Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Sunday, December 21, 2014

Répondez S´il Vous Plaît

          

           Chegamos no limiar de mais uma promessa de ano. Passamos por muitas coisas que deixaram rastros como uma tempestade.
            O tempo que outrora se tornara um inimigo por acelerar as coisas, hoje já é lento, pois eu, no caso, já necessito que ele aperte o passo. E ele, como sempre, teima.
            Os acontecimentos foram diversos. Surpresas, alegrias, tristezas, ilusões, esperanças e decepções coroaram o ano. Conseguimos num todo, acertar. E cada um de seu jeito foi encontrando as saídas nessa corrida sem fim. Parece que todos foram convidados para a mesma festa, mas entregaram poucos convites e ficaram na fila de espera.
            Nesse ano distanciei-me de amigos de longa data. Fui muito mais próximo de pessoas que acabaram sendo tão frívolas e rasas quanto uma sopa de legumes sem sal. E incrível que pareça, eu senti esses dardos direcionados com pontas finas perfurando minha pele. Não me importo com agulhas. Gosto. Tenho tatuagens. Mas espero que daquela dor contínua, porém suportável, o resultado que me acompanhará de maneira positiva – independente do significado do desenho que estará adornando meu corpo. As pessoas que convivi se tornaram isso: agulhas.
            Mas no todo, sob a minha lente de aumento, tenho com prazer confessar que guardo amigos, de não tão potencial assim, mas que seguirão com meu carrossel de emoções. Amigos que podem me dizer coisas sem que eu me ofenda, entretanto que o faça dando nome aos bois e não fazendo citações ao vento. O vento leva as coisas para diversas direções. E por isso do potencial citado.
            E as pessoas convivem assim. Uns  devorando os outros. Numa ordem de seleção natural, de poder, de projeção. Digo projeção, pois sempre vemos mais no outro. Queremos que ele seja nossa imagem e semelhança, mas com um “q” a mais. Que nos preencha de alegria. Que nos salve nos problemas mais complexos. Alguém vai bater no peito e dizer que nunca fez isso. Alguém sempre diz. Nossa vida é um emaranhado de papeis dentro de uma urna que cada dia tiramos a mensagem para saber o que virá. As frases grafadas nunca vêm às claras, o que dificulta as escolhas certas. Se pudéssemos, recolocaríamos as mensagens que não nos fossem interessantes na urna, a sacudiríamos de novo e de novo até retirarmos a que nos causasse, acima de tudo, tranqüilidade.
            Ao longo dessas linhas celebramos aniversários, casamentos, namoros, bodas, nascimentos, separações, amizades, companheirismo, romances, alegrias. Celebramos a vida. Não falamos sequer no inevitável destino, a morte. Ela que se dane! Penetra de festas. Temos tanto para nos sentir felizes.Temos tanto ainda em buscar. Nessa busca, seja por um amor que faz o seu dia ser o melhor de todos, mesmo que o mundo que o cerca diga e mostre o contrário, que este amor brilhe como um Sol pleno. Continuando a busca de novos desafios, de crescimento, de melhoramentos, de fortalecimentos. Não precisamos de palavras bonitas e de frases decoradas. Precisamos criar as frases e apresentá-las que  tornem bonitas para quem você quiser. Não falemos apenas em amores, mas em tudo. Ações que geram novas ações. Ficar parado não é opção. O tempo não permite isso mesmo que ele fique lento.
            Responda por favor a todas as questões que você faz diariamente. A promessa de um novo ano inicia. Acredite nisso. Acredite. Faça seu plano dos próximos três anos. Refaça. Adicione. Subtraia. Divida. Multiplique. Porque amanhã será apenas mais um dia, certo?!

            Sim, esteja pronto para o que vier. Esse novo dia que não sabemos o que esperar. Frio na barriga?! Ótimo! Já passou da meia-noite?

