Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Sunday, May 18, 2014

TOXICIDADE

            Ele descia pelas escadas rolantes, à noite, e sobre sua cabeça uma proteção de acrílico pichada. Olhava para baixo como sentisse que descia além da rua. Que estava descendo pelo mundo. Descia para um mundo que o cerca. Ele queria parar nas escadas, mas elas continuavam suas engrenagens, roldanas e esteiras o levando para dentro daquele mundo o qual ele descia. Fechou os olhos, respirou fundo e o ar encheu seus pulmões causando dor.
            Ao chegar, ele abriu os olhos, correu-os de ponta à ponta com a mesma velocidade dos carros que zuniam pela parte de cima da rua. Estava, ele, num viaduto, num desembarque de ônibus. Já se sentiu assim, perdido, mas dessa vez parece que esse sentimento era magnetizado o levando sem idéia para onde, porém sabido.
            Ele se sentia amado. Sentia. Que amava. Não sabia como preceder ao impacto disso. Considerava que a vida fosse uma festa, mas que o tinha deixado do lado fora aguardando o apagar das luzes, as músicas cessarem e os risos, aos poucos, silenciarem. Ele pode tudo. Ele nada pode. Parado mesmo com o coração acelerado. Mexendo-se no mesmo lugar. Perdido nele mesmo como fosse um cego num labirinto. Quer muito mais. Mas tem tão pouco. Quer mostrar muito mais. Mais consegue ser tão pouco. Ele fica em pé, contudo sente-se curvado como se um SER superior o empurrasse para baixo. Digamos que seja a gravidade. Digamos que é sua culpa. Digamos apenas por dizer, nas desculpas que se consegue no diálogo consigo, que pode ser tanta coisa. Até amor ao extremo.
            Uma toxicidade, num grosso modo seria um efeito pernicioso de uma entidade que destrói os sistemas mais complexos, como o ser humano. Um veneno que adentra no corpo, com sua absorção às vezes gradativa outras repentina, demonstrando o quão nociva possa apresentar-se, independente da sua ingestão. A essência é causar a degradação consoante. Um beijo pode causar isso. Uma lembrança. Um ato. Um erro. Uma decisão. Uma escolha. Ou uma sucessão desses exemplos. A conseqüência infama de efeitos significativos consumindo dosagens. Ele se sente assim.
            O duelo que outrora fez nada teve resultado. As vitórias que conquistou nada tiveram de glórias. Conseguiu apenas acelerar tudo que passa rápido demais. Não adianta segurar pelos cabelos o tempo que só aumentou a rotação. Parece que ele engana a si mesmo.
            Eu o vejo ali, aqui, acolá. Estou ao seu lado mesmo não sendo notado. Ele exala essa toxicidade. Já fez muitas pessoas ao seu redor serem felizes, porém também causou estragos como uma enchente. Um gerador de catástrofes ao natural. Pouso minha mão no seu ombro e com reflexo ele se esquiva. Não deixa ninguém se aproximar, ninguém o ajudar. Acha que deve passar por tudo sozinho. Disseram uma vez para ele “você é radioativo; faz mal as pessoas que lhe cercam, que aproximam de você”. Foi numa brincadeira, eu sei, disse aos sussurros para ele, mas o excesso de veneno não o deixa respirar. Continua perdido em si. Não permite a melhoria do estado de sua armadura enferrujada.

            O vento está lento, suave, como uma brisa que acaricia. Ele fecha os olhos de novo. Enxerga imagens, rostos, situações, amores. Sorri com o canto da boca, mais lembranças, mais cenas e sorri abertamente e lágrimas escorrem pelo seu rosto. Não quer abrir os olhos. Não quer ver o que tem pela frente. Ele quer apenas o antídoto. E finalmente aceita o meu abraço por todos os abraços que queria ter.