Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Monday, April 20, 2015

Algoz

                 
                 
                  Eu só senti o golpe no rosto. Não vi da onde. Nem de quem. E muito menos o que.
              Não tive tempo de me proteger. A luz forte direto nos olhos me cegou. Desequilibrei-me. Dois passos para trás e abaixei a cabeça por instinto. Não deu tempo de erguer os braços ou firmar a base das pernas e lá veio outro golpe certeiro no nariz. Fui jogado para trás e colidi com o muro. O impacto atordoou, quase desmaiei, afrouxando as pernas com o joelhos para dentro fui caindo como um marionete. Que despenca das cordas que o comandam. Cai com a cara voltada para o lado.
                Percebi que "apaguei" por um tempo. Tempo suficiente para perceber que estava olhando para cima, vendo as luzes fortes todas voltadas para o meu rosto e sendo arrastado pelo chão. Não conseguia me mexer. E quando fazia a menção reflexiva de qualquer movimento, era rechaçado com um safanão  pela gola. absolutamente submisso. Totalmente imobilizado.
              Fiquei nesse tempo pensando em tudo que tivera feito. Dos erros, dos acertos, dos consertos meia-boca que emendei na vida. Nas relações ruidosas que acabei provocando e sendo provocado. No pisar em ovos e o quebrar de pratos que culminaram com horas de solidão junto às cordas de nylon do violão até desafiná-lo. Incrivelmente nesse momento, nessa situação passiva me vi ao lado. Observava o trajeto do corpo sendo arrastado sem fazer muita força em desvencilhar-lhe. Lembrei do meu cachorro, uma cruza de chow chow com pastor alemão, seu pelo alto e porte robusto. Forte, feroz e bobo. Um amigo que muito me ouviu quando chegava em trapos por aventuras bem sucedidas ou bebedeiras incompreendidas. Jogado no piso cimentado como o homem vitruviano. E o seu carinho vinha com lambidas no meu rosto. Ouvinte assíduo dos choramingos. E amigo que tinha liberdade de derrubar-me com sua força exagerada colocando ordem na cabeça avoada.   A luz cegou com maior intensidade agora! Paramos, pelo visto. E o coração em erupção.
           Fui vendado. Um pano ou tecido socado na minha boca. Fui erguido e com um pontapé dobraram minhas pernas e eu sentei. Aquele pano não me deixava respirar. Não conseguia ver. Mãos atadas para trás. Ansiedade e pânico mal dosados. Quero pensar em coisas boas ou em até coisas ruins. pensar em alguma coisa. Não há tempo. Uma sequência ininterrupta de golpes vindos da direita e esquerda se fazem presentes como palavras num discurso verborrágico. Como se gritassem na minha cara a ponto de sentir a saliva alheia escorrendo na minha cara.
                Mas de repente parou. Abrupto. Sendo até mais chocante e agressivo.  E o calor da boca se aproximou do meu ouvido e sussurrou: "entendeu?!" Acenei afirmativamente com a cabeça, quase de imediato. Rendido.
            E a venda saiu dos meus olhos, mas não os abri. Minhas mãos soltas. Suavemente fui erguido ficando em pé. Um pano molhado passado no meu rosto refrescando a pele machucada.  

        Finalmente, consegui abrir os olhos. Ouvir a voz feminina. Ver o sorriso iluminado. E descobrir que não há defesa ao amor sem medo de se machucar. Sem medo de conquistar.