Monday, October 06, 2014

INTENSIDADE

               
           Não se falam muito, mas o que se ouve é a respiração forte de ambos. Alto. Intenso. Quase um terceiro corpo. Cabelos suados misturados na pele oleosa. Mãos agitadas  movendo a cabeça e os lábios agarrando-se uns aos outros sorvendo a saliva e um pouco de sangue. Não há um ruído sequer ao redor. Mesmo que a cidade esteja grunhindo com veemência pelas suas veias. Eles não se importam. Só se importam com o desvarios de seus desejos. Dessa paixão que os come vivos. Que os deixam vivos.
         Ele a pega pela nuca e a encara entrando na profundeza de seus olhos, duas esferas brilhantes que o eleva ao patamar de êxtase. Ele a xinga. A elogia. A ama. E ela sorri e o esbofeteia com a palma da mão aberta e com as palavras correndo pela saliva a cada beijo. Arrepios causados pelos toques cheios de furor de dedos tesos, obedientes e despudorados.
          As mãos se perdem pelos corpos. Seios abocanhados. Mordidas em zonas erógenas. Mergulhos de bocas abertas no sexo alheio. As palavras não existem. A respiração sempre é um ponto à mais chegando a limítrofe da resistência física. O movimento é único. Um leva o outro de acordo com o embalo de seu corpo. Músculos rijos contraindo-se nas cinturas. Pernas erguidas, mãos agarrando forte, aceleração do atrito da pele.
         Tudo indo muito rápido. Rápido como um carro desgovernado em direção a um penhasco. A sua queda após romper com a mureta de proteção é o ápice com os corpos soltos, cabeças esvoaçantes, gritos, gemidos, adrenalina liberada entre o medo e o prazer até consumar-se com o choque dessa jornada finita, onde surge estampados nos rosto dos sobreviventes, sorrisos esbaforidos.
        Mas o mundo gira devagar. O efeito borboleta gera impacto nos mares do hemisfério norte. A natureza em fúria se esbalda na beleza de sua intensidade. Uma estrela cadente corta os céus do litoral. Pequenos meteoritos caem à esmo pela Terra quase imperceptíveis. Animais minúsculos proliferam em cada canto. Micróbios infectam e reproduzem-se numa série sem fim. O mundo não para, mesmo quando eles estão já desfalecidos. Eles são o mundo nesse instante.
        A intimidade ainda permanece não mais como um torneio competitivo para conquistar o corpo do outro sobrepujando-o pelo prazer, numa sensação de vitória, mas no carinho afetuoso de entrega além do desejo. Um afago tenro que circula partes e completa o todo do momento. Carícias que outrora os guiavam, agora são trocas gentis de carinho e reciprocidade em olhares silenciosos. Dedos, antes sem pudor, ficam entrelaçando-se com delicadeza. Beijos enlouquecidos são desferidos com suavidade.
       Eles ali nus intensos. Vivendo sentimentos em busca do que virá. Trazendo com sigo as certezas de todas as dúvidas que os fazem temer. Que não permitem querer compromissos. A respiração aumenta novamente com as mudanças do efeito borboleta. Corpos ouriçados em defesa e prontos para o ataque. A paixão aflora como escudo de um amor que provoca com intensidade.

         Permitam-se. Caiam do penhasco.           

Monday, September 01, 2014

DISCOS RISCADOS - Volume IV

           
         
