Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Monday, June 03, 2013

Sorrisos em Covas Rasas.

A morte sempre teve uma conotação poética para ilustrá-la. Às vezes apresenta-se assim para disfarçar o mal-estar que ela causa (entenda isso como uma ironia). Nós a personificamos. A chamamos como uma temerária invasora do nosso destino. Ela existe. Seja do jeito que for, está em algum canto agora mesmo. Mas ela não precisa definir o fim da vida; ela pode ser o fim de algo.

E do meu jeito a persigo. Como assim?! Vou atrás dela, caçando-a. A observo por aí ao olhar para o tempo dos ponteiros que não param; dos dias que se seguem. Não sei o momento exato do nosso encontro, mas vou ao seu encontro armado e colocando armadilhas pelos caminhos da vida.

Ela surge para cada ser de uma forma particular. Não causa alvoroço. Ou causa estardalhaço. Pode ser masculina ou feminina. Velha ou jovial. Carnal ou espiritual. Aos meus olhos, ela é feminina, sexy e extremamente manipuladora. E eu não a busco para que acelere o meu relógio e leve a minha vida como uma ladra barata. Não! Eu a quero para terminar com os momentos que sobrevivem em mim.

A quero como minha refém. Vou forçá-la a terminar as coisas, como já citei. Cansei de apagar, manualmente, as minhas lembranças que pesam como uma pedra enorme enlaçada, por uma corda, ao redor do meu pescoço. Preciso dela para auxiliar nisso. E vou conseguir, nem que tenha que domá-la.

Ao encontrá-la já montei um plano bem simples de como colocá-la no cativeiro e alimentá-la com minhas frustrações e tristezas. Com base nas minhas falhas e erros, vou sem muita pressa, esboçar cada momento que não quero mais trazer comigo. Não vou levar essa bagagem extra quando morrer e (aí sim!) a morte terá a sua finalidade real, com total controle da situação. Só que agora, eu tenho o meu objetivo.

Eu me sento na rua. Em cima do cordão da calçada e a aguardo, acompanhado da esperança que está de ressaca e da ansiedade que injeta nas suas veias muito mais coisas que pode suportar. Não somos um trio e isso não me importa. Elas estão aqui por opção delas, assim como eu.

Ao cruzar a rua, a morte surge. Ruidosa, exuberante e um tanto vulgar. Seduz e já mais leve por ter cumprido o seu dia de trabalho. É noite, ela não me vê e meus companheiros se omitem de qualquer ação. Dou um salto e corro em direção a ela. Pego-a pelo pescoço, enquanto seu vestido de fenda desenha no ar as pernas torneadas, com impulso, seus sapatos voam pelo ar. Ela arregala os olhos e com a minha mão na sua boca, há uma mescla de reações de pânico e surpresa. Eu sussurro bem perto do seu ouvido com seus cabelos junto a minha boca. Digo o que preciso e o que quero. Ela tenta recuperar o fôlego. Ficamos assim com o tempo a nosso favor.

O medo passa com os segundos, deixando para trás a surpresa. Ela respira mais tranqüila agora e concorda com a cabeça. Eu a solto e nos encaramos. Ajeita seu cabelo, arruma seu vestido e procura por seus sapatos vociferando por não encontrá-los. Pede que repita o que quero. Eu digo, novamente. Vejo a esperança acenando do outro lado da rua, mas a ansiedade, não está junto. Tudo muito calmo. Ela sorri ao ver seus sapatos, vai até eles, os calça e me olha. Sorri com toda canalhice que conheço. Vem para mais perto, beija meu rosto, minha boca, colando seus lábios e pisca várias vezes. Olho de novo para o outro lado da rua. A esperança saltitante, se despede com toda a alegria em seus sorrisos. A ansiedade surge apressada para gritar que vai embora. Volto para olhar para frente e só vejo a morte caminhar no sentido contrário.

Eu fico em pé no meio da rua. Olho para o meu relógio e o tempo passou mais do que eu senti. Tenho um compromisso e estou atrasado. A vida me espera.