Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Monday, June 15, 2015

Quando canção

         
             Dessa vez não tinha controle sobre as coisas. Estava curvado, com o joelho direito encostado no chão sobre poucas gramíneas úmidas. Os braços caídos ao redor corpo e a cabeça baixa com os olhos fechados. Respirando pesado. E lentamente abri os olhos e deparando com o céu nublado. Olhei para cima sem erguer a cabeça.  Estendi a mão direita e juntei o polegar com o indicador e peguei algo que estava no ar. Parecendo um ponto, um pequeno quadrado. O peguei na ponta desses dedos e desci o céu que se abriu. Era como deslizar um zíper. Um sol radiante explodiu diante de mim.
            E como já disse, não tenho controle mais das coisas. Sempre eu componho as trilhas que ecoam na frente de todos. Não crio as rimas que expressam e impressionam o que eu tenho a dizer. A poesia que quero sensibilizar. Nem a marcação com o pé de como levar a melodia. O baixo com sua levada. Ou as cordas suaves dedilhando, mas com peso que minha personalidade exige. Tenho como interpretes, anjos nas cordas que nada lembram cítaras ou harpas, demônios, dando o ritmo e super vilãs com suas roupas minúsculas, com personalidades fortes cantando.
            A música é regida a partir do primeiro passo que dou passando por ruas e pisoteando nas frases que rimam bem à frente. Florescem imagem de desejos e vontades. Oportunidades se abrem com portas nas asas reluzentes de borboletas e seus efeitos. Não controlo nada. Entendo pouco, mas sou embalado com a melodia.
            A letra é forte, um tanto melodramático algumas partes. Não concordo com a temática, com a forma e nem o conteúdo. Não faria assim. Usaria outros elementos e eliminaria os excessos. Observo com atenção aos demônios que encaram com deboche, enquanto as vocalistas se revezam como tantas outras e tem a mesma voz. De quem eu gosto de ouvir. E com o olhar sob as máscaras que enfeitiçam. Não dou mais atenção à canção até que uma guinada como um bólido advindo dos céus, os anjos, solaram suas guitarras. Estou perdido, por isso corro em círculos como se dançasse sozinho. Desse modo, sozinho.
            As rimas se complementam, se repetem. Eles chegam com essa onda sonora toda o que eles consideram como refrão, porque é a parte mais forte, o clímax, a parte onde há a mensagem que a de ser toada algumas vezes gruda como a goma de mascar que acabo de pisar. Um sucesso, diriam.
            Mas não controlo toda essa obra. Não sou o maestro, o autor, o compositor, nem o músico. A letra dói. As palavras chegam a machucar falam do homem parece que anda só de preto, de calças rasgadas, que tem a cabeça quente que é ignorante, que perde a razão fácil. Porém há momentos que fico emocionado, onde o meu lado não tão sórdido ou obscuro está. Sou pai, sou amável, criativo, sou amado, sou apaixonado, sou mais que eu imaginava.
            E nesse instante o dia acaba. Anoitece. A música vai terminando. Agora estou em pé e a vida está normal. O trânsito intenso, as pessoas apressadas. Muitos rostos e sou apenas mais um. Mais uma canção foi feita.