            É muito comum entre as pessoas expressarem-se através da música.
Esboçando sentimentos ou pontuando situações que lhe são de esmero, que consigam expor muito mais do que conversas e palavras feitas no calor do momento. A música pode ser um acelerador de ocasiões, o “start”. O algo mais sem ser explícito, mesmo o sendo.
                Eu, pessoalmente, faço o uso contínuo de citações através da música. Seja pela sua sonoridade marcante como as letras cantaroladas em outras bocas escorrendo saliva à dentro para outras, ora pela sonoridade deveras macia, caustica, vibrante que o meu sentimento vocifera.
                Você pode apaixonar (e apaixonar-se) uma pessoa pelas letras que lhe tocam. A sensibilidade irá além da pele, do físico. Povoará o imaginário. Assentará o conhecido. E a reciprocidade se dará “batendo” ou não. Pode inclusive ofender aos quatro ventos através de furacões sonoros. Basta colocar na faixa certa mesmo que arranhe o vinil ou trave o cd. Salve em mp3 frívolo ou na pureza irritante do blu-ray. Até o regozijar da próxima tecnologia.
                Compartilhar é a palavra da ordem caótica de um mundo de redes sociais e falsas pretensões de privacidade. A autoexposição é uma ação disseminada outrora como uma praga cibernética ou uma dádiva da velocidade da informação. Com tantos “Ou” pode-se afirmar que precisamos nos interligar. Conectando. E os ouvi-los. Então se faça pelas mensagens subliminares de intenções esparsas nas canções.
                Eu coloco alguma nova música para que me ouçam. Minhas descobertas, meu estado de espírito, minhas frustrações e algumas que assovio no caminhar das ruas em qualquer hora que esteja no meu mundo particular já dito por aqui e ali. Canto melodia desafinando. Erro notas nos pianos que teclo no ar. Sinto o vibrar das cordas do cello abrindo o compasso. A cada passada na rua íngreme acompanho a batida dando ritmo ao que vem. Penso numa letra. Crio-a em cima de um poema que misturo rimas na música que me envolve. A música que ainda não fiz e que está pronta.
                Estar apaixonado. Querer dar consolo. Dividir momentos alegres ou tristes. De alguma forma querer fazer parte do outro, independente do interesse, para que esteja na mesma sintonia. A música certa que deseja enviar. Que deseja emitir. Que deseja ser tocada.
                O pior disso, num ótica bem ampla, é não consegui r desligar a música de seu cérebro. Aquela que lhe traz sensações que gostaria de esquecer. Que o faz sofrer. Que traz lágrimas. Que sai das entranhas das caixas de som, dos gritos dos fones de ouvido, da reverberação do seu cérebro que não deixa desapegar.

                Como todo disco riscado. A música para num ponto e se repete. Estagna. Não nos faz seguir em frente. Talvez esteja na hora de trocar de faixa. Mas nunca parar de ouvir as músicas.

