Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Monday, January 07, 2013

Aguarrás


            Eu estou abrindo os olhos. Tenho 68 anos completos. E sinto um gosto estranho na boca. Deve ser porque estou entubada. Faz alguns dias, pelo que pouco me lembro, antes do final do ano. Ao que disseram que acabaria o mundo. Faz uma semana que iniciei o ano com os olhos fechados e bem aquém do acontece por aqui. Sou uma mulher, casada, com filhos e estou em coma.
            Ouvi bastante nesses dias e agora estou vendo tudo mesmo com os olhos fechados tremendo por baixo das pálpebras cerradas. Fiquei por muito tempo na mesma posição, creio que as enfermeiras não esqueceram, mas me deixaram um tempo a mais, quando deveria só ser mudada de lado e isso fez meu corpo ficar dolorido e o sangue se acomodar. Presumo que minhas trocas de fraldas constantes tenham incomodado. Estou na UTI. E as visitas são regradas com um limite de pessoas. E agora os vejo todos. Meus filhos se alternam e alguns conversam outros mastigam lágrimas. Amigos se fazem presentes com orações, com pequenos toques de afeto como acariciar meu rosto ou tocar minhas mãos. E eu me sinto bem. Hoje, principalmente, estou bem.
            Eu sou aquela menina de quinze anos que debuta com o galã da novela das oito e é presenteada pelo pai com uma valsa, a festa e uma aliança. Sorrio. E também com os vinte anos estou prestando exame à banca da faculdade para conquistar o meu diploma, onde há um misto de nervosismo, ansiedade e alegria que são contemplados no dia da formatura. Nesse dia eu beijo quatro colegas diferentes na boca e uma colega. Aos vinte e três resolvo assumir um relacionamento com outra mulher mas que não vai à frente por causa de muitos problemas sociais, obviamente, e uma porção de covardia. Sorrio. Há aquela vez que voei como um pássaro enganando Ícaro com o seu sonhar. Um vôo de asa-delta com um amigo que dividiu essa sensação de liberdade com a mesma desenvoltura que nos atiramos à cama. Outra, então, seria quando eu fiz um racha de motocicleta nas avenidas da Capital desviando do bom senso e das derrapagens da segurança. Fiz ambas coisas com a boca escancarada. Sim, sorrindo. Com um imenso e insubstituível sorriso.
            Sou aquele tipo de mulher que atravessa a rua sobre a faixa de segurança, mas com os carros na preferencial sem se importar com o sinal, caminho com a cabeça baixa, fones de ouvidos e olhos fechados. Sou daquelas que dança sozinha como se estivesse em seu quarto. Aquela que grita para dizer o que pensa. Aquela que chora com força. Que não deixa barato. Que não faz jogos e se o fizer sabe bem como utilizar as regras. Sou aquela que tem cinqüenta anos num casamento que se arrasta e que eu esquartejo a cada dia o sentimento de dependência do cônjuge. Que aos quarenta descobriu a traição e calou-se sem se importar com o que fazer. Sou a mulher que pede para dançar com a estátua do Laçador de pedra que abre as portas dos bem chegados à Capital. Sou ela, aquela mesmo, que fica na pista de pouso ou decolagem do aeroporto vendo a chegada e saída de cada avião como um sinal de esperança. E de recomeço. Eles, com suas turbinas, passam sobre a minha cabeça. Eu sorrio. Mais uma vez como tantas vezes. Sou aquela menina que brinca de boneca e anos depois perde a virgindade com o primeiro namorado que não se torna o único desde então.
            Agora, paro de olhar a todos e não os vejo de uma maneira religiosa ou mítica por estar aqui conversando. Paro ao lado de cada um e observo cada detalhe. Uns olham para o relógio de pulso. Outros comentam que virão num dia sim, dia não, para as próximas visitas. Eu sorrio como uma boba; continuo sorrindo. Não estou aqui por causa de religião, não sigo nenhuma linha, nenhuma crença propriamente dita, mas eu tenho fé e seja o que ela for, no que signifique, eu estou aqui. E talvez tudo que eu tenha me lembrado nada seja real, histórias semelhantes de pessoas diferentes, mesmo assim me sinto bem. Viva por assim dizer.
            Meus batimentos estão estáveis. Já respiro sem aparelhos. Estou sem sedativos. Sou medicada apenas com antibióticos e vitaminas.
            Vejo o médico adentrar e pedir a todos que saiam. Ele lê o prontuário. Anota algo. E comenta com a enfermeira “Maria está regular”. De tantas Marias. Sorrio, claro. Ele ainda diz “ Felicidade...Maria Felicidade”.
            Penso nesse ínterim, a felicidade está aqui! Podem me procurar. Meio tonta, fraca, irreal, mas viva!