Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Monday, January 06, 2014

DISCOS RISCADOS - Volume III

No chão de concreto à beira do fim do terminal de ônibus, jaz uma garrafa de cerveja long neck, ainda com um pouco de líquido, saliva, digitais e lembranças. Com a minha sombra em cima dela, observo, penso no meu dia. Sinto na boca o gosto da bebida. Mas há muito mais nisso. Há as lembranças deixadas logo atrás, umas quadras passadas. Ou o gosto da saliva de tantas bocas, porém só uma tem sabor. E as marcas na pele dessa boca.
Continuo o caminho. Subo a rua íngreme escalando vontades. Imagino minha vida poderia ser diferente. Se eu em vez de subir a rua a dobrasse logo em seguida. Se eu descesse de costas. Se eu corresse em vez de caminhar. E todas essas cenas criam um carrossel musical, como um balé cheio personagens movidas pelas caixas de som que ouço a todo volume na minha cabeça.
Sou um compositor regendo uma melodia no mundo nada silencioso da minha cabeça. O movimento dos meus braços ao andar, do gingado dos quadris, da marcação das minhas piscadas seguindo o acelerar dos meus olhos de lá para cá.
A música martela na cabeça como se a moldasse sobre uma bigorna transformando o metal quente numa espada que corta caminho pelas situações da vida.
Parece às vezes que nessa minha composição dentro da caixa craniana, se dissolve em poesias e letras prontas que sensibilizam. Sou o pianista fazendo a harmonia, o contrabaixista guiando a base, o percussionista marcando, o homem das cordas elétricas, guitarras distorcidas de riffs cortando e criando o clímax da música.  
E todas essas músicas se tornam uma que eu repito dezenas de vezes como quem está num estúdio gravando-a e acertando os detalhes de mixagem. E de seu começo acaba mudando algo ali outro aqui, diferenciando-a. Pode ter duas versões dela mesma.

Tal como dois vasos lado a lado postos em cima de uma mesa central de jantar. Coroando ao seu redor com velas acesas de talo longo. E os vasos diferenciam-se mesmo sendo iguais  tais como gêmeos. Um carregando uma planta viva, outra, uma cópia barata da mesma em plástico querendo dar vida. Se ficarmos quietos, ouviremos a canção que deles partem. Enquanto as velas forem se apagando lentamente permanecendo inertes. Como uma garrafa vazia num chão de concreto em plena rua. 

E a música está pronta.