Sunday, June 29, 2014

Dog with Soul

           
           Finalmente se reuniram. Por muitos anos andaram de lá para cá em caminhos diversos. Cada um com suas experiências de vida, expectativas e com o prazo de validade delas vencendo rapidamente.
            Reuniram-se na casa de DC, músico multi-instrumentista de carteira, um sujeito calvo que outrora exibia uma cabeleira cacheada castanha, um tanto, avermelhada que montou na garagem da sua casa, entre a churrasqueira e as bicicletas das filhas, um mini estúdio com uma mesa usada de 24 canais de mixagem. Foram muitos finais de semana movidos a sonhos e a latas de cervejas solitárias revestindo paredes, pintando o teto. Recebia os convidados com o sorriso largo, braços abertos e camisa desabotoada expondo os anos na sua gigantesca barriga. A primeira a colocar os pés ali foi a, dengosa, DP, que possuía o talento natural na sua voz mas o defeito sobrenatural de achar que o mundo girava ao seu redor. Nunca engrenou na carreira de maneira propriamente dita por não encontrar quem pudesse domar seu ego e colocá-la nos trilhos sendo uma locomotiva desgovernada que não reparava que o tempo não a esperava nas estações.  O suor de DC era uma coisa quase nauseante. E a DP com seu banho exagerado de perfume, sorria com certo receio. Empurrando-a, logo atrás , o pequeno e franzino saxofonista DB empunhando seu instrumento musical e o sexual com a outra mão sobre a calça olhando fixamente os quadris da vocalista a sua frente. DB foi detido numa loja de lingiries observando as mulheres fazendo compras e ele se masturbava entre as araras. Um bom atestado de atentado violento ao pudor, que se safou com uma pena leve de prestação de serviços sociais na limpeza pública por 120 horas, conseguida a pedido de um amigo juiz. Fora isso, um talento só.
            O trio reunido fumava, bebia  e conversava esperando o resto dos convivas. Não tardou e a campainha da garagem soou. Era nada menos que mais dois comparsas. DT e DV, respectivos guitarrista e baterista que tocavam juntos desde os tempos da escola e passaram por estilos e fases que complementavam sua discoteca com os discos preferidos. Pareciam irmãos de tão semelhantes. Ambos de cabelos desgrenhados, barbas por fazer, corpos magros, inquietos e com olheiras, obviamente alterados por artífices químicos, perfeitamente observados pelo corrimento nasal constante que fora alegado como sinusite crônica. Juntaram-se ao sofá que a esposa de DC, que se recusara participar fisicamente desse encontro por considerar uma das coisas mais idiotas que ela podia presenciar, pousou no meio daquele estúdio rudimentar e caseiro.
            Nesse quebra-cabeça de cabeças quebradas, faltava uma peça, o baixista que se tornou uma prostitua do meio musical por prestar seus serviços a quem pudesse bancar o seu cachê, DR. Era o mais bem conservado fisicamente. Em outros aspectos era uma aberração de clichês e de caráter violenta que suprimia frustrações. Adorava esportes, principalmente os mais radicais. E brigas constantes foram sua rotina no passar dos anos e perguntas surgiam de lá para cá de como ele ainda estava vivo depois de tantas rusgas, afrontes, combates e situações adversas que o deixaram com cicatrizes e os dedos das duas mãos quebrados. Todos enfim reunidos.
            Uma breve conversa sobre o projeto, um grupo de soul music moderno, sem covers, sem releituras, apenas as referências e influências com os tempos atuais. Todos concordaram. O nome do grupo teria que ser um marco. Um deboche. Um cuspe. Um significado. E como eles eram cães vadios: Dog foi um consenso. Em seguida o algo mais. E de uma voz quase urrando do baixista olhando para a janela sem prestar atenção ao grupo, saiu, With Soul. Dog with soul.

             Em 2 horas de ensaio e 250 anos de discussões sobre modo, estilo, caminhos a serem tomados, conseguiram compor 3 músicas: Perdido em Mim Mesmo, Porventura Lá Estou e Quebrando janelas e alguns dentes para ser feliz. Aplausos entre eles. Abriram as portas da garagem e havia uma platéia de vizinhos, de amigos, familiares. Todos ali os olhando batendo palmas acompanhando pedindo bis. Sorriso e espanto na cara de todos.  Finalmente o reconhecimento. Finalmente os anos não se foram em vão e terminariam ali com o começo de outros mais. Os sonhos poderiam ser concretizados e não mais colados em papel machê embebidos em álcool. E eles se deram conta de uma coisa. O tempo tinha passado.
            Esse tempo fora a seu favor dessa vez. Não foi apenas às horas que se passaram foram dias de encontros para terem o rumo apropriado. E o incentivo de todos.
            O show deles estava pronto. Bastavam poucos minutos para subir ao palco. Todos de mãos dadas. Uns orando, outros esbravejando e alguns em silêncio profundo, concentrados. Ouvia-se a platéia em polvorosa, amigos do passado, pessoas que passaram por suas vidas, inimigos, desafetos, amores, filhos, pais, irmãos, pessoas que foram importantes para todos estarem ali. Imagens passando diante deles como filmes curtos. Agora chegara a hora. As cortinas se abriram.
            No quarto de sua casa, sozinho, ele está de olhos fechados com lágrimas escorrendo pelo rosto e de braços abertos apresentando seus sonhos.  





