquela vez que voei como um pássaro enganando Ícaro com o seu sonhar. Um vôo de asa-delta com um amigo que dividiu essa sensação de liberdade com a mesma desenvoltura que nos atiramos à cama. Outra, então, seria quando eu fiz um racha de motocicleta nas avenidas da Capital desviando do bom senso e das derrapagens da segurança. Fiz ambas coisas com a boca escancarada. Sim, sorrindo. Com um imenso e insubstituível sorriso.
            Sou aquele tipo de mulher que atravessa a rua sobre a faixa de segurança, mas com os carros na preferencial sem se importar com o sinal, caminho com a cabeça baixa, fones de ouvidos e olhos fechados. Sou daquelas que dança sozinha como se estivesse em seu quarto. Aquela que grita para dizer o que pensa. Aquela que chora com força. Que não deixa barato. Que não faz jogos e se o fizer sabe bem como utilizar as regras. Sou aquela que tem cinqüenta anos num casamento que se arrasta e que eu esquartejo a cada dia o sentimento de dependência do cônjuge. Que aos quarenta descobriu a traição e calou-se sem se importar com o que fazer. Sou a mulher que pede para dançar com a estátua do Laçador de pedra que abre as portas dos bem chegados à Capital. Sou ela, aquela mesmo, que fica na pista de pouso ou decolagem do aeroporto vendo a chegada e saída de cada avião como um sinal de esperança. E de recomeço. Eles, com suas turbinas, passam sobre a minha cabeça. Eu sorrio. Mais uma vez como tantas vezes. Sou aquela menina que brinca de boneca e anos depois perde a virgindade com o primeiro namorado que não se torna o único desde então.
            Agora, paro de olhar a todos e não os vejo de uma maneira religiosa ou mítica por estar aqui conversando. Paro ao lado de cada um e observo cada detalhe. Uns olham para o relógio de pulso. Outros comentam que virão num dia sim, dia não, para as próximas visitas. Eu sorrio como uma boba; continuo sorrindo. Não estou aqui por causa de religião, não sigo nenhuma linha, nenhuma crença propriamente dita, mas eu tenho fé e seja o que ela for, no que signifique, eu estou aqui. E talvez tudo que eu tenha me lembrado nada seja real, histórias semelhantes de pessoas diferentes, mesmo assim me sinto bem. Viva por assim dizer.
            Meus batimentos estão estáveis. Já respiro sem aparelhos. Estou sem sedativos. Sou medicada apenas com antibióticos e vitaminas.
            Vejo o médico adentrar e pedir a todos que saiam. Ele lê o prontuário. Anota algo. E comenta com a enfermeira “Maria está regular”. De tantas Marias. Sorrio, claro. Ele ainda diz “ Felicidade...Maria Felicidade”.
            Penso nesse ínterim, a felicidade está aqui! Podem me procurar. Meio tonta, fraca, irreal, mas viva!