Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Sunday, June 29, 2014

Dog with Soul

           
           Finalmente se reuniram. Por muitos anos andaram de lá para cá em caminhos diversos. Cada um com suas experiências de vida, expectativas e com o prazo de validade delas vencendo rapidamente.
            Reuniram-se na casa de DC, músico multi-instrumentista de carteira, um sujeito calvo que outrora exibia uma cabeleira cacheada castanha, um tanto, avermelhada que montou na garagem da sua casa, entre a churrasqueira e as bicicletas das filhas, um mini estúdio com uma mesa usada de 24 canais de mixagem. Foram muitos finais de semana movidos a sonhos e a latas de cervejas solitárias revestindo paredes, pintando o teto. Recebia os convidados com o sorriso largo, braços abertos e camisa desabotoada expondo os anos na sua gigantesca barriga. A primeira a colocar os pés ali foi a, dengosa, DP, que possuía o talento natural na sua voz mas o defeito sobrenatural de achar que o mundo girava ao seu redor. Nunca engrenou na carreira de maneira propriamente dita por não encontrar quem pudesse domar seu ego e colocá-la nos trilhos sendo uma locomotiva desgovernada que não reparava que o tempo não a esperava nas estações.  O suor de DC era uma coisa quase nauseante. E a DP com seu banho exagerado de perfume, sorria com certo receio. Empurrando-a, logo atrás , o pequeno e franzino saxofonista DB empunhando seu instrumento musical e o sexual com a outra mão sobre a calça olhando fixamente os quadris da vocalista a sua frente. DB foi detido numa loja de lingiries observando as mulheres fazendo compras e ele se masturbava entre as araras. Um bom atestado de atentado violento ao pudor, que se safou com uma pena leve de prestação de serviços sociais na limpeza pública por 120 horas, conseguida a pedido de um amigo juiz. Fora isso, um talento só.
            O trio reunido fumava, bebia  e conversava esperando o resto dos convivas. Não tardou e a campainha da garagem soou. Era nada menos que mais dois comparsas. DT e DV, respectivos guitarrista e baterista que tocavam juntos desde os tempos da escola e passaram por estilos e fases que complementavam sua discoteca com os discos preferidos. Pareciam irmãos de tão semelhantes. Ambos de cabelos desgrenhados, barbas por fazer, corpos magros, inquietos e com olheiras, obviamente alterados por artífices químicos, perfeitamente observados pelo corrimento nasal constante que fora alegado como sinusite crônica. Juntaram-se ao sofá que a esposa de DC, que se recusara participar fisicamente desse encontro por considerar uma das coisas mais idiotas que ela podia presenciar, pousou no meio daquele estúdio rudimentar e caseiro.
            Nesse quebra-cabeça de cabeças quebradas, faltava uma peça, o baixista que se tornou uma prostitua do meio musical por prestar seus serviços a quem pudesse bancar o seu cachê, DR. Era o mais bem conservado fisicamente. Em outros aspectos era uma aberração de clichês e de caráter violenta que suprimia frustrações. Adorava esportes, principalmente os mais radicais. E brigas constantes foram sua rotina no passar dos anos e perguntas surgiam de lá para cá de como ele ainda estava vivo depois de tantas rusgas, afrontes, combates e situações adversas que o deixaram com cicatrizes e os dedos das duas mãos quebrados. Todos enfim reunidos.
            Uma breve conversa sobre o projeto, um grupo de soul music moderno, sem covers, sem releituras, apenas as referências e influências com os tempos atuais. Todos concordaram. O nome do grupo teria que ser um marco. Um deboche. Um cuspe. Um significado. E como eles eram cães vadios: Dog foi um consenso. Em seguida o algo mais. E de uma voz quase urrando do baixista olhando para a janela sem prestar atenção ao grupo, saiu, With Soul. Dog with soul.

             Em 2 horas de ensaio e 250 anos de discussões sobre modo, estilo, caminhos a serem tomados, conseguiram compor 3 músicas: Perdido em Mim Mesmo, Porventura Lá Estou e Quebrando janelas e alguns dentes para ser feliz. Aplausos entre eles. Abriram as portas da garagem e havia uma platéia de vizinhos, de amigos, familiares. Todos ali os olhando batendo palmas acompanhando pedindo bis. Sorriso e espanto na cara de todos.  Finalmente o reconhecimento. Finalmente os anos não se foram em vão e terminariam ali com o começo de outros mais. Os sonhos poderiam ser concretizados e não mais colados em papel machê embebidos em álcool. E eles se deram conta de uma coisa. O tempo tinha passado.
            Esse tempo fora a seu favor dessa vez. Não foi apenas às horas que se passaram foram dias de encontros para terem o rumo apropriado. E o incentivo de todos.
            O show deles estava pronto. Bastavam poucos minutos para subir ao palco. Todos de mãos dadas. Uns orando, outros esbravejando e alguns em silêncio profundo, concentrados. Ouvia-se a platéia em polvorosa, amigos do passado, pessoas que passaram por suas vidas, inimigos, desafetos, amores, filhos, pais, irmãos, pessoas que foram importantes para todos estarem ali. Imagens passando diante deles como filmes curtos. Agora chegara a hora. As cortinas se abriram.
            No quarto de sua casa, sozinho, ele está de olhos fechados com lágrimas escorrendo pelo rosto e de braços abertos apresentando seus sonhos.