Sunday, May 18, 2014

TOXICIDADE

            Ele descia pelas escadas rolantes, à noite, e sobre sua cabeça uma proteção de acrílico pichada. Olhava para baixo como sentisse que descia além da rua. Que estava descendo pelo mundo. Descia para um mundo que o cerca. Ele queria parar nas escadas, mas elas continuavam suas engrenagens, roldanas e esteiras o levando para dentro daquele mundo o qual ele descia. Fechou os olhos, respirou fundo e o ar encheu seus pulmões causando dor.
            Ao chegar, ele abriu os olhos, correu-os de ponta à ponta com a mesma velocidade dos carros que zuniam pela parte de cima da rua. Estava, ele, num viaduto, num desembarque de ônibus. Já se sentiu assim, perdido, mas dessa vez parece que esse sentimento era magnetizado o levando sem idéia para onde, porém sabido.
            Ele se sentia amado. Sentia. Que amava. Não sabia como preceder ao impacto disso. Considerava que a vida fosse uma festa, mas que o tinha deixado do lado fora aguardando o apagar das luzes, as músicas cessarem e os risos, aos poucos, silenciarem. Ele pode tudo. Ele nada pode. Parado mesmo com o coração acelerado. Mexendo-se no mesmo lugar. Perdido nele mesmo como fosse um cego num labirinto. Quer muito mais. Mas tem tão pouco. Quer mostrar muito mais. Mais consegue ser tão pouco. Ele fica em pé, contudo sente-se curvado como se um SER superior o empurrasse para baixo. Digamos que seja a gravidade. Digamos que é sua culpa. Digamos apenas por dizer, nas desculpas que se consegue no diálogo consigo, que pode ser tanta coisa. Até amor ao extremo.
            Uma toxicidade, num grosso modo seria um efeito pernicioso de uma entidade que destrói os sistemas mais complexos, como o ser humano. Um veneno que adentra no corpo, com sua absorção às vezes gradativa outras repentina, demonstrando o quão nociva possa apresentar-se, independente da sua ingestão. A essência é causar a degradação consoante. Um beijo pode causar isso. Uma lembrança. Um ato. Um erro. Uma decisão. Uma escolha. Ou uma sucessão desses exemplos. A conseqüência infama de efeitos significativos consumindo dosagens. Ele se sente assim.
            O duelo que outrora fez nada teve resultado. As vitórias que conquistou nada tiveram de glórias. Conseguiu apenas acelerar tudo que passa rápido demais. Não adianta segurar pelos cabelos o tempo que só aumentou a rotação. Parece que ele engana a si mesmo.
            Eu o vejo ali, aqui, acolá. Estou ao seu lado mesmo não sendo notado. Ele exala essa toxicidade. Já fez muitas pessoas ao seu redor serem felizes, porém também causou estragos como uma enchente. Um gerador de catástrofes ao natural. Pouso minha mão no seu ombro e com reflexo ele se esquiva. Não deixa ninguém se aproximar, ninguém o ajudar. Acha que deve passar por tudo sozinho. Disseram uma vez para ele “você é radioativo; faz mal as pessoas que lhe cercam, que aproximam de você”. Foi numa brincadeira, eu sei, disse aos sussurros para ele, mas o excesso de veneno não o deixa respirar. Continua perdido em si. Não permite a melhoria do estado de sua armadura enferrujada.

            O vento está lento, suave, como uma brisa que acaricia. Ele fecha os olhos de novo. Enxerga imagens, rostos, situações, amores. Sorri com o canto da boca, mais lembranças, mais cenas e sorri abertamente e lágrimas escorrem pelo seu rosto. Não quer abrir os olhos. Não quer ver o que tem pela frente. Ele quer apenas o antídoto. E finalmente aceita o meu abraço por todos os abraços que queria ter.

