Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Tuesday, January 27, 2015

Aura de Arame Farpado

           
             Ele não sabia o que encontrar. Fosse o que fosse, a vida pregaria uma peça, faria uma piada, como já tinha feito inúmeras vezes. Na pior das hipóteses, uma anedota. Mas ele encontrou muito mais que isso. Por meio de muitos gestos de maldade, se viu diante do apoio de pessoas que o impulsionaram para cima como um rojão sendo arremessado ao céu e explodindo a certa altura. O seu espocar difundiu-se nas cores químicas misturadas. Fogos de artifício se tornaram sua personalidade reavivada.
            Contudo, a incansável falta de jeito aos maledicentes, continua provocando a sua reação. Nascera um tanto emocional demais. Visceral, por assim dizer. Mesmo na timidez da infância e na insegurança da adolescência corroia dentro de si uma fúria quase indomável. Quisera ser menos o que mais fora: passional. Mas como não cessam, atualmente, as provocações, então que elas venham com mais ímpeto, pois ele, de repente, encontrou não a saída, nem o plano de fuga qualquer; encontrou a si mesmo sendo muitas vezes levado por outros braços.
          Compreendeu, com certa dificuldade, que o mundo não é feito de fantasias, de prazeres intermináveis e de amigos em prontidão. Entendeu que o preço pago é alto para quem não leu as regras do jogo em cada fase da vida. O tabuleiro muda. Os dados são trocados. Um novo baralho é aberto. E se viu diante de caras e bocas que nada diziam além de sorrisos escusos e beijos molhados. Descobriu amizades que não o queriam. Amores de diversas formas que o fizeram realmente amar. Um processo diário. Doloroso. Único e só seu.
        Algumas vezes lhe colocam na parede não o sufocando, mas realmente o colocam esticando seu corpo e martelando pregos nas mãos e nos pés, deixando rente tal qual um tapete persa. Ou nos momentos de apreensão, como um pano velho puído. Ele ouvia calado. Hoje ele ouve, só que não espera calado. Todo ser pode ser peçonhento. Uma víbora que desliza entre o chão, esconde-se pelos cantos e quando se sente ameaçado, dá o seu bote.
      Mas toda a moeda paga tem seus dois lados. Exemplo mais clichê impossível. E ele age de modo clichê. O ser humano é assim. E nesse outro lado há a leveza delicada  e sensível de quem se emociona com o filho e o abraça dizendo que é tudo para ele, ou que balbucia as onomatopéias dos primeiros anos sorrindo com os olhos vidrados nos dele, com a audição da ária Nessum Dorma, executada com esplendor pelo saudoso Luciano Pavarotti, ou a energia de novos sons que tem por hobby pesquisar, de uma cena entre famílias num filme que reflete a sua, a mãe e toda sua força e tudo aquilo que ela merece, porém não pode dar-lhe, o pai com suas ações e decepções, assim como ele próprio agiu e decepcionou, uma declaração de amor de quem o enche de felicidade, de declarar seu amor a quem abriu não só o coração como a sua cabeça. Quando se percebe que se tem muito e não se pode abater pelos reveses dos adversários do dia a dia.
            Ele agora sabe o que lhe ferve o sangue não é essa fúria incontida; é o amor.   
           Quando amar nada é a não ser tudo.