Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Wednesday, February 13, 2013

FIGHT LIKE HELL


              Aos lampejos do verão, que se curva na tarde de sábado sob a cor acinzentada, prevendo a chuva. Ventos sopram com furor dando vida aos prédios. Ao olhar para cima, os vêem enfileirados protegidos pela guarda dos postes de luz unidos por fios. Uma muralha de contenção. Os prédios o cercam.
            As árvores parecem dragões agitando seus longos galhos como fosse parte de suas asas. Seu tronco, o corpo, cheio de escamas e sua cabeça que está na copa das árvores, não consegue ser avistada pela altura e o movimento incessantemente agressivo das asas. Mas no meio dos galhos, folhas e asas, a silhueta de sua cabeça surge e cospe não fogo, mas nuvens com formatos diversos correndo pelo céu como sua contínua perseguição.
            Ao locupletar esses dias que se encerram nesta tarde, se percebe os anseios para se proteger do dragão. Eles se reproduzem a cada esquina. Não deve correr. Nem chamar atenção. Passos leves com delicadeza, quase na ponta dos dedos como uma criança pequena que inicia sua caminhada. Paciência. Curioso é o medo de pisar em falso, de errar, de cometer um ato falho. Qualquer um desses motivos pode fazê-lo ser devorado pelo dragão ou preso pela guarnição dos postos eretos.
            As nossas fragilidades são expostas em momentos tão ínfimos quanto mordentes. E de repente no gume dos revezes da vida, nos deparamos com a insignificância própria. Um ser quase invisível; imperceptível que devora sua pele. Engole as suas tatuagens, decepando a mão de seus super-heróis. Com um nome interessante, carcinoma, mas mesmo com sua paciência zen budista fazendo sua refeição para desenvolver-se, ele acaba derrotado porque sua trajetória foi extirpada pela atitude de outrem. Desde seu nascimento e morte, os votos de agradecimento entram em metástase, seja pela benção de filha de Santo, ode a Princesa, títulos da Rainha ou apelo da bruxa. Com certeza sem boas intenções.
            Parece que os demônios se reuniram para um  happy hour e Lúcifer, que já fora exemplo de agitar o mundo, está um tanto cansado, bebendo mais do que devia e com problemas cardiovasculares. Transformou-se num benemérito e tedioso comparsa de histórias antigas. Um militar que veste sua farda com primor, mas sem a elegância que antes era romanceada.
            A idade cruza a faixa de segurança com o tempo curvando os ombros passando bem ao lado. Anda devagar, sem a velocidade mínima, para chegar ao cordão da calçada. Os algozes de lata, carros, ônibus, táxis, lotações com seus motores lascivos, não percebem o cidadão passando e o almejam arrastando metros à frente. Pra trás ficam apenas os sinais da sua vida. O passado lento que o Dragão, ainda sentado, observado sacudindo as asas. Enquanto do outro lado, a juventude o olha à distância e com desdém. E os demônios brindam sem dar importância.
            O piso do concreto das ruas, deformado pelo crescimento das raízes das árvores que explodem as placas de cimento, racham ao mostrar as cicatrizes do passar dos anos. Em cima dele, pessoas o pisoteiam sem dó numa correnteza rítmica.
            Esse tempo todo que passa deixando as nuvens levar as lembranças e dando as cartas nas chances que terá. Fazendo a diferença a quem e ao que vier. Nada impede de lutar como um louco. E da próxima vez não será tão bom assim.