Sunday, March 23, 2014

Oração

             
                 Existe um momento na sua vida que se tem a sensação que perdeu algo. E o melhor de tudo (sim, uma ironia) perder a si mesmo. Nesse momento você pensa o que Deus tem contra você. Se  ele é um sujeito com humor tão sensível que pode mudar com os nossos atos. Vingativo. E nesses momentos que, eu no caso, tenho vontade de chamá-lo para a briga.
            Pergunto aos gritos sozinho apontando para sua  imagem na parede, em frente às Igrejas, em postais, nos rosários, o que fiz de tão ruim assim que volta e meia cai sobre mim uma avalanche de neve. Eu me pego rezando ao desespero, largado a rotina de conversas caladas entre goles de cervejas que amortecem meu cérebro e sensibilizam a rudeza de meus atos.
            Perder-se consigo. Perder numa aposta de jogos de azar. A sorte de acabar o dia já é comemorada. Os dias passam. Sim, passam e com eles os fatos acontecem. Erros e mais erros somam numa vida que eu tento modestamente manter equilibrada.
            Quero fazer uma aposta maior. Aposto uma competição com Deus, ele próprio sem sermões, sem padres, sem apóstolos, obreiras, freiras, nenhum religioso de crença alguma, umbanda, variantes e variáveis. Quero olho no olho. “Mano a mano”.
            Cansado da cobrança de escolhas outrora erradas. Os erros estão ai para serem consertados e não aparecerem outros que só vão afundar nessa areia movediça que se tornou à vida. Não quero ter que encontrar uma outra vida em outra esfera para ser feliz. Preciso ser feliz hoje, amanhã, mais tardar até o fim da semana. Mas você não quer. Não aceita os meus erros. Não concorda com as justificativas e pune. Com rigor e com sadismo. Deus venha, estou te esperando, a competição está em pé. Venha até aqui! Eu cuspo no chão e você só tem que pisar em cima e arrastar o pé para selarmos o acordo.
            Eu estou preparado para encarar você? Alguém vai perguntar. E eu vou dizer: Óbvio, que não! Mas cansei de apanhar em silêncio. De ser empurrado morro abaixo e depois ser puxado de volta e novamente empurrado.
            Deus eu te amo. Mas o amor sem limites não é saudável. Peço que me ajude. Peço que só o faça uma vez. Ou se muito poucas vezes. A minha fidelidade sempre existiu e como amigos temos o direito de discordar. Não preciso apanhar sempre. Não precisamos.
            Estou esperando. Vou lá fora esquentar o motor do carro. As portas da garagem estão abertas para você entrar sem bater. Como se isso fizesse alguma diferença. Em nome do Pai, Filho e Espírito Santo, Amém. 

Tuesday, February 25, 2014

Conhecidas Tatuagens Perdidas

             
Ela tem tatuagens pelo corpo. Uma árvore de corações vermelhos balançando ao vento. Tem a estrofe de uma canção no braço que deveria dizer muito mais a alguém e não foi ouvida. Tem uma roda gigante na panturrilha em homenagem ao mundo idílico do filho. Ela tem a frase de um texto de um autor desconhecido que para ela representava muito mais do que se imaginava. Tem o pé do seu filho registrado no antebraço, recém nascido. Meia dúzia de gatos no outro braço que representam a passagem. Lembranças. Família até.
                Ele tem um super-herói saltando das suas costas para fora. Pensa que pode salvar o mundo. Que dele sai o algo mais. No braço o rosto sombrio de um personagem sarcástico sorri entre sombras e pouca luz. Identifica-se com o humor cáustico e corrosivo quase criminoso. O terror de toda a criança, um palhaço mau. Mas é apenas um palhaço.
             Ela tem flores correndo pela perna direita formando um lugar para deitar. Um jardim de deleite e de frescor para consigo e para quem convidar. E mesmo assim com espinhos ávidos para deixar sua marca repelindo quem não quer junto.
         Ele tem asas nas costas cobrindo toda a extensão. Numa mistura angelical e demoníaca. De sonhadora e protecionista. De distante e inatingível.
                Ela tem o símbolo OMM no ombro esquerdo buscando a paz e o equilíbrio.Ele tem um código de barras perto do pulso direito na parte interna, querendo provar uma singularidade e identidade.
           Ela possui uma boneca mexicana representando o dia dos mortos. Acredita na cultura latina. No misticismo. E numa boa rodada de tequila quinta à noite.Ele possui um escorpião pronto para atacar no peitoral demonstrando agressividade, medo e um ser viril. Talvez se escondendo. Talvez provocando.
                Ela tem uma pimenta vermelha perto da sua virilha e um coração sobre a região pubiana de pêlos raspados. Ele tem um dragão que contorna seu dorso até a pélvis com a língua e a cabeça explodindo em fogo e testosterona. E nem imagina que o ser que possui é um símbolo feminino.
               Ela tem estrelas cobrindo seu cóccix para abrilhantar seus quadris, seus glúteos arredondados, volumosos criando um Universo de fetiches e desejos. A marca do sol assina o pequenino caminho entre o impróprio e o cobiçado.
                Ele tem uma parábola de Buda atrás do pescoço e Deus no peito. Na canela, Iemanjá. Ela tem o terço contornando o braço. Iniciando na mão, pelo dedo anular até o antebraço. Terminando na parte interna.                
                Ele tem o distintivo do seu time de futebol de coração estampado no cotovelo que já se chocou com o rosto de tantas pessoas quantos os títulos que ele vibrou ao vencer e chorou quando os perdeu. Ela tem pequenas pegadas de um felino no seio esquerdo até a auréola dos mamilos. O verão coroa a pele bronzeada e realça os triângulos que tapam o segredo dos seus seios siliconados.
                
                E os dois não se conhecem. E não são apenas dois. São todos que estão por aí. São tantos que se perdem na multidão. Conhecidos. Como amores passados e recém encontrados, tendo apenas em comum a incomum forma de tatuar. Tatuagens desses amores perdidos.





Monday, January 06, 2014

DISCOS RISCADOS - Volume III

No chão de concreto à beira do fim do terminal de ônibus, jaz uma garrafa de cerveja long neck, ainda com um pouco de líquido, saliva, digitais e lembranças. Com a minha sombra em cima dela, observo, penso no meu dia. Sinto na boca o gosto da bebida. Mas há muito mais nisso. Há as lembranças deixadas logo atrás, umas quadras passadas. Ou o gosto da saliva de tantas bocas, porém só uma tem sabor. E as marcas na pele dessa boca.
Continuo o caminho. Subo a rua íngreme escalando vontades. Imagino minha vida poderia ser diferente. Se eu em vez de subir a rua a dobrasse logo em seguida. Se eu descesse de costas. Se eu corresse em vez de caminhar. E todas essas cenas criam um carrossel musical, como um balé cheio personagens movidas pelas caixas de som que ouço a todo volume na minha cabeça.
Sou um compositor regendo uma melodia no mundo nada silencioso da minha cabeça. O movimento dos meus braços ao andar, do gingado dos quadris, da marcação das minhas piscadas seguindo o acelerar dos meus olhos de lá para cá.
A música martela na cabeça como se a moldasse sobre uma bigorna transformando o metal quente numa espada que corta caminho pelas situações da vida.
Parece às vezes que nessa minha composição dentro da caixa craniana, se dissolve em poesias e letras prontas que sensibilizam. Sou o pianista fazendo a harmonia, o contrabaixista guiando a base, o percussionista marcando, o homem das cordas elétricas, guitarras distorcidas de riffs cortando e criando o clímax da música.  
E todas essas músicas se tornam uma que eu repito dezenas de vezes como quem está num estúdio gravando-a e acertando os detalhes de mixagem. E de seu começo acaba mudando algo ali outro aqui, diferenciando-a. Pode ter duas versões dela mesma.

Tal como dois vasos lado a lado postos em cima de uma mesa central de jantar. Coroando ao seu redor com velas acesas de talo longo. E os vasos diferenciam-se mesmo sendo iguais  tais como gêmeos. Um carregando uma planta viva, outra, uma cópia barata da mesma em plástico querendo dar vida. Se ficarmos quietos, ouviremos a canção que deles partem. Enquanto as velas forem se apagando lentamente permanecendo inertes. Como uma garrafa vazia num chão de concreto em plena rua. 

E a música está pronta.